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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A internet e os museus imagin&aacute;rios</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Erik Nardini Medina </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre 1935 e 1947, ao analisar as consequ&ecirc;ncias da intersec&ccedil;&atilde;o entre fotografia, t&eacute;cnicas de impress&atilde;o e as viagens internacionais, o escritor franc&ecirc;s Andr&eacute; Malraux apontou para a elimina&ccedil;&atilde;o dos enquadramentos e dos limites f&iacute;sicos que o museu tradicional impunha como lugar primordial para sua divulga&ccedil;&atilde;o. Nascia a&iacute; o conceito de museu imagin&aacute;rio que, segundo Malraux, tem como precursor os livros de arte capazes, j&aacute; no final do s&eacute;culo XIX, de disseminar imagens em uma escala nunca vista at&eacute; ent&atilde;o. &Eacute; a partir do conceito de museu imagin&aacute;rio que o escritor, fot&oacute;grafo e curador Pedro Karp Vasquez escreve "O caderno dos lamentos e das recrimina&ccedil;&otilde;es", fic&ccedil;&atilde;o que relata os dramas de uma jovem apaixonada. No texto, publicado na <i>Revista Studium</i> (v. 37, 2016), Vasquez cria e exp&otilde;e uma mostra particular com 14 fotografias coletadas na internet. A ideia &eacute; mostrar que, como previu Malraux, todos n&oacute;s somos, ou podemos ser, curadores de nossos pr&oacute;prios museus.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a21fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vasquez &eacute; autor de 26 livros, sendo que alguns se tornaram obras de refer&ecirc;ncia como <i>Dom Pedro II e a fotografia no Brasil</i> (1985); <i>Fot&oacute;grafos alem&atilde;es no Brasil do s&eacute;culo XIX</i> (2000) e <i>O Brasil na fotografia oitocentista</i>(2003). &Eacute; formado em cinema pela Universit&eacute; de la Sorbonne e mestre em ci&ecirc;ncia da arte pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi respons&aacute;vel pela cria&ccedil;&atilde;o do Instituto Nacional da Fotografia, da Funarte, assim como do Departamento de Fotografia, V&iacute;deo &amp; Novas Tecnologias, do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Atualmente &eacute; editor na Editora Rocco. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesta entrevista para a revista <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>, Vasquez mostra como a internet se tornou fonte para se colecionar imagens e, ao mesmo tempo, um ve&iacute;culo de divulga&ccedil;&atilde;o, possibilitando a cada indiv&iacute;duo divulgar seu museu imagin&aacute;rio particular. Um exemplo &eacute; a p&aacute;gina "Theories of the deep understanding of things" onde uma pequena equipe de an&ocirc;nimos seleciona obras de arte e fotografias e publica em &aacute;lbuns. As novas formas de divulga&ccedil;&atilde;o colocam em cheque as fronteiras do museu tradicional e deixam a pergunta: estamos preparados para romper as amarras do que pode ou n&atilde;o pode acontecer em um museu? Parece que sim. Confira a &iacute;ntegra da entrevista com o fot&oacute;grafo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia e Cultura: <i>De onde veio a ideia da narrativa proposta em "O caderno dos lamentos e das recrimina&ccedil;&otilde;es"?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> O que eu quis fazer no artigo foi uma obra de fic&ccedil;&atilde;o baseada no conceito de museu imagin&aacute;rio, de Malraux. &Eacute; muito interessante porque ele precede todo mundo nesse insight. Existe uma coisa estranha, por&eacute;m muito positiva, que s&atilde;o esses sites que disponibilizam imagens de gra&ccedil;a, em alta resolu&ccedil;&atilde;o e de autoria an&ocirc;nima. Esse modelo autoriza o uso de imagens de todas as partes do mundo, o que possibilita a qualquer indiv&iacute;duo criar seu pr&oacute;prio museu imagin&aacute;rio, mesmo ignorando o conceito de Malraux, j&aacute; que ele n&atilde;o &eacute; t&atilde;o conhecido nos tempos atuais e todo esse pessoal da internet &eacute; muito novo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Que insight foi esse?