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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pela bola sete</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pl&iacute;nio Marcos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(<i>&Uacute;ltima Hora de SP </i>- Edi&ccedil;&atilde;o de 12/1/1969. P&aacute;gina 12. Caderno 1)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Bereco era devagar. N&atilde;o queria nada com o batente. Seu neg&oacute;cio era sinuca. E nisso ele era cobra. De taco na m&atilde;o fazia embaixada. Conhecia os trambiques do jogo e sabia como entrutar o parceiro. Ent&atilde;o estava sempre com a bufunfa<a name="1b"></a><a href="#1a"><sup>1</sup></a> em cima. Sabe como &eacute; o lance. Sempre tem um panaca pra desconhecer o nome do mandarim. E o Bereco ajudava. Se vestia como um Z&eacute; Man&eacute; qualquer. Neca de beca tranchana. Isso espanta o loque. O babado era se fazer de besta. Tirar onda de oper&aacute;rio trouxa. Desses que d&aacute; um duro do cacete de sol a sol, se forra prato feito, e na folga vai fazer marola em boteco. Da&iacute; sempre tem um malandrinho pra tomar os pixul&eacute;s do ot&aacute;rio. Se fazer passar por coi&oacute; era o grande trambique do Bereco. Com essas e outras ele engrupia at&eacute; muito vagau escolado. At&eacute; no Bar Seleto de S. Vicente, ponto certo dos grandes tacos do mundo, o Bereco deu esse deschavo. E grudou. Pensaram que ele era p&atilde;o ganho e ele tomou o sonante dos pintas. E assim o Bereco ia remando seu barco em mar&eacute; mansa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas &eacute; como diz o Zagaia:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Um dia &eacute; da ca&ccedil;a outro do ca&ccedil;ador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E se Zagaia diz &eacute; que &eacute;. Todo mundo sabe disso. Por&eacute;m acontece, que como n&atilde;o d&aacute; pro nego tocar fogo no mar pra comer peixe frito, tem que botar pra quebrar. E o Bereco ia firme. S&oacute; ganhando. Um pato atr&aacute;s do outro era depenado. Sem d&oacute;. Que nas paqueras da vida &eacute; cada um pra si. Mas chegou a virada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Era fim de m&ecirc;s. Dia de pagamento da Refinaria de Petr&oacute;leo. O Bereco que estava por dentro se picou pra<a name="2b"></a><a href="#2a"><sup>2</sup></a> Cubat&atilde;o. Se plantou num sal&atilde;o dos bordejos da refinaria e ficou na moita. Logo foi baixando a freguesia. Tudo de capacete de lata. A batota estava contentona de envelope no chorro. E o Bereco s&oacute; espiando o lance. De vez em quando tirava um paco de nota pra pagar uma coca-cola. Era a milonga. Logo um capacete de lata mais afobado se assanhou com o dinheiro do majura. Sentiu a moquinha pegar e quis tomar. Mediu o Bereco e foi no xaveco da pinta. O Capacete de Lata<a name="3b"></a><a href="#3a"><sup>3</sup></a> tinha um joguinho enganador. Desses que &eacute; bom em mesa de sindicato. Mas levou f&eacute; em si e nenhuma no Bereco. Encarnou no mo&ccedil;o:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Como &eacute; parceiro? Quer fazer um joguinho?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Bereco n&atilde;o deu pala.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Jogo nada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Capacete de Lata cercou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- A leite de pato.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Bereco deixou andar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Se &eacute; de brinquedo vamos l&aacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E come&ccedil;ou o jogo. O Bereco sentiu o parceiro e tirou de letra. O capacete n&atilde;o sabia nada. O Bereco deu o engano. Os primeiros dez mirr&eacute;is, os segundos e os terceiros o Bereco empurrou pro trouxa. E se fez de bronqueado. Partiu pros vinte, pros cinquenta e pro cem mil. O Capacete de Lata estava se deitando. Era seu bilhete premiado. Com o dinheiro que ganhou do Bereco e o seu ordenado j&aacute; tinha um milheiro no por&atilde;o. Da&iacute; o Bereco selou:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- O tudo ou nada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Capacete de Lata nem balan&ccedil;ou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Um milh&atilde;o na ca&ccedil;apa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todo mundo de botuca ligada na mesa. O Capacete saiu pela cinco. Errou. O Bereco se tocou que o xereta<a name="4b"></a><a href="#4a"><sup>4</sup></a> estava nervoso. Teve que maneirar. Cozinhar o galo. Sen&atilde;o ia ficar escrachado o perereco. Errou na cinco que estava cai n&atilde;o cai. E o joguinho ficou de duas muquiranas. S&oacute; na bola da mesa. O Bereco n&atilde;o embocava. S&oacute; colhia as mancadas do capacete de lata. Se o bruto metia uma tr&ecirc;s. O Bereco fingia que era sem querer, e deixava uma sinuca de bico pro inimigo. E na catimba do Bereco e no virador do Capacete de Lata o jogo foi comprido pacas. Os sapos nem chiavam. Seguravam as pontas. Era