<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252017000200004</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602017000200004</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Novas técnicas contra uma antiga ameaça]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Takata]]></surname>
<given-names><![CDATA[Roberto]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>69</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>09</fpage>
<lpage>11</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252017000200004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252017000200004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252017000200004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> FEBRE AMARELA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Novas t&eacute;cnicas contra uma antiga amea&ccedil;a</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Roberto Takata</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A febre amarela &eacute; uma velha conhecida. Provavelmente vinda da &Aacute;frica, o primeiro registro de epidemia da doen&ccedil;a em terras brasileiras foi em Pernambuco em 1685, em um surto que tamb&eacute;m atingiu a Bahia. Entre 1980 e 2016, houve uma m&eacute;dia de 22 casos e 11 mortes por ano no Brasil; enquanto que, em anos de pico, a m&eacute;dia sobe para 52 casos e 21 &oacute;bitos. A alta mortalidade, de 40 a 50%, possivelmente &eacute; um artefato da subnotifica&ccedil;&atilde;o; muitos casos s&atilde;o assintom&aacute;ticos ou produzem apenas uma febre branda, confundida por v&aacute;rias doen&ccedil;as. Estima-se que a mortalidade da febre amarela seja em torno de 10%; enquanto que, na forma grave, onde ocorre insufici&ecirc;ncia renal e hep&aacute;tica e hemorragia, a mortalidade &eacute; de 50%. Os casos da doen&ccedil;a t&ecirc;m sido exclusivamente por contamina&ccedil;&atilde;o com o vetor silvestre, precedidos por mortalidade de macacos em matas pr&oacute;ximas a regi&otilde;es rurais. De 2010 a 2016, a m&eacute;dia anual de apenas 3,4 casos e 1,9 morte apontava para um cen&aacute;rio de controle da doen&ccedil;a. Entretanto, no in&iacute;cio de 2017, configurou-se o maior surto de febre amarela desde o in&iacute;cio da s&eacute;rie hist&oacute;rica: 326 casos confirmados com 105 &oacute;bitos at&eacute; fevereiro deste ano. O que teria provocado esse s&uacute;bito aumento? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez uma falha na cobertura vacinal nas localidades atingidas no estado de Minas Gerais: "Mais de 50% da popula&ccedil;&atilde;o daquela &aacute;rea n&atilde;o tinha recebido a vacina", informa Pedro Tauil, infectologista da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Mauricio Nogueira, concorda: "O pr&oacute;prio Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de j&aacute; havia previsto a expans&atilde;o da febre amarela quando da amplia&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea de recomenda&ccedil;&atilde;o vacinal para o leste mineiro; por&eacute;m esta recomenda&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi acompanhada de uma vacina&ccedil;&atilde;o em larga escala da popula&ccedil;&atilde;o exposta e a&iacute; sim est&aacute; a grande falha". Nogueira prossegue: "Esta popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estava orientada, n&atilde;o tinha a mem&oacute;ria cultural da febre amarela". Por isso: "A popula&ccedil;&atilde;o e os servi&ccedil;os de sa&uacute;de de Minas Gerais n&atilde;o associaram a morte de macacos com a febre amarela e os primeiros casos humanos demoraram para ser identificados", afirma. O problema, para Tauil, est&aacute; na precariedade da infraestrutura dos munic&iacute;pios. "N&atilde;o conhe&ccedil;o nenhum munic&iacute;pio nessa &aacute;rea, por exemplo, que tenha equipes m&oacute;veis de vacina&ccedil;&atilde;o para atender a popula&ccedil;&atilde;o mais vulner&aacute;vel", diz.