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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS     <br> CI&Ecirc;NCIA E AGRICULTURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Acesso &agrave; tecnologia: a verdadeira quest&atilde;o social no campo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria Thereza Macedo Pedroso</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pesquisadora da Embrapa Hortali&ccedil;as, doutora em ci&ecirc;ncias sociais pela Universidade de Bras&iacute;lia (UnB). E-mail: <a href="mailto:Maria.Pedroso@embrapa.br">Maria.Pedroso@embrapa.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ASPECTOS DA MODERNIZA&Ccedil;&Atilde;O DA AGRICULTURA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A expans&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola brasileira ocorreu em um contexto inicial sob o qual foram difundidas tecnologias muito simples e abundante oferta de m&atilde;o de obra. Na &eacute;poca, os aumentos da produ&ccedil;&atilde;o decorriam da expans&atilde;o da &aacute;rea cultivada e n&atilde;o de ganhos de produtividade. Foi no final da d&eacute;cada de 1960, contudo, que as autoridades do setor finalmente se convenceram acerca do desafio do primitivismo tecnol&oacute;gico ent&atilde;o existente em quase todos os ramos produtivos e regi&otilde;es rurais, situa&ccedil;&atilde;o que foi se tornando claramente contrastante com a expans&atilde;o industrial e do setor de servi&ccedil;os associada &agrave;queles anos de vigoroso crescimento econ&ocirc;mico (a d&eacute;cada de 1970). Por esta raz&atilde;o, desenhou-se uma estrat&eacute;gia de moderniza&ccedil;&atilde;o da agricultura, inspirada no modelo de transforma&ccedil;&atilde;o produtiva da agropecu&aacute;ria norte-americana do p&oacute;s-guerra, combinando tr&ecirc;s pilares principais: cr&eacute;dito abundante e barato, extens&atilde;o rural e pesquisa agr&iacute;cola. Em 1973, o governo criou a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&aacute;ria), destinada &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o de pesquisas que promovessem o aumento da produtividade, enquanto o servi&ccedil;o nacional de extens&atilde;o rural, pela Embrater (Empresa Brasileira de Assist&ecirc;ncia T&eacute;cnica e Extens&atilde;o Rural), foi criado no ano anterior, embora extinto durante o governo Collor. No caso da pesquisa agr&iacute;cola, os t&eacute;cnicos foram enviados, quase todos, para programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o nos Estados Unidos e, dessa forma, esses profissionais passaram por um processo de aprendizado acumulado naquele pa&iacute;s, no que se refere &agrave; moderniza&ccedil;&atilde;o da agricultura. Tamb&eacute;m foram criadas novas linhas de cr&eacute;dito agr&iacute;cola para compra de insumos, m&aacute;quinas e tratores e fortalecidas as empresas de assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica e extens&atilde;o rural. Esse conjunto de a&ccedil;&otilde;es ganhou velocidade e efetividade, sendo por esta raz&atilde;o que aquela d&eacute;cada foi um marco na hist&oacute;ria rural do Brasil, pois foram transformadas radicalmente algumas regi&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, especialmente S&atilde;o Paulo e os tr&ecirc;s estados sulistas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi a partir da moderniza&ccedil;&atilde;o da nossa agricultura que se observaram n&atilde;o apenas as altas taxas de crescimento e as impressionantes transforma&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas, mas tamb&eacute;m profundas mudan&ccedil;as de mentalidade nas regi&otilde;es rurais onde se instalou mais fortemente a nova din&acirc;mica econ&ocirc;mica e produtiva. No entanto, foi um processo seletivo em fun&ccedil;&atilde;o de diversos focos, discriminando regi&otilde;es, produtos e, em especial, os produtores, em fun&ccedil;&atilde;o do seu porte econ&ocirc;mico. A moderniza&ccedil;&atilde;o da agricultura possibilitou maximizar o rendimento f&iacute;sico dos cultivos em situa&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas profundamente distintas. Elevou ao m&aacute;ximo a capacidade potencial dos cultivos, proporcionando-lhes as condi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas das ideais em diversas regi&otilde;es, eliminando com agroqu&iacute;micos os competidores e predadores naturais e fornecendo