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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> FILOSOFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Realidade ou simula&ccedil;&atilde;o?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vict&oacute;ria Fl&oacute;rio</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em suas cl&aacute;ssicas reflex&otilde;es filos&oacute;ficas, Ren&eacute; Descartes fala sobre um g&ecirc;nio maligno que, para nos ludibriar, se dedica a simular a realidade em que vivemos em seus m&iacute;nimos detalhes. O fil&oacute;sofo explora, atrav&eacute;s da met&aacute;fora, que aparece em suas <i>Medita&ccedil;&otilde;es sobre a filosofia primeira</i>, em 1641, a ideia de que n&atilde;o existem garantias de que aquilo que pensamos sobre a realidade seja, de fato, real. A reinterpreta&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea desse g&ecirc;nio maligno se expressa na fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do fim da d&eacute;cada de 1990, em filmes como <i>13º andar</i> (1999), na trilogia <i>Matrix</i>, e, j&aacute; na primeira d&eacute;cada do s&eacute;culo XXI, em epis&oacute;dios da s&eacute;rie brit&acirc;nica <i>Black mirror</i>. A possibilidade de que a realidade seja simulada por um programa de computador, como no cinema, come&ccedil;ou a receber maior aten&ccedil;&atilde;o quando o fil&oacute;sofo sueco Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, publicou a s&eacute;rie de tr&ecirc;s hip&oacute;teses conhecidas como <i>argumento da simula&ccedil;&atilde;o</i>, em 2003. No ano passado o assunto foi tema do Isaac Asimov Memorial Debate, do qual participaram os f&iacute;sicos te&oacute;ricos James Gates, Universidade de Maryland, Lisa Randall, Harvard, o cosm&oacute;logo Max Tegmark, a f&iacute;sica Zohreh Davoudi, ambos do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e o fil&oacute;sofo David Chalmers, da Universidade de Nova York. Anualmente organizado pelo Museu de Hist&oacute;ria Natural, em Nova Iorque, o debate foi mediado por Neil de-Grasse Tyson, um dos mais famosos astrof&iacute;sicos da atualidade. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Interessado nas implica&ccedil;&otilde;es do desenvolvimento da tecnologia, especialmente na capacidade de simular consci&ecirc;ncia, Nick Bostrom prop&ocirc;s, em 2001, a primeira vers&atilde;o do argumento da simula&ccedil;&atilde;o. O "Voc&ecirc; est&aacute; vivendo em uma simula&ccedil;&atilde;o computacional?", publicado em 2003 na revista <i>Philosophical Quarterly,</i> traz as tr&ecirc;s hip&oacute;teses que comp&otilde;e o argumento: 1. As civiliza&ccedil;&otilde;es humanas t&ecirc;m grandes chances de se extinguir antes de atingir a maturidade tecnol&oacute;gica; 2. As civiliza&ccedil;&otilde;es que atingiram a maturidade tecnol&oacute;gica perderam o interesse em criar realidades simuladas; 3. Estamos em uma simula&ccedil;&atilde;o computacional (esta &uacute;ltima &eacute; a hip&oacute;tese da simula&ccedil;&atilde;o).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a21fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REALIDADES EM CAMADAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> No universo descrito no filme <i>13º andar</i>, cientistas come&ccedil;am a simular mentes conscientes. A trama se desenvolve de maneira tal que eles percebem que tamb&eacute;m est&atilde;o dentro de uma simula&ccedil;&atilde;o. Ou seja, h&aacute; uma rede de simula&ccedil;&otilde;es sucessivas em que as mentes est&atilde;o aprisionadas dentro do computador. Para Bostrom, esse &eacute; exatamente o ponto da terceira hip&oacute;tese, ou seja, um futuro onde come&ccedil;amos a rodar milhares de simula&ccedil;&otilde;es de seres conscientes, que, um dia, tamb&eacute;m come&ccedil;am a rodar suas pr&oacute;prias simula&ccedil;&otilde;es. Se um daqueles seres da simula&ccedil;&atilde;o rodada por n&oacute;s se fizer essa mesma pergunta: "Ei, estou dentro de uma simula&ccedil;&atilde;o?", ent&atilde;o, estatisticamente, faz mais sentido ele se ver como uma das milhares de mentes simuladas do que parte da civiliza&ccedil;&atilde;o que originalmente come&ccedil;ou a rodar simula&ccedil;&otilde;es, a biol&oacute;gica (no caso n&oacute;s). O cosm&oacute;logo e astrof&iacute;sico brit&acirc;nico, Martin Rees, j&aacute; fez previs&otilde;es apocal&iacute;pticas sobre um futuro cheio de desastres em "Our final century: will civilization survive the 21th century?". Para ele, vamos nos extinguir antes de atingir a maturidade tecnol&oacute;gica, o que corrobora a primeira hip&oacute;tese do argumento de Bostrom, ou seja, nunca chegar&iacute;amos a simular consci&ecirc;ncias. J&aacute; a f&iacute;sica te&oacute;rica Lisa Randall n&atilde;o acredita que a terceira hip&oacute;tese seja verdadeira porque, para ela, n&atilde;o haver&aacute;, no futuro, interesse em simular consci&ecirc;ncias, e, portanto, o argumento estat&iacute;stico n&atilde;o faz muito sentido. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No MIT, a f&iacute;sica Zohreh Davoudi tenta obter evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas de que existe algu&eacute;m rodando uma simula&ccedil;&atilde;o da nossa realidade. Para isso ela busca pistas do fim do mundo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Davoudi desenvolve simula&ccedil;&otilde;es que identificaram assimetrias no movimento e colis&otilde;es de part&iacute;culas elementares - part&iacute;culas fundamentais da mat&eacute;ria. O alto custo computacional dessas simula&ccedil;&otilde;es exige que, dentro delas, as leis da f&iacute;sica sejam colocadas em um volume finito, um mundo com um fim bem definido. Para a f&iacute;sica do MIT, caso existisse algu&eacute;m rodando uma simula&ccedil;&atilde;o do nosso universo, iria fatalmente se deparar com o problema de custo computacional. Por isso, se ela encontrar na assinatura dos raios c&oacute;smicos - part&iacute;culas de alta energia que chegam &agrave; Terra vindas de fora do sistema solar - o mesmo tipo de assimetrias presentes em suas simula&ccedil;&otilde;es, no laborat&oacute;rio, estaria mostrando que o espa&ccedil;o-tempo n&atilde;o &eacute; cont&iacute;nuo, mas discreto, finito, um ind&iacute;cio de que tem algu&eacute;m rodando uma simula&ccedil;&atilde;o deste universo. Quer dizer, se h&aacute; um fim do mundo, ele nos mostra que o mundo n&atilde;o &eacute; t&atilde;o real como pensamos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AL&Eacute;M DA REALIDADE?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Como nos video-games, o grau de compatibilidade entre nosso mundo e o virtual &eacute; cada vez maior. Bostrom argumenta que historiadores do futuro, por exemplo, poderiam tentar usar simula&ccedil;&otilde;es para estudar o passado. Da mesma forma que Bostron, Elon Musk, criador das empresas Space-X e Tesla Motors, n&atilde;o descarta a possibilidade de vivermos em uma simula&ccedil;&atilde;o. Em entrevista para o jornal <i>The Guardian</i>, em 2016, ele afirmou: "H&aacute; 40 anos t&iacute;nhamos o jogo de videogame Pong, algo muito simples, com dois ret&acirc;ngulos e um ponto, mas que foi o primeiro jogo lucrativo. Isso &eacute; onde est&aacute;vamos. Agora temos simula&ccedil;&otilde;es super realistas, que melhoram a cada ano, com milh&otilde;es de pessoas jogando simultaneamente. Logo teremos realidade virtual, realidade aumentada. Seja qual for a taxa de melhorias que voc&ecirc; assumir, os video-games v&atilde;o se tornar indistingu&iacute;veis da realidade", declarou. Para Musk e Bostrom, portanto, a probabilidade de que, um dia, simularemos mentes conscientes n&atilde;o &eacute; desprez&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Reinterpretada pelas ci&ecirc;ncias cognitivas, a quest&atilde;o sobre a exist&ecirc;ncia da realidade passa a ser uma discuss&atilde;o sobre a percep&ccedil;&atilde;o do que &eacute; real. Recentemente, o professor de ci&ecirc;ncias cognitivas da Universidade da Calif&oacute;rnia, David Hoffman, declarou &agrave; revista <i>The Atlantic</i> que o mundo que se apresenta para n&oacute;s, atrav&eacute;s da percep&ccedil;&atilde;o de sons, cheiros, texturas, sabores etc., n&atilde;o se parece em nada com a realidade: "O mundo que conhecemos &eacute; a melhor aposta do c&eacute;rebro para o que o mundo realmente &eacute;, um tipo de simula&ccedil;&atilde;o interna de uma realidade externa". Para o pesquisador, essa &eacute; uma caracter&iacute;stica que devemos &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o porque &eacute; ela quem maximiza a adequa&ccedil;&atilde;o de qualquer caracter&iacute;stica animal, condenando &agrave; extin&ccedil;&atilde;o os seres que enxergam a realidade de forma mais veross&iacute;mil. Extremamente complexo, a hip&oacute;tese da simula&ccedil;&atilde;o envolve diversas &aacute;reas de conhecimento, desde filosofia, teoria da mente, at&eacute; f&iacute;sica e mec&acirc;nica qu&acirc;ntica. Respostas ainda n&atilde;o s&atilde;o parte da nossa realidade, seja ela simulada ou n&atilde;o. Pragm&aacute;tico, o cosm&oacute;logo do MIT, Max Tegmark, fez a seguinte afirma&ccedil;&atilde;o: por ora, o importante "&eacute; ir l&aacute; fora e fazer coisas realmente interessantes, de forma que os simuladores n&atilde;o te desliguem".</font></p>      ]]></body>
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