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b> Pedro Vasquez:</b> O cruzamento da fotografia, com o aprimoramento das t&eacute;cnicas de impress&atilde;o e com a intensifica&ccedil;&atilde;o das viagens internacionais fazem surgir os primeiros livros de fotografia e de arte, ainda no final da primeira metade do s&eacute;culo XIX. Malraux constata que eles eram ligados, sobretudo, &agrave; arqueologia e egiptologia. Da&iacute; que traziam imagens da Terra Santa e de lugares long&iacute;nquos como a China e o Jap&atilde;o. Isso fez com que, pela primeira vez, a pessoa n&atilde;o precisasse ir ao s&iacute;tio arqueol&oacute;gico ou at&eacute; o museu para ter contato com essas imagens. A fotografia aproximava as pessoas de lugares e coisas muito distantes como as pir&acirc;mides do Egito, as ru&iacute;nas gregas e a muralha da China. Esse &eacute; o pano de fundo de uma ideia amplamente disseminada que via a fotografia como uma janela para o mundo, um conceito que ainda domina a revista <i>National Geographic</i> e o Discovery Channel, ve&iacute;culos que enviam fot&oacute;grafos e cinegrafistas para os locais mais long&iacute;nquos e inacess&iacute;veis para que o leitor/expectador posso conhecer tais cen&aacute;rios, de forma tranquila e segura, na sua casa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Como a dissemina&ccedil;&atilde;o de imagens possibilita essa esp&eacute;cie de curadoria particular?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> Malraux diz que, a partir da reprodu&ccedil;&atilde;o das obras de arte, todo mundo poderia criar o seu pr&oacute;prio museu. Ele n&atilde;o usa o termo curador, porque essa express&atilde;o at&eacute; hoje n&atilde;o &eacute; muito usada na Fran&ccedil;a. Eventualmente &eacute; usado pelos mais modernos, os franceses preferem o termo <i>connoisseur de exposition</i>. Ent&atilde;o, apesar dele n&atilde;o usar o termo curador, quer dizer que, sim, qualquer um pode ser curador do seu pr&oacute;prio museu.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>O colecionismo &eacute; uma pr&aacute;tica antiga. Pode dar exemplos de objetos que as pessoas colecionavam antes de desembarcarmos na era digital?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez: </b>Eu me lembro que, no meu tempo de escola, na d&eacute;cada de 1960, existiam pessoas que faziam cole&ccedil;&otilde;es de cart&otilde;es postais e que se correspondiam com outras apenas para trocar informa&ccedil;&otilde;es sobre essas cole&ccedil;&otilde;es, estabelecendo uma esp&eacute;cie de "rede de relacionamento". Era o embri&atilde;o do que chamamos hoje de redes sociais. Da mesma forma podemos considerar os sal&otilde;es internacionais organizados antigamente pelos fotoclubes como precursores dessas redes, j&aacute; que eles eram agremia&ccedil;&otilde;es independentes e n&atilde;o institui&ccedil;&otilde;es oficiais, ligadas a qualquer inst&acirc;ncia governamental. Ent&atilde;o, o cidad&atilde;o de Paris mandava imagens da capital da Fran&ccedil;a para algu&eacute;m em T&oacute;quio e vice-versa. E, nessa troca de imagens, as pessoas colocavam em pr&aacute;tica a teoria de Malraux: em muitos casos elas n&atilde;o chegaram a ir a esses pa&iacute;ses, mas tinham uma cole&ccedil;&atilde;o de cart&otilde;es postais com fotos desses lugares. &Eacute; uma coisa de fases: revistas em quadrinhos, selos, ou as estampas do sabonete