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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> CINEMA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mad Max e a feminilidade ativa</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Andressa Gordya </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O cinema <i>mainstream </i>nunca economizou em produ&ccedil;&otilde;es que enalteciam a masculinidade enquanto exemplo de for&ccedil;a, autonomia e autoridade. Do cl&aacute;ssico do <i>western, </i>passando pela desenvoltura f&iacute;sica de Fred Astaire, aos mach&otilde;es dos filmes de a&ccedil;&atilde;o da d&eacute;cada de 1980 estrelados por Arnold Schwarznegger e afins, a representa&ccedil;&atilde;o de um cinema faloc&ecirc;ntrico baseou-se em estabelecer o masculino com enaltecimento de dom&iacute;nio e o feminino, esquecido e objetificado, como "o outro".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A quest&atilde;o das representa&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero n&atilde;o s&atilde;o novidade nos estudos de cinema. A cr&iacute;tica cinematogr&aacute;fica e feminista brit&acirc;nica, Laura Mulvey, trouxe questionamentos importantes nesse aspecto em seu ensaio pioneiro <i>Prazer visual e cinema narrativo </i>(1973). Utilizando-se dos estudos da psican&aacute;lise e semi&oacute;tica, a autora focou suas pesquisas nas composi&ccedil;&otilde;es da escopofilia, do voyeurismo e do que ela veio a chamar de <i>male gaze</i>, ou seja, o olhar masculino como dominante nas inst&acirc;ncias de prazer por meio da observa&ccedil;&atilde;o discreta do espectador na sala escura. Desta forma, de acordo com Mulvey, o espectador masculino projeta suas fantasias na tela, reproduzindo e relacionando constantemente sua masculinidade &agrave; a&ccedil;&atilde;o e ao dom&iacute;nio (do feminino e da narrativa), enquanto as mulheres est&atilde;o relacionadas &agrave; passividade, ao exibicionismo e &agrave; espetaculariza&ccedil;&atilde;o de seus corpos. A import&acirc;ncia feminina est&aacute; no que ela provoca e representa, o que ela causa no her&oacute;i &eacute; o que rege a a&ccedil;&atilde;o da narrativa, ou seja, homens agem e mulheres s&atilde;o sempre coadjuvantes. Aqui est&aacute; a grande diferen&ccedil;a da representa&ccedil;&atilde;o do feminino e do masculino no cinema cl&aacute;ssico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Contudo, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel definir o cinema como um sistema homog&ecirc;neo, tanto de produ&ccedil;&atilde;o quanto na chave do simb&oacute;lico. A trilogia <i>Mad Max </i>(1979-1985) e sua continua&ccedil;&atilde;o <i>Estrada da f&uacute;ria</i> (2015), de George Miller, trazem questionamentos instigantes a respeito desse enaltecimento do masculino no cinema. <i>Mad Max</i> ganhou fama como uma ode &agrave; masculinidade convincente, lan&ccedil;ou Mel Gibson ao olimpo cinematogr&aacute;fico hollywoodiano e tornou-se um cl&aacute;ssico imediato, cultuado por gera&ccedil;&otilde;es de homens que projetavam no Max, de Gibson, seus anseios masculinos por destrui&ccedil;&atilde;o e o fetiche por carros, jaquetas de couro e armas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, ao penetrar na chave narrativa de<i> Mad Max, </i>o hibridismo entre o g&ecirc;nero <i>road movie </i>e o p&oacute;s-apocal&iacute;ptico traz uma particularidade essencial: a busca por liberdade e desacorrentamento dos grilh&otilde;es sociais, t&iacute;picos dos <i>road movies</i>, n&atilde;o se exibe na rela&ccedil;&atilde;o que Max estabelece com a estrada, mas com a total aus&ecirc;ncia dela. A destrui&ccedil;&atilde;o do mundo e das estruturas da sociedade como conhecemos ampliam os horizontes onde, no universo des&eacute;rtico de <i>Wasteland, </i>tudo &eacute; estrada e nada &eacute; estrada. Como explica a novelista e professora da Universidade de Tecnologia de Sidney, D&eacute;lia Falconer, em ensaio sobre o filme, publicado em 1997, a n&atilde;o-estrada de <i>Mad Max</i> ao mesmo tempo em que, numa terra sem lei, pode desencadear um processo grotesco de viol&ecirc;ncia e opress&atilde;o, tamb&eacute;m pode apresentar uma possibilidade libertadora contra as normas hegem&ocirc;nicas, alterando a ordem simb&oacute;lica das rela&ccedil;&otilde;es de poder e estabelecendo, assim, novas rela&ccedil;&otilde;es entre os indiv&iacute;duos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MASCULINIDADE E HOMOEROTISMO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em <i>Mad Max</i>, a masculinidade est&aacute; localizada no interior das fantasias de viol&ecirc;ncia, liberdade e liberta&ccedil;&atilde;o - que tamb&eacute;m abra&ccedil;a a situa&ccedil;&atilde;o dos jovens "garotos de guerra" presentes em <i>Estrada da f&uacute;ria</i> - fantasias que s&atilde;o realizadas em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; fam&iacute;lia, ao direito e ao controle. A obra p&oacute;s-apocal&iacute;ptica de Miller, ao mesmo tempo que se desfaz das rela&ccedil;&otilde;es de poder, as erotiza. A presen&ccedil;a do homoerotismo &eacute; constante, sobretudo em <i>A ca&ccedil;ada continua </i>(1981).