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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTES PL&Aacute;STICAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Novas cores na hist&oacute;ria da arte brasileira: negros pintores</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a19fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&atilde;o escassos os estudos sobre pintores negros brasileiros, especialmente aqueles que viveram e produziram no per&iacute;odo p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o. &Eacute; como se ao negro n&atilde;o coubesse o lugar de sujeito criador, mas somente objeto de cria&ccedil;&atilde;o. Artistas negros n&atilde;o s&atilde;o parte do c&acirc;none. Ao lan&ccedil;ar luz sobre a produ&ccedil;&atilde;o cultural negra no Brasil nos primeiros anos da Rep&uacute;blica, o historiador Kleber de Oliveira Amancio busca reverter essa invisibilidade. Na pesquisa "Reflex&otilde;es sobre a pintura de Arthur Timotheo da Costa", ele mostra como a sociedade em que esse pintor viveu queria se livrar de seu passado escravista, apagando a presen&ccedil;a negra por meio da marginaliza&ccedil;&atilde;o e persegui&ccedil;&atilde;o dessa popula&ccedil;&atilde;o. No fim do s&eacute;culo XIX e in&iacute;cio do XX, no contexto da p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o da escravid&atilde;o no Brasil, os negros tinham pouco acesso &agrave;s carreiras art&iacute;sticas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Amancio, enquanto na realidade norte-americana uma classe m&eacute;dia negra estabelecida se organizava em irmandades que ofereciam bolsas a jovens artistas negros, no Brasil, um negro promissor que n&atilde;o tivesse recursos financeiros era obrigado a buscar as institui&ccedil;&otilde;es do governo se quisesse se aperfei&ccedil;oar. No Rio de Janeiro, a Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) desempenhou importante papel nesse sentido. O estudo dos registros de alunos da escola permite afirmar que, sim, havia artistas negros. Arthur era um deles. "O caso de Timotheo da Costa &eacute; emblem&aacute;tico. Quase todos os manuais de hist&oacute;ria da arte que encontrei, ainda no in&iacute;cio da pesquisa, definiam-no como o pintor que fazia a ponte entre o 'acad&ecirc;mico' e o 'moderno' na arte brasileira. No entanto, mesmo sendo a ele atribu&iacute;da tamanha import&acirc;ncia n&atilde;o havia ainda um estudo de f&ocirc;lego a respeito de sua obra", conta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a19fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RETRATOS DE PRETO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Timotheo iniciou seus estudos na Casa da Moeda e, como outros artistas do per&iacute;odo, acabou indo para a ENBA onde teve aulas com grandes pintores brasileiros, como Henrique Bernardelli (18581936) e Rodolfo Amoedo (18571941). Para Amancio, a viagem para Paris, em 1907, representa uma virada em sua breve carreira (o pintor morreu aos 40 anos). Na capital francesa ele morou no Quartier Latin onde conviveu com nomes como Picasso e Modigliani. Essa regi&atilde;o concentra v&aacute;rias universidades, como a Sorbone, e os tradicionais liceus de Paris, Henri IV e Louis Le Grand. Tamb&eacute;m &eacute; famosa por ter sido frequentada por muitos artistas. "Nesse per&iacute;odo a cidade passava por uma revolu&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica importante. As vanguardas estavam vencendo a batalha contra as academias e tornando-se <i>establishment</i>", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse ambiente teria forte influ&ecirc;ncia na pintura de Timotheo desse per&iacute;odo em diante. Em suas paisagens, retratos, algumas paisagens urbanas e trabalhos de decora&ccedil;&atilde;o, encontram-se tra&ccedil;os do impressionismo e p&oacute;s-impressionismo. "No entanto, ele adota uma interpreta&ccedil;&atilde;o bastante pr&oacute;pria dessas vanguardas, &eacute; ir&ocirc;nico e &aacute;cido, mas com sutileza. Ao mesmo tempo em que &eacute; um pintor com bastante entrada nas elites, na medida em que passa a trabalhar como decorador e circular em meio a uma clientela endinheirada, sua obra &eacute; tamb&eacute;m uma cr&iacute;tica a essa incipiente burguesia", afirma Amancio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ele, esse pintor carioca apresenta um olhar bastante arguto sobre a sociedade em que vive. "Pessoas que certamente n&atilde;o pagariam por seus retratos s&atilde;o tamb&eacute;m suas personagens. H&aacute; a&iacute; um compromisso pol&iacute;tico manifesto. A forma como ele as pinta &eacute; bastante particular e &eacute; poss&iacute;vel notar que combate estere&oacute;tipos. Um exemplo &eacute; a obra <i>Cabe&ccedil;a de negro</i>, de 1906.