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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOT&Iacute;CIAS DO BRASIL    <br> BIOLOGIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Medicamentos da Amaz&ocirc;nia azul</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patricia Piacentini</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os oceanos cobrem mais de 70% do nosso planeta. O estudo de tamanha biodiversidade tem o potencial de gerar importantes avan&ccedil;os na &aacute;rea de farmacologia. Entretanto, os recursos naturais marinhos s&oacute; passaram a ser objeto de pesquisa nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, com o surgimento das t&eacute;cnicas de mergulho aut&ocirc;nomo e de rob&ocirc;s que podem atingir grandes profundidades, viabilizando a coleta de organismos no fundo do mar. Assim, os oceanos passaram a ser investigados de forma mais sistem&aacute;tica pelos grupos que estudam produtos naturais e seu potencial terap&ecirc;utico. "No come&ccedil;o deste s&eacute;culo, a descoberta de compostos de invertebrados que vivem no oceano em microrganismos simbiontes ou isolados em sedimentos do assoalho marinho, a possibilidade de cultivo desses microrganismos e o reconhecimento de uma diversidade microbiana inestim&aacute;vel associada ao ambiente marinho surgem como uma resposta a uma demanda crescente por inova&ccedil;&atilde;o terap&ecirc;utica, principalmente para o c&acirc;ncer e doen&ccedil;as infecciosas", salienta Leticia Veras Costa Lotufo, do Instituto de Ci&ecirc;ncias Biom&eacute;dicas da Universidade de S&atilde;o Paulo (ICB/USP). Trata-se de um potencial compar&aacute;vel &agrave; diversidade biol&oacute;gica da floresta amaz&ocirc;nica, da&iacute; o termo "Amaz&ocirc;nia azul", para se referir &agrave; potencialidade do oceano para o desenvolvimento de novos f&aacute;rmacos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n1/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "&Eacute; uma fonte de modelos moleculares incr&iacute;veis para serem testados com vistas &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o de prot&oacute;tipos de f&aacute;rmacos. O conhecimento sobre o mundo molecular presente nos oceanos &eacute; importante para o entendimento funcional do pr&oacute;prio ecossistema e, consequentemente, para se buscar bioprodutos de valor agregado", define Vanderlan da Silva Bolzani, professora do Instituto de Qu&iacute;mica da Universidade Estadual Paulista (IQ/Unesp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BELOS E VENENOSOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Foi especialmente a partir da d&eacute;cada de 1950 que cresceu o interesse de pesquisadores brasileiros pela complexa qu&iacute;mica dos organismos marinhos. O potencial farmacol&oacute;gico foi uma consequ&ecirc;ncia natural dessas investiga&ccedil;&otilde;es. "Logo de in&iacute;cio foram descobertas subst&acirc;ncias de uma esponja do Caribe, Cryptotethya crypta, que apresentaram potente atividade antitumoral e antiviral. Essas pesquisas resultaram no desenvolvimento do ARA-A e o ARA-C. O primeiro &eacute; um antiviral utilizado para tratar infec&ccedil;&otilde;es causadas pelo v&iacute;rus da herpes, e que posteriormente passou a ser utilizado para tratar pacientes infectados com o v&iacute;rus HIV. J&aacute; o ARA-C &eacute; usado no tratamento da leucemia", explica Roberto Gomes de Souza Berlinck, professor do Instituto de Qu&iacute;mica de S&atilde;o Carlos da Universidade de S&atilde;o Paulo (IQSC/USP).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Outro exemplo &eacute; o molusco Conus magnus, uma concha do mar das Filipinas, que deu origem ao medicamento chamado Prialt ou Ziconotida — um pept&iacute;deo sint&eacute;tico inspirado no produto produzido naturalmente pelo molusco —, aprovado em 2005 pela ag&ecirc;ncia norte-americana que regulamenta alimentos e medicamentos (FDA). Segundo Bolzani, o desenvolvimento do medicamento tem uma hist&oacute;ria interessante: tudo come&ccedil;ou a partir da curiosidade de um menino sobre os venenos dentro de conchas que ele, atra&iacute;do pela beleza, coletava nas Filipinas. J&aacute; adulto e professor de biologia na Universidade de Utah, nos Estados Unidos, Baldomero Olivera analisou as subst&acirc;ncias t&oacute;xicas desses moluscos. "O resultado foi a cria&ccedil;&atilde;o de um analg&eacute;sico mil vezes mais potente que a morfina e com a vantagem de n&atilde;o causar depend&ecirc;ncia", conta a pesquisadora da Unesp. Para estimular projetos de pesquisa com vistas ao aproveitamento sustent&aacute;vel do potencial biotecnol&oacute;gico da biodiversidade marinha existente nos ecossistemas costeiros e nas &aacute;reas mar&iacute;timas sob jurisdi&ccedil;&atilde;o brasileira, em 2007, foi lan&ccedil;ado o "Programa de levantamento e avalia&ccedil;&atilde;o do potencial biotecnol&oacute;gico da biodiversidade marinha" (Biomar), coordenado pela Comiss&atilde;o Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM). Para