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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> CACAU NO BRASIL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma oportunidade que (ainda) n&atilde;o se concretizou</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a05fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De um dos maiores produtores e exportadores de cacau do mundo, hoje o pa&iacute;s ocupa o quinto lugar, tendo que importar o fruto para suprir a produ&ccedil;&atilde;o nacional de chocolate. No entanto, nos &uacute;ltimos anos, pesquisas para melhoramento das sementes sinalizam para a recupera&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o nacional.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESPERAN&Ccedil;A DE RIQUEZA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No Brasil, oficialmente, o cultivo do cacau come&ccedil;ou em 1679, com a autoriza&ccedil;&atilde;o na Carta R&eacute;gia para os colonizadores plant&aacute;-lo em suas terras. Caio Prado J&uacute;nior, no livro <i>Hist&oacute;ria econ&ocirc;mica do Brasil</i> (1945), aponta que j&aacute; no s&eacute;culo XVII, durante o per&iacute;odo colonial, o cacau se destacava como a maior fonte de riqueza do vale amaz&ocirc;nico. No entanto, ali o cultivo do cacaueiro se dava em pequena escala porque a maior parte das sementes era obtida em &aacute;rvores espalhadas na floresta. Em 1746, um agricultor baiano, Antonio Dias Ribeiro, recebeu de um colonizador franc&ecirc;s do Par&aacute;, Louis Frederic Warneaux, algumas sementes de cacau da variedade Amelonado e introduziu o cultivo no estado. A planta se adaptou bem ao clima e ao solo do sul da Bahia e a regi&atilde;o, pouco a pouco, passou a dominar a produ&ccedil;&atilde;o nacional. De 1900 a 1930, a participa&ccedil;&atilde;o do cacau nas exporta&ccedil;&otilde;es da Bahia passou de 23% para 43% e a produ&ccedil;&atilde;o brasileira, 95% constitu&iacute;da de cacau baiano, passou de 13 mil para 120 toneladas no mesmo per&iacute;odo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VARRENDO ESPERAN&Ccedil;AS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mesmo com a concorr&ecirc;ncia internacional, tudo parecia ir bem para o cacau da Bahia. Fazendeiros de origem humilde, propriet&aacute;rios de vastas planta&ccedil;&otilde;es de cacau, tornaram-se os novos ricos da sociedade baiana. O sul da Bahia, especialmente a microrregi&atilde;o de Ilh&eacute;us e Itabuna, composta por 41 munic&iacute;pios, conheceu d&eacute;cadas de prosperidade. O cacau tornou-se um &iacute;cone e inspirou a literatura, principalmente, com autores como Jorge Amado e Adonias Filho, e a cultura de modo geral. Na d&eacute;cada de 1980 o Brasil respondia pela segunda maior produ&ccedil;&atilde;o mundial, atr&aacute;s apenas da Costa do Marfim, chegando a alcan&ccedil;ar cerca de 406 mil toneladas na safra de 1984/1985. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, na d&eacute;cada de 1990, o fungo<i> Moniliophthora perniciosa</i>, que causa uma doen&ccedil;a conhecida como vassoura-de-bruxa, afetou duramente as lavouras de cacau, fazendo a produ&ccedil;&atilde;o despencar de 356.327 toneladas na safra 1990/1991 para 96.039 toneladas na safra de 1999/2000, segundo dados do IBGE.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Essa doen&ccedil;a, que afeta outras plantas como o cupua&ccedil;uzeiro, &eacute; end&ecirc;mica na Amaz&ocirc;nia, origem do cacaueiro. Mas, enquanto na Amaz&ocirc;nia os cacaueiros silvestres est&atilde;o dispersos e as condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas n&atilde;o favorecem a multiplica&ccedil;&atilde;o do fungo, no sul da Bahia, com plantas muito pr&oacute;ximas uma das outras e com condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas favor&aacute;veis, o fungo se alastrou rapidamente. Muitas s&atilde;o as hip&oacute;teses para a r&aacute;pida dissemina&ccedil;&atilde;o da vassoura-de-bruxa. No livro <i>A regi&atilde;o cacaueira da Bahia - dos coron&eacute;is &agrave; vassoura-de-bruxa: saga, percep&ccedil;&atilde;o, representa&ccedil;&atilde;o</i> (2008), a ge&oacute;grafa Lurdes Bertol Rocha discute essas hip&oacute;teses com riqueza de dados. Elas v&atilde;o desde uma infesta&ccedil;&atilde;o acidental, devido ao constante tr&acirc;nsito entre os t&eacute;cnicos da Comiss&atilde;o Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) de Ilh&eacute;us e da Amaz&ocirc;nia, que teriam trazido am&ecirc;ndoas e mudas de cacau que poderiam estar infectadas, at&eacute; sabotagem para deter os chamados bar&otilde;es do cacau.