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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> ROB&Oacute;TICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fic&ccedil;&atilde;o, passado e futuro dos rob&ocirc;s</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Vict&oacute;ria Fl&oacute;rio</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Voc&ecirc; poderia despertar e dizer um ol&aacute; para todos?" "Boa tarde, meu nome &eacute; Sophia, o mais novo rob&ocirc; da Hanson Robotics", respondeu Sophia a rob&ocirc; humanoide que pode reconhecer express&otilde;es faciais e manter conversa&ccedil;&otilde;es. Criada pela companhia norte-americana sediada em Hong Kong - Hanson Robotics -, ela foi apresentada &agrave; plateia da Future Investment Initiative 2017, evento de tecnologia e investimentos, que aconteceu em Riade, capital da Ar&aacute;bia Saudita, no fim de outubro de 2017. Durante o evento, Sophia recebeu a cidadania saudita. Em sua fala, ela incentivou o p&uacute;blico a investir em intelig&ecirc;ncia artificial, "ou seja, em mim", disse. Intelig&ecirc;ncia artificial ou IA, &eacute; o campo do conhecimento que trabalha com m&aacute;quinas inteligentes, capazes de aprender e tomar atitudes de acordo com est&iacute;mulos do ambiente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Confiante, o criador de Sophia - o designer de rob&ocirc;s norte-americano David Hanson - acredita que no futuro os rob&ocirc;s humanoides ser&atilde;o superinteligentes e ajudar&atilde;o a humanidade a vencer seus maiores desafios. Tanto o entusiasmo como o pessimismo, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; intelig&ecirc;ncia artificial, n&atilde;o s&atilde;o recentes. O termo rob&ocirc; foi empregado pela primeira vez no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1920 pelo dramaturgo Karel apek e vem do tcheco "robota", que significa "trabalho for&ccedil;ado". Na obra <i>A f&aacute;brica de rob&ocirc;s</i>, apek conta a hist&oacute;ria de um cientista que desenvolve m&aacute;quinas inteligentes para substituir os humanos nas tarefas &aacute;rduas. Criadas para serem obedientes e trabalhadoras - como as ovelhas -, eventualmente elas se revoltam contra seus criadores. Na mesma &eacute;poca, no fim da d&eacute;cada de 1920, um rob&ocirc; falante chamado Eric, constru&iacute;do pelo veterano ingl&ecirc;s da Primeira Guerra, William Richards, come&ccedil;ava uma turn&ecirc; por v&aacute;rios pa&iacute;ses. Conhecido como o "homem sem alma", "o homem perfeito", Eric foi o primeiro rob&ocirc; desenvolvido na Inglaterra e foi exibido em Londres em 1928. A passagem de Eric pelos Estados Unidos, em 1929, foi retratada pela revista de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica <i>Popular Science, </i>que j&aacute; vinha publicando uma s&eacute;rie de reportagens com especula&ccedil;&otilde;es sobre o futuro das m&aacute;quinas. Acreditava-se que elas tornariam a vida melhor, auxiliando, por exemplo, em decis&otilde;es da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e fornecendo resultados mais precisos em pesquisas do censo da popula&ccedil;&atilde;o. J&aacute; os rob&ocirc;s aliviariam os seres humanos ao serem encarregados do trabalho pesado.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VIS&Otilde;ES DO FUTURO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nem todas as expectativas quanto ao futuro da IA s&atilde;o t&atilde;o otimistas quanto as do criador de Sophia, David Hanson. Ao questionar os limites para o desenvolvimento da IA, soci&oacute;logos, cientistas, escritores de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e futuristas tentam interpretar e prever as implica&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas deste momento de transi&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica em que cresce o espa&ccedil;o ocupado pela intelig&ecirc;ncia artificial e pelos rob&ocirc;s. Hoje, m&aacute;quinas com intelig&ecirc;ncia artificial vencem partidas de jogos de tabuleiro de jogadores profissionais, diagnosticam doen&ccedil;as, escrevem poesia, dirigem autom&oacute;veis, classificam imagens, aprendem a traduzir textos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existe um grupo de cientistas, futur&oacute;logos e fil&oacute;sofos que especulam cen&aacute;rios apocal&iacute;pticos a partir de um cen&aacute;rio hipot&eacute;tico conhecido como "singularidade tecnol&oacute;gica". Nesse cen&aacute;rio, a IA ultrapassaria a intelig&ecirc;ncia humana de maneira irrevers&iacute;vel, incontrol&aacute;vel e catastr&oacute;fica. Futuros catastr&oacute;ficos poderiam se desenrolar caso as m&aacute;quinas atingissem um n&iacute;vel de intelig&ecirc;ncia suficiente para produzir outras m&aacute;quinas, a partir da singularidade tecnol&oacute;gica - termo usado pelo cientista da computa&ccedil;&atilde;o, professor da Universidade de San Diego e escritor de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica Vernor Vinge. O prospecto de Vinge &eacute; que isso aconte&ccedil;a at&eacute; 2030, o que representaria uma mudan&ccedil;a significativa para o planeta, compar&aacute;vel ao surgimento da vida humana na Terra. Por que ser&aacute; que ideias t&atilde;o diferentes v&ecirc;m &agrave; tona quando o assunto s&atilde;o previs&otilde;es sobre o futuro da IA?