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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Democracia e direito da antidiscriminação: interseccionalidade e discriminação múltipla no direito brasileiro]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> G&Ecirc;NERO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Democracia e direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o: interseccionalidade e discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla no direito brasileiro</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Roger Raupp Rios<sup>I</sup>; Rodrigo da Silva<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Professor do mestrado em direitos humanos do UniRitter e desembargador federal do TRF - 4 regi&atilde;o. Doutor em direito (UFRGS), desenvolve pesquisas na &aacute;rea de direitos humanos, direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o e direitos sexuais. Autor e organizador, dentre outras obras, de Direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o (2008) e Em defesa dos direitos sexuais (2007), ambos pela Editora Livraria do Advogado. Email: <a href="mailto:roger.raupp.rios@gmail.com">roger.raupp.rios@gmail.com</a>    <br> <sup>II</sup>Mestre em direitos humanos pelo UniRitter, advogado e pesquisador no projeto "Direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o, igualdade e diferen&ccedil;a" do UniRitter. Autor da obra Discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla como discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional: as conquistas do feminismo negro e o direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o (Lumen Juris, 2016). Email: <a href="mailto:rodrigodsilva@hotmail.com">rodrigodsilva@hotmail.com</a></font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A constru&ccedil;&atilde;o da democracia e a afirma&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos s&atilde;o processos concomitantes e desafiadores, em especial em contextos e experi&ecirc;ncias nacionais marcadas por autoritarismo e exclus&atilde;o. Ao lado das lutas pol&iacute;ticas e iniciativas sociais, fazem-se necess&aacute;rias a formula&ccedil;&atilde;o e a fidelidade a ordenamentos jur&iacute;dicos permeados de conte&uacute;do substantivo democr&aacute;tico, onde se destacam os princ&iacute;pios da liberdade, da igualdade e do respeito &agrave; dignidade humana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse campo, destaca-se o direito de igualdade, cuja compreens&atilde;o n&atilde;o pode se limitar &agrave;s tradicionais dimens&otilde;es formal (todos s&atilde;o iguais perante a lei) e material (tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade). &Eacute; preciso ter claro que o conte&uacute;do jur&iacute;dico e pol&iacute;tico da igualdade requer superar situa&ccedil;&otilde;es de subordina&ccedil;&atilde;o, enfrentando "cidadanias de segunda classe". Trata-se de necessidade ainda mais pungente em sociedades como a brasileira, em que a empresa colonial valeu-se da subjuga&ccedil;&atilde;o dos povos ind&iacute;genas, da escravid&atilde;o imposta a africanos e da domina&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero como pilares de seu funcionamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse contexto, o desenvolvimento de respostas jur&iacute;dicas antidiscriminat&oacute;rias v&ecirc;-se profundamente desafiado, reclamando n&atilde;o somente clareza quanto &agrave; reprova&ccedil;&atilde;o da discrimina&ccedil;&atilde;o em si mesma, mas tamb&eacute;m quanto &agrave; enumera&ccedil;&atilde;o dos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o (primeira parte). Mais que isso, &eacute; imprescind&iacute;vel enfrentar a discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional (segunda parte) e explicitar seu tratamento no direito brasileiro (terceira parte).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONCEITO JUR&Iacute;DICO DE DISCRIMINA&Ccedil;&Atilde;O E CRIT&Eacute;RIOS PROIBIDOS DE DISCRIMINA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O ponto de partida para o exame da discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional &eacute; o conceito jur&iacute;dico de discrimina&ccedil;&atilde;o. Adotando-se a defini&ccedil;&atilde;o desenvolvida pelos instrumentos internacionais de prote&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos, em especial pela Conven&ccedil;&atilde;o Internacional sobre a Elimina&ccedil;&atilde;o de todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial (1), pela Conven&ccedil;&atilde;o sobre a Elimina&ccedil;&atilde;o de Todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o Contra a Mulher (2) e pela Conven&ccedil;&atilde;o sobre os Direitos das Pessoas com Defici&ecirc;ncia (3) (todos incorporados ao ordenamento jur&iacute;dico brasileiro), tem-se por discrimina&ccedil;&atilde;o "qualquer distin&ccedil;&atilde;o, exclus&atilde;o, restri&ccedil;&atilde;o ou prefer&ecirc;ncia que tenha o prop&oacute;sito ou o feito de anular ou prejudicar o reconhecimento, gozo ou exerc&iacute;cio em p&eacute; de igualdade de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos econ&ocirc;mico, social, cultural ou em qualquer campo da vida p&uacute;blica".