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DESEQUIL&Iacute;BRIO AMBIENTAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> J&aacute; Fernando Portela C&acirc;mara, epidemiologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que fatores clim&aacute;ticos colaboraram para a aumentar a intensidade do surto. Ele destaca ainda a possibilidade de o desequil&iacute;brio ambiental causado pelo rompimento da barragem da mineradora Samarco/Vale-BHP na regi&atilde;o de Mariana, em novembro de 2015, ter contribu&iacute;do: "h&aacute; uma forte suspeita de que esse desastre tenha for&ccedil;ado a fuga de muitos animais para essas regi&otilde;es de transi&ccedil;&atilde;o", aponta. Macacos infectados teriam se deslocado para &aacute;reas de franja.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Ao circularem entre os macacos e &aacute;reas habitadas por seres humanos, mosquitos transmitiram a doen&ccedil;a para trabalhadores rurais e turistas. "&Eacute; prov&aacute;vel, mas isto n&atilde;o est&aacute; provado", ressalva. Nem todos concordam. "A regi&atilde;o onde est&atilde;o ocorrendo os casos n&atilde;o &eacute; t&atilde;o pr&oacute;xima assim a Mariana", contesta Nogueira. "Mesmo que aumentasse a popula&ccedil;&atilde;o de mosquito - e isso pode ter acontecido - o desastre diminuiu a popula&ccedil;&atilde;o de primatas n&atilde;o humanos na regi&atilde;o", completa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Uma equipe do Instituto Adolfo Lutz, coordenada pelo virologista Renato Pereira de Souza, concluiu que o genoma do v&iacute;rus detectado na regi&atilde;o norte de S&atilde;o Paulo &eacute; muito similar ao v&iacute;rus em circula&ccedil;&atilde;o na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica. Ele acredita que os v&iacute;rus na regi&atilde;o de Minas Gerais e Esp&iacute;rito Santo sejam da mesma linhagem. "No entanto, testes adicionais podem indicar a contribui&ccedil;&atilde;o de outras linhagens, mas isso est&aacute; ainda a ser verificado", afirma Souza. Mas, se os v&iacute;rus circulam a grandes dist&acirc;ncias, por que os padr&otilde;es em surtos, em vez de uma taxa cont&iacute;nua de casos? "Uma das teorias mais em voga seria a disponibilidade de primatas n&atilde;o humanos suscept&iacute;veis para manter a circula&ccedil;&atilde;o enzo&oacute;tica em determinada regi&atilde;o", explica Souza. Isto &eacute;, haveria um per&iacute;odo de lat&ecirc;ncia at&eacute; a recupera&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o de macacos mortos pela febre amarela.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a04fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em 2014, o Laborat&oacute;rio Nacional de Computa&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica, em parceria com a Fiocruz, lan&ccedil;ou uma plataforma online de monitoramento da fauna e zoonoses, o Sistema de Informa&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de Silvestre (SISS-Geo: <a href="http://sissgeo.lncc.br/" target="_blank">http://sissgeo.lncc.br/</a>). Colaboradores fornecem informa&ccedil;&otilde;es sobre comportamentos at&iacute;picos de diversos animais, o que permite gerar alertas antes de alastramento de doen&ccedil;as, inclusive a febre amarela. Por&eacute;m, conforme conta Pereira, quest&otilde;es b&aacute;sicas sobre como os v&iacute;rus realmente s&atilde;o levados a longas dist&acirc;ncias ainda precisam ser resolvidas, como quem efetivamente realiza esse transporte e quais s&atilde;o os par&acirc;metros que precisamos medir para compreender o fen&ocirc;meno. Ele cita tamb&eacute;m a necessidade de integrar n&atilde;o apenas epidemiologistas e virologistas, mas tamb&eacute;m entom&oacute;logos, primat&oacute;logos e climatologistas para responder qual o papel exato dos primatas e da fragmenta&ccedil;&atilde;o ambiental na circula&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus amar&iacute;lico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>INOVA&Ccedil;&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> V&aacute;rias linhas de pesquisa v&ecirc;m sendo desenvolvidas sobre a febre amarela. Uma delas tem como foco novas vacinas. A atual, desenvolvida em 