<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252018000200002</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602018000200002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O cientista e a síndrome de Cassandra]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Taschner]]></surname>
<given-names><![CDATA[Natalia Pasternak]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
<xref ref-type="aff" rid="AAF"/>
<xref ref-type="aff" rid="A A"/>
<xref ref-type="aff" rid="A3"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,blog de divulgação científica Café na Bancada  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF2">
<institution><![CDATA[,festival internacional Pint of Science  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF3">
<institution><![CDATA[,planetários de São Paulo  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<volume>70</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>4</fpage>
<lpage>5</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252018000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252018000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252018000200002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O cientista e a s&iacute;ndrome de Cassandra</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Natalia Pasternak Taschner</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Bi&oacute;loga, com doutorado e p&oacute;s-doutorado em microbiolog&iacute;a. S&oacute;cia fundadora do blog de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica Caf&eacute; na Bancada, co-autora do livro Ca&ccedil;adores de neuromitos vol II (Ed. IBIES), diretora no Brasil do festival internacional Pint of Science e coordenadora cient&iacute;fica dos planet&aacute;rios de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Primeiro vieram os shampoos que atuavam diretamente no DNA do seu cabelo: ele entra na sua c&eacute;lula e substitui o material gen&eacute;tico do seu cabelo por DNA de plantas, para evitar a perda de DNA que, segundo o fabricante do shampoo, &eacute; o que danifica o cabelo. Mas n&oacute;s n&atilde;o falamos nada porque, afinal, era s&oacute; um shampoo. Rimos do assunto no laborat&oacute;rio, pois para n&oacute;s, cientistas, algo que atua no DNA &eacute; mutag&ecirc;nico - a luz UV que age no nosso DNA pode causar muta&ccedil;&otilde;es e, consequentemente, um c&acirc;ncer. A propaganda de um shampoo usar essa analogia era no m&iacute;nimo estranho. At&eacute; comentamos que as empresas t&ecirc;m cada vez mais usado a linguagem da ci&ecirc;ncia para vender, mas logo voltamos ao trabalho, afinal era s&oacute; uma propaganda de shampoo. Que mal faria?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Depois vieram as bananas maduras que curam o c&acirc;ncer porque t&ecirc;m fator de necrose tumoral nas manchas escuras. Curiosos para saber de onde veio mais esse mito de internet, descobrimos que um grupo no Jap&atilde;o havia injetado extrato de bananas diretamente no perit&ocirc;nio de camundongos. Isso tinha provocado uma resposta imune nos animais, e observou-se um aumento na express&atilde;o de fator de necrose tumoral. Algu&eacute;m leu o artigo, n&atilde;o entendeu, e concluiu que o fator de necrose estava nas bananas, mais precisamente na parte escura. E finalmente publicou a descoberta na revista cient&iacute;fica mais acessada e lida do mundo: o Facebook! Pronto, o estrago estava feito. E de novo pessoas eram enganadas por algu&eacute;m que usava a linguagem da ci&ecirc;ncia para iludir. "Mas poxa, banana faz bem, deixa o pessoal comer banana madura", dissemos. E voltamos ao trabalho, porque temos projetos de pesquisa para escrever e artigos para publicar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ent&atilde;o vieram as dietas detox e, de novo, n&atilde;o falamos nada, pois era s&oacute; uma dieta. Outra conversa na bancada do laborat&oacute;rio se seguiu, dessa vez com um tom um pouco mais preocupado. Nos pergunt&aacute;vamos por que as pessoas acreditavam que eliminariam toxinas do corpo seguindo uma dieta de frutas. Aparentemente, n&atilde;o entendiam qual a fun&ccedil;&atilde;o do f&iacute;gado no nosso organismo. Ningu&eacute;m se perguntava quais toxinas eram essas? E por que acreditavam que eliminar toxinas provocaria emagrecimento? Alguns de n&oacute;s at&eacute; se aventuraram explicar para a m&iacute;dia que as