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao conceito jur&iacute;dico de discrimina&ccedil;&atilde;o, acrescenta-se a lista de crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, cujo papel &eacute; atentar para manifesta&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de discrimina&ccedil;&atilde;o, conforme vai revelando a experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica. Da&iacute; a enumera&ccedil;&atilde;o de fatores proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, como g&ecirc;nero, ra&ccedil;a e etnia, religi&atilde;o, orienta&ccedil;&atilde;o sexual, defici&ecirc;ncia e idade (4).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os ordenamentos jur&iacute;dicos adotam tr&ecirc;s t&eacute;cnicas de previs&atilde;o desses crit&eacute;rios. Um primeiro modelo lan&ccedil;a m&atilde;o de enumera&ccedil;&atilde;o exaustiva, com crit&eacute;rios fixos, como ocorre, exemplificativamente, nas legisla&ccedil;&otilde;es dom&eacute;sticas do Reino Unido e da Uni&atilde;o Europeia. O segundo modelo adota t&eacute;cnica gen&eacute;rica e abstrata, como se d&aacute; na Constitui&ccedil;&atilde;o americana. Por fim, uma terceira forma elabora uma lista exemplificativa, aberta &agrave; inclus&atilde;o de novos crit&eacute;rios, como ocorre na Conven&ccedil;&atilde;o Europeia de Direitos Humanos, na Constitui&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica do Sul e no direito canadense (5).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma vez definidos os crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, passa-se a disputar a respeito de sua interpreta&ccedil;&atilde;o e da intensidade de sua prote&ccedil;&atilde;o por parte dos tribunais (6). Desse modo, as discrimina&ccedil;&otilde;es s&atilde;o identificadas e seu combate passa a ser um objetivo (7). Seu enfrentamento, acionado por meio da previs&atilde;o dos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, deve evitar a considera&ccedil;&atilde;o desses fatores como se fossem compartimentos estanques, preocupa&ccedil;&atilde;o atinente &agrave; percep&ccedil;&atilde;o da discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; no contexto dos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, em especial na sua concomit&acirc;ncia e intersec&ccedil;&atilde;o, que se apresenta o debate relativo &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional. Diante da complexidade da experi&ecirc;ncia humana, individual e social, em que as identidades n&atilde;o se vivenciam de modo isolado ou &uacute;nico, n&atilde;o h&aacute; como fugir dessa realidade quando est&aacute; em causa os crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, desafio que reclama a compreens&atilde;o da interseccionalidade da discrimina&ccedil;&atilde;o e sua repercuss&atilde;o no cen&aacute;rio jur&iacute;dico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De fato, o fen&ocirc;meno discriminat&oacute;rio &eacute; m&uacute;ltiplo e complexo. Os diferentes contextos, redes relacionais, fatores intercorrentes e motiva&ccedil;&otilde;es que emergem quando, no trato social, indiv&iacute;duos e grupos s&atilde;o discriminados, n&atilde;o se deixam reduzir a um ou outro crit&eacute;rio isolado (8). N&atilde;o basta, por exemplo, reprovar a discrimina&ccedil;&atilde;o racial e a discrimina&ccedil;&atilde;o sexual, pois a injusti&ccedil;a sofrida por mulheres brancas &eacute; diversa daquela vivida por mulheres negras, assim como a discrimina&ccedil;&atilde;o experimentada por homens negros e por mulheres negras n&atilde;o &eacute; a mesma.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DISCRIMINA&Ccedil;&Atilde;O INTERSECCIONAL COMO DISCRIMINA&Ccedil;&Atilde;O M&Uacute;LTIPLA NO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O estado da arte neste campo conceitual, do ponto de vista jur&iacute;dico, aponta para o predom&iacute;nio da express&atilde;o "discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla" diante da discrimina&ccedil;&atilde;o motivada por mais de um crit&eacute;rio proibido. Como refere Dagmar Schiek (9), as organiza&ccedil;&otilde;es internacionais e organiza&ccedil;&otilde;es europeias de prote&ccedil;&atilde;o de direitos humanos utilizam o conceito de discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla em uma perspectiva abrangente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional &eacute; conceito que surgiu da percep&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno peculiar da discrimina&ccedil;&atilde;o sofrida por mulheres negras em contraste com a vivida por mulheres brancas, realidade para cuja an&aacute;lise n&atilde;o se presta a invoca&ccedil;&atilde;o abstrata da proibi&ccedil;&atilde;o de discrimina&ccedil;&atilde;o por sexo (10). Designada, no &acirc;mbito jur&iacute;dico, sob o conceito amplo de discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, faz-se necess&aacute;rio distinguir, no interior do conceito jur&iacute;dico, a perspectiva quantitativa (discrimina&ccedil;&atilde;o aditiva e composta, marcadas pela mera soma de crit&eacute;rios) da perspectiva qualitativa (discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional)(11). Nesse contexto, utiliza-se a express&atilde;o "discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional" para a compreens&atilde;o da categoria jur&iacute;dica da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla como fen&ocirc;meno original, irredut&iacute;vel e inassimil&aacute;vel ao somat&oacute;rio de diversos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o de forma simult&acirc;nea.