os nutrientes necess&aacute;rios, sob a forma de fertilizantes sint&eacute;ticos. A l&oacute;gica desse formato tecnol&oacute;gico, normalmente chamado de "agricultura moderna" na literatura, &eacute; o controle das condi&ccedil;&otilde;es naturais por meio da simplifica&ccedil;&atilde;o e da m&aacute;xima artificializa&ccedil;&atilde;o do meio ambiente, de forma a adequ&aacute;-lo &agrave;s exig&ecirc;ncias das plantas, para que essas possam efetivar todo o seu potencial de rendimento. Esse foi o "primeiro cap&iacute;tulo" na hist&oacute;ria rural contempor&acirc;nea do pa&iacute;s, instituindo as bases produtivas de uma nova agricultura, similar ao padr&atilde;o tecnol&oacute;gico que antes transformara a agricultura norte-americana e, posteriormente, na d&eacute;cada de 1950, em diversos pa&iacute;ses europeus.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas, a partir do final da d&eacute;cada de 1990, o desenvolvimento agr&iacute;cola brasileiro cruzou um novo "divisor de &aacute;guas", entrando em uma nova e vibrante fase de expans&atilde;o e crescimento, instituindo um <i>novo padr&atilde;o de acumula&ccedil;&atilde;o de capital, sem compara&ccedil;&atilde;o com as experi&ecirc;ncias do passado.</i> Nos &uacute;ltimos 15 a 20 anos, as regi&otilde;es agr&iacute;colas brasileiras v&ecirc;m experimentando um forte processo de intensifica&ccedil;&atilde;o produtiva e adentrando uma fase distinta de seu desenvolvimento agr&iacute;cola e agr&aacute;rio, uma "fase financeira", o que produz incont&aacute;veis desafios novos para os agricultores (em especial para o processo de inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica). Al&eacute;m de introduzir uma dram&aacute;tica contradi&ccedil;&atilde;o social, pois o grau de complexidade no desenvolvimento das atividades agropecu&aacute;rias tem sido acentuado continuamente, o que representa um extraordin&aacute;rio desafio, em especial, para os produtores de menor porte econ&ocirc;mico. Adicionalmente, como se trata de uma "etapa financeira", os montantes requeridos de recursos monet&aacute;rios tamb&eacute;m t&ecirc;m sido elevados, criando barreiras que poder&atilde;o ser intranspon&iacute;veis para um n&uacute;mero crescente de produtores, caso os mecanismos de acesso ao financiamento n&atilde;o se tornem facilitados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A contradi&ccedil;&atilde;o citada representa um enorme problema para a sociedade: de um lado, um pa&iacute;s que vem se posicionando como uma das maiores pot&ecirc;ncias agr&iacute;colas do mundo, evidenciando padr&otilde;es de r&aacute;pida intensifica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica em diversas regi&otilde;es rurais. Por outro lado, em chocante contraste, a pobreza rural do pa&iacute;s &eacute; persistente e somente minimizada com a&ccedil;&otilde;es compensat&oacute;rias das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, pois h&aacute; uma legi&atilde;o de fam&iacute;lias rurais empobrecidas que n&atilde;o t&ecirc;m sido capaz de integrar-se produtivamente e tamb&eacute;m fazer parte, com mais desenvoltura e resultados concretos, da economia agr&iacute;cola &#91;1&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez o impacto mais desafiador desta nova fase financeira seja aquele normalmente esperado em processos de expans&atilde;o capitalista. Consultando-se a <a href="/img/revistas/cic/v69n4/a15tab01.jpg">Tabela 1</a>, percebe-se que h&aacute; enorme concentra&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o bruta agropecu&aacute;ria. Segundo dados do censo agropecu&aacute;rio de 2006 (que j&aacute; est&atilde;o "velhos" em mais de uma d&eacute;cada), apenas 0,62% dos estabelecimentos respondem por 51,19% do total da produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria (em valor bruto, incluindo o autoconsumo). No outro extremo, 66,01% dos estabelecimentos (com renda bruta mensal entre 0 a 2 sal&aacute;rios m&iacute;nimos, ou seja, os mais pobres) produziram somente 3,27% da renda bruta &#91;2&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por que se mant&eacute;m essa dualidade que vai sendo aprofundada com o passar dos anos? Na literatura mais antiga, o motivo principal para a persistente pobreza rural seria sempre relacionado ao tamanho da propriedade e, portanto, &agrave; inexist&ecirc;ncia de programas mais volumosos de