<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252017000100002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602017000100002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ensino médio em transe]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Dallabrida]]></surname>
<given-names><![CDATA[Norberto]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ricci]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maike Cristine Kretzschmar]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Universidade do Estado de Santa Catarina  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,Secretaria da Educação de Santa Catarina  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>03</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>69</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>4</fpage>
<lpage>5</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252017000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252017000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252017000100002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ensino	m&eacute;dio  em	transe</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Norberto Dallabrida<sup>I</sup>; Maike Cristine Kretzschmar Ricci<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Professor na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc)  e pesquisador do CNPq    <br> <sup>II</sup>Diretora de pol&iacute;ticas e planejamento da Secretaria  da Educa&ccedil;&atilde;o de Santa Catarina</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Medida Provis&oacute;ria nº 746, de 22 de setembro de 2016, que institui a Pol&iacute;tica de Fomento &agrave; Implanta&ccedil;&atilde;o das Escolas de Ensino M&eacute;dio em Tempo Integral, catalisou o debate sobre o ensino m&eacute;dio. O mal-estar sobre essa etapa da escolariza&ccedil;&atilde;o foi diagnosticado pelos &uacute;ltimos ministros da Educa&ccedil;&atilde;o, bem como por especialistas, sendo considerado o maior gargalo da educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica. O Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o lan&ccedil;ou programas com o objetivo de dar respostas a essa situa&ccedil;&atilde;o, alguns exemplos s&atilde;o o Ensino M&eacute;dio Inovador e o Pacto Nacional pelo Fortalecimento do Ensino M&eacute;dio. O Projeto de Lei nº 6.840, de 2013, tamb&eacute;m &eacute; uma tentativa de reformar o ensino m&eacute;dio, mas, ainda em tramita&ccedil;&atilde;o na C&acirc;mara dos Deputados, n&atilde;o alcan&ccedil;ou seu objetivo. O Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o (2014- 2024), lan&ccedil;ado em 2014, estabelece uma agenda e metas para a &uacute;ltima etapa da educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, de forma a&ccedil;odada, o governo Temer introduziu um novo desenho para o ensino m&eacute;dio. O uso de medida provis&oacute;ria para implantar a atual reforma para essa fase da educa&ccedil;&atilde;o &eacute; inconstitucional porque restringe o debate ao Congresso Nacional por um per&iacute;odo de 120 dias. Essa rapidez na aprova&ccedil;&atilde;o da nova legisla&ccedil;&atilde;o educacional lembra a Lei 5.692/71, aprovada no apogeu do regime militar. A experi&ecirc;ncia internacional indica que qualquer reforma educacional deve ter um tempo de matura&ccedil;&atilde;o, que envolve necessariamente um debate com especialistas, gestores, docentes, estudantes e pais de alunos. Por isso, o uso de medida provis&oacute;ria tem provocado rep&uacute;dio, especialmente por meio da ocupa&ccedil;&atilde;o de col&eacute;gios por estudantes em v&aacute;rios estados. O conte&uacute;do da MP nº 746 introduz mudan&ccedil;as como o ensino em tempo integral e a flexibiliza&ccedil;&atilde;o curricular, que tamb&eacute;m s&atilde;o objeto de cr&iacute;ticas, particularmente de especialistas. Assim, o intuito deste texto &eacute; refletir sobre essas duas dimens&otilde;es da atual reforma do ensino m&eacute;dio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENSINO EM TEMPO INTEGRAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O mote da MP nº 746 &eacute; a implementa&ccedil;&atilde;o do ensino m&eacute;dio em tempo integral. O par&aacute;grafo &uacute;nico do artigo 1º afirma que a carga hor&aacute;ria anual "dever&aacute; ser