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional ocorre quando dois ou mais crit&eacute;rios proibidos interagem, sem que haja possibilidade de decomposi&ccedil;&atilde;o deles (12). Em seu conceito, &eacute; composta pelos elementos conceituais de intersec&ccedil;&atilde;o de identidades consideradas como crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o em estruturas de subordina&ccedil;&atilde;o(13). Assim, a discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional implica uma an&aacute;lise contextualizada, din&acirc;mica e estrutural, a partir de mais de um crit&eacute;rio proibido de discrimina&ccedil;&atilde;o. Por exemplo, uma mulher pertencente a uma determinada minoria est&aacute; sujeita a estigmas e preju&iacute;zos diversos daqueles experimentados por homens pertencentes ao mesmo grupo (14). A discrimina&ccedil;&atilde;o baseada em mais de um crit&eacute;rio deve ser vista, nessas situa&ccedil;&otilde;es, sob a perspectiva e considerando as experi&ecirc;ncias espec&iacute;ficas do grupo subordinado, n&atilde;o de forma meramente quantitativa (15).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, a discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional fornece ferramentas para a identifica&ccedil;&atilde;o de estruturas de subordina&ccedil;&atilde;o que ocasionam determinadas invisibilidades perpetuadoras de injusti&ccedil;as. Por exemplo, em um caso de discrimina&ccedil;&atilde;o contra a mulher, a percep&ccedil;&atilde;o pode ser reduzida meramente ao crit&eacute;rio sexual, ficando invis&iacute;vel o contexto racial. A interseccionalidade permite visualizar n&atilde;o s&oacute; o aspecto imediato, mas tamb&eacute;m que certos contextos nada t&ecirc;m de neutro ou natural, ainda que cotidianos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assentada a pesquisa conceitual sobre a interseccionalidade da discrimina&ccedil;&atilde;o no debate jur&iacute;dico antidiscriminat&oacute;rio, examinam-se a abertura e a presen&ccedil;a da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla nos instrumentos legislativos mais relevantes, sem o que o enfrentamento da discrimina&ccedil;&atilde;o ficaria comprometido. Como se ver&aacute; a seguir, tal se d&aacute; de modo t&iacute;mido, tanto nos sistemas internacionais universal e regional (interamericano) de direitos humanos, quanto no direito interno brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir da Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos Humanos, de 1948, desenvolveu-se o direito internacional dos direitos humanos. Com isso, houve um processo de universaliza&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos em um sistema integrado de tratados e conven&ccedil;&otilde;es internacionais. Esse sistema &eacute; conhecido como sistema universal ou global, cujo &oacute;rg&atilde;o representativo &eacute; a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU). Ao seu lado, surgem os sistemas regionais de prote&ccedil;&atilde;o, cujos objetivos s&atilde;o os de concretizar os direitos humanos nos respectivos planos regionais como, por exemplo, os sistemas regionais da Europa, Am&eacute;ricas e &Aacute;frica (16).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A percep&ccedil;&atilde;o da interseccionalidade da discrimina&ccedil;&atilde;o e a necessidade de prover respostas jur&iacute;dicas ensejou o desafio de formular legisla&ccedil;&atilde;o internacional de direitos humanos adequada, objetivando combater tal injusti&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma manifesta&ccedil;&atilde;o de conscientiza&ccedil;&atilde;o acerca da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla no sistema universal de prote&ccedil;&atilde;o aos direitos humanos &eacute; a Confer&ecirc;ncia Mundial das Na&ccedil;&otilde;es Unidas contra o Racismo, Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial, Xenofobia e Intoler&acirc;ncia, realizada em Durban, &Aacute;frica do Sul (17). Nessa confer&ecirc;ncia, consolidou-se a previs&atilde;o sobre as m&uacute;ltiplas ou agravadas formas de discrimina&ccedil;&atilde;o:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>&#91;...&#93; Reconhecemos que o racismo, a discrimina&ccedil;&atilde;o racial, xenofobia e intoler&acirc;ncia correlata ocorrem nos motivos de ra&ccedil;a, cor, descend&ecirc;ncia ou origem &eacute;tnica ou nacional, origem e que as v&iacute;timas podem sofrer m&uacute;ltiplas ou agravadas as formas de discrimina&ccedil;&atilde;o com base em outros relacionados motivos como sexo, l&iacute;ngua, religi&atilde;o, opini&atilde;o pol&iacute;tica ou outra opini&atilde;o, origem social, riqueza, nascimento, ou de outro estado &#91;...&#93; (17)</blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No ano de 2006, o sistema universal trouxe outra importante refer&ecirc;ncia &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, desta vez na Conven&ccedil;&atilde;o sobre os Direitos das Pessoas com Defici&ecirc;ncia. Ali tamb&eacute;m se mencionaram formas m&uacute;ltiplas e agravadas de discrimina&ccedil;&atilde;o, sofridas pelas mulheres e meninas deficientes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No sistema regional interamericano, destaca-se o Pacto de San Jose da Costa Rica (18), assinado em 22/11/1969, onde h&aacute; a men&ccedil;&atilde;o, em diversos momentos, sobre a proibi&ccedil;&atilde;o de discrimina&ccedil;&atilde;o acrescida de uma lista de crit&eacute;rios proibidos (artigos 1º, item 1, 13, item 5, 17, item 2, 24 e 27, item 1). Contudo, n&atilde;o h&aacute; alus&atilde;o, em momento algum, sobre a discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, a discrimina&ccedil;&atilde;o aditiva ou composta ou a discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional. Constata&ccedil;&atilde;o id&ecirc;ntica ocorre no exame do Protocolo de San Salvador (19), assinado em 17/11/1988, no qual h&aacute; a obriga&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o-discrimina&ccedil;&atilde;o, sem qualquer refer&ecirc;ncia &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda no &acirc;mbito do sistema regional americano, &eacute; importante referir a Conven&ccedil;&atilde;o Interamericana Contra o Racismo e Toda a Forma de Discrimina&ccedil;&atilde;o e Intoler&acirc;ncia (20).  