<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252017000400002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602017000400002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Órfãos de Jeffrey Beall: revistas predatórias e outras iniciativas igualmente perniciosas para a pesquisa e para a pós-graduação]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ronaldo Lopes]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal da Bahia Departamento de Zootecnia ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2017</year>
</pub-date>
<volume>69</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>4</fpage>
<lpage>5</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252017000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252017000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252017000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>&Oacute;rf&atilde;os de Jeffrey Beall -  revistas predat&oacute;rias e outras iniciativas igualmente perniciosas para a pesquisa</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ronaldo Lopes Oliveira </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Docente do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e coordenador de Ensino de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o (PROPG) da institui&ccedil;&atilde;o. Contato: <a href="mailto:ronaldooliveira@ufba.br">ronaldooliveira@ufba.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> E m 2008, Jeffrey Beall, bibliotec&aacute;rio na Auraria Library e professor associado na Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, iniciou uma trilha em busca de respostas para a origem de intrigantes mensagens eletr&ocirc;nicas que recebia constantemente em sua caixa de <i>spam</i>. A maioria dessas mensagens eram convites para que publicasse artigos ou compusesse o corpo editorial de supostas novas revistas cient&iacute;ficas &#91;1&#93;. Motivado a descobrir que tipo de institui&ccedil;&atilde;o enviava tais convites, Beall passou a acessar os sites indicados nas mensagens eletr&ocirc;nicas, identificando que a maioria dessas revistas possivelmente n&atilde;o era exatamente aquilo que dizia ser - e o interesse por tr&aacute;s dos convites realizados era o pagamento das taxas de publica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De 2011 a 2017, Beall dedicou-se a prestar um importante servi&ccedil;o &agrave; comunidade cient&iacute;fica mundial: a publica&ccedil;&atilde;o de uma lista com os nomes de revistas e corpora&ccedil;&otilde;es consideradas predat&oacute;rias, express&atilde;o que ele mesmo cunhou &#91;2&#93;. Criada e atualizada por meio de suas pesquisas e de den&uacute;ncias realizadas por cientistas de todo o mundo, a chamada "Lista de Beall" logo se tornou refer&ecirc;ncia mundial sobre o tema, sendo disponibilizada em seu blog (<a href="https://scholarlyoa.com/" target="_blank">https://scholarlyoa.com/</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em janeiro deste ano, entretanto, o conte&uacute;do integral do blog foi retirado do ar - e o mesmo aconteceu com a sua p&aacute;gina web no site da Universidade do Colorado. Especula&ccedil;&otilde;es sobre o motivo do "sumi&ccedil;o" dos conte&uacute;dos &agrave; parte, o fato &eacute; que a lista - cuja sistematiza&ccedil;&atilde;o de dados, em janeiro, arrolava mais de 1100 editoras e quase 1300 revistas predat&oacute;rias - deixou de existir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A sua &uacute;ltima atualiza&ccedil;&atilde;o foi publicada em 3 de janeiro de 2017 e, naquela semana, fiz uma compila&ccedil;&atilde;o dos novos dados, que indicam que a preda&ccedil;&atilde;o vem se acentuando.