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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO BRASIL    <br> ENTREVISTA: FELIPE ADES</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma receita para a inova&ccedil;&atilde;o nas pesquisas sobre c&acirc;ncer</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cristiane Gon&ccedil;alves </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n1/a03fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Felipe Ades &eacute; m&eacute;dico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com especialidade em oncologia cl&iacute;nica, pelo Instituto Nacional de C&acirc;ncer (Inca). Passou cinco anos na Europa, onde adquiriu os t&iacute;tulos de mestre pelo Instituto Gustave Roussy, em Paris, e de doutor (PhD) pelo Institut Jules Bordet, em Bruxelas. Suas pesquisas na &aacute;rea de oncologia incluem desde estudos em laborat&oacute;rio, testes de novos medicamentos e pol&iacute;ticas de sa&uacute;de coletiva para preven&ccedil;&atilde;o e tratamento do c&acirc;ncer. Atualmente, Ades trabalha no Hospital Albert Einstein, em S&atilde;o Paulo. Para divulgar informa&ccedil;&otilde;es sobre preven&ccedil;&atilde;o, diagn&oacute;stico e tratamento da doen&ccedil;a, mant&eacute;m o blog "Oncologia ontem hoje e amanh&atilde;", onde responde, pessoalmente, todas as d&uacute;vidas dos internautas. Nesta entrevista para a revista <i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura</i>, ele fala sobre pol&iacute;ticas de sa&uacute;de p&uacute;blica para tratamento dessa doen&ccedil;a. Segundo ele, o diagn&oacute;stico precoce e iniciar o tratamento rapidamente ainda s&atilde;o desafios para o sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de no Brasil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: Na &aacute;rea de oncologia, quais seriam os caminhos para reduzir o gap de inova&ccedil;&atilde;o entre o que se produz na academia e na ind&uacute;stria e o que ser&aacute; efetivamente acess&iacute;vel aos pacientes, especialmente em rela&ccedil;&atilde;o a novos f&aacute;rmacos?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Felipe Ades</b> Esse &eacute; um cen&aacute;rio complexo que envolve educa&ccedil;&atilde;o, regulamenta&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o. Temos um problema de educa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, que come&ccedil;a no ensino fundamental e que impede nossa sociedade de ter cultura cient&iacute;fica. Formamos analfabetos funcionais. Agora imagine, se n&atilde;o conseguem ler e escrever, como &eacute; que v&atilde;o reconhecer a import&acirc;ncia e a din&acirc;mica da pesquisa, o que &eacute; produzir ci&ecirc;ncia e tecnologia? Com que ferramentas v&atilde;o desenvolver capacidade de criticar a ci&ecirc;ncia? Por outro lado, nossa regulamenta&ccedil;&atilde;o &eacute; ruim, muito burocr&aacute;tica e com cargos t&eacute;cnicos sendo ocupados por pessoas indicadas e n&atilde;o por especialistas, sobretudo em &oacute;rg&atilde;os p&uacute;blicos. No Conselho Nacional de &Eacute;tica em Pesquisa (Conep), ligado ao Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, por exemplo, at&eacute; pouco tempo, n&atilde;o havia m&eacute;dicos para validar as pesquisas. Para piorar, a grande maioria dos nossos parlamentares n&atilde;o tem ideia do que &eacute; ci&ecirc;ncia. Ent&atilde;o, os cientistas das universidades que pesquisam, como gostamos de brincar, por "amor &agrave; camisa", lutam contra os entraves burocr&aacute;ticos, por mudan&ccedil;as na legisla&ccedil;&atilde;o e agiliza&ccedil;&atilde;o dos processos; mas t&ecirc;m que lidar com a falta de investimento na universidade (que est&aacute; sucateada) e nos demais &oacute;rg&atilde;os de pesquisa p&uacute;blicos. Para completar, n&atilde;o conseguimos realizar pesquisas colaborativas. Falta fomento, capital intelectual e organiza&ccedil;&atilde;o. Recentemente, por meio de uma iniciativa chamada Lacog (Latin American Collaborative Oncology Group), liderada por um m&eacute;dico brasileiro, tentamos organizar essa quest&atilde;o, mas estamos muito atr&aacute;s dos Estados Unidos e da Europa, que fazem isso desde a d&eacute;cada de 1950. Entre os m&eacute;dicos sempre brincamos que, com esse cen&aacute;rio, n&atilde;o precisamos que ningu&eacute;m nos atrapalhe; n&oacute;s mesmos fazemos isso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: E quais os caminhos para solucionar essas quest&otilde;es de legisla&ccedil;&atilde;o, forma&ccedil;&atilde;o intelectual e parcerias?