reforma agr&aacute;ria, os quais pudessem democratizar o acesso &agrave; terra. A literatura argumentava ent&atilde;o que assim poderia ser constitu&iacute;do o mercado interno e, finalmente, seria "dinamizada a economia". Ou seja, o argumento &eacute; que a pobreza rural persistia em fun&ccedil;&atilde;o da concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra. Entretanto, tendo ocorrido o destacado processo de moderniza&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola na d&eacute;cada de 1970, esse argumento caiu por terra - pois se formou o mercado interno, mas sem a reforma agr&aacute;ria. Dessa forma, os estudos mais recentes, fundados na an&aacute;lise dos principais fatores associados &agrave; pobreza rural, indicam que o fator "tamanho do estabelecimento" est&aacute; sendo substitu&iacute;do pelo fator "tecnologia", ou seja, o acesso &agrave; ci&ecirc;ncia, &agrave;s t&eacute;cnicas agr&iacute;colas e &agrave; moderniza&ccedil;&atilde;o do processo produtivo. &Eacute; o que pode ser observado na <a href="#tab2">Tabela 2</a> &#91;3&#93;. Pouco mais de dez anos atr&aacute;s, quando foram levantados os dados do &uacute;ltimo censo, o fator "tecnologia" j&aacute; respondia por quase 70% do crescimento da produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria, enquanto o fator "terra" j&aacute; representava menos do que 10%, assim deixando para tr&aacute;s um passado "agrarista", inclusive retratado na maior parte da literatura. Uma das in&uacute;meras perguntas estimuladas pela <a href="#tab2">Tabela 2</a>, portanto, &eacute; sobre a oportunidade de ainda existir um programa de redistribui&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria no Brasil.</font></p>     <p><a name="tab2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v69n4/a15tab02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esta primeira parte, portanto, registra aquele processo econ&ocirc;mico que &eacute;, atualmente, o mais desafiador para o desenvolvimento agr&aacute;rio brasileiro: a produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria vem se concentrando rapidamente e encurralando os pequenos produtores, os quais n&atilde;o conseguem, em sua maioria, concorrer em mercados que v&atilde;o se tornando acirrados. Trata-se de um processo de diferencia&ccedil;&atilde;o social que gradualmente se aprofunda, indicando que estamos caminhando na dire&ccedil;&atilde;o de um setor agropecu&aacute;rio dominando pelos empreendimentos de larga escala, com espa&ccedil;os cada vez limitados para os demais tipos de produtores.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AGROECOLOGIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Tamb&eacute;m a partir dos anos de 1990, no Brasil e no mundo, em fun&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a p&uacute;blica do termo "sustentabilidade", foram intensificadas pesquisas sobre m&eacute;todos de produ&ccedil;&atilde;o capazes de reduzir o uso de recursos naturais e insumos industrializados e o consumo de energia f&oacute;ssil. Ou seja, passou-se a perseguir uma agricultura mais sustent&aacute;vel (ou menos insustent&aacute;vel), objetivando a concretiza&ccedil;&atilde;o de processos de "transi&ccedil;&atilde;o produtiva", um movimento gradual de passagem dos formatos intensivos da agricultura moderna para outros padr&otilde;es tecnol&oacute;gicos que absorvam menores quantidades (em volume e valor) de insumos agroindustriais e que causem menores externalidades negativas ao meio ambiente. Portanto, a busca dos cientistas representa um ajuste ou um aprimoramento da agricultura moderna, estabelecendo melhor manejo de recursos naturais e a montagem de uma agricultura que seja, principalmente, "eco-eficiente", suavizando os impactos ambientais desta atividade econ&ocirc;mica. S&atilde;o vis&iacute;veis os avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos em dire&ccedil;&atilde;o a uma agricultura mais sustent&aacute;vel em fun&ccedil;&atilde;o do cont&iacute;nuo avan&ccedil;o do conhecimento nas ci&ecirc;ncias agr&iacute;colas. Alguns desses pesquisadores, no entanto, em especial no Brasil, t&ecirc;m denominado suas pesquisas que buscam aumentar a sustentabilidade dos sistemas agr&iacute;colas como "transi&ccedil;&atilde;o agroecologia", quando, de fato, se trata apenas de um esfor&ccedil;o de "esverdear" (<i>greening</i>) os formatos