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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> MEIO AMBIENTE</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Aproveitamento  de res&iacute;duos do setor sucroalcooleiro desafia empresas e pesquisadores</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <b>Leonor Assad</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O setor sucroalcooleiro &eacute; um dos segmentos mais importantes da economia brasileira. Segundo dados da Uni&atilde;o da Ind&uacute;stria de Cana-de-A&ccedil;&uacute;car (Unica), o Brasil &eacute; o maior produtor mundial de cana de a&ccedil;&uacute;car, com cerca de 630 milh&otilde;es de toneladas processadas na safra 2014/2015, gerando uma riqueza equivalente a US$ 43 bilh&otilde;es, cerca de 2% do PIB brasileiro. Apenas no setor produtivo, s&atilde;o 900 mil empregos formais diretos e outros 70 mil produtores rurais independentes. No entanto, paralelamente &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de riquezas e empregos, o setor &eacute; respons&aacute;vel por impactos ambientais importantes, pelo uso intensivo de recursos naturais e pela produ&ccedil;&atilde;o de grandes quantidades de res&iacute;duos. Nos 108.706,47 km<sup>2</sup> com cana plantada no Brasil em 2015 (safra 2015/2016), equivalente a quase cinco vezes a &aacute;rea do estado de Sergipe, foram produzidos mais de 30 bilh&otilde;es de litros de &aacute;lcool e 34 milh&otilde;es de toneladas de a&ccedil;&uacute;car. Em contrapartida, foram gerados de 10 a 14 litros de vinha&ccedil;a para cada litro de &aacute;lcool produzido, dependendo das condi&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas da destilaria; 280 kg de palha e de baga&ccedil;o por tonelada de colmo de cana colhida; e de 30 a 40 kg de torta de filtro por tonelada de cana mo&iacute;da, entre outros res&iacute;duos como cinzas, &aacute;guas de lavagem e mela&ccedil;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ELETRICIDADE A PARTIR DE VINHA&Ccedil;A</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A vinha&ccedil;a, que algumas vezes ainda &eacute; lan&ccedil;ada em cursos d'&aacute;gua causando polui&ccedil;&atilde;o, &eacute; comumente utilizada como fertilizante na cultura de cana-de-a&ccedil;&uacute;car, por ser rica em mat&eacute;ria org&acirc;nica e pot&aacute;ssio. Mas quando aplicada em excesso, dado o elevado volume produzido, acarreta s&eacute;rios impactos no solo. Uma alternativa &eacute; transformar a mat&eacute;ria org&acirc;nica presente na vinha&ccedil;a em biog&aacute;s, por meio de uma cultura de microrganismos. Ap&oacute;s tratamento adequado, esse biog&aacute;s composto principalmente por metano pode gerar energia el&eacute;trica ao movimentar a turbina de um gerador. E mais, a vinha&ccedil;a biodigerida, que cont&eacute;m menos mat&eacute;ria org&acirc;nica, ainda pode ser usada como fertilizante, minimizando o impacto ambiental do res&iacute;duo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O engenheiro qu&iacute;mico Marcelo Zaiat, professor da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), campus S&atilde;o Carlos, afirma que o processo de transforma&ccedil;&atilde;o da vinha&ccedil;a em bioenergia j&aacute; est&aacute; bem estudado em escala de laborat&oacute;rio: "O aproveitamento da vinha&ccedil;a na produ&ccedil;&atilde;o de energia aumentaria a efici&ecirc;ncia econ&ocirc;mica de usinas e evitaria o lan&ccedil;amento sistem&aacute;tico desse res&iacute;duo no ambiente, ampliando a sustentabilidade do setor". Zaiat desenvolve pesquisas sobre o processo anaer&oacute;bio em reatores que transformam a mat&eacute;ria org&acirc;nica da