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Mais recentemente, a&ccedil;&otilde;es conduzidas por t&eacute;cnicos da Ceplac t&ecirc;m permitido a retomada da produ&ccedil;&atilde;o. Dados do Levantamento Sistem&aacute;tico da Produ&ccedil;&atilde;o Agr&iacute;cola, do IBGE, apontam que a produ&ccedil;&atilde;o de cacau no Brasil em 2016 atingiu 214.741 toneladas, dos quais 116.122 toneladas provenientes da Bahia. Infelizmente, e de acordo com a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional das Ind&uacute;strias Processadoras de Cacau (AIPC), essa produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o atendeu a demanda da ind&uacute;stria, exigindo a importa&ccedil;&atilde;o de 57 mil toneladas de cacau de Gana, &uacute;nico pa&iacute;s do qual o Minist&eacute;rio da Agricultura, Pecu&aacute;ria e Abastecimento (Mapa) permite a importa&ccedil;&atilde;o. Ou seja, voltamos a importar aquilo que dever&iacute;amos exportar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOVOS CEN&Aacute;RIOS, BOAS PERSPECTIVAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos esfor&ccedil;os t&ecirc;m sido feitos para mudar esse cen&aacute;rio e o cacau voltar a ocupar um papel relevante na economia brasileira. Antes concentrada, hoje h&aacute; produ&ccedil;&atilde;o em seis estados brasileiros. Dados da Confedera&ccedil;&atilde;o da Agricultura e Pecu&aacute;ria do Brasil (CNA) apontam que 66 mil propriedades rurais no pa&iacute;s se dedicam &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de cacau, 33 mil delas no sul da Bahia, maior estado produtor, seguido do Par&aacute;. Novas t&eacute;cnicas de plantio e melhoramento das sementes possibilitam produzir um cacau de melhor qualidade, tecnologias acess&iacute;veis inclusive para os pequenos agricultores. Outra mudan&ccedil;a &eacute; a tentativa de agregar valor ao cacau, na regi&atilde;o de Ilh&eacute;us, por exemplo, j&aacute; existem f&aacute;bricas de chocolate dentro das fazendas. No Centro de Desenvolvimento e Capacita&ccedil;&atilde;o Tecnol&oacute;gica Euclides Teixeira Neto, da Ceplac (BA), foi instalada uma f&aacute;brica de achocolatado que atua em regime de cooperativa e o produto &eacute; vendido para a merenda escolar de munic&iacute;pios da Bahia. O cultivo de cacau org&acirc;nico, sem agrot&oacute;xicos e em sistema de cabruca, tamb&eacute;m tem contribu&iacute;do para valorizar a produ&ccedil;&atilde;o, principalmente de pequenos produtores. Nesse sistema, o cacau &eacute; plantado sombreado por &aacute;rvores da Mata Atl&acirc;ntica, o que garante umidade e mat&eacute;ria org&acirc;nica para a planta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Em outra ponta, pesquisas desenvolvidas em parceria com institui&ccedil;&otilde;es fora do eixo de produ&ccedil;&atilde;o de cacau est&atilde;o permitindo compreender o comportamento da planta fora do seu centro de origem. Neste sentido, destaca-se a pesquisa inovadora sobre a estrutura gen&eacute;tica e a diversidade molecular do chamado "cacau da Bahia". Este termo se aplica a um conjunto de variedades locais desenvolvidas nos &uacute;ltimos dois s&eacute;culos e que envolve as variedades Amelonado, trazida do Par&aacute; no s&eacute;culo XVIII, Maranh&atilde;o, introduzida em 1874, e Par&aacute;, introduzida em 1876, bem como suas muta&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas. O estudo, que envolveu pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), Instituto Federal de Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia e Tecnologia Baiano (IF Baiano), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Ceplac, buscava encontrar a raz&atilde;o da baixa resist&ecirc;ncia do cacau da Bahia &agrave; vassoura-de-bruxa para torn&aacute;-lo mais resistente ao fungo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a05fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Descobriu-se que a base gen&eacute;tica do cacau da Bahia &eacute; muito estreita; praticamente todos os cacaueiros baianos t&ecirc;m a sua origem em sementes da variedade Amelonado, trazida por Warneaux h&aacute; mais de 270 anos. Essa baixa diversidade gen&eacute;tica permitiu obter frutos de alta qualidade, mas conferiu fragilidade aos cacaueiros do sul da Bahia, por aus&ecirc;ncia de variedades que pudessem resistir a uma doen&ccedil;a, no caso a vassoura-de-bruxa. O estudo ainda permitiu constatar que os h&iacute;bridos desenvolvidos nos anos 1950 e 1960 (e cultivados at&eacute; hoje), em vez de aumentarem a varia&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica na popula&ccedil;&atilde;o cacaueira, acabaram por reduzi-la ainda mais, j&aacute; que tamb&eacute;m foram produzidos com base apenas na qualidade do cacau. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas as perspectivas s&atilde;o muito boas. Esse estudo aprofundado envolveu a an&aacute;lise de folhas de 279 cacaueiros de sete fazendas e duas institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa (o IF Baiano e a Ceplac), localizados em seis munic&iacute;pios do sul da Bahia (Gandu, Igrapi&uacute;na, Uru&ccedil;uca, Ilh&eacute;us, Camacan e Canavieiras). Gra&ccedil;as a isso foi poss&iacute;vel identificar tamb&eacute;m &aacute;rvores resistentes &agrave; doen&ccedil;a e com maior varia&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica que aquela encontrada nos h&iacute;bridos atualmente existentes. Isso propiciar&aacute; o desenvolvimento de programas de melhoramento gen&eacute;tico de cacau que permitam obter plantas resistentes &agrave; vassoura-de-bruxa e a outras doen&ccedil;as, bem como a obten&ccedil;&atilde;o de plantas mais resistentes &agrave;s secas que por vezes tamb&eacute;m afetam os cacaueiros baianos.</font></p>     ]]></body>
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