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A est&eacute;tica que mistura o <i>cyber punk </i>com o <i>bondage, </i>inspirada no BDSM (acr&ocirc;nimo para a express&atilde;o "bondage, disciplina, domina&ccedil;&atilde;o, submiss&atilde;o, sadismo e masoquismo), presente em todos os filmes da franquia e pelo fetiche com as roupas de couro, traz novas representa&ccedil;&otilde;es do masculino que destoam e se distanciam da composi&ccedil;&atilde;o macho alpha/dominante e mulher/submissa. Quando se vai al&eacute;m da superf&iacute;cie de emascula&ccedil;&atilde;o de <i>Mad Max</i>, encontram-se reflex&otilde;es sobre a masculinidade que descontroem a famosa rela&ccedil;&atilde;o virilidade/heterossexualidade, t&atilde;o difundida pelo senso comum. Em <i>Wasteland</i>, a sexualidade masculina &eacute; um jogo sexual e pol&iacute;tico, o BDSM &eacute; a erotiza&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder sem exerc&ecirc;-las de fato, diferindo-se do poder social. Como afirmou Michel Foucault, em sua obra <i>Hist&oacute;ria da sexualidade</i>, "(...) o jogo do S/M &eacute; muito interessante porque, enquanto rela&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica, &eacute; sempre fluida. (...) &Eacute; uma encena&ccedil;&atilde;o de estruturas do poder em um jogo estrat&eacute;gico, capaz de procurar um prazer sexual ou f&iacute;sico".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O FEMININO N&Atilde;O-PASSIVO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se j&aacute; haviam sutis distor&ccedil;&otilde;es de domin&acirc;ncia nos tr&ecirc;s primeiros filmes, <i>Estrada da f&uacute;ria </i>apresenta uma mudan&ccedil;a quase completa das representa&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero em sua constru&ccedil;&atilde;o narrativa, tanto em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; masculinidade, como j&aacute; foi citado, quanto nas profundas implica&ccedil;&otilde;es e questionamentos sociais, est&eacute;ticos, te&oacute;ricos e de linguagem expl&iacute;citos no filme. Max, como s&iacute;mbolo et&eacute;reo do macho alfa, j&aacute; n&atilde;o representa mais a for&ccedil;a viril da masculinidade socialmente constru&iacute;da, mas a decad&ecirc;ncia dela junto com o mundo que a masculinidade domina.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v69n1/a20fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v69n1/a20fig01thumb.jpg">    <br> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em <i>Estrada da f&uacute;ria </i>foi a guerra por combust&iacute;vel que destruiu a humanidade, foi a sede de poder e de domin&acirc;ncia masculina que transformou o mundo em p&oacute; e ru&iacute;nas. Muitos consideram que o maior potencial da obra est&aacute; em sua a&ccedil;&atilde;o fren&eacute;tica, sua montagem videocl&iacute;ptica e no conte&uacute;do feminista aparentemente superficial. Contudo, <i>Mad Max: Estrada da f&uacute;ria</i> &eacute; tudo, menos superficial. Em duas horas absorvemos uma cr&iacute;tica an&aacute;rquica sobre as rela&ccedil;&otilde;es de g&ecirc;nero e Miller n&atilde;o apenas eleva a for&ccedil;a feminina &agrave; sua m&aacute;xima pot&ecirc;ncia, mas tamb&eacute;m ridiculariza a estrutura burocr&aacute;tica capitalista e satiriza com sarcasmo a masculinidade fr&aacute;gil e alienada de um sistema que glorifica o falo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diferentemente dos tr&ecirc;s primeiros filmes, aqui s&atilde;o a revolta e a rebeli&atilde;o femininas contra as opress&otilde;es patriarcais que geram a narrativa. Os corpos femininos n&atilde;o est&atilde;o mais - t&atilde;o - dispostos ao prazer do olhar masculino, olhar este t&atilde;o criticado por Mulvey. H&aacute; uma recusa &agrave; passividade das protagonistas, ao dom&iacute;nio de seus corpos, &agrave; opress&atilde;o da sexualidade feminina, das rela&ccedil;&otilde;es de poder e da maternidade como potencial fragilizador. Em <i>Estrada da f&uacute;ria</i>, Max perde o carro, a liberdade, as botas e o protagonismo, n&atilde;o &eacute; um filme sobre ele, &eacute; um filme sobre Furiosa. &Eacute; um filme sobre a viol&ecirc;ncia contra as mulheres e como os homens podem colaborar nessa luta sem roubar-lhes o espa&ccedil;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mulvey questiona o papel da mulher na ordem simb&oacute;lica do cinema cl&aacute;ssico e como ela &eacute; inserida na cultura patriarcal como "o outro" "(...), posicionada numa ordem simb&oacute;lica na qual o homem pode viver suas fantasias e obsess&otilde;es atrav&eacute;s do comando lingu&iacute;stico, impondo-o &agrave; imagem silenciosa da mulher que permanece fixa em seu lugar de sustent&aacute;culo, mas n&atilde;o de produtora de significado", afirma a novelista australiana. Entretanto, a representa&ccedil;&atilde;o feminina edificada no cinema cl&aacute;ssico atrav&eacute;s desse olhar em fun&ccedil;&atilde;o do falo j&aacute; n&atilde;o se sustenta mais, j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais tolerada, por mais que ainda seja dominante. O sil&ecirc;ncio foi quebrado pelas feministas e por uma gera&ccedil;&atilde;o inteira de mulheres que n&atilde;o se sentem representadas pela imagem de si que veem na tela, <i>Mad Max: estrada da f&uacute;ria</i> torna-se, dessa forma, mais que um filme hist&oacute;rico, um filme necess&aacute;rio.</font></p>      ]]></body>
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