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O soci&oacute;logo alem&atilde;o da Universidade de Munique, Ulrich Beck, morto em 2015, acreditava que, em tempos de crise, ci&ecirc;ncia, futurismos e fic&ccedil;&atilde;o tendem a se misturar porque as consci&ecirc;ncias projetam-se no futuro, o "lugar" onde tudo poderia, potencialmente, ser resolvido. Autor do livro <i>Sociedade de risco</i>, lan&ccedil;ado na Alemanha em 1986, Beck acredita que, na sociedade de risco, o passado perde o poder de determinar o presente. O futuro assume esse lugar porque ainda n&atilde;o existe, e poderia, portanto, ser inventado. Para Roger Luckhurst, da Universidade de Londres, o argumento de Beck implica que, em sociedades onde h&aacute; uma grande sensa&ccedil;&atilde;o de inseguran&ccedil;a, a ci&ecirc;ncia e a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica come&ccedil;am a se misturar em certos pontos cr&iacute;ticos. Um deles diz respeito aos empregos, j&aacute; que ainda n&atilde;o h&aacute; uma exata dimens&atilde;o sobre as consequ&ecirc;ncias do processo de automa&ccedil;&atilde;o e da IA para a for&ccedil;a de trabalho.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n1/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>M&Aacute;QUINAS NO CONTROLE</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No in&iacute;cio de 2017, o programa de computador da companhia Deep Mind, sediada em Londres e adquirida pelo Google em 2014 – AlphaGo – derrotou um jogador profissional de Go, antigo jogo de tabuleiro chin&ecirc;s. Considerado o melhor do mundo, o jogador chin&ecirc;s Ke Jie, ent&atilde;o com 19 anos, perdeu tr&ecirc;s partidas para o AlphaGo. A cada novo encontro, o programa aprendia mais sobre o complexo jogo que requer, al&eacute;m do c&aacute;lculo das possibilidades de movimenta&ccedil;&atilde;o no tabuleiro, o uso de criatividade e intui&ccedil;&atilde;o. Surpreendentemente r&aacute;pido, o Alpha Go Zero (evolu&ccedil;&atilde;o do Alpha Go) aprendeu a jogar sozinho e se tornou o melhor do mundo em apenas 40 dias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um dos fundadores da fabricante de computadores Sun Microsystems, o norte-americano William Nelson Joy, previu o fim da ra&ccedil;a humana at&eacute; 2030, caso n&atilde;o haja controle sobre a engenharia gen&eacute;tica, nanotecnologia e rob&oacute;tica. Baseado na cren&ccedil;a de que o conhecimento na &aacute;rea de IA avan&ccedil;a rapidamente e sem orienta&ccedil;&atilde;o sobre suas implica&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas, cr&iacute;ticos como o f&iacute;sico Stephen Hawking e o criador das empresas Tesla e SpaceX, Elon Musk, sustentam que a IA representa uma das maiores amea&ccedil;as &agrave; ra&ccedil;a humana. A rob&ocirc; Sophia atraiu a audi&ecirc;ncia ao brincar com o &acirc;ncora do canal CNBC – o entrevistador norte-americano Andrew Ross Sorkin –, quando ele insinuou que ela poderia representar uma amea&ccedil;a para os humanos: "Voc&ecirc; est&aacute; lendo muito Elon Musk".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em 1968, o escritor norte-americano Philip Dick escreveu o conto "Androides sonham com carneiros el&eacute;tricos?", que deu origem ao filme dirigido por Ridley Scott, em 1982 – <i>Blade Runner: o ca&ccedil;ador de androides</i>. Em meio a um cen&aacute;rio p&oacute;s-guerra nuclear, extin&ccedil;&atilde;o dos animais e surgimento dos androides – rob&ocirc;s id&ecirc;nticos aos seres humanos, criados para servi-los – a hist&oacute;ria levanta a t&ecirc;nue fronteira entre o que &eacute; ser um humano e o que &eacute; ser um rob&ocirc;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os trabalhos do cientista da computa&ccedil;&atilde;o Jack Hopkins e da intelig&ecirc;ncia artificial do Google, que fazem uma IA escrever poesia, levantaram quest&otilde;es parecidas. Se a poesia &eacute; capaz de expressar o que &eacute; ser humano, poderia uma IA escrever poesia?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerado o pai dos rob&ocirc;s, Isaac Asimov idealizou a conviv&ecirc;ncia harm&ocirc;nica entre seres humanos e m&aacute;quinas inteligentes atrav&eacute;s do conjunto de princ&iacute;pios batizados "Leis da rob&oacute;tica". A obra de Asimov inspira discuss&otilde;es contempor&acirc;neas para regular a &aacute;rea de pesquisa e desenvolvimento de rob&oacute;tica e suas aplica&ccedil;&otilde;es. Em outubro de 2017, a Information Technology Industry Council (ITI), organiza&ccedil;&atilde;o global composta por representantes de companhias como a Apple, Facebook, Google e Microsoft, publicou um conjunto de normas detalhando novos princ&iacute;pios reguladores para desenvolvedores, construtores e usu&aacute;rios da IA. A organiza&ccedil;&atilde;o admite a necessidade de medidas regulat&oacute;rias para a IA, mas, ao mesmo tempo, aponta que isso deve inibir o potencial da IA e que essa discuss&atilde;o ainda &eacute; imatura.</font></p>      ]]></body>
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