progressivamente ampliada, no ensino m&eacute;dio, para mil e quatrocentas horas" (Brasil, 2016, p.1). A escola em tempo integral &eacute; um formato escolar consistente e tem sido colocado em pr&aacute;tica em pa&iacute;ses desenvolvidos, em particular por aqueles de perfil socialdemocrata. Desta forma, segundo a medida provis&oacute;ria, o ensino em tempo parcial, com 800 horas anuais, seria gradualmente substitu&iacute;do pelo ensino em tempo integral, tendo 1.400 horas anuais. Isto significa o salto expressivo de um para dois turnos, o que implica a quase duplica&ccedil;&atilde;o da infraestrutura e do n&uacute;mero de professores e coordenadores pedag&oacute;gicos. No sistema educacional brasileiro e na atual conjuntura, marcada pela crise econ&ocirc;mica, essa mudan&ccedil;a &eacute; pratic&aacute;vel? Vejamos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, devemos considerar que o apoio financeiro da pol&iacute;tica de fomento &agrave; implementa&ccedil;&atilde;o das escolas de ensino m&eacute;dio em tempo integral &eacute; do governo da Uni&atilde;o. Trata-se de um fundo federal tempor&aacute;rio repassado para os estados e para o Distrito Federal em um prazo de no m&aacute;ximo quatro anos. Em segundo lugar, no Brasil "o professor recebe at&eacute; 39% menos que profissional com igual escolaridade" (Pinho, 2016, p.5), fato que desqualifica a profiss&atilde;o docente no mercado de trabalho. A implanta&ccedil;&atilde;o do ensino em tempo integral sem a melhoria significativa da remunera&ccedil;&atilde;o dos professores n&atilde;o &eacute; uma pol&iacute;tica educacional eficaz. Em terceiro lugar, a escolariza&ccedil;&atilde;o em tempo integral implica a amplia&ccedil;&atilde;o expressiva da infraestrutura das escolas, incluindo o oferecimento de refei&ccedil;&otilde;es. Como as escolas das redes p&uacute;blicas estaduais – respons&aacute;veis pela grande maioria das matr&iacute;culas no ensino m&eacute;dio – ser&atilde;o reformadas e reequipadas para receber o ensino em tempo integral? Por fim, o ensino m&eacute;dio noturno, que grosso modo funciona em condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias e &eacute; procurado especialmente pelas classes socialmente vulner&aacute;veis, &eacute; exclu&iacute;do da proposta do novo ensino m&eacute;dio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>FLEXIBILIZA&Ccedil;&Atilde;O CURRICULAR</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em rela&ccedil;&atilde;o ao curr&iacute;culo, a mudan&ccedil;a significativa determinada pela MP nº 746 &eacute; a especializa&ccedil;&atilde;o do ensino m&eacute;dio, que quebra o atual mon&oacute;lito de 13 disciplinas distribu&iacute;das ao longo de um turno por semana. A forma&ccedil;&atilde;o geral e homog&ecirc;nea no ensino m&eacute;dio foi uma rea&ccedil;&atilde;o &agrave; profissionaliza&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria imposta ao antigo 2º grau de forma&ccedil;&atilde;o geral, que em boa medida permanece at&eacute; os nossos dias. A flexibiliza&ccedil;&atilde;o curricular teve um ensaio instigante, a partir dos anos 1950, com as classes secund&aacute;rias experimentais e foi inscrita na primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educa&ccedil;&atilde;o Nacional (Lei 4.024/61). As experi&ecirc;ncias internacionais, sobretudo daqueles pa&iacute;ses que est&atilde;o mais bem classificados no Pisa, indicam que o caminho &eacute; o da especializa&ccedil;&atilde;o do ensino m&eacute;dio. O Plano Nacional de Educa&ccedil;&atilde;o prescreve que o curr&iacute;culo do ensino m&eacute;dio renovado deve ser diversificado e flex&iacute;vel. A exposi&ccedil;&atilde;o de motivos do ministro da Educa&ccedil;&atilde;o, Jos&eacute; Mendon&ccedil;a Bezerra Filho, vai nessa dire&ccedil;&atilde;o ao afirmar:</font></p>  <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>20. &Eacute; de se destacar, outrossim, que o Brasil &eacute; o &uacute;nico pa&iacute;s do mundo que tem apenas um modelo de ensino m&eacute;dio, com treze disciplinas obrigat&oacute;rias. Em outros pa&iacute;ses, os jovens, a partir dos quinze anos de idade, podem optar por diferentes itiner&aacute;rios formativos no prosseguimento de seus estudos.