tecnol&oacute;gicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O termo "agroecologia", assim dizem seus proponentes, sugere que existiria uma <i>ci&ecirc;ncia-em-progresso</i>, na qual haveria uma fus&atilde;o entre a agronomia e a ecologia. No entanto, at&eacute; aqui, sequer internacionalmente, a agroecologia n&atilde;o tem mostrado sinais, quaisquer que sejam, de ser algo parecido com "ci&ecirc;ncia", ainda que remotamente. De uma forma geral, seus militantes (e n&atilde;o os cientistas) afirmam que &eacute; uma "nova forma de fazer ci&ecirc;ncia", n&atilde;o fazendo parte dos paradigmas da "ci&ecirc;ncia ocidental". Mas, curiosamente, n&atilde;o indicam quais s&atilde;o os sinais emp&iacute;ricos, da realidade, que apontariam essa "ci&ecirc;ncia emergente".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel observar defini&ccedil;&otilde;es que afirmam que agroecologia seria um conjunto de experi&ecirc;ncias de "resist&ecirc;ncia dos camponeses" ao ide&aacute;rio da agricultura moderna, a partir do "di&aacute;logo dos saberes", e que teria o potencial de "empoder&aacute;-los" como um contraponto ao agroneg&oacute;cio (e at&eacute; mesmo ao capitalismo), al&eacute;m de alimentar o planeta sem impactar o meio ambiente. Acreditam que os agricultores familiares, por defini&ccedil;&atilde;o, seriam "virtuosos" e, por isso, capazes de gerar um manejo socioambiental dos recursos naturais que seria o "correto", pois ativando uma rela&ccedil;&atilde;o mais harm&ocirc;nica com aqueles recursos. Alguns at&eacute; afirmam que os produtores poderiam estar abrindo m&atilde;o de sua renda em prol da comunidade e da conserva&ccedil;&atilde;o da natureza. Quando questionados a respeito, afirmam existirem muitas experi&ecirc;ncias bem-sucedidas no Brasil e que essas apenas precisam ser sistematizadas para demonstrar o que afirmam (uma sistematiza&ccedil;&atilde;o que jamais vem a lume, diga-se de passagem).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma ilustra&ccedil;&atilde;o est&aacute; contida no site do Congresso Brasileiro de Agroecologia, ocorrido em setembro deste ano. Ali se l&ecirc; a seguinte defini&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A ABA (Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Agroecologia) define em seu estatuto (artigo 2º, par&aacute;grafo 1º) a agroecologia como ci&ecirc;ncia, movimento pol&iacute;tico e pr&aacute;tica social (...) implica, portanto, em mudan&ccedil;as nas atitudes, valores e formas de organiza&ccedil;&atilde;o dos atores sociais na conserva&ccedil;&atilde;o e manejo dos recursos naturais, na perspectiva de um bem viver, fomentando rela&ccedil;&otilde;es virtuosas entre a produ&ccedil;&atilde;o e o consumo".</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como a agroecologia poderia ser ci&ecirc;ncia, movimento pol&iacute;tico e pr&aacute;tica social simultaneamente? "Pol&iacute;tica", por defini&ccedil;&atilde;o, representa interesses particularistas, enquanto "ci&ecirc;ncia", tamb&eacute;m em raz&atilde;o de seu conte&uacute;do conceitual, &eacute; essencialmente universalista e apenas esta contradi&ccedil;&atilde;o j&aacute; desmontaria a proposi&ccedil;&atilde;o acima referida. Al&eacute;m disso, sendo ci&ecirc;ncia, como pode ser definida atrav&eacute;s do estatuto de uma associa&ccedil;&atilde;o? Conclui-se, portanto, que "agroecologia" n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de "agricultura sustent&aacute;vel", tampouco um conjunto de t&eacute;cnicas (como o &eacute;, por exemplo, a agricultura org&acirc;nica) &#91;4&#93; e, muito menos, ci&ecirc;ncia. Mas indica que a "agroecologia" &eacute; um enfrentamento apenas discursivo e que camufla uma proposta ideol&oacute;gica, comungada por quem cr&ecirc; que &eacute; fact&iacute;vel tamb&eacute;m a ocorr&ecirc;ncia de uma s&eacute;rie de "mudan&ccedil;as estruturais" na sociedade e na economia associadas a uma radical transforma&ccedil;&atilde;o do padr&atilde;o tecnol&oacute;gico da agricultura. Ou seja, configura-se em um movimento pol&iacute;tico liderado por organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais que contesta a agricultura moderna. Por outro lado, o que seriam "rela&ccedil;&otilde;es virtuosas entre a produ&ccedil;&atilde;o e o consumo"? E "bem viver"? &#91;5&#93; Como valores, atitudes, formas de organiza&ccedil;&atilde;o dos atores sociais podem mudar? Como acreditar