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um crescimento acentuado no n&uacute;mero desse tipo de publica&ccedil;&atilde;o, que segue a l&oacute;gica de "pagou, publicou", pode ser observado depois que a pol&iacute;tica <i>open access</i> ganhou for&ccedil;a. As publica&ccedil;&otilde;es de acesso livre t&ecirc;m na sua g&ecirc;nese o objetivo de democratizar as publica&ccedil;&otilde;es de artigos de qualidade, avaliados criteriosamente com todo rigor cient&iacute;fico. O custeio no sistema <i>open access</i> oficial se d&aacute; pelo pagamento de taxas de publica&ccedil;&atilde;o pelos autores, institui&ccedil;&otilde;es ou ag&ecirc;ncias financiadoras. Entretanto, as revistas e editoras predat&oacute;rias se disfar&ccedil;am de <i>open access</i> e cobram taxas para publicar, rapidamente e com pouco rigor anal&iacute;tico, artigos com qualidade duvidosa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas corpora&ccedil;&otilde;es lan&ccedil;am m&atilde;o de algumas estrat&eacute;gias para atrair pesquisadores &aacute;vidos e pressionados por publicarem seus <i>papers</i>, especialmente em revistas internacionais, como:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a) envio de lotes de e-mails com convite para submiss&atilde;o de artigos; b) taxa de aceita&ccedil;&atilde;o muito elevada; c) publica&ccedil;&atilde;o extremamente r&aacute;pida; d) exig&ecirc;ncia de transfer&ecirc;ncia de direitos autorais antes da aceita&ccedil;&atilde;o; e) limita&ccedil;&atilde;o na supervis&atilde;o ou editora&ccedil;&atilde;o; f) revis&atilde;o por pares deficiente ou inexistente; g) alega&ccedil;&otilde;es falsas sobre indexa&ccedil;&atilde;o e fator de impacto; h) inser&ccedil;&atilde;o de nomes no corpo editorial sem autoriza&ccedil;&atilde;o; i) n&atilde;o respondem aos pedidos de retirada de tramita&ccedil;&atilde;o; j) taxas de publica&ccedil;&atilde;o extremamente caras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esses <i>publishers</i> atuam da mesma forma predat&oacute;ria em outras vertentes relacionadas ao universo cient&iacute;fico e acad&ecirc;mico, tais como na publica&ccedil;&atilde;o de livros e produ&ccedil;&atilde;o de eventos. No caso de congressos promovidos por esses grupos, algumas caracter&iacute;sticas podem ser observadas: geralmente n&atilde;o h&aacute; suporte de institui&ccedil;&otilde;es reconhecidas; s&atilde;o realizadas sequ&ecirc;ncias incr&iacute;veis de eventos dentro de uma &aacute;rea; os eventos acontecem em locais altamente atrativos; s&atilde;o feitos convites para comiss&otilde;es organizadoras de fachada e para participa&ccedil;&atilde;o como "chairman" ou como palestrante especial (os custos geralmente s&atilde;o todos pagos pelo convidado).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma an&aacute;lise da &uacute;ltima vers&atilde;o da lista publicada por Jeffrey Beall nos permite visualizar o aumento de publica&ccedil;&otilde;es, editoras e pr&aacute;ticas consideradas predat&oacute;rias ao longo dos &uacute;ltimos anos. A <a href="#fig1">Figura 1</a> mostra o crescimento do n&uacute;mero de corpora&ccedil;&otilde;es editoriais (<i>publishers</i>) desse tipo entre os anos de 2011 e 2017. Importante ressaltar que cada "corpora&ccedil;&atilde;o editorial" publica muitas revistas, em v&aacute;rias &aacute;reas do conhecimento, o que multiplica as possibilidades de pesquisadores ca&iacute;rem na armadilha. Os t&iacute;tulos, em geral, confusos e repetitivos, recorrem a palavras ou &agrave; indica&ccedil;&atilde;o de origem altamente atrativas. A taxa de crescimento, que continua grande, foi de 20% de 2016 para 2017.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a02fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A expans&atilde;o no n&uacute;mero de editoras predat&oacute;rias relaciona-se diretamente com o crescimento da busca, por parte dos autores, por publica&ccedil;&otilde;es do tipo <i>open access</i>, conforme mencionado anteriormente. &Eacute; importante, no entanto, frisar que publica&ccedil;&atilde;o de acesso livre n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de baixa qualidade. Muitas editoras s&eacute;rias e que aplicam extremo rigor nas revis&otilde;es dos artigos que publicam, como os grupos PLoS e a BioMed Central, atuam nessa mesma modalidade &#91;3&#93; e possuem excel&ecirc;ncia em suas pr&aacute;ticas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="#fig2">Figura 2</a>, nota-se o mesmo padr&atilde;o de crescimento no n&uacute;mero de revistas isoladas consideradas predat&oacute;rias. O aumento tamb&eacute;m &eacute; preocupante: somente de 2016 para 2017 a amplia&ccedil;&atilde;o foi de 32%.