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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> NUTRI&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pouco carboidrato, muita controv&eacute;rsia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Gustavo Almeida</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a07fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As redes sociais e outras plataformas virtuais criaram um novo panorama no mundo da alimenta&ccedil;&atilde;o, constituindo-se em importante canal onde as pessoas buscam e trocam informa&ccedil;&otilde;es sobre dietas, especialmente aquelas com finalidade de emagrecimento. Assim, ao longo do tempo, uma ou outra torna-se a dieta da moda, independentemente de ter algum tipo de embasamento cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Perder peso, ficar em forma e afugentar o risco de doen&ccedil;as cr&ocirc;nicas (como as cardiovasculares, c&acirc;ncer, diabetes etc.) - tudo isso sem passar fome! Essas s&atilde;o algumas promessas feitas a quem adere &agrave; chamada alimenta&ccedil;&atilde;o <i>low carb</i>. O termo, derivado do ingl&ecirc;s, se refere a uma gama de tipos de regime alimentar em que a recomenda&ccedil;&atilde;o &eacute; aumentar o consumo de prote&iacute;nas e lip&iacute;dios e diminuir radicalmente a ingest&atilde;o de carboidratos. Dietas desse tipo come&ccedil;aram a ganhar notoriedade na d&eacute;cada de 1990. Alguns de seus primeiros proponentes foram m&eacute;dicos e pesquisadores, como os norte-americanos Robert Atkins e Barry Sears, que, no prazo de alguns anos, passaram a ser considerados verdadeiras celebridades, com farta participa&ccedil;&atilde;o em programas de TV e vendendo muitos livros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&atilde;o muitos os tipos de dietas <i>low carb</i>, entre elas a dieta Atkins, a cetog&ecirc;nica e a dieta da zona - cada uma propondo restri&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas quanto &agrave; ingest&atilde;o de carboidratos (algumas s&atilde;o mais severas, outras mais brandas). Tecnicamente, em publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, utiliza-se a sigla HPLC (do ingl&ecirc;s: <i>high-protein, low-carbohydrate</i> ou alta prote&iacute;na, baixo carboidrato) para se referir a regimes alimentares desse tipo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma modalidade que tem chamado a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; a chamada dieta <i>paleo, </i>que se baseia na premissa de que nosso organismo est&aacute; evolutivamente adaptado para o per&iacute;odo Paleol&iacute;tico e, por isso, dever&iacute;amos nos alimentar como os ca&ccedil;adores-coletores que viveram h&aacute; 100 mil anos, ou seja, com muita carne e peixes e evitando alimentos inseridos mais recentemente na alimenta&ccedil;&atilde;o humana, como leguminosas, cereais e latic&iacute;nios. A despeito dessa proposi&ccedil;&atilde;o (de que ser&iacute;amos basicamente carn&iacute;voros), na hist&oacute;ria evolutiva humana &eacute; sabido que era dif&iacute;cil obter a carne em boa parte do ano e que a maioria dos grupos humanos consumia, dada a maior disponibilidade, vegetais - e carboidratos - em larga medida.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EMAGRECIMENTO E SA&Uacute;DE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A despeito de sua popularidade, essas dietas s&atilde;o alvo de pol&ecirc;mica e diverg&ecirc;ncia no meio acad&ecirc;mico. Segundo Geraldo Thedei J&uacute;nior, bi&oacute;logo, nutricionista e professor da Universidade de Uberaba (Uniube), as dietas de restri&ccedil;&atilde;o de carboidratos de fato geram redu&ccedil;&atilde;o do peso em um per&iacute;odo curto de tempo, mas h&aacute; efeitos no organismo que podem n&atilde;o valer o esfor&ccedil;o da restri&ccedil;&atilde;o alimentar. "Esse tipo de alimenta&ccedil;&atilde;o 'for&ccedil;a' o uso das prote&iacute;nas do organismo para a 'fabrica&ccedil;&atilde;o' de glicose, fazendo com que sua fun&ccedil;&atilde;o essencial (nos m&uacute;sculos, sangue etc.) seja prejudicada", diz o bi&oacute;logo. Ele orientou um trabalho, publicado em 2011, na <i>Revista de Nutri&ccedil;&atilde;o da Puccamp</i> (vol. 24, nº 4), em que ratos foram submetidos a dietas que continham carboidratos, prote&iacute;nas e gorduras saturadas em propor&ccedil;&otilde;es similares &agrave;s indicadas em dietas <i>low carb</i>. De acordo com os resultados obtidos, os ratos n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o emagreceram como ganharam mais peso que os do grupo controle, composto por animais alimentados com n&iacute;veis padr&atilde;o de carboidratos. A alimenta&ccedil;&atilde;o com altos n&iacute;veis de prote&iacute;na e gordura gerou ainda maior preval&ecirc;ncia de esteatose hep&aacute;tica (ac&uacute;mulo de gordura no f&iacute;gado) e varia&ccedil;&otilde;es em par&acirc;metros bioqu&iacute;micos - o que representa uma piora nas condi&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de. "Os ratos tiveram aumento de peso e de gordura visceral, ficaram diab&eacute;ticos e tiveram aumento do n&iacute;vel de triglic&eacute;rides. O &uacute;nico benef&iacute;cio foi o aumento do HDL (o chamado colesterol bom) ", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Marciane Milanski, nutricionista e docente da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA/Unicamp), "assim como em toda restri&ccedil;&atilde;o de nutrientes, uma dieta que limita extremamente a ingest&atilde;o de carboidratos pode ser prejudicial para a sa&uacute;de, especialmente se adotada por um longo per&iacute;odo de tempo". A pesquisadora alerta que a falta de carboidratos na alimenta&ccedil;&atilde;o de quem segue uma dieta do tipo <i>low carb</i> pode causar confus&atilde;o mental, altera&ccedil;&otilde;es no n&iacute;vel de consci&ecirc;ncia e dificuldade de concentra&ccedil;&atilde;o no trabalho, al&eacute;m de cansa&ccedil;o e fraqueza, que afetam a qualidade de vida do indiv&iacute;duo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a07fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao mesmo tempo em que suprime os carboidratos, o card&aacute;pio <i>low carb</i> possui grande quantidade de gorduras saturadas de origem animal, um aspecto que tamb&eacute;m &eacute; alvo de cr&iacute;ticas de especialistas em nutri&ccedil;&atilde;o. "A restri&ccedil;&atilde;o de &aacute;cidos graxos saturados na dieta tem amplo respaldo cient&iacute;fico e &eacute; recomendada pelos principais &oacute;rg&atilde;os relacionados &agrave; nutri&ccedil;&atilde;o do Brasil e do mundo", e continua, "artigos cient&iacute;ficos, que acompanharam milhares de pessoas por d&eacute;cadas, t&ecirc;m mostrado uma diminui&ccedil;&atilde;o na taxa de mortalidade por doen&ccedil;as cardiovasculares derivada da substitui&ccedil;&atilde;o de gorduras saturadas por poli e monoinsaturadas", afirma Milanski. Ainda segundo ela, o consumo excessivo de prote&iacute;na &eacute; especialmente contraindicado em pessoas que apresentam riscos de desenvolvimento de doen&ccedil;a renal cr&ocirc;nica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DESEDUCA&Ccedil;&Atilde;O ALIMENTAR </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Thedei Jr., os regimes que restringem muito os carboidratos, mas s&atilde;o especialmente permissivos quanto ao consumo de carnes vermelhas, gordura animal, bacon, embutidos etc. s&atilde;o "dietas de deseduca&ccedil;&atilde;o alimentar". Em sua opini&atilde;o, n&atilde;o faz sentido comparar essas dietas com a forma de alimenta&ccedil;&atilde;o dos nossos av&oacute;s que matavam um porco e usavam sua banha para cozinhar. "Eles consumiam essa quantidade de gordura em um m&ecirc;s, n&atilde;o em uma semana!".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O bi&oacute;logo lembra, no entanto, que existem situa&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas em que uma dieta restrita em carboidratos pode ser necess&aacute;ria. "Tem certos tipos de epilepsia refrat&aacute;ria que n&atilde;o respondem aos medicamentos existentes e, nesses casos, uma dieta cetog&ecirc;nica tem efeito positivo. Tamb&eacute;m h&aacute; estudos desse efeito em outras doen&ccedil;as neurol&oacute;gicas", pontua.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; consenso entre boa parte dos especialistas que o que faz o indiv&iacute;duo perder peso &eacute; alcan&ccedil;ar um balan&ccedil;o energ&eacute;tico negativo, ou seja, comer menos e gastar mais calorias. Se h&aacute; o acompanhamento de uma equipe multiprofissional os resultados obtidos - de maneira lenta e gradual - t&ecirc;m grande chance de serem consistentes. Nesse assunto, como resume Milanski, "n&atilde;o existe milagre".</font></p>      ]]></body>
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