nisso sem ter, sobretudo, f&eacute;? Por isso o movimento pol&iacute;tico da agroecologia tem algum n&iacute;tido componente religioso, mais sugerindo um "culto m&aacute;gico" de defesa de algo que ningu&eacute;m sequer define com maior precis&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A presen&ccedil;a e a influ&ecirc;ncia dessa ret&oacute;rica t&ecirc;m acarretado in&uacute;meros impactos negativos, n&atilde;o apenas sem&acirc;nticos, que se refletem nas pol&iacute;ticas de ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o para a agricultura. Nos anos recentes da administra&ccedil;&atilde;o federal, por exemplo, iniciativas relacionadas com o termo "agroecologia" receberam grande apoio, por meio de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, editais e chamadas p&uacute;blicas em v&aacute;rios minist&eacute;rios, al&eacute;m da cria&ccedil;&atilde;o de cursos t&eacute;cnicos e universit&aacute;rios. Inclusive, com grande espanto, p&oacute;s-gradua&ccedil;&otilde;es, pesquisas e a&ccedil;&otilde;es de assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica. No entanto, como foi apresentado na primeira parte deste artigo, o grande desafio <i>real e atual</i> no campo brasileiro &eacute; a "salva&ccedil;&atilde;o" imediata da maior propor&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel de pequenos produtores, os quais est&atilde;o amea&ccedil;ados em todas as regi&otilde;es rurais, em face do acirramento concorrencial e da crescente concentra&ccedil;&atilde;o da riqueza, conduzidos pelo acesso diferenciado &agrave; tecnologia, segmentando, cada vez mais, entre os grupos de produtores. Nesse sentido, a puerilidade da agroecologia, concretamente amea&ccedil;ar&aacute;, ainda mais, as chances de sobreviv&ecirc;ncia dos pequenos produtores rurais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Durante os governos recentes, para agravar ainda mais os processos de diferencia&ccedil;&atilde;o social, houve uma divis&atilde;o "m&aacute;gica" da pol&iacute;tica p&uacute;blica para a agricultura. Essa divis&atilde;o foi fortemente apoiada pelos assim chamados movimentos sociais e pelas ONGs militantes da agroecologia. A bifurca&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas manteve um eixo, supostamente, para os agricultores patronais, sediado no Minist&eacute;rio da Agricultura, Pecu&aacute;ria e Abastecimento (Mapa), onde tamb&eacute;m foram mantidas as pol&iacute;ticas de fiscaliza&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria, registro de agrot&oacute;xicos, entre outras. A segunda vertente foi sediada no antigo Minist&eacute;rio do Desenvolvimento Agr&aacute;rio e destinada aos pequenos produtores (equivocadamente denominados de "camponeses"). No per&iacute;odo, a agroecologia esteve fortemente presente nas a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas desse minist&eacute;rio. Muitos militantes da agroecologia passaram a ocupar cargos no minist&eacute;rio e ditar as a&ccedil;&otilde;es para os pequenos produtores, e quase todas inclu&iacute;am o termo agroecologia em suas propostas, ainda que apenas retoricamente, pois sequer existe uma defini&ccedil;&atilde;o do termo que seja mais amplamente aceita.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um exemplo pr&aacute;tico se relaciona com a biotecnologia. Os militantes da agroecologia s&atilde;o contra os transg&ecirc;nicos e recomendam que os pequenos produtores utilizem "sementes crioulas". Inclusive militam contra a disponibiliza&ccedil;&atilde;o, para os agricultores, do feij&atilde;o transg&ecirc;nico que foi desenvolvido pela Embrapa, o qual, por ter resist&ecirc;ncia a um v&iacute;rus que &eacute; transmitido por um inseto, evita o uso de inseticidas (ou seja, &eacute; mais sustent&aacute;vel quando comparado com o seu similar n&atilde;o transg&ecirc;nico). Nos Estados Unidos, um mam&atilde;o transg&ecirc;nico com a mesma caracter&iacute;stica, quando disponibilizado para os agricultores, salvou a produ&ccedil;&atilde;o dessa fruta no Hava&iacute;. Dessa forma, sup&otilde;e-se que o feij&atilde;o transg&ecirc;nico seja um produto que, se disponibilizado para os agricultores brasileiros, poderia contribuir para, justamente, fortalecer a produ&ccedil;&atilde;o dos pequenos produtores e diminuir o uso de inseticidas &#91;6&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONCLUS&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este