tudo torcedor do Capacete de Lata. Trabalhadores da refinaria de petr&oacute;leo de Cubat&atilde;o. Mas o Bereco nem estava a&iacute;. J&aacute; contava com o dinheiro da ca&ccedil;apa. A&iacute; chegaram na bola sete. S&oacute; a sete estava na mesa. E o jogo estava por ela. O Bereco folgado, muito &agrave; vontade encostou a negra na parede. O Capacete de Lata tremia, suava. Estava com o motor batendo acelerado. Fez mira. Come&ccedil;ou a pensar que tinha quatro filhotes no seu chat&ocirc;, aluguel de casa, rango, escola, rem&eacute;dio e os cambaus. Pensou no que ia dizer pra mulher. Com a cabe&ccedil;a cheia de minhocas deu na cara da bola. Uma chapada. A negra rolou para o lado, a branca pra outro. O Capacete de Lata sentiu um al&iacute;vio. Pelo menos acertou na bola. Mas o recreio durou pouco. Quando as bolas pararam a sete estava na boca da botija. Pedindo pra cair. E a branca no meio da mesa. Ningu&eacute;m por mais cego que fosse errava aquela. O Bereco sorriu. Deu a volta na mesa devagar. Bem devagarinho. Enrustido, sem dar bandeira ia gozando as fu&ccedil;as do ot&aacute;rio. O Capacete de Lata s&oacute; faltava abrir o bu&eacute;. Deu a volta e ficou atr&aacute;s da ca&ccedil;apa em que a bola ia cair. O Bereco deu uma dica de leve.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Vai secar?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Capacete de Lata quis falar mas n&atilde;o deu. Se engasgou. O Bereco n&atilde;o se flagrou no olhar do panaca. Se tivesse visto as bolas de sangue nas botucas do capacete de lata ia ficar cabreiro. N&atilde;o viu e fez a presepada. Passou giz no taco com calma. Se ajeitou na mesa, com calma. A&iacute; levantou a mira. Viu a bola branca, a sete, a ca&ccedil;apa, atr&aacute;s da ca&ccedil;apa um rev&oacute;lver quarenta e cinco, atr&aacute;s do rev&oacute;lver o Capacete de Lata. O Bereco quis saber:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Que &eacute; isso meu compadre?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Capacete de Lata espumou, babou e resmungou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Se meter essa sete eu te mato.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Bereco viu logo que era jura. Se fechou em copa. Deu na bola de esgulha, o taco espirrou. Relou na sete e as duas ficaram na berba da ca&ccedil;apa. Coladas. O Bereco fingiu que n&atilde;o havia nada. Deu a?<a name="5b"></a><a href="#5a"><sup>5</sup></a> - Ficou pra voc&ecirc; compadre.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Capacete de Lata guardou o rev&oacute;lver, treta, a raiva e tudo. Foi de cabe&ccedil;a. Deu no taco e bimba. A branca e a negra mergulharam juntas. O Bereco s&oacute; ficou olhando. As l&aacute;grimas correram nos olhos do Capacete de Lata. Estava t&atilde;o embaixo que n&atilde;o dava pra pegar a arma e aprontar o salseiro. S&oacute; deu um lamento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">- Tenho quatro bacuris.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Bereco fez que n&atilde;o escutou. Recolheu a grana. E saiu de fininho. O Capacete de Lata saiu logo atr&aacute;s. Ningu&eacute;m se mexeu. Passou um tempo e veio o estouro. Meio mundo foi ver as rebarbas. No meio da rua o Capacete de Lata estava estarrado. Tinha o rev&oacute;lver na m&atilde;o e uma bala na orelha. Se acabou. O Bereco s&oacute; teve pena de nunca mais poder dar grupo em trouxa do Cubat&atilde;o. Perdeu um grande pesqueiro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Pl&iacute;nio Marcos (Santos, 1935 - S&atilde;o Paulo, 1999) foi palha&ccedil;o, camel&ocirc;, ator, dramaturgo, diretor e escritor. Al&eacute;m da produ&ccedil;&atilde;o em teatro, que gerou obras-primas como </i>Barrela, Navalha na carne, Dois perdidos numa noite suja, Quer&ocirc;<i>, entre outras, escreveu contos, novelas, reportagens, mem&oacute;rias e cr&ocirc;nicas. Foi traduzido e encenado em franc&ecirc;s, espanhol, ingl&ecirc;s, italiano e alem&atilde;o. Parte de sua obra foi adaptada para cinema e TV. Atualmente, o conjunto de suas obras teatrais est&aacute; sendo preparado para edi&ccedil;&atilde;o de um livro pela Funarte, com organiza&ccedil;&atilde;o e aparato cr&iacute;tico de Alcir P&eacute;cora. </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1a"></a><a href="#1b">1</a>. Termo atualizado; no original de jornal consta "bofunfa".    <br> <a name="2a"></a><a href="#2b">2</a>. Termo atualizado; no original de jornal consta "pro".    <br> <a name="3a"></a><a href="#3b">3</a>. Opta-se nesta cr&ocirc;nica em deixar a express&atilde;o capacete de lata em mai&uacute;scula, por se tratar de nome de personagem; exceto uma das express&otilde;es que j&aacute; se encontrava em mai&uacute;scula, conforme original de jornal, as demais sofrem a atualiza&ccedil;&atilde;o aqui observada.    <br> <a name="4a"></a><a href="#4b">4</a>.  Termo atualizado; no original de jornal consta "chereta".    <br> <a name="5a"></a><a href="#5b">5</a>. Da forma como est&aacute; no original de jornal.</font></p>      ]]></body>
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