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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS     <br> CI&Ecirc;NCIA E AGRICULTURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>&Aacute;gua que passarinho n&atilde;o bebe</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Carlos Bloch Jr</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pesquisador da Embrapa Recursos Gen&eacute;ticos e Biotecnologia, PhD em bioqu&iacute;mica pela Universidade de Durham (Reino Unido). E-mail: <a href="mailto:carlos.bloch@embrapa.br">carlos.bloch@embrapa.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"&Aacute;gua de beber,    <br> &aacute;gua de benzer,    <br> &aacute;gua de banhar.</font>    <br> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Alcahol</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> s&oacute; para desinfetar."</font>    <br> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Jorge Ben Jor.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Segundo a defini&ccedil;&atilde;o aristot&eacute;lica, <i>natureza</i> &eacute; o princ&iacute;pio intr&iacute;nseco de movimento e repouso do <i>ente</i> &#91;1&#93;. Grosso modo, <i>ente </i>&eacute; tudo aquilo que deriva do <i>ser</i>, que existe, que pode ser percebido pelos sentidos, aquilo que tem forma. O tomismo, no s&eacute;culo XIII, dir&aacute; que o <i>ente</i> "tem" <i>ser </i>por participa&ccedil;&atilde;o no <i>ser </i>absoluto que o cont&eacute;m. O <i>ser</i> &eacute; aquilo que engloba a realidade manifesta, &eacute; o princ&iacute;pio de tudo, &eacute; o motor im&oacute;vel, &eacute; infinito e por isso mesmo n&atilde;o tem forma. O <i>ser</i> n&atilde;o pode ser percebido na sua totalidade porque nada o cont&eacute;m plenamente. &Eacute; do <i>ser</i> que todos os <i>entes</i> procedem e cada qual, conforme a sua individualidade &uacute;nica, "d&aacute;-nos not&iacute;cia" de alguns dos infinitos predicados do <i>ser</i>. Quanto aos <i>entes</i>, esses sim, podem ser objetos de estudo e compreens&atilde;o mais imediata, como ser&aacute; visto abaixo, valendo-nos das defini&ccedil;&otilde;es de Arist&oacute;teles.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por exemplo, sabemos o que &eacute; a &aacute;gua. Sabemos que nas condi&ccedil;&otilde;es normais de temperatura e press&atilde;o (CNTP) o <i>ente,</i> &aacute;gua pura, pode ser percebido como um l&iacute;quido transparente, sem cor, sem cheiro ou gosto, mas n&atilde;o de uma s&oacute; vez pelos sentidos de um indiv&iacute;duo. Al&eacute;m do que, mudando-se a temperatura e/ou a press&atilde;o, o <i>ente </i>&aacute;gua pura poder&aacute; assumir apar&ecirc;ncias bem distintas daquelas comumente observadas nas CNTP. Isto &eacute;, segundo o modelo atualmente aceito, a subst&acirc;ncia qu&iacute;mica composta de um &aacute;tomo de oxig&ecirc;nio covalentemente ligado a dois &aacute;tomos de hidrog&ecirc;nio, originando uma estrutura angular de 104,45&ordm;, pode-se "movimentar" para al&eacute;m de sua forma <i>natural </i>de repouso (l&iacute;quida, nas CNTP) at&eacute; atingir os seus extremos, ou seja, para as formas s&oacute;lida ou gasosa, induz&iacute;veis por princ&iacute;pios extr&iacute;nsecos, no caso, varia&ccedil;&otilde;es de ambiente f&iacute;sico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, mesmo diante de mudan&ccedil;as t&atilde;o evidentes (s&oacute;lido - l&iacute;quido - gasoso) n&atilde;o nos deixamos confundir pelas apar&ecirc;ncias, pois n&atilde;o nos resta qualquer d&uacute;vida quanto ao <i>ente </i>espec&iacute;fico que est&aacute; sob an&aacute;lise. Apesar das transforma&ccedil;&otilde;es percept&iacute;veis e inequ&iacute;vocas, sabemos que ainda continuamos diante do mesmo <i>ente,</i> &aacute;gua pura, uma vez que as diferen&ccedil;as detect&aacute;veis correspondem &agrave;s suas possibilidades intr&iacute;nsecas de "movimento" e de "repouso" e, portanto, &agrave; sua <i>natureza</i>, ou mais especificamente, ao <i>natural </i>da &aacute;gua pura. &Eacute; por isso que devemos considerar que as caracter&iacute;sticas perceb&iacute;veis de um dado <i>ente</i>, em um determinado estado, nos