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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> POVOS TRADICIONAIS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ribeirinhos de Belo Monte</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patr&iacute;cia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Aquele ch&atilde;o ainda estava a come&ccedil;ar, rec&eacute;m-recente. As sementes ali se davam bem, o verde se espraiando em sumarentas paisagens. A vida se atrelava no tempo, as &aacute;rvores escalando alturas. Um dia, por&eacute;m, ali desembarcou a guerra, capaz de todas as variedades de morte. Em diante, tudo mudou e a vida se tornou demasiado mortal. Vieram da Na&ccedil;&atilde;o apressados funcion&aacute;rios. Os delegados da capital sempre cumprem pressas quando est&atilde;o longe de sua origem. E avisaram que os viventes tinham que sair, convertidos de habitantes em deslocados". A descri&ccedil;&atilde;o do escritor sul-africano Mia Couto, em um dos contos do livro <i>Hist&oacute;rias abensonhadas</i> (Cia das Letras, 2012), ajuda a contar parte da hist&oacute;ria dos ribeirinhos de Belo Monte. Em um processo que se arrasta desde 2001, quando come&ccedil;aram a ser implantados os primeiros canteiros de obras e acampamentos de trabalhadores para a constru&ccedil;&atilde;o da barragem da Usina Hidrel&eacute;trica de Belo Monte, os ribeirinhos se tornaram deslocados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n1/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O termo ribeirinho comporta uma defini&ccedil;&atilde;o ampla. No Xingu, eles s&atilde;o denominados beiradeiros, que vivem no beirad&atilde;o. De acordo com S&ocirc;nia Barbosa Magalh&atilde;es, cientista social e professora da Universidade Federal do Par&aacute; (UFPA), as caracter&iacute;sticas desse grupo resultam da rela&ccedil;&atilde;o que mant&ecirc;m com a natureza, especialmente com o rio, combinando m&uacute;ltiplas atividades que se destinam &agrave; subsist&ecirc;ncia e ao mercado e que guardam forte rela&ccedil;&atilde;o com os per&iacute;odos de cheias e de secas e com os recursos naturais dispon&iacute;veis. A pesquisadora &eacute; uma das coordenadoras de um relat&oacute;rio sobre a situa&ccedil;&atilde;o das fam&iacute;lias de pescadores e lavradores que foram deslocados do seu ambiente, publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC) em 2017 e intitulado: <i>A expuls&atilde;o de ribeirinhos em Belo Monte</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O rio Xingu tem seis meses de cheia, com grande parte das ilhas submersas (a intensidade das cheias varia ao longo dos anos), e seis meses do ano de secas com ilhas e praias expostas. No mesmo relat&oacute;rio da SBPC, as pesquisadoras Ana De Francesco, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Alexandra Freitas, Clara Baitello e Denise da Silva Gra&ccedil;a, do Instituto Socioambiental (ISA), explicam: "Os ribeirinhos que habitavam a regi&atilde;o do m&eacute;dio Xingu, onde hoje se encontra o reservat&oacute;rio da Hidrel&eacute;trica de Belo Monte, desenvolveram saberes e pr&aacute;ticas ao longo dos anos, em um processo de experimenta&ccedil;&atilde;o e intera&ccedil;&atilde;o com o ambiente, transmitidas e enriquecidas ao longo de gera&ccedil;&otilde;es no dia a dia do beirad&atilde;o. Esses saberes est&atilde;o presentes nas constru&ccedil;&otilde;es das casas, nos cultivos das ro&ccedil;as, nos quintais agroflorestais, nas &aacute;reas de pesca e nas estrat&eacute;gias adotadas para responder &agrave; din&acirc;mica das varia&ccedil;&otilde;es sazonais do rio Xingu".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BILOCALIDADE E DESLOCAMENTO DUPLO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra caracter&iacute;stica do modo de vida desse grupo &eacute; adotar um fluxo de vida que reveza a perman&ecirc;ncia no beirad&atilde;o e na cidade, em casas localizadas perto do rio j&aacute; que o principal meio de transporte &eacute; o barco. Conforme explicam as pesquisadoras da Unicamp e do ISA, al&eacute;m de ser um ponto de apoio para a comercializa&ccedil;&atilde;o de produtos da pesca, da ro&ccedil;a e do extrativismo, a casa na cidade era um meio de acessar educa&ccedil;&atilde;o para os filhos e os servi&ccedil;os p&uacute;blicos de sa&uacute;de. Entretanto, a dupla moradia n&atilde;o foi reconhecida pela Norte Energia, cons&oacute;rcio de empresas respons&aacute;vel pela constru&ccedil;&atilde;o da hidrel&eacute;trica, for&ccedil;ando os ribeirinhos a se identificarem, na ocasi&atilde;o do cadastro