Nela, h&aacute; expressa refer&ecirc;ncia &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla (artigo 1º, item 3), nos seguintes termos:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>     <p>Art. 1º - Para os efeitos desta Conven&ccedil;&atilde;o:</p>     <p>3. Discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla ou agravada &eacute; qualquer prefer&ecirc;ncia, distin&ccedil;&atilde;o, exclus&atilde;o ou restri&ccedil;&atilde;o baseada, de modo concomitante, em dois ou mais dos crit&eacute;rios dispostos no Artigo 1.1, ou outros reconhecidos em instrumentos internacionais, cujo objetivo ou resultado seja anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exerc&iacute;cio, em condi&ccedil;&otilde;es de igualdade, de um ou mais direitos humanos e liberdades fundamentais consagrados nos instrumentos internacionais aplic&aacute;veis aos Estados Partes, em qualquer &aacute;rea da vida p&uacute;blica ou privada.</p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse panorama normativo permite vislumbrar como tem se desenvolvido o tratamento da discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional nos sistemas global e regionais de prote&ccedil;&atilde;o de direitos humanos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O TRATAMENTO JUR&Iacute;DICO DA DISCRIMINA&Ccedil;&Atilde;O M&Uacute;LTIPLA NO DIREITO BRASILEIRO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O tratamento jur&iacute;dico da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla no Brasil vai, pouco a pouco, se formando. Com a afirma&ccedil;&atilde;o do direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o (21), a discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla pode estruturar-se tanto a partir de uma leitura atualizada de antigos diplomas legislativos, bem como pela valoriza&ccedil;&atilde;o de novos instrumentos internacionais de direitos humanos, recentemente incorporados ao ordenamento vigente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com efeito, com a incorpora&ccedil;&atilde;o do direito internacional dos direitos humanos ao ordenamento brasileiro, em especial nos casos da Conven&ccedil;&atilde;o Sobre os Direitos das Pessoas com Defici&ecirc;ncia, assinada pelo Brasil, a Conven&ccedil;&atilde;o Interamericana Contra o Racismo e Toda a Forma de Discrimina&ccedil;&atilde;o e Intoler&acirc;ncia, tamb&eacute;m j&aacute; assinada pelo Brasil, recentemente aprovada pela Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos (OEA), e as conclus&otilde;es das Confer&ecirc;ncias de Durban e de Beijing, percebe-se o avan&ccedil;o no compromisso com o combate &agrave;s m&uacute;ltiplas formas de discrimina&ccedil;&atilde;o, inclusive com a discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m desses instrumentos, ainda na esfera internacional destacam-se dois casos pertinentes &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla relacionados ao Brasil de forma direta. Ambos cuidaram de situa&ccedil;&otilde;es envolvendo discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional, explicitando a rela&ccedil;&atilde;o entre os crit&eacute;rios ra&ccedil;a, g&ecirc;nero, classe e idade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro deles (caso Alyne da Silva Pimentel Teixeira versus Brasil) tramitou no Comit&ecirc; de Elimina&ccedil;&atilde;o de Discrimina&ccedil;&atilde;o Contra a Mulher (Cedaw), onde foi examinada viola&ccedil;&atilde;o de direitos a uma brasileira, afrodescendente, de classe socioecon&ocirc;mica baixa, de 26 anos, moradora da periferia da cidade de Belford Roxo (RJ). O descaso do poder p&uacute;blico com o direito &agrave; sa&uacute;de de Alyne, que acabou vindo a &oacute;bito, ensejou a&ccedil;&atilde;o judicial com pedido de indeniza&ccedil;&atilde;o e repara&ccedil;&atilde;o por danos morais. Passados v&aacute;rios anos sem resposta, a m&atilde;e de Alyne, atrav&eacute;s das Organiza&ccedil;&otilde;es N&atilde;o-Governamentais Advocacia Cidad&atilde;o pelos Direitos Humanos e o Centro para Direitos Reprodutivos, nos EUA, encaminhou peti&ccedil;&atilde;o individual ao Comit&ecirc; Cedaw da ONU, em 2007. Examinando o caso, o comit&ecirc; decidiu pela aus&ecirc;ncia de provas de exist&ecirc;ncia de acompanhamento pr&eacute;-natal e dos procedimentos m&eacute;dicos adequados desde o in&iacute;cio das complica&ccedil;&otilde;es da gravidez de Alyne. Em sua decis&atilde;o de recomenda&ccedil;&atilde;o ao Brasil, ficou assentado que Alyne sofreu discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, levando em conta o fato de que a v&iacute;tima era mulher, afrodescendente e pobre, circunst&acirc;ncias relevantes no caso ent&atilde;o em apre&ccedil;o (22).