mostram apenas como aquele <i>ente </i>"est&aacute;" naquele estado, mas n&atilde;o o que aquele <i>ente</i> de fato "&eacute;" na sua totalidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para as ci&ecirc;ncias e, em particular, para as ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas, as defini&ccedil;&otilde;es de <i>ser</i>, <i>ente</i> e <i>natureza</i> concebidas por Arist&oacute;teles a partir do trabalho de v&aacute;rios pensadores da antiguidade s&atilde;o t&atilde;o fundamentais quanto o ar para as nossas vidas. Todavia, suas defini&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o apenas importantes pela abrang&ecirc;ncia e brilhantismo l&oacute;gicos, mas porque refletem uma ordem que nos orienta e conduz para a compreens&atilde;o da estrutura do real. <i>Real este que &eacute; a mat&eacute;ria-prima sem a qual nenhuma suposta atividade cient&iacute;fica pode ser levada a s&eacute;rio</i>. Pois &eacute; precisamente no real que nos deparamos com os <i>entes</i> que poder&atilde;o ser escolhidos como objetos de nossas investiga&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, de nossos estudos. &Eacute; no real que tudo acontece, &eacute; onde as <i>naturezas</i> dos <i>entes</i> se manifestam e nos apresentam os seus limites intr&iacute;nsecos e, portanto, de possibilidades <i>naturais </i>de "movimento" (mudan&ccedil;as). Em suma, &eacute; onde todos nascemos, vivemos e morremos. Por esta raz&atilde;o, modelos mentais ou iniciativas de qualquer sorte que tentem, de forma propositada ou acidental, burlar total ou parcialmente tal ordem, est&atilde;o fadados ao fracasso, pois violando ou desprezando os limites intr&iacute;nsecos dos <i>entes</i>, ignoram a realidade, ou seja, na pr&aacute;tica n&atilde;o respeitam a verdadeira <i>natureza </i>daquilo que seria o objeto primordial do pr&oacute;prio pensamento ou empreendimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A t&iacute;tulo de ilustra&ccedil;&atilde;o desse argumento, fa&ccedil;amos agora um breve passeio por fragmentos de cen&aacute;rios do real utilizando os conceitos de <i>natureza</i> e de <i>ente</i> propostos por Arist&oacute;teles tendo, novamente, a &aacute;gua como o nosso <i>ente </i>de interesse. Conforme acabamos de ver, devido &agrave; sua <i>natureza</i>, a &aacute;gua pura pode assumir apar&ecirc;ncias distintas, sofrer transforma&ccedil;&otilde;es e apresentar-se em diferentes estados f&iacute;sicos aos nossos sentidos, dependendo de sua maior ou menor exposi&ccedil;&atilde;o a fatores externos, <i>princ&iacute;pios extr&iacute;nsecos</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao n&iacute;vel do mar, quando aquecida a 100 &ordm;C, a &aacute;gua vaporiza-se. A 0 &ordm;C, ou temperaturas inferiores, a &aacute;gua se solidifica. O mesmo pode ocorrer se alterarmos a press&atilde;o, mantendo ou variando adequadamente a temperatura, ou todos os fatores externos ou <i>princ&iacute;pios extr&iacute;nsecos</i>. Ou seja, controlando-se as condi&ccedil;&otilde;es externas sob as quais o <i>ente </i>&aacute;gua pura possa ser submetido, poderemos avaliar seus poss&iacute;veis "movimentos" (mudan&ccedil;as) obedecendo &agrave; sua <i>natureza</i>, isto &eacute;, dentro dos seus limites internos, fora dos quais n&atilde;o estaremos mais examinando a &aacute;gua pura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; por isso que, ao aquecermos a &aacute;gua pura a 100 &ordm;C sob a press&atilde;o atmosf&eacute;rica m&eacute;dia de 1 atm, n&atilde;o devemos esperar obter outra coisa que n&atilde;o seja apenas vapor d'&aacute;gua. Se, por acaso, encontr&aacute;ssemos metano, saber&iacute;amos que o que fora aquecido e produziu aquele g&aacute;s, seguramente, n&atilde;o poderia ser &aacute;gua pura. Teria que ser um outro <i>ente</i>, necessariamente. Caso contr&aacute;rio, se insist&iacute;ssemos em dizer que o metano fora obtido somente a partir do aquecimento da &aacute;gua pura, estar&iacute;amos diante de um cen&aacute;rio fict&iacute;cio ou falsificado, incapaz de resistir ao menor confronto com o mundo real, tal como um experimento controle, que &eacute; um procedimento