Eucalol, s&atilde;o alguns exemplos que podemos ver hoje sendo vendidos ou trocados em lugares como a Pra&ccedil;a XV, no Rio de Janeiro, ou na feira do v&atilde;o do Museu de Arte de S&atilde;o Paulo (Masp), em S&atilde;o Paulo. &Eacute; tamb&eacute;m comum colecionar objetos em desuso, por exemplo, caixinhas de f&oacute;sforo, hoje substitu&iacute;das por isqueiros descart&aacute;veis. No auge do tabagismo as caixinhas de papel&atilde;o com f&oacute;sforos fininhos e achatados eram um brinde que voc&ecirc; encontrava em aeroporto, restaurante, motel. Eu me lembro de uma s&eacute;rie da CBF que tinha caixinhas com craques da sele&ccedil;&atilde;o brasileira. Foram ondas de colecionismo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>O que vemos hoje na internet, como as p&aacute;ginas de arte e memes no Facebook, Tumblr, Instagram, Pinterest, empenhados na populariza&ccedil;&atilde;o de determinados estilos art&iacute;sticos, s&atilde;o museus imagin&aacute;rios de seus autores?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> Sim, acredito que todos esses mecanismos, sobretudo o Pinterest (que tem uma base de 176 milh&otilde;es de usu&aacute;rios ativos e que se apresenta como "o cat&aacute;logo mundial de ideias"), sejam novas vers&otilde;es de museus imagin&aacute;rios no sentido antevisto por Malraux. Com a diferen&ccedil;a que ele, vivendo na era pr&eacute;-digital, jamais poderia antecipar a paradoxal concretude de um museu virtual, algo que n&atilde;o existe de modo palp&aacute;vel e restrito a um espa&ccedil;o espec&iacute;fico, por&eacute;m tem exist&ecirc;ncia irrefut&aacute;vel e onipresente na internet. Existem, hoje, diversos museus virtuais - tanto institucionais quanto pessoais, devidos ao esfor&ccedil;o de um &uacute;nico indiv&iacute;duo - e todos eles s&atilde;o museus imagin&aacute;rios porque n&atilde;o s&atilde;o de "pedra e cal", moram na "nuvem". E chegam aos mais long&iacute;nquos recantos, permitindo que um n&uacute;mero assombroso de pessoas fa&ccedil;a a "viagem ao redor de seu quarto", preconizada pelo escritor Xavier de Maistre (1763-1852), gra&ccedil;as ao sistema de arqueologia imagin&aacute;ria e simb&oacute;lica instaurada por Malraux. E o que voc&ecirc; faz no Pinterest (e em outros sites)? Voc&ecirc; se inscreve gratuitamente e tem acesso a diversos grupos de imagens, de pessoas que colecionam imagens sobre hist&oacute;ria da fotografia, animais selvagens, outros sobre cidades hist&oacute;ricas, e voc&ecirc; pode se apropriar dessas cole&ccedil;&otilde;es virtuais, ou de parte delas, e acrescentar &agrave; sua cole&ccedil;&atilde;o pessoal. Isso se tornou a concretiza&ccedil;&atilde;o do museu imagin&aacute;rio do Malraux.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v68n4/a21fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Voc&ecirc; j&aacute; participou de exposi&ccedil;&otilde;es virtuais. Como foram essas experi&ecirc;ncias?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> Eu participei de exposi&ccedil;&otilde;es virtuais com meu pr&oacute;prio trabalho fotogr&aacute;fico. Em 2005 expus minhas fotografias no, ent&atilde;o, Centro Cultural Telemar, hoje Oi Futuro, numa mostra intitulada "Espiral", composta por 80 fotografias que focalizavam o caminho de um indiv&iacute;duo em busca de pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia. E isso me lembra uma coisa engra&ccedil;ada. Como as exposi&ccedil;&otilde;es virtuais ainda eram uma coisa incipiente, o museu enviou um cart&atilde;o postal pelos correios, convidando algumas pessoas. Essa exposi&ccedil;&atilde;o teve uma abertura, coquetel, as obras foram projetadas numa tela enorme, as pessoas se encontraram. Tudo como se fosse uma exposi&ccedil;&atilde;o convencional. Mas, depois, o acervo