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O segundo caso foi Wallace de Almeida versus Brasil, que tramitou junto &agrave; Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos. Wallace era um jovem negro de 18 anos, soldado do Ex&eacute;rcito, de classe social baixa e morador da periferia do Rio de Janeiro (RJ). A peti&ccedil;&atilde;o referiu o assassinato de Wallace por policiais militares no dia 13 de setembro de 1998. Os fatos relatados reportaram &eacute;poca de sistem&aacute;tica viol&ecirc;ncia e brutalidade excessiva vindas da pol&iacute;cia. Al&eacute;m disso, denunciou-se a influ&ecirc;ncia de fatores raciais e sociais, pois as v&iacute;timas das a&ccedil;&otilde;es policiais tinham alvo certo: a juventude negra, de condi&ccedil;&atilde;o pobre, moradores de favelas e da periferia. Na decis&atilde;o do comit&ecirc;, a ocorr&ecirc;ncia de discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional ficou expl&iacute;cita. Segundo as conclus&otilde;es do &oacute;rg&atilde;o internacional:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>     <p>&#91;...&#93; A Comiss&atilde;o Interamericana percebe uma influ&ecirc;ncia significativa do fator racial neste caso. Em rela&ccedil;&atilde;o a isso, j&aacute; foi enfatizado no passado, a preocupa&ccedil;&atilde;o com a viol&ecirc;ncia contra a juventude no Brasil.</p>     <p> &#91;...&#93; Outro fator na an&aacute;lise da viol&ecirc;ncia policial no Brasil &eacute; a quest&atilde;o econ&ocirc;mica e social, porque na maioria dos casos, as v&iacute;timas eram pobres, moradores de favelas e &aacute;reas circunvizinhas. &#91;...&#93;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p> &#91;...&#93; A Comiss&atilde;o observa que a maioria das v&iacute;timas da viol&ecirc;ncia policial no territ&oacute;rio do Estado s&atilde;o jovens pobres, negros ou pardos, muitos dos quais n&atilde;o t&ecirc;m antecedentes criminais . Segundo a Unesco, 93 por cento das v&iacute;timas de homic&iacute;dios no Brasil em 2000 eram do sexo masculino. Os jovens com idades entre 15 e 24 anos s&atilde;o 30 vezes mais propensos a serem v&iacute;timas de homic&iacute;dio. Jovens negros sofrem duplo homic&iacute;dio. Dos 17.900 jovens que morreram de homic&iacute;dio em 2002, 11.308 eram negros e 6.592 brancos. &#91;...&#93; </p>     <p>&#91;...&#93; A Comiss&atilde;o considera que Wallace de Almeida foi morto como resultado de um ato discriminat&oacute;rio praticado por agentes do governo, sem respeito &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de pertencer a um grupo considerado vulner&aacute;vel (afrodescendente, pobre, morador de uma favela). Esta vulnerabilidade tem sido comparada pelo Tribunal em um estado de incerteza e inseguran&ccedil;a para a v&iacute;tima. Consequentemente, os direitos da v&iacute;tima, neste caso, foram violados pelo Estado que falhou no seu dever de garanti-los. &#91; ...&#93; (23)</p> </blockquote> </font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A par das normas e dos precedentes internacionais diretamente relacionados ao direito brasileiro que fazem refer&ecirc;ncia &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, h&aacute; abertura constitucional para proibi&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional, como manifesta&ccedil;&atilde;o discriminat&oacute;ria espec&iacute;fica e irredut&iacute;vel &agrave; mera aritm&eacute;tica soma de fatores. Isso em virtude da previs&atilde;o do art. 3º, inciso IV, da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, cujo texto expresso alude, em sua parte final, a "quaisquer outras formas de discrimina&ccedil;&atilde;o".</font> </p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na mesma linha, na legisla&ccedil;&atilde;o nacional destaca-se o Estatuto da Igualdade Racial, em que h&aacute; uma clara previs&atilde;o acerca da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, com a defini&ccedil;&atilde;o de desigualdade de g&ecirc;nero e de ra&ccedil;a e a men&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita &agrave;s mulheres negras no inciso III, do artigo 1º:</font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">     <blockquote>     <p>Art. 1º  Esta Lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir &agrave; popula&ccedil;&atilde;o negra a efetiva&ccedil;&atilde;o da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos &eacute;tnicos individuais, coletivos e difusos e o combate &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o e &agrave;s demais formas de intoler&acirc;ncia &eacute;tnica.</p>     <p> Par&aacute;grafo &uacute;nico. Para efeito deste Estatuto, considera-se:</p>     <p> I - discrimina&ccedil;&atilde;o racial ou &eacute;tnico-racial: toda distin&ccedil;&atilde;o, exclus&atilde;o, restri&ccedil;&atilde;o ou prefer&ecirc;ncia baseada em ra&ccedil;a, cor, descend&ecirc;ncia ou origem nacional ou &eacute;tnica que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exerc&iacute;cio, em igualdade de condi&ccedil;&otilde;es, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos pol&iacute;tico, econ&ocirc;mico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida p&uacute;blica ou privada; </p>     <p>II - desigualdade racial: toda situa&ccedil;&atilde;o injustificada de diferencia&ccedil;&atilde;o de acesso e frui&ccedil;&atilde;o de bens, servi&ccedil;os e oportunidades, nas esferas p&uacute;blica e privada, em virtude de ra&ccedil;a, cor, descend&ecirc;ncia ou origem nacional ou &eacute;tnica;</p>     <p> III - desigualdade de g&ecirc;nero e ra&ccedil;a: assimetria existente no &acirc;mbito da sociedade que acentua a dist&acirc;ncia social entre mulheres negras e os demais segmentos sociais; (24)</p> </blockquote> </font>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seguindo a an&aacute;lise no direito brasileiro pode-se apontar a legisla&ccedil;&atilde;o penal sobre o preconceito de ra&ccedil;a ou de cor, a Lei n.