cl&aacute;ssico de metodologia cient&iacute;fica. Em um evento espec&iacute;fico, no qual o produto do aquecimento do <i>ente </i>&aacute;gua pura (H<sub>2</sub>O) fosse o metano (CH<sub>4</sub>), ficaria claro que a <i>natureza</i> da &aacute;gua e, portanto, seus limites internos teriam sido violados por algum <i>princ&iacute;pio extr&iacute;nseco </i>desconhecido, de tal forma que estar&iacute;amos, for&ccedil;osamente, presenciando um evento <i>sobrenatural</i>. Seria algo semelhante ao epis&oacute;dio b&iacute;blico relatado pelo evangelista Jo&atilde;o, conhecido como as bodas de Can&aacute;, quando Jesus Cristo teria transformado &aacute;gua em vinho (Jo&atilde;o 2:1-11). Eventos sobrenaturais n&atilde;o fazem parte do campo de interesse ou da compet&ecirc;ncia das ci&ecirc;ncias naturais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, eventos sobrenaturais e milagres &agrave; parte, sabemos que a mente humana &eacute; pr&oacute;diga em imagina&ccedil;&atilde;o e suscept&iacute;vel &agrave;s influ&ecirc;ncias imediatas dos sentidos, sobretudo ao da vis&atilde;o. E para nos ajudar a diferenciar o real do ilus&oacute;rio &eacute; que existe a ci&ecirc;ncia e o m&eacute;todo cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi um duro golpe para a humanidade admitir que o seu patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico de observa&ccedil;&otilde;es "factuais" mais remotas sobre as posi&ccedil;&otilde;es solares no firmamento teria que ser revisto e, pior, de maneira oposta &agrave; habitual. Desde a mais tenra ancestralidade, acostumamo-nos aos fi&eacute;is "deslocamentos" do astro-rei ao longo da ab&oacute;bada celeste. Tudo parecia t&atilde;o evidente e regular desde quando o primeiro homem se deu ao trabalho de olhar para o c&eacute;u e registrar as sequ&ecirc;ncias dos dias e das esta&ccedil;&otilde;es. No entanto, para que fosse poss&iacute;vel uma compreens&atilde;o mais apropriada desse fen&ocirc;meno, faltavam ferramentas adequadas, as leis da f&iacute;sica propostas por Isaac Newton (1642-1727) e por Albert Einstein (1879-1955), particularmente as da gravita&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m n&atilde;o possu&iacute;amos os meios para realizar os experimentos que as t&ecirc;m corroborado e, assim, concebermos outra hip&oacute;tese que n&atilde;o fosse aquela em que o Sol e os demais corpos do espa&ccedil;o sideral girassem ao redor do nosso planeta. Foram necess&aacute;rios s&eacute;culos de estudos e de observa&ccedil;&otilde;es, com a mais ampla contribui&ccedil;&atilde;o de diversas &aacute;reas do conhecimento, para que se chegasse ao entendimento atual.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse e outros fatos semelhantes nos ajudam a compreender que o grau de legitimidade de uma hip&oacute;tese n&atilde;o reside no maior ou no menor tempo que se leva para impugn&aacute;-la. Tampouco pela convers&atilde;o de apar&ecirc;ncias, supostamente imut&aacute;veis, em conceitos irretoc&aacute;veis, mesmo que esses sejam compartilhados por comunidades e civiliza&ccedil;&otilde;es inteiras. Verifica-se a validade de uma hip&oacute;tese a partir de sua maior ou menor proximidade e coer&ecirc;ncia com o mundo real. A verdade de um sistema f&iacute;sico preexiste a opini&otilde;es, a interpreta&ccedil;&otilde;es e at&eacute; a n&oacute;s mesmos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante mil&ecirc;nios, s&oacute; foi poss&iacute;vel contar com a observa&ccedil;&atilde;o visual para fazermos registros e estudos da Terra, do Sol e dos demais corpos celestiais. O principal instrumento dispon&iacute;vel, a vis&atilde;o, provou-se insuficiente para desvendar <i>princ&iacute;pios intr&iacute;nsecos </i>e <i>extr&iacute;nsecos </i>que escapam, em muito, &agrave; escala, &agrave;s propriedades e aos limites do olho humano. Em outras palavras: por sua <i>natureza</i>, a nossa vis&atilde;o n&atilde;o est&aacute; habilitada para detectar qualquer <i>ente </i>fora da regi&atilde;o do espectro eletromagn&eacute;tico conhecida como a regi&atilde;o vis&iacute;vel aos humanos (400 - 750 nm).