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Neste quadro vemos um negro de c&uacute;tis bem escura pitando um cachimbo em plena luz do dia. "Para mim, &eacute; uma s&iacute;ntese do Brasil. Um Brasil clandestino e vergonhoso aos olhos das elites. Arthur Timotheo est&aacute; contando a hist&oacute;ria de personagens que n&atilde;o se rendiam, que buscavam estabelecer suas viv&ecirc;ncias com as possibilidades que a situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica lhes oferecia, mesmo que essa fosse essencialmente adversa", analisa. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Adversa porque, nos anos seguintes &agrave; promulga&ccedil;&atilde;o da Lei &Aacute;urea, as formas de sociabilidade da popula&ccedil;&atilde;o negra rec&eacute;m-liberta eram alvo de constante preocupa&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido, Amancio cita a promulga&ccedil;&atilde;o da repress&atilde;o &agrave; vadiagem, discutida na C&acirc;mara concomitantemente &agrave; lei que libertaria os escravos. "O debate do texto da lei no parlamento e a pr&aacute;tica policial rotineira em sua aplica&ccedil;&atilde;o evidenciam seus intentos: controlar as viv&ecirc;ncias dos negros; regrar suas vidas, reduzir o espa&ccedil;o para que se tornassem, efetivamente, cidad&atilde;os", explica. Da&iacute; que <i>Retrato de negro</i>, se mostra extremamente provocativo. Nesse contexto de marginaliza&ccedil;&atilde;o, "os negros buscavam negociar, enfrentando o racismo e todas as situa&ccedil;&otilde;es indigestas que ele podia ocasionar. Seja com a cria&ccedil;&atilde;o de associa&ccedil;&otilde;es, jornais 'negros', ou ainda pelas pr&aacute;ticas cotidianas individuais que sabotavam sistematicamente os planos propostos pelas elites", pontua o pesquisador.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MAIS DO QUE ILUSTRA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A nega&ccedil;&atilde;o desse passado negro se reflete na pequena quantidade de obras de Timotheo da Costa nos acervos de museus p&uacute;blicos brasileiros. De acordo com Amancio, a maioria das obras est&aacute; com colecionadores particulares, "alguns dos quais, desconfio, sequer sabem que se trata de um pintor negro", diz ele. O Museu Afro-Brasil mant&eacute;m a cole&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica mais significativa, com pouco mais de 30 obras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; algumas na Pinacoteca do Estado de S&atilde;o Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Uma das raz&otilde;es dessa sub-representa&ccedil;&atilde;o deve-se tamb&eacute;m &agrave; aus&ecirc;ncia de estudos sobre a popula&ccedil;&atilde;o negra ap&oacute;s o fim da escravid&atilde;o. "Os negros foram negligenciados pela ent&atilde;o chamada historiografia da 'transi&ccedil;&atilde;o'. Durante muito tempo os historiadores ignoraram a presen&ccedil;a negra no Brasil no per&iacute;odo p&oacute;s-aboli&ccedil;&atilde;o, optando por construir uma hist&oacute;ria do trabalho livre que contava apenas as desventuras dos imigrantes, sobretudo os europeus", acredita Amancio. "&Eacute; como se num passe de m&aacute;gica aqueles sujeitos que compunham grande parcela da popula&ccedil;&atilde;o, milh&otilde;es de desenraizados que para c&aacute; vieram for&ccedil;adamente assim como seus descendentes, simplesmente deixassem se existir". Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, no entanto, esse cen&aacute;rio come&ccedil;ou a se modificar a partir do interesse de novos pesquisadores e da introdu&ccedil;&atilde;o de novas fontes, obras de arte, entre elas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, a pesquisa sobre o pintor Arthur Timotheo da Silva mostra o potencial explicativo da produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, tanto no sentido de reafirmar a sub-representa&ccedil;&atilde;o da cultura negra nos c&acirc;nones da arte brasileira, quanto como um instrumento de interpreta&ccedil;&atilde;o do Rio de Janeiro da Belle Epoque a partir do olhar desse pintor, um negro pintor entre brancos.</font></p>      ]]></body>

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