socioecon&ocirc;mico, como sendo urbanos ou rurais. "Para a Norte Energia, a empresa concession&aacute;ria de Belo Monte, e para o governo federal, os ribeirinhos sequer existiam. Ainda mais perverso do que expuls&aacute;-los da beira do Xingu era negar aquilo que s&atilde;o, torn&aacute;-los um 'n&atilde;o ser'. E essa pervers&atilde;o foi cometida com eles", afirmou para a <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i> a jornalista e documentarista Eliane Brum, que desde 2011 faz reportagens sobre os impactos da constru&ccedil;&atilde;o da barragem na vida dos ribeirinhos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, entretanto, atribuir esse posicionamento da Norte Energia a algum tipo de desconhecimento sobre as caracter&iacute;sticas do modo de vida ribeirinho. "A Norte Energia tem larga experi&ecirc;ncia de constru&ccedil;&atilde;o de barragens na regi&atilde;o. Isto porque a Norte Energia &eacute; um cons&oacute;rcio de empresas do qual 49,98% s&atilde;o formados pela Eletrobr&aacute;s e suas subsidi&aacute;rias (Eletronorte e Chesf). A Eletronorte lidera a composi&ccedil;&atilde;o do cons&oacute;rcio com 19,98%. A empresa iniciou a constru&ccedil;&atilde;o de hidrel&eacute;tricas em 1974, com a hidrel&eacute;trica de Tucuru&iacute; tamb&eacute;m no estado do Par&aacute;. Logo, no setor el&eacute;trico, &eacute; quem mais conhece a regi&atilde;o e suas especificidades", afirmou Magalh&atilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na cidade, o deslocamento levou fam&iacute;lias para bairros longe do rio, inviabilizando a manuten&ccedil;&atilde;o das embarca&ccedil;&otilde;es e gerando um custo de transporte para a realiza&ccedil;&atilde;o da atividade pesqueira que n&atilde;o havia antes. A &aacute;rea dos baix&otilde;es de Altamira foi transformada em um parque municipal, desfigurando a estrutura da localidade. O deslocamento rural atingiu todos os moradores do trecho do Xingu onde foi constru&iacute;do o reservat&oacute;rio da hidrel&eacute;trica e o deslocamento urbano atingiu 56% das fam&iacute;lias. Por falta de acesso ao territ&oacute;rio e aos seus recursos naturais muitos tiveram que abandonar atividades extrativistas e a pesca.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com os pesquisadores da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica do Paran&aacute; (PUC-PR), Liana da Silva, Bruna Gon&ccedil;alves e Carlos de Souza Filho, no Brasil, as constru&ccedil;&otilde;es de barragens para a gera&ccedil;&atilde;o de energia el&eacute;trica, iniciadas de forma mais intensa na d&eacute;cada de 1970, hoje est&atilde;o voltadas para a regi&atilde;o da Amaz&ocirc;nia. A implanta&ccedil;&atilde;o dessas barragens tem ocasionando graves viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos, em um padr&atilde;o nacional recorrente. No caso de Belo Monte, houve a viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos pelo deslocamento compuls&oacute;rio do grupo, pelo esfacelamento do seu modo de vida e  de sua integralidade f&iacute;sica e cultural. Para al&eacute;m desses fatores h&aacute; os danos ambientais, "j&aacute; que a constru&ccedil;&atilde;o da hidrel&eacute;trica devastou o ambiente natural, submergindo ilhas, tornando a &aacute;gua impr&oacute;pria para o consumo em muitos locais, apodrecendo e extinguindo esp&eacute;cies de peixes que eram relevantes para o modo de vida de subsist&ecirc;ncia do ribeirinho", afirmam.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VELHOS OLHARES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Brum esse olhar sobre os povos ind&iacute;genas e a Amaz&ocirc;nia ainda &eacute;, para grandes por&ccedil;&otilde;es do Brasil, o mesmo da ditadura civil-militar. "&Eacute; ainda o olhar do colonizador, que v&ecirc; a floresta como um corpo para explora&ccedil;&atilde;o e espolia&ccedil;&atilde;o. E olha os povos da floresta como aqueles que n&atilde;o t&ecirc;m nenhum conhecimento a compartilhar e, portanto, nem mesmo o direito de determinar seu pr&oacute;prio destino", afirma. "&Eacute; evidente que este olhar tampouco &eacute; inocente, j&aacute; que ele sustenta um tipo de 'desenvolvimento predat&oacute;rio'. Trata-se, portanto, de desmatar para explorar, transformando a floresta em pasto para boi, planta&ccedil;&atilde;o de soja, extra&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rio ou hidrel&eacute;trica", complementa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda na opini&atilde;o da jornalista, os ribeirinhos ou beiradeiros expulsos por Belo Monte foram submetidos tamb&eacute;m &agrave; outra concep&ccedil;&atilde;o muito difundida: a convers&atilde;o de povos tradicionais em pobres urbanos. As narrativas coletadas por Ana De Francesco e colaboradoras confirmam esse fen&ocirc;meno. Um grande n&uacute;mero de fam&iacute;lias vive uma situa&ccedil;&atilde;o de precariedade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, gera&ccedil;&atilde;o de renda e qualidade de vida. Foi o que contaram os ribeirinhos Manoel Ant&ocirc;nio Dias de Almeida e Isabel: "hoje tem que comprar tudo. L&aacute; na ilha tinha peixe, carne, frutas, arroz, feij&atilde;o, farinha, tapioca. Hoje tudo mudou. Antes eu dizia, menino passa a bacia com essa goma para fazer uma tapioca para merendar. Hoje eu digo, menino pega o dinheiro para ir l&aacute; no mercado comprar alguma coisa para comer". Ainda de acordo com essas pesquisadoras, as fam&iacute;lias est&atilde;o convivendo com problemas de viol&ecirc;ncia urbana e inseguran&ccedil;a: casas e barcos s&atilde;o roubados, ro&ccedil;as saqueadas, a ca&ccedil;a tornou-se uma atividade predat&oacute;ria e descontrolada. "O que ocorreu foi a ruptura dos mecanismos tradicionais de controle territorial ... assim, &aacute;reas que antes eram protegidas pelos ribeirinhos, que zelavam pelos recursos que ali existiam, hoje est&atilde;o vulner&aacute;veis a um uso abusivo e predat&oacute;rio", afirmam.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESIST&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito da viol&ecirc;ncia com que o deslocamento das pessoas desse grupo foi conduzido, h&aacute; processos de resist&ecirc;ncia. "A resist&ecirc;ncia &eacute; diuturna e muitas vezes silenciosa. Est&aacute; nas idas e vindas sem resposta ao escrit&oacute;rio da Norte Energia; nas&nbsp;den&uacute;ncias constantes ao Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, &agrave; Defensoria P&uacute;blica da Uni&atilde;o e do estado do Par&aacute;; na participa&ccedil;&atilde;o&nbsp;em reuni&otilde;es&nbsp;com os movimentos sociais, como o Movimento Xingu Vivo e outros", afirmou Magalh&atilde;es. A express&atilde;o mais concreta da luta pela reterritorializa&ccedil;&atilde;o dos povos ribeirinhos, condi&ccedil;&atilde;o para recompor seu modo de vida e para repara&ccedil;&atilde;o dos danos ambientais causados pela barragem e seu reservat&oacute;rio, &eacute; o Conselho Ribeirinho. Reconhecido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov&aacute;veis (Ibama), o conselho foi constitu&iacute;do com apoio da SBPC, do Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal, da Defensoria P&uacute;blica da Uni&atilde;o e de organiza&ccedil;&otilde;es como o Instituto Socioambiental e o Movimento Xingu Vivo Para Sempre. "O Conselho Ribeirinho foi um enorme ato de resist&ecirc;ncia, uma afirma&ccedil;&atilde;o de exist&ecirc;ncia. E, junto com essa afirma&ccedil;&atilde;o, a possibilidade de determinar seu destino. At&eacute; ent&atilde;o era uma empresa privada que dizia quem era ribeirinho e quem n&atilde;o era ribeirinho, o que &eacute; totalmente perverso. A partir da constitui&ccedil;&atilde;o do Conselho Ribeirinho, os ribeirinhos dizem quem s&atilde;o. E, a partir desse reconhecimento, os beiradeiros t&ecirc;m lutado pelo reassentamento, mas n&atilde;o qualquer reassentamento. T&ecirc;m lutado pela cria&ccedil;&atilde;o de um territ&oacute;rio ribeirinho no Xingu", afirmou Brum. A jornalista defende a necessidade do apoio de amplos setores da sociedade brasileira. "N&atilde;o por concess&atilde;o ou por bondade, mas porque a sociedade brasileira tem uma d&iacute;vida com essas popula&ccedil;&otilde;es que, junto com os povos ind&iacute;genas, s&atilde;o as que mant&ecirc;m a floresta em p&eacute;", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"No meu modo de ver, permanecer na beira do rio sob as condi&ccedil;&otilde;es mais adversas, sem casa, sem lugar &eacute; uma forma por excel&ecirc;ncia de resistir. E o livro publicado pela SBPC &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o&nbsp;concreta dessa resist&ecirc;ncia, &eacute; resultado da perman&ecirc;ncia deles para resgatar o que restou do seu territ&oacute;rio", disse a pesquisadora da UPFA, que concluiu afirmando que "negar a exist&ecirc;ncia de povos ind&iacute;genas e povos tradicionais n&atilde;o &eacute; resultado e nem pode ser atribu&iacute;do a um imagin&aacute;rio distorcido. &Eacute; uma quest&atilde;o do Estado, do reconhecimento de direitos e diz respeito a toda sociedade, a todos n&oacute;s".</font></p>      ]]></body>
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