º 7.716/1989, que pode ser, sem esfor&ccedil;o nem exagero, qualificada como a lei geral brasileira antidiscriminat&oacute;ria penal, dada sua relev&acirc;ncia hist&oacute;rica e abrang&ecirc;ncia. Ela define em seu artigo 1º que "ser&atilde;o punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discrimina&ccedil;&atilde;o ou preconceito de ra&ccedil;a, cor, etnia, religi&atilde;o ou proced&ecirc;ncia nacional"(25). Desse texto, abre-se espa&ccedil;o para a articula&ccedil;&atilde;o de tipos penais prevendo condutas comissivas ou omissivas discriminat&oacute;rias, sempre com base na lista de crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o previstos, cuja poss&iacute;vel combina&ccedil;&atilde;o interseccional n&atilde;o pode ser afastada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Lei de Reservas de Vagas para o Ingresso no Curso Superior, Lei n.º 12.711/2012 (Lei de Cotas) tamb&eacute;m ilustra a interseccionalidade no direito brasileiro (26).  Em seus artigos 1º e 3º, h&aacute; refer&ecirc;ncia a intersec&ccedil;&otilde;es de alguns fatores pertinentes &agrave; concretiza&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica p&uacute;blica de reserva de vagas, ainda que aqui n&atilde;o estejamos perante hip&oacute;tese de discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, mas sim de considera&ccedil;&atilde;o da interseccionalidade para a identifica&ccedil;&atilde;o dos benefici&aacute;rios da medida. Conforme os dispositivos referidos, h&aacute; a interse&ccedil;&atilde;o de fatores como ra&ccedil;a e classe socioecon&ocirc;mica  para o preenchimento dos requisitos legais. Seguindo a mesma linha, pode-se arrolar a Lei n.º 12.852/2013 (Estatuto da Juventude) (27). Em seu artigo 8º, &sect;1º, fica assegurado o acesso ao ensino superior de institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, mediante pol&iacute;ticas afirmativas, para jovens negros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muito importante nesse levantamento da presen&ccedil;a da interseccionalidade no direito brasileiro &eacute; a Lei n.º 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) (28), que trata dos mecanismos para coibir a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica e familiar contra a mulher. Dentre as diretrizes normativas ali contidas, h&aacute; a preocupa&ccedil;&atilde;o com os crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o que possam estar presentes em situa&ccedil;&otilde;es de impedimento no gozo de direitos fundamentais, tais como classe, ra&ccedil;a, etnia, orienta&ccedil;&atilde;o sexual, renda, cultura, n&iacute;vel educacional. Reconhece-se, desse modo, que em situa&ccedil;&otilde;es de viol&ecirc;ncia e discrimina&ccedil;&atilde;o contra a mulher pode-se ter a presen&ccedil;a simult&acirc;nea dos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o, de modo interseccional. Em havendo algum tipo de viol&ecirc;ncia, por exemplo, contra uma mulher, negra, de classe social desfavorecida, a aplica&ccedil;&atilde;o da Lei Maria da Penha deve dar em aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s intersec&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No &acirc;mbito trabalhista tamb&eacute;m existe legisla&ccedil;&atilde;o sobre a prote&ccedil;&atilde;o contra as pr&aacute;ticas discriminat&oacute;rias interseccionais. A Lei n.º 9.029/1995 trata das pr&aacute;ticas discriminat&oacute;rias para efeitos admissionais ou de perman&ecirc;ncia nas rela&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas do trabalho (29). No texto legal est&aacute; expressa a listagem de diversos crit&eacute;rios proibidos de discrimina&ccedil;&atilde;o: sexo, origem, ra&ccedil;a, cor, estado civil, situa&ccedil;&atilde;o familiar ou idade. A interpreta&ccedil;&atilde;o do art. 1º da Lei n.º 9.029/1995, realizada de modo consciente quanto &agrave; interseccionalidade da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla possibilita abarcar tais realidades complexas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A hip&oacute;tese de despedida discriminat&oacute;ria no emprego contra mulheres negras idosas exemplifica a necessidade da abordagem interseccional. A incid&ecirc;ncia da legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista antidiscriminat&oacute;ria e a sua interpreta&ccedil;&atilde;o poderiam ser enfraquecidas por uma defesa do empregador que invisibilizasse as intersec&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero, ra&ccedil;a e idade, na medida em que se afirmasse que, por empregar mulheres, negras e pessoas idosas, n&atilde;o faria sentido a den&uacute;ncia da discrimina&ccedil;&atilde;o contra mulheres negras idosas. Contudo, a percep&ccedil;&atilde;o das intersec&ccedil;&otilde;es discriminat&oacute;rias desnudaria tal justificativa, deixando claro que mulheres negras idosas s&atilde;o discriminadas em virtude da intersec&ccedil;&atilde;o dessas caracter&iacute;sticas, o que n&atilde;o aconteceria diante mulheres brancas idosas e de mulheres negras jovens.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A previs&atilde;o normativa da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla pode ser vista, ainda, em alguns estatutos jur&iacute;dicos brasileiros. O Estatuto do Idoso, Lei n.