ficou dispon&iacute;vel apenas na internet. Muitas pessoas foram at&eacute; l&aacute; (depois da abertura) e ficavam claramente decepcionadas por n&atilde;o encontrarem a exposi&ccedil;&atilde;o mencionada no convite. Fiz uma outra exposi&ccedil;&atilde;o hospedada no site de Lucia Guanaes (fot&oacute;grafa brasileira radicada na Fran&ccedil;a) que convidava pessoas cujo trabalho ela admirava. Foi em 2006, a mostra chamava-se "Aller-Retour" e focalizava meu roteiro cotidiano de ida e vinda do trabalho, entre a cidade de Niter&oacute;i e o centro do Rio. Ou seja, era uma mostra hospedada em um site particular, n&atilde;o tinha um vi&eacute;s institucional, do ponto de vista de um museu estar sediando uma exposi&ccedil;&atilde;o virtual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Essas exposi&ccedil;&otilde;es virtuais geram mais engajamento do que exposi&ccedil;&otilde;es tradicionais? Como v&ecirc; essa mudan&ccedil;a?</i></b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> Sem d&uacute;vida alguma, mesmo porque alguns desses coment&aacute;rios s&atilde;o mais extensos e consistentes - tanto favor&aacute;vel quanto desfavoravelmente - do que as breves palavras de incentivo que se costuma encontrar nos livros de assinaturas de galerias e museus. Sem esquecer que os coment&aacute;rios postados, normalmente, podem ser lidos por todos, o que por vezes gera debates acalorados que se desdobram e se adensam, abrindo novas e proveitosas perspectivas para todos os envolvidos. Isso foi algo que me impressionou muito. Muitas pessoas entraram em contato via site ou diretamente por e-mail para comentar a exposi&ccedil;&atilde;o. Por outro lado, hoje em dia voc&ecirc; faz uma exposi&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica em um centro cultural e &agrave;s vezes a visita&ccedil;&atilde;o &eacute; pequena. Por exemplo, fui na exposi&ccedil;&atilde;o do fot&oacute;grafo Alair Gomes (1921-1992), na Biblioteca Nacional, em duas ocasi&otilde;es e vi apenas doze visitantes incluindo eu. E isso em uma exposi&ccedil;&atilde;o na Biblioteca Nacional, de alt&iacute;ssimo n&iacute;vel. E Alair Gomes foi exposto na Funda&ccedil;&atilde;o Cartier, na Fran&ccedil;a, com sucesso absoluto. &Eacute; preciso mencionar que foi no per&iacute;odo dos Jogos Ol&iacute;mpicos. Eu acho que hoje em dia &eacute; muito mais f&aacute;cil ter um retorno de algo feito na internet do que em algo em que seja preciso se deslocar. E mesmo que uma exposi&ccedil;&atilde;o tenha uma boa visita&ccedil;&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que as pessoas pensam, porque poucos se manifestam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Como voc&ecirc; v&ecirc; a quest&atilde;o da experi&ecirc;ncia em uma exposi&ccedil;&atilde;o na internet?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> &Eacute; interessante observar que essas exposi&ccedil;&otilde;es virtuais criam uma nova maneira de se relacionar com a arte justamente porque existem diversas limita&ccedil;&otilde;es, tudo fica reduzido ao formato da tela do seu computador. Desde uma pintura de 3mx5m at&eacute; uma fotografia de 30cmx40cm. Isso nivela para baixo. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ter a sensa&ccedil;&atilde;o de textura e profundidade que a obra ao vivo permite. &Eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o totalmente diferente. Mas isso &eacute; normal porque qualquer empreendimento de vulgariza&ccedil;&atilde;o (no sentido de populariza&ccedil;&atilde;o, facilidade de acesso) sempre &eacute; uma aproxima&ccedil;&atilde;o. Nunca ser&aacute; como ver ao vivo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Walter Benjamin, cr&iacute;tico da reprodutibilidade t&eacute;cnica, dizia que a "aura" se perde quando uma obra &eacute; observada fora do ambiente do museu. Em sua opini&atilde;o, como ele se posicionaria nessa discuss&atilde;o sobre exposi&ccedil;&otilde;es virtuais?