1937, &eacute; considerada segura e eficiente, no entanto, ocorrem rea&ccedil;&otilde;es adversas, ainda que a uma taxa baixa. Nesses oitenta anos, aperfei&ccedil;oamentos foram introduzidos na vacina desenvolvida originalmente por pesquisadores da Funda&ccedil;&atilde;o Rockfeller e produzida no Brasil, pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiol&oacute;gicos (Bio-Manguinhos), da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz). Duas inova&ccedil;&otilde;es foram a introdu&ccedil;&atilde;o de ovos SPF (livre de pat&oacute;genos espec&iacute;ficos, na sigla em ingl&ecirc;s), evitando a contamina&ccedil;&atilde;o da vacina por outros agentes infecciosos durante a multiplica&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus amar&iacute;lico nos embri&otilde;es de galinha, e de subst&acirc;ncias estabilizadoras que permitem estocagem da vacina por um prazo maior. Atualmente, a Bio-Manguinhos pesquisa o desenvolvimento de vacina com v&iacute;rus mortos ou com partes dos v&iacute;rus, a fim de evitar a replica&ccedil;&atilde;o viral nas pessoas vacinadas: a formula&ccedil;&atilde;o atual inclui v&iacute;rus atenuados respons&aacute;veis pela maioria das rea&ccedil;&otilde;es adversas. Uma outra linha de investiga&ccedil;&atilde;o na Fiocruz consiste na libera&ccedil;&atilde;o de mosquitos Aedes aegypti contaminados com a bact&eacute;ria Wolbachia nos quais os v&iacute;rus n&atilde;o conseguem atravessar a parede do intestino e seguir at&eacute; as gl&acirc;ndulas salivares. "Com isso, &eacute; poss&iacute;vel conviver com os mosquitos sem que eles transmitam a febre amarela e outras arboviroses como a zika, chicungunha e dengue", explica Tauil.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Como no Brasil, no ciclo urbano da doen&ccedil;a, o Aedes &eacute; o &uacute;nico transmissor, a febre amarela fica restrita &agrave; forma silvestre, transmitida por mosquitos de copas de &aacute;rvores do g&ecirc;nero Sabethes e Haemogogus. Em projeto piloto em bairros das cidades do Rio de Janeiro e Niter&oacute;i, houve substitui&ccedil;&atilde;o de at&eacute; 80% da popula&ccedil;&atilde;o de mosquito sem a bact&eacute;ria por insetos com a Wolbachia. O pr&oacute;ximo passo &eacute; estudar o impacto epidemiol&oacute;gico, isto &eacute;, se haver&aacute; redu&ccedil;&atilde;o da incid&ecirc;ncia de arboviroses.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Atualmente, o tratamento dos pacientes acometidos pela febre amarela &eacute; apenas sintom&aacute;tico, no entanto, rem&eacute;dios mais espec&iacute;ficos est&atilde;o sendo pesquisados. De acordo com Andr&eacute; Siqueira, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, h&aacute; estudos com antivirais ou para desenvolver medicamentos que modulam a resposta inflamat&oacute;ria. "No entanto, apesar de mostrarem a&ccedil;&atilde;o em modelos experimentais, n&atilde;o foram feitos estudos em pessoas infectadas", diz. Al&eacute;m das pesquisas com novos medicamentos, o infectologista acredita que seja necess&aacute;rio o desenvolvimento de testes sorol&oacute;gicos mais eficientes: "Os testes r&aacute;pidos, que dispensem t&eacute;cnicas laboratoriais trabalhosas, apresentam grandes vantagens para o manejo adequado dos casos".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DEVER DE CASA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> As inova&ccedil;&otilde;es e novos conhecimentos certamente ajudar&atilde;o no enfrentamento da doen&ccedil;a no futuro pr&oacute;ximo. Por&eacute;m, Pedro Tauil destaca: "&Eacute; uma doen&ccedil;a evit&aacute;vel por meio de um instrumento muito eficaz e bastante seguro, a vacina. Ela deve ser aplicada n&atilde;o s&oacute; nas &eacute;pocas de crise, mas deve estar na rotina vacinal de toda popula&ccedil;&atilde;o exposta ao risco de adquirir a doen&ccedil;a, das pessoas que vivem ou se deslocam para as &aacute;reas rurais onde h&aacute; circula&ccedil;&atilde;o do v&iacute;rus entre macacos e alguns outros animais", finaliza.</font></p>      ]]></body>
</article>
