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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> LEGISLA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Descriminaliza&ccedil;&atilde;o da maconha: o que muda no consumo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Karina Possa Abrah&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As elei&ccedil;&otilde;es realizadas em novembro do ano passado dos Estados Unidos, que levaram Donald Trump &agrave; presid&ecirc;ncia, tamb&eacute;m definiram quest&otilde;es importantes relativas ao uso da maconha no pa&iacute;s. Na ocasi&atilde;o, eleitores de nove estados responderam sobre o uso da Cannabis na c&eacute;dula de vota&ccedil;&atilde;o. Ap&oacute;s essa consulta, Calif&oacute;rnia, Massachusetts, Nevada e Maine legalizaram o uso recreativo da maconha. No Arizona a proposta foi rejeitada. Em outros quatro estados - Fl&oacute;rida, Arkansas, Montana e Dakota do Norte - foi aprovado o uso medicinal da planta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos estudos buscam entender como a descriminaliza&ccedil;&atilde;o e a legaliza&ccedil;&atilde;o podem impactar no consumo da planta. Na Calif&oacute;rnia, por exemplo, o uso medicinal da maconha &eacute; legal desde 1996, mas a subst&acirc;ncia j&aacute; havia sido descriminalizada no estado 20 anos antes. De acordo com a primeira avalia&ccedil;&atilde;o oficial sobre o uso da Cannabis, realizada pelo Departamento de Narcotr&aacute;fico e Abuso de Drogas do estado da Calif&oacute;rnia onze meses ap&oacute;s a descriminaliza&ccedil;&atilde;o, houve no per&iacute;odo um aumento de 8% para 35% da propor&ccedil;&atilde;o de adultos que relataram ter utilizado a planta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outros estados pioneiros na descriminaliza&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m apresentaram um aumento na frequ&ecirc;ncia de relatos de uso da maconha, mas a preval&ecirc;ncia aumentou a taxas semelhantes ou maiores nos estados que mantiveram penalidades mais severas. Em revis&atilde;o publicada em 1989 na <I>Journal of Public Health Policy</I>, por Eric W. Single, o autor frisa que "a maior limita&ccedil;&atilde;o desses estudos iniciais &#91;sobre a descriminaliza&ccedil;&atilde;o e a preval&ecirc;ncia de uso da maconha&#93; foi a falta de grupos controles ou dados comparativos que indicassem uma estimativa de quanto seria a expectativa das taxas de uso se n&atilde;o houvesse mudan&ccedil;a na lei".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sidarta Ribeiro, coordenador do Instituto do C&eacute;rebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pondera que a legaliza&ccedil;&atilde;o <I>strictu sensu</I> ainda &eacute; bem recente. "Em&nbsp;casos de descriminaliza&ccedil;&atilde;o como&nbsp;Portugal e Holanda, que j&aacute; t&ecirc;m muitos anos de implementa&ccedil;&atilde;o, o consumo ficou est&aacute;vel ou aumentou logo no in&iacute;cio, mas pouco depois voltou aos n&iacute;veis anteriores ou caiu abaixo deles. No caso do Colorado e do Uruguai, de efetiva legaliza&ccedil;&atilde;o, ainda n&atilde;o foi detectado aumento significativo do consumo", afirma. "&Eacute; importante considerar que a Cannabis legalizada competir&aacute; com subst&acirc;ncias mais perigosas para a sociedade, como o &aacute;lcool. Os dados preliminares na Calif&oacute;rnia p&oacute;s-legaliza&ccedil;&atilde;o sugerem redu&ccedil;&atilde;o nos acidentes de carro por embriaguez alco&oacute;lica", acrescenta o pesquisador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O processo de descriminaliza&ccedil;&atilde;o e/ou legaliza&ccedil;&atilde;o da maconha ocorreu de maneira diversa em cada estado norte-americano. Em Washington, a maconha para uso recreacional deve ser adquirida de comerciantes cadastrados, enquanto no distrito de Columbia n&atilde;o existem comerciantes, mas a popula&ccedil;&atilde;o pode cultivar a maconha em casa. Cada estado tamb&eacute;m define crit&eacute;rios para o tipo de maconha que pode ser cultivada ou comercializada, afinal, o produto n&atilde;o &eacute; uniforme. A planta pode se desenvolver de maneiras diferentes dependendo da variedade gen&eacute;tica, temperatura, condi&ccedil;&otilde;es de cultivo e luminosidade. E isso impacta na pot&ecirc;ncia da planta, que &eacute; medida pela quantidade do princ&iacute;pio ativo tetrahidrocanabinol (THC). Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s faixas et&aacute;rias, a legaliza&ccedil;&atilde;o da maconha n&atilde;o tem afetado o uso por jovens e adolescentes, mas os adultos aumentam o consumo experimental, de acordo com o &uacute;ltimo levantamento nacional norte-americano, realizado em 2015, para o uso de drogas l&iacute;citas e il&iacute;citas. H&aacute; uma preocupa&ccedil;&atilde;o, no entanto, com um aumento significativo do uso de maconha entre usu&aacute;rios pesados da subst&acirc;ncia e dependentes de drogas de abuso. Estudo publicado em maio deste ano na <I>Annual Review of Clinical Psychology</I> sugere que o grupo de indiv&iacute;duos dependentes de drogas pode ser particularmente sens&iacute;vel &agrave; mudan&ccedil;a da lei.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>IMPORT&Acirc;NCIA DO DEBATE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas de Abuso (NIDA, na sigla em ingl&ecirc;s), &oacute;rg&atilde;o do governo norte-americano, define que o uso de maconha pode levar ao desenvolvimento de problemas m&eacute;dicos e, em alguns casos, &agrave; depend&ecirc;ncia. "Existe razo&aacute;vel consenso de que aproximadamente 9% dos usu&aacute;rios de Cannabis desenvolvem algum tipo de depend&ecirc;ncia, um &iacute;ndice bem abaixo do &aacute;lcool (~15%) e do tabaco (~30%)", explica Ribeiro. Segundo ele, como toda droga, a Cannabis tem grupos de risco e a proibi&ccedil;&atilde;o dificulta o esclarecimento desses grupos. "Do ponto de vista do usu&aacute;rio (medicinal, recreativo ou religioso), a legaliza&ccedil;&atilde;o e regulamenta&ccedil;&atilde;o (de teores, prazo de validade, contaminantes, local de compra seguro, pagamento de impostos) &eacute; estritamente necess&aacute;ria para possibilitar um uso seguro", acredita.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a09fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra preocupa&ccedil;&atilde;o sobre o uso da maconha &eacute; a sua rela&ccedil;&atilde;o com o aparecimento de doen&ccedil;as psiqui&aacute;tricas. "Por exemplo, pessoas com tend&ecirc;ncias psic&oacute;ticas devem evitar Cannabis com muito THC e pouco canabidiol (CBD), mas podem se medicar com cannabis de pouco&nbsp;THC e muito CBD (compostos qu&iacute;micos da Cannabis que n&atilde;o &eacute; psicoativo)", explica Ribeiro.  Um estudo publicado no ano passado no <I>The American Journal of Drug and Alcohol Abuse</I> descreve que a maconha pode desencadear o aparecimento de esquizofrenia em indiv&iacute;duos com predisposi&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica para a doen&ccedil;a. Por outro lado, pacientes com esquizofrenia que fizeram uso da maconha durante a adolesc&ecirc;ncia exibem melhor fun&ccedil;&atilde;o cognitiva quando comparados a pacientes esquizofr&ecirc;nicos que n&atilde;o fizeram uso da planta. Isso mostra que a rela&ccedil;&atilde;o entre o uso da maconha e o aparecimento de uma psicose &eacute; mais complexa do que imaginado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um estudo publicado na revista Nature Medicine em maio deste ano mostrou que um tratamento com baixas doses de THC foi capaz de reverter o decl&iacute;nio cognitivo em camundongos idosos. Dentre tantos usos medicinais da maconha demonstrados pela ci&ecirc;ncia, a recupera&ccedil;&atilde;o do sinal canabin&oacute;ide em indiv&iacute;duos senis pode ser uma estrat&eacute;gia poderosa para combater os d&eacute;ficits cognitivos decorrentes do envelhecimento ou de doen&ccedil;as neurol&oacute;gicas como o Alzheimer e o Parkinson. Esse tipo de descoberta mostra qu&atilde;o importante s&atilde;o os esfor&ccedil;os mundiais para continuar o debate sobre a descriminaliza&ccedil;&atilde;o e regulamenta&ccedil;&atilde;o do uso da maconha e de seus componentes.</font></p>      ]]></body>
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