Lotufo, o programa representa um marco nos estudos da biodiversidade marinha no Brasil. Posteriormente, em 2013, o Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Cient&iacute;fico (CNPq) lan&ccedil;ou chamadas espec&iacute;ficas visando &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o de redes de pesquisa no Brasil nessa &aacute;rea. Com esses esfor&ccedil;os, o pa&iacute;s registrou um aumento da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, estrutura&ccedil;&atilde;o de redes de pesquisa, forma&ccedil;&atilde;o de recursos humanos e dep&oacute;sitos de patentes. "Temos atualmente sete compostos de origem marinha em uso cl&iacute;nico e 25 em fase de testes em seres humanos", conta Lotufo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, segundo a pesquisadora, o maior gargalo para evolu&ccedil;&atilde;o dos estudos com as subst&acirc;ncias de origem marinha tem sido o suprimento de quantidades adequadas para os testes em humanos, porque o fator limitante da utiliza&ccedil;&atilde;o na terap&ecirc;utica est&aacute; na toxicidade associada ao uso", explica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O Brasil tem uma das leis mais restritivas de acesso ao patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico, o que talvez seja o nosso principal entrave no desenvolvimento de produtos e servi&ccedil;os a partir da nossa biodiversidade", lamenta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NA COSTA BRASILEIRA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A pesquisadora desenvolve estudos sobre o potencial biotecnol&oacute;gico de bact&eacute;rias do litoral brasileiro. "Nosso foco &eacute; a microbiota associada a invertebrados produtores de subst&acirc;ncias bioativas e, paralelamente, estamos estreando os estudos com os microrganismos associados ao sedimento marinho", conta. "O estudo qu&iacute;mico e farmacol&oacute;gico levou ao isolamento de mol&eacute;culas com potencial antic&acirc;ncer que se encontram em diferentes fases do processo de caracteriza&ccedil;&atilde;o de seu mecanismo de a&ccedil;&atilde;o. Mais recentemente, novas estrat&eacute;gias de prospec&ccedil;&atilde;o foram incorporadas, incluindo estudos para maximizar o isolamento de subst&acirc;ncias bioativas in&eacute;ditas, al&eacute;m de possibilitar a compreens&atilde;o da complexa intera&ccedil;&atilde;o microbioma-hospedeiro e seu papel no funcionamento dos ecossistemas", diz Lotufo. As pesquisas foram apresentadas na 68ª Reuni&atilde;o Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC), que aconteceu entre os dias 03 e 09 de julho de 2016, em Porto Seguro (BA).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O grupo do IQSC/USP, do qual Berlinck faz parte, se dedica &agrave; descoberta de subst&acirc;ncias presentes em animais, como esponjas e moluscos, e em microrganismos (fungos e bact&eacute;rias), que possam ser &uacute;teis para o desenvolvimento de novos medicamentos. J&aacute; se sabe que algumas delas t&ecirc;m a capacidade de matar os parasitas que causam a leishmaniose e a doen&ccedil;a de Chagas. O grupo tamb&eacute;m estuda os processos pelos quais essas subst&acirc;ncias s&atilde;o formadas pelos organismos de origem (bioss&iacute;ntese), principalmente em bact&eacute;rias e fungos marinhos. "Estudamos a maneira pela qual essas subst&acirc;ncias s&atilde;o 'constru&iacute;das' dentro das c&eacute;lulas desses microrganismos, atrav&eacute;s de regula&ccedil;&atilde;o g&ecirc;nica e v&aacute;rias rea&ccedil;&otilde;es controladas por enzimas. Muitos desses processos de bioss&iacute;ntese envolvem a participa&ccedil;&atilde;o de enzimas bastante peculiares, que podem ser produzidas em maior escala e utilizadas em processos biotecnol&oacute;gicos. A partir desse conhecimento, &eacute; poss&iacute;vel 'imitar' esses sistemas para produzir essas enzimas em escala industrial e utiliz&aacute;-las para diferentes finalidades tanto na ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica como na de alimentos, cosm&eacute;ticos e agroqu&iacute;mica", destaca Berlinck.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SUSTENTABILIDADE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma quest&atilde;o importante sobre as pesquisas com recursos naturais marinhos &eacute; que elas sejam realizadas de forma sustent&aacute;vel. "N&atilde;o podemos incorrer em erros antigos, em que a obten&ccedil;&atilde;o de produtos era pautada numa pr&aacute;tica explorat&oacute;ria irrespons&aacute;vel sem preocupa&ccedil;&atilde;o com o impacto ambiental dessas atividades. N&atilde;o conhecemos adequadamente nossa diversidade, mas reconhecemos seu valor inestim&aacute;vel e, portanto, &eacute; fundamental tra&ccedil;ar programas que envolvam equipes multidisciplinares para o cont&iacute;nuo esfor&ccedil;o do conhecimento da nossa biodiversidade, incluindo seu potencial uso como alimento ou fonte de produtos biotecnol&oacute;gicos", explica Lotufo. </font></p>      ]]></body>
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