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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> ENGENHARIA GEN&Eacute;TICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Tecnologia inova na edi&ccedil;&atilde;o de genes e desafia limites &eacute;ticos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jean-Fr&eacute;d&eacute;ric Pluvinage; Oct&aacute;vio Fonseca; Raphaela Velho</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em julho de 2017, a revista <i>MIT Technology Review</i> revelou que cientistas da Oregon Health and Science University, nos Estados Unidos, modificaram o DNA de embri&otilde;es humanos por meio da ferramenta CRISPR-Cas9, uma tecnologia voltada para a edi&ccedil;&atilde;o de genes. Os cientistas afirmaram que os embri&otilde;es permaneceram vivos apenas por alguns dias e que n&atilde;o havia inten&ccedil;&atilde;o de implant&aacute;-los em &uacute;tero. O uso da ferramenta CRISPR em embri&otilde;es humanos gerou muitas cr&iacute;ticas, mas o dilema &eacute;tico aumentou ainda mais quando tr&ecirc;s meses depois, em outubro de 2017, Josiah Zayner, conhecido como um biohacker e ex-funcion&aacute;rio da Nasa, de 36 anos, usou uma seringa em seu bra&ccedil;o diante de audit&oacute;rio da confer&ecirc;ncia SynBioBeta, em S&atilde;o Francisco, na Calif&oacute;rnia, para editar seus pr&oacute;prios genes. Ou seja, enquanto se discute o que seria e o que n&atilde;o seria &eacute;tico, temos visto, nesse curto per&iacute;odo de tempo, as aplica&ccedil;&otilde;es sa&iacute;rem do campo te&oacute;rico antes mesmo do estabelecimento de normas de seguran&ccedil;a para serem realizadas na pr&aacute;tica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n1/a07fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TESOURAS GEN&Eacute;TICAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O CRISPR &eacute; um sistema de defesa das bact&eacute;rias que permite que elas possam encontrar e degradar sequ&ecirc;ncias espec&iacute;ficas de DNA de um v&iacute;rus invasor. Quando um v&iacute;rus invade o interior das bact&eacute;rias e introduz seu material gen&eacute;tico, elas conseguem inserir esse DNA viral entre determinadas sequ&ecirc;ncias repetidas de bases nitrogenadas do seu pr&oacute;prio DNA. Essas repeti&ccedil;&otilde;es foram denominadas CRISPR, sigla em ingl&ecirc;s para repeti&ccedil;&otilde;es palindr&ocirc;micas curtas agrupadas e regularmente interespa&ccedil;adas. Em seguida, a bact&eacute;ria infectada produz um RNA daquela sequ&ecirc;ncia viral espec&iacute;fica. Esse RNA &eacute; ent&atilde;o acoplado a mais um RNA e a uma prote&iacute;na nuclease (capaz de cortar material gen&eacute;tico) chamada Cas. Esse complexo de dois RNAs e nuclease "inspecionam" a c&eacute;lula da bact&eacute;ria at&eacute; encontrar um DNA viral semelhante ao que j&aacute; a havia infectado. Quando isso acontece, o RNA do complexo consegue reconhecer o DNA invasor e ativar a prote&iacute;na Cas que o corta, destruindo o v&iacute;rus. A descoberta do funcionamento desse sistema "antiv&iacute;rus" fez com que ele recebesse o apelido de "tesouras gen&eacute;ticas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com base nesse sistema de defesa, duas cientistas, a norte-americana Jennifer Doudna e a francesa Emmanuelle Charpentier, criaram uma ferramenta gen&eacute;tica baseada na modifica&ccedil;&atilde;o e simplifica&ccedil;&atilde;o do complexo RNAs+Cas9 (que usa um tipo mais simples de prote&iacute;na Cas). A t&eacute;cnica batizada de CRISPR-Cas9, ou simplesmente CRISPR, &eacute; capaz de cortar DNA a um custo muito menor do que nos modelos anteriores, de forma mais precisa e em um tempo reduzido.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>APLICA&Ccedil;&Otilde;ES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O CRISPR-Cas9 est&aacute; sendo estudado intensivamente para aplica&ccedil;&otilde;es no agroneg&oacute;cio. A t&eacute;cnica gera organismos diferentes dos transg&ecirc;nicos, j&aacute; que nos alimentos transg&ecirc;nicos s&atilde;o implantados genes de outras esp&eacute;cies. Por meio da ferramenta, os genes de plantas e animais poder&atilde;o ser editados livremente para criar plantas mais produtivas, resistentes a doen&ccedil;as, alimentos mais nutritivos e mais saborosos. A gigante DuPont, por exemplo, est&aacute; investindo na produ&ccedil;&atilde;o de milho ceroso de melhor qualidade. O laborat&oacute;rio americano Cold Spring Harbor est&aacute; a caminho de produzir tomates mais doces e em maior quantidade. Doran Dhanapala, da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation (CSIRO), por sua vez, busca criar ovos de galinha que n&atilde;o sejam alerg&ecirc;nicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; existem pesquisas em andamento - principalmente em universidades e laborat&oacute;rios de companhias norte-americanas - para edi&ccedil;&atilde;o do genoma da vaca e do salm&atilde;o, com a finalidade de obter animais de maior porte em tempo reduzido. H&aacute; tamb&eacute;m aplica&ccedil;&otilde;es que visam modificar insetos geneticamente para que deixem de ser vetores de doen&ccedil;as como mal&aacute;ria ou dengue.