º 10.741/2003, quando trata da prote&ccedil;&atilde;o judicial dos interesses difusos dos idosos deficientes, faz refer&ecirc;ncia no artigo 79 sobre a&ccedil;&otilde;es judiciais de responsabilidade em casos de atendimento insatisfat&oacute;rio "especializado ao idoso portador de defici&ecirc;ncia ou com limita&ccedil;&atilde;o incapacitante" (30). &Eacute; clara alus&atilde;o &agrave; necessidade de uso da abordagem interseccional em casos de multiplicidade de fatores tendentes &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra previs&atilde;o encontra-se no C&oacute;digo de Defesa do Consumidor, Lei n.º 8.070/1990. Em seu artigo 39, h&aacute; a veda&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas abusivas quando o fornecedor venha a "prevalecer-se da fraqueza ou ignor&acirc;ncia de consumidor, tendo em vista a sua idade, sa&uacute;de, conhecimento ou condi&ccedil;&atilde;o social, para impingir-lhe seus produtos ou servi&ccedil;os" (31). Como se v&ecirc;, destaca-se a intersec&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios de idade e condi&ccedil;&atilde;o social. A veda&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica abusiva sob tais moldes pode ensejar a considera&ccedil;&atilde;o da discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla com base na discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em sociedades complexas, permeadas de n&iacute;veis muito altos de desigualdade e exclus&atilde;o, mostra-se imprescind&iacute;vel fazer todos os esfor&ccedil;os para o enfrentamento da discrimina&ccedil;&atilde;o. Inicialmente desenvolvida no &acirc;mbito do direito internacional dos direitos humanos, a reprova&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional adentrou no ordenamento jur&iacute;dico nacional.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Traduzida para o vocabul&aacute;rio do direito como discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla, a qualifica&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica da interseccionalidade do fen&ocirc;meno discriminat&oacute;rio possibilita uma percep&ccedil;&atilde;o mais adequada da discrimina&ccedil;&atilde;o em sua complexidade, repercutindo n&atilde;o somente na identifica&ccedil;&atilde;o das circunst&acirc;ncias concretas e especificidades da discrimina&ccedil;&atilde;o, mas inclusive para o dimensionamento das consequ&ecirc;ncias de tais condutas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para al&eacute;m das respostas jur&iacute;dicas, a den&uacute;ncia da interseccionalidade da discrimina&ccedil;&atilde;o existente em casos de discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla abre espa&ccedil;o para a reivindica&ccedil;&atilde;o de justi&ccedil;a por parte de indiv&iacute;duos e grupos cujas experi&ecirc;ncias tenham sido invisibilizadas. Ela colabora, por conseguinte, para o respeito diante das diferen&ccedil;as e a responsabilidade de proteg&ecirc;-las sempre que injustamente oprimidas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Conven&ccedil;&atilde;o Internacional Sobre a Elimina&ccedil;&atilde;o de Todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial,  de 21 de dezembro de 1965. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/discrimina/lex81.htm" target="_blank">http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/discrimina/lex81.htm</a>&gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Conven&ccedil;&atilde;o Sobre a Elimina&ccedil;&atilde;o de Todas as Formas de Discrimina&ccedil;&atilde;o Contra a Mulher, de 18 de dezembro de 1979. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/mulher/lex121.htm" target="_blank">http://www.dhnet.org.br/direitos/sip/onu/mulher/lex121.htm</a> &gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Conven&ccedil;&atilde;o Sobre os Direitos das Pessoas com Defici&ecirc;ncia, de 2006. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.un.org/disabilities/documents/convention/convoptprot-s.pdf" target="_blank">http://www.un.org/disabilities/documents/convention/convoptprot-s.pdf</a> &gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Fredman, S. <i>Discrimination law. 2nd edition. </i>New York: Oxford University Press. p. 38. 2011.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Fredman, S., 2011. <i>Op cit</i>. p. 112.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Droshout, D. <i>et al. Non-discrimination law. </i>Oxford and Portland: Hart Publishing. 2007, p. 33.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Bamfhorth, N. <i>et al. Discrimination law: theory and context, text and materials. </i>London: Sweet and Maxwell. p. 19. 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Mac&ecirc;do, M. S. "Na trama das interseccionalidades: mulheres chefes de fam&iacute;lia em Salvador". p. 12. 2008. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/10983/1/Dissertacao%20Marcia%20Macedoseg.pdf" target="_blank">https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/10983/1/Dissertacao%20Marcia%20Macedoseg.pdf</a> Acesso em 02/11/2016.    .</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Comiss&atilde;o Europeia. <i>Multiple discrimination in EU Law: opportunities for legal responses to intersectional gender discrimination</i>. p. 4. 2009.Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://ec.europa.eu/justice/gender-equality/files/multiplediscriminationfinal7september2009_en.pdf" target="_blank">http://ec.europa.eu/justice/gender-equality/files/multiplediscriminationfinal7september2009_en.pdf</a>&gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Crenshaw, K. "Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discrimina&ccedil;&atilde;o racial relativos ao g&ecirc;nero". <i>Revista de Estudos Feministas</i>, v.7, n. 12, p. 177. 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Makkonen, L. L. M. T. <i>Multiple, compound and intersectional discrimination: bringing the experiences of the most marginalized to the fore. </i>p. 10. 2002.Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://cilvektiesibas.org.lv/site/attachments/01/02/2012/timo.pdf" target="_blank">http://cilvektiesibas.org.lv/site/attachments/01/02/2012/timo.pdf</a>&gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Comiss&atilde;o Europeia. <i>Tackling multiple discrimination - practices, policies and laws. </i>2007. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://ec.europa.eu/social/main.jsp?catId=738&amp;furtherPubs=yes&amp;langId=en&amp;pubId=51" target="_blank">http://ec.europa.eu/social/main.jsp?catId=738&amp;furtherPubs=yes&amp;langId=en&amp;pubId=51</a>&gt; Acesso em 02/11/2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Silva, R. <i>Discrimina&ccedil;&atilde;o m&uacute;ltipla como discrimina&ccedil;&atilde;o interseccional: as conquistas do feminismo negro e o direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o</i>. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2016.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Makkonen, L. L. M.T., 2009. <i>Op. cit., </i>p. 11.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Crenshaw, K, 2002. <i>Op. cit</i>., p. 177.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. PIOVESAN, F. <i>Direitos humanos e justi&ccedil;a internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano </i>2ª edi&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Saraiva. ps. 41-42. 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Confer&ecirc;ncia contra o Racismo, Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial, Xenofobia e Intoler&acirc;ncia, de setembro de 2001. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.un.org/WCAR/durban.pdf" target="_blank">http://www.un.org/WCAR/durban.pdf</a>&gt; &Uacute;ltimo acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos. Conven&ccedil;&atilde;o Americana de Direitos Humanos - Pacto de San Jose da Costa Rica, de 22 de novembro de 1969. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/sanjose.htm" target="_blank">http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/sanjose.htm</a>&gt; &Uacute;ltimo acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos. Protocolo adicional &agrave; conven&ccedil;&atilde;o americana sobre direitos humanos em mat&eacute;ria de direitos econ&ocirc;micos, sociais e culturais - Protocolo de San Salvador, de 17 de novembro de 1988. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/e.Protocolo_de_San_Salvador.htm" target="_blank">http://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/e.Protocolo_de_San_Salvador.htm</a>&gt; &Uacute;ltimo acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos. Conven&ccedil;&atilde;o Interamericana Contra o Racismo, a Discrimina&ccedil;&atilde;o Racial e Formas Correlatadas de Intoler&acirc;ncia. Dispon&iacute;vel em: &lt; <a href="http://www.oas.org/en/sla/dil/docs/inter_american_treaties_A-68_Convencao_Interamericana_racismo_POR.pdf" target="_blank">http://www.oas.org/en/sla/dil/docs/inter_american_treaties_A-68_Convencao_Interamericana_racismo_POR.pdf</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Rio, R. R. <i>Direito da antidiscrimina&ccedil;&atilde;o: discrimina&ccedil;&atilde;o direta, indireta e a&ccedil;&otilde;es afirmativas</i>. Porto Alegre: Liv. do Advogado, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Comit&ecirc; para a Elimina&ccedil;&atilde;o da Discrimina&ccedil;&atilde;o Contra as Mulheres. Decis&atilde;o de 25 de julho de 2011. Alyne da Silva Pimentel Teixeira versus Brazil. Comunica&ccedil;&atilde;o nº 17/2008, Cedaw /C/49/D/17/2008, Dispon&iacute;vel em &lt;<a href="http://www2.ohchr.org/english/law/docs/CEDAW-C-49-D-17-2008.pdf" target="_blank">http://www2.ohchr.org/english/law/docs/CEDAW-C-49-D-17-2008.pdf</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos. Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos. Decis&atilde;o de 20 de mar&ccedil;o de 2009. Wallace de Almeida versus Brazil. Informe n.º 29/09. Caso 12.440. Dispon&iacute;vel em: &lt; <a href="http://www.cidh.oas.org/annualrep/2009sp/Brasil12440.sp.htm" target="_blank">http://www.cidh.oas.org/annualrep/2009sp/Brasil12440.sp.htm</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Brasil. Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. Dispon&iacute;vel em: &lt;<a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm" target="_blank">http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. Brasil. Lei nº 7.716/1989, de 5 de janeiro de 1989. Dispon&iacute;vel em: &lt; <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm" target="_blank">http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. Brasil. Lei nº 12.711/2012, de 29 de agosto de 2012. Dispon&iacute;vel em: &lt; <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm" target="_blank">http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm</a>&gt; Acesso em 2 de novembro de 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">27. Brasil. Lei nº 12.852/2013, de 05 de agosto de 2013. 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