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi somente a partir da Lei da Gravita&ccedil;&atilde;o Universal de Newton, que conseguimos estimar que a Terra possui uma massa quase 333 mil vezes menor que a do Sol, o que a obriga a permanecer nos limites orbitais r&iacute;gidos impostos por todo o sistema solar. N&atilde;o conhec&iacute;amos os efeitos de grandes densidades de mat&eacute;ria sobre o plano tempo-espa&ccedil;o, suas influ&ecirc;ncias gravitacionais sobre outras massas e menos ainda sobre a luz. Todo o nosso conhecimento at&eacute; ent&atilde;o se fundamentava em observa&ccedil;&otilde;es parciais da realidade e de opini&otilde;es decorrentes de avalia&ccedil;&otilde;es decisivamente incompletas. Por isso, &eacute; oportuno lembrarmos daquilo que Parm&ecirc;nides de Eleia (530-460 A.C.), em seu poema "Sobre a natureza" &#91;2&#93;, j&aacute; advertia sobre a import&acirc;ncia de sabermos nos distanciar das opini&otilde;es ou de meras impress&otilde;es e buscarmos a verdade, pois a verdade est&aacute; no <i>ser </i>que, de acordo com aquele fil&oacute;sofo, &eacute; infinito, eterno e incorrupt&iacute;vel, o que significa dizer que a verdade n&atilde;o pode ser falsa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No poema, Parm&ecirc;nides exp&otilde;e a quest&atilde;o do <i>ser</i> e do <i>n&atilde;o-ser</i>, onde o primeiro &eacute; a via para a verdade e o segundo, o caminho para o engano, uma vez que n&atilde;o se chega &agrave; verdade permanecendo-se apenas no n&iacute;vel das opini&otilde;es ou somente na perspectiva de boas inten&ccedil;&otilde;es. Para atingir a verdade fazem-se necess&aacute;rias ferramentas adequadas, utilizadas com fundamento e crit&eacute;rio capazes de distinguir a diferen&ccedil;a do que pode ser apenas produto da imagina&ccedil;&atilde;o, utopias, impress&otilde;es generalizadas ou circunstanciais daquilo que, de fato, pertence ao mundo real e que, portanto, pode resistir ao confronto duradouro e sistem&aacute;tico com a realidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se, por um lado, &eacute; consolador podermos contar com s&eacute;culos de conhecimento acumulado sobre esse tema e desfrutar de todo o monumental progresso cient&iacute;fico dele decorrente, por outro, &eacute; espantoso verificar o quanto ainda somos frequentemente tomados de assalto por fal&aacute;cias, pseudoci&ecirc;ncias e ideologias supostamente fundamentadas em bases cient&iacute;ficas s&oacute;lidas que, depois de um certo tempo, revelam-se ilus&oacute;rias, enganosas e por tantas vezes nefastas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O homem foi o &uacute;nico animal, de que se tem registro, capaz de abandonar as savanas africanas e as cavernas para explorar os planetas, as estrelas e os confins do universo f&iacute;sico. No entanto, tamb&eacute;m esse mesmo homem, rico em ambiguidades, demonstrou que em v&aacute;rios per&iacute;odos da hist&oacute;ria pode desaprender, ou simplesmente ignorar conhecimentos basilares que gera&ccedil;&otilde;es anteriores levaram d&eacute;cadas para desvendar. A sua <i>natureza</i> de animal racional e pol&iacute;tico &#91;3&#93; parece ser, em certas circunst&acirc;ncias, mais fr&aacute;gil quanto &agrave; racionalidade do que a de outros animais tidos por n&oacute;s, humanos, como irracionais e inferiores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante de argumentos sedutores e lisonjeiros, de promessas fascinantes de conforto material e psicol&oacute;gico a um indiv&iacute;duo ou a um dado grupo, ou de miragens futur&iacute;sticas de bem-estar e pertencimento social at&eacute; mesmo a na&ccedil;&otilde;es inteiras, esquecemos rapidamente do que somos feitos. Ou seja, para al&eacute;m de qualquer apar&ecirc;ncia, ainda somos os mesmos <i>entes</i> de sempre, com os mesmos limites intr&iacute;nsecos que delimitam a nossa <i>natureza</i> e, assim sendo, devemos levar sempre em conta as nossas reais possibilidades de "movimento" dentro da realidade manifesta. De fato, &eacute; curioso constatar que, na pr&aacute;tica, mesmo tendo &agrave; nossa disposi&ccedil;&atilde;o tantos exemplos, ensinamentos, leis e literaturas sapienciais, o quanto ainda