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez: </b>A vis&atilde;o de Benjamin j&aacute; est&aacute; datada. Ele morreu no per&iacute;odo da Segunda Guerra Mundial, em 1940 e n&atilde;o poderia imaginar, como ningu&eacute;m poderia, o que se tornaria essa reprodutibilidade. Ela se tornou infinita, ilimitada e com v&aacute;rios suportes, colocando outros problemas. Teve um epis&oacute;dio recente sobre a tela <i>Abaporu</i>, de Tarsila do Amaral (1928), em exposi&ccedil;&atilde;o no Museu de Arte do Rio de Janeiro por ocasi&atilde;o dos Jogos Ol&iacute;mpicos. Em uma reportagem sobre a vinda do quadro para o Brasil, eu percebi uma esp&eacute;cie de "patologia do <i>selfie</i>" em que a pessoa est&aacute; vendo as coisas de costas. Porque, a partir do momento em que ela tira uma <i>selfie</i> na frente do <i>Abaporu </i>ela n&atilde;o est&aacute; preocupada em olhar a tela, mas sim em mostrar para os outros que ela estava l&aacute;. Outro epis&oacute;dio foi o coment&aacute;rio que Mick Jagger fez ap&oacute;s o &uacute;ltimo concerto dos Rolling Stones em S&atilde;o Paulo, em fevereiro deste ano, sobre como &eacute; esquisito as pessoas assistirem ao show pela tela do celular. Eu acho que Walter Benjamin ficaria doente com isso, porque a pessoa n&atilde;o est&aacute; vendo mais nada, mas praticando um ritual que envolve a imagem t&eacute;cnica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>Quando a pessoa saca o celular para praticar o "ritual do estar" ela est&aacute; de alguma forma montando o seu pr&oacute;prio acervo de museu imagin&aacute;rio ou isso &eacute; outra coisa?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> Eu chamaria isso de autobiografia ilustrada, o que &eacute; diferente. Isso entra no, j&aacute; abandonado, conceito de fotoblog. O princ&iacute;pio de um fotoblog &eacute; o desejo: "bom, vou fazer um blog e contar toda minha vida". Da&iacute; a pessoa fazia dez postagens e cansava porque n&atilde;o tinha mais o que contar. Depois as publica&ccedil;&otilde;es maiores foram sendo substitu&iacute;das por legendas: "Estive em Veneza, amei! " Mas isso tamb&eacute;m se perdeu, simplesmente porque as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m o que dizer. Ent&atilde;o, o conceito &eacute; diferente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C: <i>O que surgiu no lugar dos fotoblogs?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Vasquez:</b> As pessoas abandonaram esse formato. Alguns ainda est&atilde;o no ar numa esp&eacute;cie de "cyber cemit&eacute;rio". Em seu lugar surgiram ferramentas como o Instagram e Facebook, onde n&atilde;o existe o compromisso de fazer postagens regulares. Existe um car&aacute;ter de descontra&ccedil;&atilde;o. Voc&ecirc; pode postar os famosos memes, fazer uma brincadeira, ou voc&ecirc; pode fazer um uso profissional para divulgar eventos, trabalhos. Eventualmente s&atilde;o publicadas fotos do filho e algu&eacute;m vai reagir dizendo que "amou", "que achou lindo". S&atilde;o banalidades importantes. Todo mundo quer que os outros digam que seu filho &eacute; lindo, assim como todo mundo quer ouvir as pessoas dizendo "eu te amo", mesmo que isso seja banal. Umberto Eco, morto este ano, foi mal compreendido quando escreveu sobre a figura do <i>imbecile</i> (imbecil), indicando que qualquer um poderia ir &agrave;s redes sociais e falar as maiores besteiras e isso era um problema. E realmente &eacute; um problema que se expressa, por exemplo, quando vemos ataques racistas na rede.</font></p>      ]]></body>
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