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A tecnologia apresenta ainda um enorme potencial para o tratamento de diversas doen&ccedil;as gen&eacute;ticas, como distrofias musculares, c&acirc;ncer, cegueira cong&ecirc;nita, fibrose c&iacute;stica e doen&ccedil;a falciforme. O c&acirc;ncer &eacute; um dos exemplos mais recorrentes: em 2017, o Massachusetts General Hospital fez uma parceria com a empresa norte-americana CRISPR Therapeutics para estudar as aplica&ccedil;&otilde;es da ferramenta na &aacute;rea da oncologia, particularmente nas terapias com c&eacute;lulas T. Marcela Maus, diretora do Programa de Imunoterapia Celular do hospital, em entrevista para a ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias Globe Newswire, explicou as expectativas da parceria: "n&oacute;s j&aacute; vimos o profundo benef&iacute;cio que a terapia com c&eacute;lulas T podem ter em certos pacientes com um conjunto espec&iacute;fico de tipos de tumores. Agora com a edi&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica, e especialmente com a CRISPR-Cas9, existe o potencial para criar vers&otilde;es melhoradas dessas c&eacute;lulas, que podem funcionar para uma variedade maior de tumores", relatou ela.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m h&aacute; perspectiva de que o CRISPR viabilize a cura da Aids em humanos. Em um experimento conduzido por pesquisadores da Lewis Katz School of Medicine (LKSOM), da Temple University, em parceria com a Universidade de Pittsburgh e publicado em maio do ano passado no peri&oacute;dico <i>Molecular Therapy</i>, camundongos tiveram o HIV-1 eliminado de seu organismo. "O pr&oacute;ximo passo &eacute; repetir o estudo em primatas, onde a infec&ccedil;&atilde;o por HIV-1 se transforma em doen&ccedil;a", explicou Kamel Khalili, professor do Departamento de Neuroci&ecirc;ncia da LKSOM, &agrave; ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias da Temple University.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A edi&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica de plantas e animais alimenta controv&eacute;rsias porque n&atilde;o &eacute; simples determinar se um organismo sofreu mudan&ccedil;as em seus genes devido a muta&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas naturais ou &agrave; manipula&ccedil;&atilde;o pelo CRISPR, ao contr&aacute;rio de organismos transg&ecirc;nicos, que podem ser detectados com mais facilidade. Isso representa um desafio em termos de regula&ccedil;&atilde;o e fiscaliza&ccedil;&atilde;o dos alimentos produzidos por meio dessa ferramenta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra controv&eacute;rsia &eacute; a falta de conhecimento sobre as consequ&ecirc;ncias dessas edi&ccedil;&otilde;es na biodiversidade, que j&aacute; permeia a pol&ecirc;mica em torno dos alimentos transg&ecirc;nicos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; ainda discuss&otilde;es em torno da possibilidade de edi&ccedil;&atilde;o de embri&otilde;es humanos. A posi&ccedil;&atilde;o da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia e Cultura (Unesco), por exemplo, manifestada em 2015, &eacute; de que a t&eacute;cnica seja utilizada apenas com finalidades terap&ecirc;uticas, diagn&oacute;sticas e preventivas e n&atilde;o para tratamentos que gerem modifica&ccedil;&otilde;es heredit&aacute;rias - ou seja, que gerem indiv&iacute;duos geneticamente modificados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas aplica&ccedil;&otilde;es terap&ecirc;uticas embrion&aacute;rias, a controv&eacute;rsia &eacute; dupla: primeiramente pelas implica&ccedil;&otilde;es, ainda pouco conhecidas, que essas altera&ccedil;&otilde;es em embri&otilde;es poderiam trazer para futuras gera&ccedil;&otilde;es. Al&eacute;m disso, mesmo se bem-sucedidos, h&aacute; o risco desses tratamentos se tornarem pouco acess&iacute;veis, possibilitando uma esp&eacute;cie de elitismo gen&eacute;tico no qual apenas os mais ricos possam gerar linhagens livres de doen&ccedil;as gen&eacute;ticas. Quanto &agrave;s aplica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o terap&ecirc;uticas, h&aacute; o temor de que sejam realizadas modifica&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas em seres humanos por motivos puramente est&eacute;ticos, como a cor dos olhos, cabelos etc., caracter&iacute;sticas capazes de gerar distor&ccedil;&otilde;es sociais e reduzir a diversidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas uma das maiores pol&ecirc;micas &eacute; a facilidade de uso e aplica&ccedil;&atilde;o do CRISPR fora de um ambiente profissional. O uso amador dessa ferramenta, sem qualquer norma de seguran&ccedil;a, implica em novos riscos biol&oacute;gicos, como os que envolvem as atividades de biohackers como Josiah Zayner, citado no in&iacute;cio deste texto. Ele montou uma loja para venda online de de kits "fa&ccedil;a voc&ecirc; mesmo" para clientes interessados em alterar o DNA de certos microorganismos com CRISPR/cas9, em casa.</font></p>      ]]></body>
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