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do ponto de vista da comunidade cient&iacute;fica, em curto prazo, precisamos nos abrir para colabora&ccedil;&otilde;es com o mercado e agilizar processos burocr&aacute;ticos de regulamenta&ccedil;&atilde;o. A &aacute;rea de pesquisa em sa&uacute;de ainda &eacute;, em geral, muito resistente a essa intera&ccedil;&atilde;o com a ind&uacute;stria. Temos tanta burocracia que n&atilde;o conseguimos entrar em estudos multic&ecirc;ntricos e internacionais; mesmo aqueles liderados por pesquisadores brasileiros. Isso seria crucial para forma&ccedil;&atilde;o de capital intelectual, de massa cr&iacute;tica. Nesse sentido, o mercado consegue se organizar de forma mais aut&ocirc;noma; atrai bons profissionais e utiliza metodologia mais eficiente. A academia fica para tr&aacute;s. &Eacute; muito dif&iacute;cil hoje ser pesquisador e fazer pesquisa de qualidade no Brasil. Enquanto isso n&atilde;o acontece, precisamos aceitar, a ind&uacute;stria lidera. No mercado de pesquisa cl&iacute;nica, quem dita as regras &eacute; a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica, que tem o protocolo e o dinheiro e decide o que vai ou n&atilde;o ser pesquisado. Precisamos participar dessas pesquisas, mostrar para o mundo que estamos aqui. Temos metade da popula&ccedil;&atilde;o da Europa, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel n&atilde;o conseguirmos fazer pesquisa cl&iacute;nica; mesmo que seja para responder perguntas n&atilde;o t&atilde;o relevantes para o nosso pa&iacute;s, temos que participar. Por exemplo, os norte-americanos n&atilde;o t&ecirc;m c&acirc;ncer de colo-uterino. Como podem liderar pesquisas nessa &aacute;rea? Mas como n&atilde;o temos investimento e nem mesmo muita expertise, o primeiro passo &eacute; nos adequar aos protocolos ditados pela ind&uacute;stria norte-americana e formar capital intelectual. Com o tempo, teremos oportunidade de desenvolver pesquisas focadas nos nossos problemas, em nossa realidade. A situa&ccedil;&atilde;o ideal, ganha-ganha, seria pela parceria p&uacute;blico-privada, todo mundo se beneficiaria: a academia pela produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e a ind&uacute;stria pela produ&ccedil;&atilde;o. Agora, do ponto de vista da sociedade como um todo, e n&atilde;o s&oacute; na perspectiva de m&eacute;dico, em longo prazo, precisamos olhar para essa quest&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o com mais cuidado. O cidad&atilde;o precisa entender sua sa&uacute;de/doen&ccedil;a, conhecer seu corpo e, principalmente, saber o que existe de dispon&iacute;vel em preven&ccedil;&atilde;o, diagn&oacute;stico e tratamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: Voc&ecirc; poderia falar sobre a real import&acirc;ncia dos recentes avan&ccedil;os em diagn&oacute;stico molecular para indicar novas abordagens terap&ecirc;uticas?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; testes moleculares bem definidos e validados - dispon&iacute;veis para sa&uacute;de suplementar e particular, mas n&atilde;o para o SUS - e que s&atilde;o excelentes ferramentas para orientar casos espec&iacute;ficos, personalizados; mas n&atilde;o podem ser replicados para toda a popula&ccedil;&atilde;o. Nesse sentido, a comunidade cient&iacute;fica precisa fazer seu papel, criando um banco de dados prospectivo para refor&ccedil;ar o n&iacute;vel de evid&ecirc;ncia, que hoje &eacute; baixo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: &Eacute; poss&iacute;vel saber quem se beneficia, de fato, dessas t&eacute;cnicas? Quais os crit&eacute;rios para "escolher" para quem ser&atilde;o indicadas essas abordagens no Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de - SUS, onde mais de 60% dos casos de c&acirc;ncer est&atilde;o em est&aacute;gio avan&ccedil;ado?