vinha&ccedil;a em hidrog&ecirc;nio e metano. Em artigo de 2017, publicado no <i>Applied Energy</i> (vol. 189), ele e mais seis colaboradores apontam que o potencial energ&eacute;tico da tecnologia de extra&ccedil;&atilde;o de gases da vinha&ccedil;a permite a gera&ccedil;&atilde;o de 181,5 megajoules de energia por metro c&uacute;bico de vinha&ccedil;a. Entretanto, a recupera&ccedil;&atilde;o de bioenergia na produ&ccedil;&atilde;o de etanol ainda &eacute; pouco usada em usinas sucroalcooleiras e o n&uacute;mero de reatores anaer&oacute;bios em escala plena para gera&ccedil;&atilde;o de biog&aacute;s e energia &eacute; inexpressivo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Felipe Colturato, engenheiro ambiental da Methanum Res&iacute;duos e Energia, empresa que desenvolve solu&ccedil;&otilde;es que associem o tratamento de efluentes e res&iacute;duos org&acirc;nicos &agrave; gera&ccedil;&atilde;o de energia, com sede em Belo Horizonte (MG), existem v&aacute;rios entraves para produ&ccedil;&atilde;o de biog&aacute;s nas muitas usinas sucroalcooleiras do pa&iacute;s: "H&aacute; um enorme potencial na vinha&ccedil;a, mas n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil metanizar". Metaniza&ccedil;&atilde;o &eacute; o nome dado ao processo de digest&atilde;o anaer&oacute;bia de res&iacute;duos org&acirc;nicos. Dentre as barreiras, Colturato cita a produ&ccedil;&atilde;o sazonal da cana; a concentra&ccedil;&atilde;o de antibi&oacute;ticos largamente utilizados na etapa de fermenta&ccedil;&atilde;o; a alta variabilidade na concentra&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria org&acirc;nica na vinha&ccedil;a, que varia de acordo com o tipo de produto (caldo, caldo misto, mela&ccedil;o) utilizado na fabrica&ccedil;&atilde;o do etanol; o baixo pH, devido principalmente &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de sulfato; e a alta concentra&ccedil;&atilde;o no biog&aacute;s de sulfeto de hidrog&ecirc;nio (H<sub>2</sub>S), um g&aacute;s muito t&oacute;xico com odor bastante desagrad&aacute;vel. Mesmo assim, o engenheiro se mostra otimista: "embora algumas iniciativas n&atilde;o tenham tido &ecirc;xito, dado o pre&ccedil;o da energia e a possibilidade de utilizar o biometano, h&aacute; uma corrida para implanta&ccedil;&atilde;o de usinas de biog&aacute;s".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Usina Monte Alegre operou, em parceria com a Methanum, uma planta em escala piloto por cinco safras consecutivas, o que propiciou a amplia&ccedil;&atilde;o para uma planta industrial de 1,4MW, em Ivinhema (MS). No interior de S&atilde;o Paulo, as usinas S&atilde;o Martinho, em Prad&oacute;polis, e Iracema, em Iracem&aacute;polis, utilizam biog&aacute;s, a primeira para secagem de levedura. Na segunda foi instalado um reator pela empresa holandesa Paques que funciona ainda em escala piloto.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a05fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Usina da Pedra, em Serrana (SP), tamb&eacute;m possui um sistema piloto. O projeto &eacute; da BioProj Tecnologia Ambiental Ltda., empresa de S&atilde;o Carlos (SP) que desenvolve tecnologias para tratamento de &aacute;guas residu&aacute;rias e &eacute; apoiado pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de S&atilde;o Paulo (Pipe/Fapesp). De acordo com a engenheira qu&iacute;mica da empresa, Val&eacute;ria Del Nery, os testes preliminares foram bem-sucedidos, permitindo que as atividades  fossem iniciadas em maio deste ano. Ela concorda com Colturato em rela&ccedil;&atilde;o aos desafios para o uso eficiente de reatores anaer&oacute;bios de grande porte e acrescenta: "apesar do n&uacute;mero de trabalhos cient&iacute;ficos sobre a gera&ccedil;&atilde;o de energia a partir da vinha&ccedil;a ter aumentado significativamente nos &uacute;ltimos anos em escala laboratorial, ainda h&aacute; muito para ser entendido sobre a estabilidade do processo anaer&oacute;bio da degrada&ccedil;&atilde;o da vinha&ccedil;a em reatores de alta taxa em grandes escalas".