breve artigo pretendeu indicar, por um lado, que temos <i>urg&ecirc;ncia no campo brasileiro:</i> milh&otilde;es de fam&iacute;lias rurais, especialmente aquelas mais pobres, n&atilde;o est&atilde;o conseguindo ter acesso a renda em seus estabelecimentos ou apenas conseguem obter baix&iacute;ssimos n&iacute;veis de renda. Por outro lado, est&aacute; definitivamente evidenciado (em termos concretos e na literatura especializada) que o fator tecnologia &eacute; o mais importante para explicar a pobreza rural, pois &eacute; o condutor principal do processo de seletividade social, e n&atilde;o os fatores trabalho e terra. A falta de acesso &agrave; tecnologia &eacute; que tem mais influenciado a persist&ecirc;ncia da pobreza rural. Dessa forma, o recomendado para resolver essa quest&atilde;o de urg&ecirc;ncia social no campo brasileiro &eacute; que essa faixa de agricultores seja agraciada com pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que ofere&ccedil;am as melhores condi&ccedil;&otilde;es de acesso &agrave;s tecnologias de qualidade resultantes da pesquisa agr&iacute;cola propriamente dita, segundo as tradi&ccedil;&otilde;es consolidadas das pr&aacute;ticas cient&iacute;ficas. Ou seja, aquelas desenvolvidas e testadas por cientistas e que visam o manejo dos recursos objetivando o estabelecimento de uma agricultura moderna mais sustent&aacute;vel poss&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Lamentavelmente, &eacute; justamente o contr&aacute;rio que vem ocorrendo em nosso pa&iacute;s: justamente os agricultores que mais necessitam do melhor aporte tecnol&oacute;gico no sentido mais amplo da palavra, ou seja, em termos de produ&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o e assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica, foram os agraciados com algo que n&atilde;o tem qualquer rela&ccedil;&atilde;o com os avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia nas mais diversas &aacute;reas da agronomia. Pelo contr&aacute;rio, foram p&uacute;blicos alvo das pol&iacute;ticas relacionadas com o termo agroecologia, que n&atilde;o tem status cient&iacute;fico e, apesar de ter forte apoio do Estado brasileiro, &eacute; definido em um estatuto de militantes e n&atilde;o se materializa, sequer, como uma t&eacute;cnica. &Eacute; apenas uma ret&oacute;rica infantil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS E NOTAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Buainain, A. M. et al. "Sete teses sobre o mundo rural brasileiro". <i>Revista de Pol&iacute;tica Agr&iacute;cola</i>, p. 105-121, 22, 2, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Alves, E. "O que falaram os censos do IBGE?" Semin&aacute;rio, Embrapa, 26 de junho de 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Alves, E.; Silva, G.; Rocha, D. P. "Lucratividade na agricultura". <i>Revista de Pol&iacute;tica Agr&iacute;cola</i>, p. 45-63, 21, 2, 2012.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. A partir das d&eacute;cadas de 1960 e 1970, observou-se o surgimento de diversas iniciativas que se apresentaram como um "contraponto tecnol&oacute;gico" &agrave; agricultura moderna. Alguns esfor&ccedil;os contestadores desencadearam em formatos tecnol&oacute;gicos alternativos, tais como a biodin&acirc;mica, a org&acirc;nica e a biol&oacute;gica, as quais surgiram primeiramente na Europa, e a natural, que surgiu no Jap&atilde;o (EHLERS, 1996).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. A Carta Final do IX Congresso Brasileiro de Agroecologia ocorrido em 2015, afirma que "a constru&ccedil;&atilde;o do bem viver &eacute; uma tarefa civilizat&oacute;ria orientada pelos princ&iacute;pios da coopera&ccedil;&atilde;o e da solidariedade. Antep&otilde;e-se aos fundamentos do liberalismo econ&ocirc;mico que incitam indiv&iacute;duos &agrave; luta pelo viver bem com base na competi&ccedil;&atilde;o mercantil e na destrui&ccedil;&atilde;o das possibilidades do bem viver coletivo".</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Pedroso, M. T. M. "Institui&ccedil;&otilde;es e inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica agropecu&aacute;ria: o caso de produtos biotecnol&oacute;gicos no Brasil e nos Estados Unidos". Tese de doutorado. Ceppac/UnB, 2017.    </font></p>     ]]></body>
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