podemos ser presas f&aacute;ceis em situa&ccedil;&otilde;es marcadamente ilus&oacute;rias ditadas, seja pela ambi&ccedil;&atilde;o pessoal desmedida dos que tentam "morder mais do que s&atilde;o capazes de mastigar", seja pela sistem&aacute;tica imposi&ccedil;&atilde;o de um comportamento de bando, desindividualizante e, por isso mesmo, falacioso. Por oportuno, deve-se reiterar que, em ambos os casos, trata-se de uma situa&ccedil;&atilde;o de viola&ccedil;&atilde;o dos nossos limites internos, isto &eacute;, de nossa <i>natureza</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O ad&aacute;gio popular "Maria vai com as outras" fornece, entre outras poss&iacute;veis interpreta&ccedil;&otilde;es, uma alegoria que demonstra a tentadora propens&atilde;o de certos indiv&iacute;duos para abdicar da aptid&atilde;o humana mais nobre, a racionalidade. Em troca dessa aptid&atilde;o, n&atilde;o s&atilde;o poucos aqueles que optam pelas apar&ecirc;ncias de conforto imediato que supostamente deveriam satisfazer, em profusas medidas, as necessidades daqueles que as buscam frente aos mais variados desafios que a vida lhes oferece. Diz-se que "o animal saciado, dorme" e, ao dormir, dispensa-o de pensar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A vida &eacute; uma constante competi&ccedil;&atilde;o. Todos os viventes dependem de fontes de energia para viver, ao mesmo tempo em que eles pr&oacute;prios s&atilde;o partes constitutivas de uma mesma teia alimentar global. Eis o fato estruturante da vida na Terra. Dessa forma, o conflito entre indiv&iacute;duos &eacute; inevit&aacute;vel. Ao n&iacute;vel de sociedades, esse conflito se verifica desde as necessidades mais elementares de sobreviv&ecirc;ncia do indiv&iacute;duo, at&eacute; o da conquista de melhores posi&ccedil;&otilde;es hier&aacute;rquicas de reconhecimento social e de sucesso de transmiss&atilde;o do seu material gen&eacute;tico para as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esta parece ser a realidade que irmana todos os viventes e, for&ccedil;osamente, os coloca no mesmo patamar enquanto <i>entes </i>porque oriundos do mesmo e absoluto <i>ser</i>. Contudo, frente aos mais variados cen&aacute;rios de sobreviv&ecirc;ncia que qualquer indiv&iacute;duo de qualquer esp&eacute;cie pode encontrar durante a sua exist&ecirc;ncia, a racionalidade proporciona maiores possibilidades de escolha e de a&ccedil;&atilde;o dos humanos, quando comparados aos demais seres vivos, significativamente mais subordinados aos seus limites intr&iacute;nsecos de condicionamento. Contudo, essa maior subordina&ccedil;&atilde;o aos pr&oacute;prios condicionamentos nem sempre os impede de demonstrar n&iacute;veis superiores de sensatez diante da realidade quando confrontados aos humanos. Mesmo em confer&iacute;vel desvantagem, n&atilde;o abdicam voluntariamente da inferior capacidade racional que possuem. Pelo contr&aacute;rio, parecem us&aacute;-la ao m&aacute;ximo para melhor se movimentar e sobreviver dentro da realidade. Ao passo que naquilo que nos concerne, <i>n&atilde;o s&atilde;o poucos os exemplos de perda auto-infligida da racionalidade, induzida por todo tipo de estado an&aacute;logo ao da embriaguez. </i>Seja na escala pessoal, familiar ou social. Tal racionalidade dos ditos irracionais, em contraste com irracionalidades de supostos racionais pode ser, did&aacute;tica e aristotelicamente, ilustrada pela m&aacute;xima: "Isso &eacute; &aacute;gua que passarinho n&atilde;o bebe".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS:</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Arist&oacute;teles. <i>F&iacute;sica I-II. </i>2010. Livro II, Cap. I, p. 43. Editora Unicamp, Campinas, SP.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Cordero, L. N. <i>Sendo, se </i>&eacute;<i> - A tese de Parm&ecirc;nides.</i> 2011. Fragmento 2, pag. 226. Odysseus Editora Ltda. S&atilde;o Paulo, SP.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Arist&oacute;teles. <i>A pol&iacute;tica</i>. 2012. Livro I, Cap. I, pag. 18. Lafonte. S&atilde;o Paulo, SP.    </font></p>      ]]></body><back>
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