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>QUASE NADA SE PERDE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Grande parte dos res&iacute;duos gerados no cultivo da cana e na produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car e de &aacute;lcool &eacute; reutilizada no processo produtivo. Destaque especial cabe ao baga&ccedil;o gerado na moagem da cana que vem sendo totalmente reaproveitado para cogera&ccedil;&atilde;o de energia, como biocombust&iacute;vel, na produ&ccedil;&atilde;o de papel e na ind&uacute;stria de cosm&eacute;ticos. Estima-se que 90% de todo o baga&ccedil;o gerado no Brasil &eacute; queimado em caldeiras para a gera&ccedil;&atilde;o de energia. Mas, nessa queima, forma-se outro subproduto, as cinzas residuais, numa propor&ccedil;&atilde;o estimada em 25 kg de cinzas para cada tonelada de baga&ccedil;o queimado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Baga&ccedil;o e cinzas tamb&eacute;m podem ser usados na constru&ccedil;&atilde;o civil, outro setor que gera grandes volumes de res&iacute;duos. Em artigo de 2016, na revista <i>Construction and Building Materials</i> (vol. 113), o engenheiro civil Almir Sales, professor da Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar), e mais quatro colaboradores constataram que o concreto produzido com res&iacute;duos de constru&ccedil;&atilde;o e areia de cinzas de baga&ccedil;o de cana-de-a&ccedil;&uacute;car apresentou 93% da resist&ecirc;ncia &agrave; compress&atilde;o do concreto de refer&ecirc;ncia, produzido sem res&iacute;duos.  Considerando que a minera&ccedil;&atilde;o de areia &eacute; uma atividade de alto impacto ambiental, esse trabalho abre importantes perspectivas, ao mostrar que &eacute; poss&iacute;vel substituir at&eacute; 50% da areia convencional retirada da natureza pela cinza de baga&ccedil;o de cana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PESQUISAS ENCONTRAM NOVOS  USOS PARA A CASCA DO COCO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A cana-de-a&ccedil;&uacute;car &eacute; apenas um dos produtos agr&iacute;colas cujos res&iacute;duos podem ser reaproveitados, ampliando a viabilidade econ&ocirc;mica de culturas agr&iacute;colas e minimizando impactos ambientais. Pesquisas brasileiras est&atilde;o permitindo aproveitar a casca do coco na produ&ccedil;&atilde;o de fibras vegetais que podem ser usadas na fabrica&ccedil;&atilde;o de estofados de autom&oacute;veis, m&oacute;veis, vasos de xaxim, al&eacute;m de possibilitar a produ&ccedil;&atilde;o de um tipo de p&oacute; que ajuda no desenvolvimento de plantas cultivadas em vasos e servir de cobertura para a prote&ccedil;&atilde;o do solo.  As cascas, quando jogadas sem tratamento em aterros sanit&aacute;rios ou lix&otilde;es, levam em m&eacute;dia dez anos para serem decompostas, servem de abrigo para ratos e favorecem a reprodu&ccedil;&atilde;o de insetos, como o <i>Aedes aegypti</i>. Para cada 300 ml de &aacute;gua de coco consumidos, s&atilde;o gerados cerca de um quilo e meio de casca de coco. O Brasil tem um potencial de produ&ccedil;&atilde;o de 804 mil toneladas de casca que, ap&oacute;s processamento, resultariam em mais de 240 mil toneladas de fibra e mais de 560 mil toneladas de p&oacute;.</font></p>      ]]></body>
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