</font></p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a02fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas das publica&ccedil;&otilde;es predat&oacute;rias apresentam fatores de impacto falsos para atrair autores. Nesse sentido, al&eacute;m das revistas e editoras consideradas predat&oacute;rias, a lista de Beall tamb&eacute;m trazia n&uacute;meros relativos a entidades que calculam dados bibliom&eacute;tricos question&aacute;veis. De acordo com os dados da lista, houve um crescimento m&eacute;dio de 30% ao ano no n&uacute;mero desse tipo de entidade. J&aacute; podiam ser contadas, no in&iacute;cio de 2017, 53 entidades que praticam esses c&aacute;lculos de m&eacute;tricas duvidosas - quase o dobro do registrado em 2015 (30).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra forma utilizada para burlar m&eacute;tricas, nesse caso de dados de tr&aacute;fego na web, tem sido os sequestros de sites de revistas cient&iacute;ficas. Em artigo publicado na <i>Science</i> em novembro de 2015, John Bohannon j&aacute; fazia o alerta &#91;4&#93;. Hackers se aproveitam de alguma fragilidade nas p&aacute;ginas das revistas e tomam seus dom&iacute;nios. Durante este "sequestro", que passa impercept&iacute;vel aos usu&aacute;rios e autores, os hackers tamb&eacute;m recebem taxas de publica&ccedil;&atilde;o e de leitura de artigos, apoderando-se dos recursos financeiros das editoras oficiais. Desde ent&atilde;o, tal pr&aacute;tica vem crescendo rapidamente: o n&uacute;mero de p&aacute;ginas sequestradas aumentou quatro vezes nos &uacute;ltimos dois anos, passando de 30 casos denunciados em 2015 para 115 em 2017.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O aumento no n&uacute;mero de revistas predat&oacute;rias pode representar grande risco ao fluxo de conhecimento em uma determinada &aacute;rea. Assim, todos devemos nos atentar para n&atilde;o cair em armadilhas na hora de publicar um artigo cient&iacute;fico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BIBLIOGRAFIA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Butler, D. "The dark side of publishing". <i>Nature</i>, v. 495, n. 7442, p. 433, 2013.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Beall, J. "Predatory publishing is just one of the consequences of gold open access". <i>Learned Publishing</i>, v. 26, n. 2, p. 79-84, 2013.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Kearney, M. H. "Predatory publishing: what authors need to know". <i>Research in Nursing &amp; Health</i>, v. 38, n. 1, p. 1-3, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 4. Bohannon, J. "How to hijack a journal". <i>Science</i>, v. 350, n. 6263, p. 903-905. 2015.    </font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Butler]]></surname>
<given-names><![CDATA[D.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[The dark side of publishing]]></article-title>
<source><![CDATA[Nature]]></source>
<year>2013</year>
<volume>495</volume>
<numero>7442</numero>
<issue>7442</issue>
<page-range>433</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Beall]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Predatory publishing is just one of the consequences of gold open access]]></article-title>
<source><![CDATA[Learned Publishing]]></source>
<year>2013</year>
<volume>26</volume>
<numero>2</numero>
<issue>2</issue>
<page-range>79-84</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kearney]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. H.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Predatory publishing: what authors need to know]]></article-title>
<source><![CDATA[Research in Nursing & Health]]></source>
<year>2015</year>
<volume>38</volume>
<numero>1</numero>
<issue>1</issue>
<page-range>1-3</page-range></nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<label>4</label><nlm-citation citation-type="journal">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bohannon]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[How to hijack a journal]]></article-title>
<source><![CDATA[Science]]></source>
<year>2015</year>
<volume>350</volume>
<numero>6263</numero>
<issue>6263</issue>
<page-range>903-905</page-range></nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