</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Falamos muito em medicina personalizada, mas acho que, hoje, o termo correto &eacute; medicina estratificada, que imp&otilde;e escolher quem tem maior ou menor chance de tratamento. Is-so desencadeia um panorama de incerteza sobre quem ser&aacute;, realmente, beneficiado. Os crit&eacute;rios est&atilde;o sendo afinados, e isso &eacute; &oacute;timo, um excelente caminho. Entretanto, h&aacute; uma quest&atilde;o grave: h&aacute; drogas fant&aacute;sticas que s&atilde;o acess&iacute;veis a uma minoria da popula&ccedil;&atilde;o do mundo, e n&atilde;o s&oacute; no Brasil, por conta dos altos custos. E &eacute; uma equa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o fecha. Isso d&aacute; origem a fen&ocirc;menos de judicializa&ccedil;&atilde;o, causando um choque entre o direito individual e o coletivo. Isso &eacute; uma discuss&atilde;o para a sociedade fazer. Na Europa, h&aacute; uma conta de custo vs efetividade e existem &oacute;rg&atilde;os no governo validando se aprovam, ou n&atilde;o, a droga. Entretanto, no Brasil, n&atilde;o temos maturidade para discutir crit&eacute;rios para definir se o Estado deve ou n&atilde;o pagar um tratamento de alto custo para um paciente que n&atilde;o ser&aacute; curado, mas ter&aacute; um aumento de 30 ou 60 dias de vida. Estamos muito longe dessa realidade: aqui uma minoria recebe tratamento de ponta (incluindo a classe pol&iacute;tica), enquanto a grande maioria tem que contar com o que est&aacute; dispon&iacute;vel no sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: Como a educa&ccedil;&atilde;o pode ajudar na consolida&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas de sa&uacute;de p&uacute;blica?</b></i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A educa&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental. Nossa popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem o h&aacute;bito do autocuidado, n&atilde;o foi ensinada a ter responsabilidade sobre sua pr&oacute;pria vida. Embora isso (de n&atilde;o entender como funciona o pr&oacute;prio corpo) n&atilde;o seja exclusividade do brasileiro; os f&oacute;runs norte-americanos tamb&eacute;m discutem essas quest&otilde;es. Quando criei o meu blog, tive uma no&ccedil;&atilde;o mais ampla de que a popula&ccedil;&atilde;o &eacute; muito carente de informa&ccedil;&atilde;o de qualidade, tem dificuldade de compreender conceitos b&aacute;sicos. As pessoas acham que ci&ecirc;ncia &eacute; uma quest&atilde;o de f&eacute;, quando na verdade &eacute; o contr&aacute;rio, a ci&ecirc;ncia &eacute; d&uacute;vida. F&eacute; &eacute; uma coisa e ci&ecirc;ncia &eacute; outra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b><i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura: Como isso se relaciona com as campanhas de preven&ccedil;&atilde;o do c&acirc;ncer, por exemplo?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; duas quest&otilde;es aqui: preven&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria (informa&ccedil;&atilde;o/redu&ccedil;&atilde;o de fatores de risco) e secund&aacute;ria (diagn&oacute;stico precoce). Ambas nos levam novamente para a quest&atilde;o central: educa&ccedil;&atilde;o. O caminho da preven&ccedil;&atilde;o &eacute; pela educa&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o h&aacute; investimento em preven&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, os programas de preven&ccedil;&atilde;o que existem deveriam enfatizar a import&acirc;ncia do controle dos fatores de risco (&aacute;lcool, sal e gordura em excesso, sedentarismo). O maior fator de risco &eacute; o tabaco: &eacute; preciso reduzir drasticamente o consumo. A proibi&ccedil;&atilde;o de fumar em lugares fechados foi um sucesso, mas precisamos de pol&iacute;ticas mais agressivas. Falta prioridade tamb&eacute;m no rastreamento (diagn&oacute;stico precoce), no acesso a mamografias, exame de Papanicolau e colonoscopia. Mutir&otilde;es n&atilde;o resolvem, s&atilde;o remendo social. As pessoas n&atilde;o sabem que t&ecirc;m que fazer exames e quais fazer. &Agrave;s vezes brinco, mas acho que precisamos criar a cartilha de sa&uacute;de do adulto, informando quais e quando realizar cada exame. O cidad&atilde;o precisa entender melhor como funciona o sistema de sa&uacute;de e este tem que ser organizado, tem que funcionar. Apesar de termos reduzido o tempo m&aacute;ximo para come&ccedil;ar a tratar um paciente oncol&oacute;gico, o diagn&oacute;stico n&atilde;o pode demorar, mas continua lento. N&atilde;o &eacute; um resfriado, &eacute; c&acirc;ncer.</font></p>      ]]></body>
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