</p>     <p> 21. Neste sentido, a presente medida provis&oacute;ria prop&otilde;e como principal determina&ccedil;&atilde;o a flexibiliza&ccedil;&atilde;o do ensino m&eacute;dio por meio da oferta de diferentes itiner&aacute;rios formativos, inclusive a oportunidade de o jovem optar por uma forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica profissional dentro de uma carga hor&aacute;ria do ensino regular (Bezerra Filho, 2016, p.2-3).</p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desta forma, a MP nº 746 prescreve cinco itiner&aacute;rios formativos espec&iacute;ficos para o ensino m&eacute;dio – linguagens, matem&aacute;tica, ci&ecirc;ncias da natureza, ci&ecirc;ncias humanas e forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e profissionalizante (Brasil, 2016, p.2) –, previstos para a segunda parte dos tr&ecirc;s anos do ensino m&eacute;dio. A especializa&ccedil;&atilde;o &eacute;, pedagogicamente, sustent&aacute;vel, mas da forma como foi formulada pelo governo Temer apresenta no m&iacute;nimo dois problemas. Por um lado, n&atilde;o &eacute; seguro que todos os col&eacute;gios de ensino m&eacute;dio ir&atilde;o oferecer os cinco itiner&aacute;rios formativos, de sorte que, muito provavelmente, aqueles localizados no interior e nas periferias das cidades oferecer&atilde;o a forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e um outro – provavelmente linguagens ou ci&ecirc;ncias humanas. De outra parte, n&atilde;o est&aacute; suficientemente clara a implanta&ccedil;&atilde;o de laborat&oacute;rios com equipamentos adequados e modernos para a forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONCLUS&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A MP nº 746 tem o m&eacute;rito de colocar o ensino m&eacute;dio no centro da pauta educacional brasileira. Essa etapa de escolariza&ccedil;&atilde;o merece ser debatida por especialistas e pela sociedade civil porque apresenta expressiva exclus&atilde;o dos jovens de 15 a 17 anos e evas&atilde;o escolar. As prescri&ccedil;&otilde;es centrais da medida provis&oacute;ria do governo Temer s&atilde;o, teoricamente, consistentes e progressistas, mas a sua operacionaliza&ccedil;&atilde;o deixa a desejar. A educa&ccedil;&atilde;o em tempo integral n&atilde;o &eacute; eficaz se as escolas n&atilde;o tiverem infraestrutura adequada e, especialmente, se os professores se ressentirem de uma carreira profissional valorizada. A flexibiliza&ccedil;&atilde;o curricular &eacute; uma ideia que tem bastante ades&atilde;o por parte dos especialistas em educa&ccedil;&atilde;o; mas, da forma como est&aacute; configurada na medida provis&oacute;ria, pode contribuir para gerar ainda mais desigualdades escolares e sociais. Enfim, a reforma educacional do governo Temer apresenta a pressa equivocada da medida provis&oacute;ria e n&atilde;o d&aacute; respostas eficazes aos impasses do ensino m&eacute;dio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bezerra Filho, J. M. EM Nº 00084/2016/MEC. Bras&iacute;lia, 15.set.2016.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Brasil. Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o. Medida Provi</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">s&oacute;ria Nº 746. Bras&iacute;lia, 22.set.2016.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pinho, A. "Professor recebe at&eacute; 39% menos que profissional com igual escolaridade". <i>Folha de S. Paulo</i>, Cotidiano, S&atilde;o Paulo, p.5, 14.nov.2016.    </font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bezerra Filho]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[EM Nº 00084/2016/MEC]]></source>
<year>15.s</year>
<month>et</month>
<day>.2</day>
<publisher-loc><![CDATA[Brasília ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="">
<collab>Brasil^dMinistério da Educação</collab>
<source><![CDATA[Medida Provisória Nº 746]]></source>
<year>22.s</year>
<month>et</month>
<day>.2</day>
<publisher-loc><![CDATA[Brasília ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pinho]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Professor recebe até 39% menos que profissional com igual escolaridade]]></article-title>
<source><![CDATA[Folha de S. Paulo, Cotidiano]]></source>
<year>14.n</year>
<month>ov</month>
<day>.2</day>
<publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
