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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> PSICOLOGIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Medicaliza&ccedil;&atilde;o, toler&acirc;ncia e o silenciamento da dor</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seu relat&oacute;rio de 2016, a Junta Internacional de Fiscaliza&ccedil;&atilde;o de Entorpecentes (Jife), ligada &agrave; Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), traz dados alarmantes sobre o consumo de analg&eacute;sicos, especialmente aqueles fabricados a partir de opioides. Em 2014, nos Estados Unidos, por exemplo, houve mais de 18 mil mortes devido &agrave; overdose com esse tipo de medicamentos, os quais precisam de receita m&eacute;dica para serem comprados. No mesmo per&iacute;odo, houve 10 mil mortes por overdose com hero&iacute;na.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Diante do crescimento do consumo desenfreado, &eacute; necess&aacute;ria uma reflex&atilde;o sobre as circunst&acirc;ncias em que essas drogas devem ser administradas. Estamos menos tolerantes &agrave; dor? Diante de um cen&aacute;rio j&aacute; diagnosticado como epidemia de overdose, v&aacute;rios estados norte-americanos v&ecirc;m estabelecendo programas de vigil&acirc;ncia dos rem&eacute;dios vendidos com receita, incluindo a capacita&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos sobre a prescri&ccedil;&atilde;o correta de opioides. Outra medida foi incluir na bula dessa classe de analg&eacute;sicos informa&ccedil;&otilde;es sobre a gravidade dos riscos advindos do uso indevido, entre eles, o v&iacute;cio e a overdose.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a22fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> De acordo com a Associa&ccedil;&atilde;o Internacional para o Estudo da Dor (Iasp), dor &eacute; uma experi&ecirc;ncia sensorial e emocional associada a uma les&atilde;o real ou potencial dos tecidos ou descrita em termos de tal les&atilde;o. Desencadeada quimicamente e transmitida para o c&eacute;rebro sob a forma de impulsos el&eacute;tricos, a dor envolve mais do que aspectos f&iacute;sicos, como fatores ambientais, culturais, hist&oacute;ricos e pessoais que se entrela&ccedil;am e determinam a sensa&ccedil;&atilde;o de dor. "Desde tempos imemoriais a dor &eacute; um sentimento desagrad&aacute;vel do qual os seres humanos tentam escapar", conta Andrea Golfarb Portnoi, psicoterapeuta, coordenadora do Departamento Cient&iacute;fico de Sa&uacute;de Mental e Dor na Sociedade Brasileira de Estudos da Dor (Sbed).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "O homem primitivo acreditava que a dor era causada por maus esp&iacute;ritos, os eg&iacute;pcios pensavam que o homem sentia dor quando esp&iacute;ritos dos mortos entravam no corpo dos vivos. Da&iacute; a pr&aacute;tica de sangrias para expulsar o esp&iacute;rito. A dor continua sendo percebida como algo ruim, mas hoje temos meios diversificados e acess&iacute;veis para escapar dela e, nesse sentido, os analg&eacute;sicos s&atilde;o fundamentais", acredita.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PERIGO AO ALCANCE DA PRATELEIRA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existem dois tipos de analg&eacute;sicos, os simples, que podem ser comprados sem receita m&eacute;dica, e os opioides, mais usados em casos de dor aguda e em alguns tipos de dor cr&ocirc;nica. Nenhum &eacute; 100% seguro. Mesmo os analg&eacute;sicos simples, quando consumidos por mais de sete dias podem provocar &uacute;lceras g&aacute;stricas, nefropatia e insufici&ecirc;ncia renal. Em um estudo mais recente, publicado em mar&ccedil;o deste ano no <i>European Heart Journal</i>, pesquisadores da Universidade Hospital Gentofte, na Dinamarca, afirmam que o uso de diclofenaco e ibuprofeno, dois dos mais populares analg&eacute;sicos e anti-inflamat&oacute;rios, aumenta em mais de 30% o risco de infarto. Utilizados para combater um espectro amplo de dores, desde enxaqueca at&eacute; inflama&ccedil;&otilde;es, esses medicamentos podem ser comprados sem receita m&eacute;dica e est&atilde;o entre os mais consumidos em todo o mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Para o professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Rog&eacute;rio Paes Henriques, a ampla oferta de medicamentos analg&eacute;sicos &eacute; parte de um cen&aacute;rio de medicaliza&ccedil;&atilde;o intensa. Em texto publicado na <i>Revista Mal-Estar e Subjetividade</i> (v.XII, no. 3-4, 2012), ele explicou que isso significa uma extens&atilde;o crescente da jurisdi&ccedil;&atilde;o m&eacute;dica - sua autoridade e suas pr&aacute;ticas - na vida das pessoas. Disso resulta, entre outros, na convers&atilde;o direta de problemas sociais e morais em doen&ccedil;as. Al&eacute;m disso, de acordo com Henriques, o capitalismo entrou no setor de sa&uacute;de, transformando doentes leigos e passivos em indiv&iacute;duos consumidores ativos de bens e servi&ccedil;os biom&eacute;dicos, respons&aacute;veis por seu pr&oacute;prio bem-estar. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Portnoi, que j&aacute; investigou a percep&ccedil;&atilde;o de dor em doentes com fibromialgia, nosso corpo possui um sistema opioide end&oacute;geno, respons&aacute;vel pela produ&ccedil;&atilde;o de endorfinas cuja a&ccedil;&atilde;o se parece com a da morfina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A ativa&ccedil;&atilde;o desse sistema &eacute; influenciada por fatores socioculturais, cognitivos e emocionais, que podem atenuar ou ampliar a dor percebida", diz. Entre os fatores socioculturais pode-se citar a grande oferta de analg&eacute;sicos e a intensa propaganda da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica endere&ccedil;ada aos consumidores e n&atilde;o aos m&eacute;dicos. "A facilidade de acesso a esses medicamentos certamente estimula seu consumo", afirma Portnoi. "No entanto, em uma cultura altamente medicalizada como a nossa, as pessoas t&ecirc;m mais conhecimento sobre o mecanismo dos rem&eacute;dios, mas n&atilde;o sobre poss&iacute;veis intera&ccedil;&otilde;es com outros medicamentos ou sobre rea&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas em seu organismo", pontua. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A forma como damos sentido ao sofrimento &eacute; hist&oacute;rica. Esse &eacute; outro aspecto importante mencionado pela psicoterapeuta: "Antes as pessoas queriam saber de onde vinha a dor, encontrar um significado para ela. Se o sujeito tinha uma dor de cabe&ccedil;a ele se perguntava se era porque tinha comido algo diferente, se era porque tinha dormido mal etc. Hoje n&atilde;o h&aacute; mais essa preocupa&ccedil;&atilde;o", explica. Mas a dor &eacute;, na verdade, parte de um sistema de prote&ccedil;&atilde;o, um alarme. Esse aspecto, entretanto, tem sido deixado de lado, em favor de um tipo de silenciamento r&aacute;pido da sensa&ccedil;&atilde;o de dor, como se ela fosse um mal em si mesma que deve eliminado rapidamente, um sofrimento in&uacute;til.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MAL (DES) NECESS&Aacute;RIO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Um dos exemplos mais significativos de como o fator cultural determina a toler&acirc;ncia &agrave; dor &eacute; o caso da dor do parto. Um estudo de um grupo de enfermeiros obstetras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), apresentado em 2013 no Semin&aacute;rio Nacional de Pesquisas em Enfermagem, mostrou que aspectos psicossociais e culturais exercem demasiada influ&ecirc;ncia na maneira como as mulheres experimentam a dor no parto. Segundo afirmaram Octavio Muniz da Costa Vargens e colaboradores, no Brasil, o modelo biom&eacute;dico aborda o ciclo grav&iacute;dico como uma condi&ccedil;&atilde;o externa &agrave; fisiologia da mulher, um processo que precisa de interven&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n2/a22fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "Segundo a perspectiva do modelo tecnocr&aacute;tico medicalizado, a mulher n&atilde;o &eacute; detentora do poder ou da capacidade de parir. Ela &eacute; entendida como portadora de um corpo imperfeito e incapaz de dar &agrave; luz, necessitando, portanto, de um profissional que intervenha nesse processo", afirmaram. Por essa raz&atilde;o, a medicaliza&ccedil;&atilde;o exerce influ&ecirc;ncia na ressignifica&ccedil;&atilde;o da dor no parto, que passa a ser um problema a ser abolido, um tipo de sofrimento in&uacute;til. No entanto, para esses pesquisadores, quando s&atilde;o adotadas posturas n&atilde;o invasivas, em um modelo desmedicalizado no cuidado feminino, abrem-se possibilidades para ressignifica&ccedil;&otilde;es da dor como um sofrimento real e necess&aacute;rio, que faz parte de uma enorme transi&ccedil;&atilde;o do corpo e da vida da mulher, a chegada de seus filhos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A mesma ideia do sofrimento in&uacute;til pode ser aplicada ao sofrimento ps&iacute;quico. Conforme explica o professor do Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Jonatas Ferreira, em artigo publicado em 2014 (<i>Forum Sociol&oacute;gico</i>, 24), por essa abordagem o sintoma &eacute; a pr&oacute;pria doen&ccedil;a e a interven&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica - com medicamentos - toma a frente do tratamento psicanal&iacute;tico, que se traduz em uma terap&ecirc;utica pela palavra que busca dar sentido ao sofrimento existencial. "A consequ&ecirc;ncia mais radical desse silenciamento &eacute; o emudecimento da dor que se transforma apenas em um conjunto de sintomas, objeto de tratamento bioqu&iacute;mico", afirmou. Para ele, essa postura a favor de uma analgesia &eacute; compat&iacute;vel com a cultura do consumo, do gozo superficial. "A inconveni&ecirc;ncia da depress&atilde;o, da melancolia no mundo contempor&acirc;neo lan&ccedil;a uma luz sobre as estat&iacute;sticas de consumo de medicamentos psicoativos", escreveu.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PSICOFARMACOLOGIA COSM&Eacute;TICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Segundo Henriques, enquanto aumenta a medicaliza&ccedil;&atilde;o para tratar desconfortos ps&iacute;quicos, diminui o limiar de toler&acirc;ncia aos sofrimentos habituais, ao mal-estar existencial, inaugurando o que ele chama de "psicofarmacologia cosm&eacute;tica", que silencia a escuta da exist&ecirc;ncia e da hist&oacute;ria do sujeito. Se em seus prim&oacute;rdios, a psicofarmacologia devolveu ao homem seu quinh&atilde;o de liberdade, quando medicamentos neurol&eacute;pticos (ou antipsic&oacute;ticos) possibilitaram a ressocializa&ccedil;&atilde;o dos classificados como loucos ou quando antidepressivos ajudaram neur&oacute;ticos a superar momentos de crise, mais recentemente, no entanto, ela "encerrou o sujeito em uma nova aliena&ccedil;&atilde;o ao pretender cur&aacute;-lo da pr&oacute;pria ess&ecirc;ncia da condi&ccedil;&atilde;o humana, ao prometer o fim da vulnerabilidade e da imperfei&ccedil;&atilde;o", afirmou.</font></p>      ]]></body>
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