pessoas estavam sendo enganadas, que estavam gastando dinheiro &agrave; toa. Mas foi enorme a quantidade de livros e produtos vendidos sobre a dieta detox, algu&eacute;m certamente estava ganhando muito dinheiro &agrave;s custas da desinforma&ccedil;&atilde;o. Mas logo voltamos ao trabalho. Era s&oacute; uma dieta. Ningu&eacute;m morreria por passar alguns dias tomando suco de ma&ccedil;&atilde; com couve. Temos nossas pesquisas para tocar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vieram as terapias alternativas. Era tanta pseudoci&ecirc;ncia junta que n&atilde;o valia nem a pena comentar. Exceto por alguns casos extremos, em geral essas terapias s&oacute; faziam mal para os bolsos das pessoas. E n&atilde;o tinham nenhum grande impacto sobre o andamento da ci&ecirc;ncia - ningu&eacute;m cortou nossa verba. Mas desperdi&ccedil;ou-se um montante para comprovar o &oacute;bvio: terapias alternativas n&atilde;o funcionam. E claro, uma quantia ainda era utilizada para financiar essas pr&aacute;ticas. A comunidade cient&iacute;fica at&eacute; comemorou quando pa&iacute;ses como Austr&aacute;lia e Reino Unido baniram a homeopatia da rede p&uacute;blica de sa&uacute;de. Mas n&atilde;o aproveitamos a onda para pressionar o Congresso a fazer o mesmo no Brasil. Ainda temos a vacina homeop&aacute;tica da dengue sendo distribu&iacute;da na rede p&uacute;blica de sa&uacute;de. Temos at&eacute; homeopatia no Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de (SUS), paga com o nosso dinheiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas a&iacute; veio a fosfoetanolamina. A cura do c&acirc;ncer. E o que era pior: ela veio de dentro. Ela nasceu ali, na maior universidade da Am&eacute;rica Latina. Ningu&eacute;m viu, e quem viu se calou, pois, afinal, era s&oacute; um pesquisador produzindo algumas c&aacute;psulas para a popula&ccedil;&atilde;o local de uma cidade pequena. Mas a fosfo cresceu. E quando decidimos falar, porque a situa&ccedil;&atilde;o se tornou s&eacute;ria e perigosa, nossa voz tinha sumido. E nem sab&iacute;amos que n&atilde;o t&iacute;nhamos voz, porque n&atilde;o est&aacute;vamos acostumados a us&aacute;-la. E quando finalmente conseguimos falar, ningu&eacute;m ouviu. E por que ouviriam? Ningu&eacute;m sabia quem &eacute;ramos. "Cientistas? Eles n&atilde;o querem ajudar a popula&ccedil;&atilde;o. Cientistas brasileiros? Eles n&atilde;o sabem nada, tem que mandar investigar nos Estados Unidos. Eles est&atilde;o com inveja do &uacute;nico pesquisador s&eacute;rio, esse que descobriu a p&iacute;lula do c&acirc;ncer. Esse sim &eacute; cientista. Ouvi dizer que ele &eacute; professor na USP Deve saber o que diz".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A popula&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o sabia o que era ci&ecirc;ncia, e que n&atilde;o tinha como saber porque n&atilde;o foi educada para isso, adotou o cientista que usou sua voz, e que disse o que as pessoas queriam ouvir. Afinal, quem n&atilde;o gostaria de saber que foi descoberta a "cura universal do c&acirc;ncer", e, ainda por cima, na forma de uma p&iacute;lula simples: "basta tomar tr&ecirc;s por dia e pronto; n&atilde;o precisa de hospital, n&atilde;o precisa de quimioterapia, n&atilde;o precisa de sofrimento". O cientista que vendia sonhos era muito mais atraente do que o cientista que vendia realidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E quando parecia que nada poderia ficar pior, o movimento anti-vacinas ganha for&ccedil;a no Brasil. Justo no pa&iacute;s que sempre foi um exemplo de vacina&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e gratuita. De repente, fam&iacute;lias de classe m&eacute;dia-alta deixam de vacinar seus filhos por acreditar em um mito de 20 anos atr&aacute;s, resultado de um trabalho fraudulento e de um m&eacute;dico desonesto que teve sua licen&ccedil;a cassada. E o mais surpreendente, essas pessoas afirmam publicamente que usam as redes sociais como fonte de informa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante de tantos movimentos anti-ci&ecirc;ncia, nos deparamos ainda com o criacionismo e as aulas de religi&atilde;o em nossas escolas. E eis que de repente, debaixo dos nossos narizes, o Brasil j&aacute; n&atilde;o &eacute; laico, e as aulas de ci&ecirc;ncia tornam-se t&atilde;o facultativas e desvalorizadas como nosso trabalho, e o ensino de evolu&ccedil;&atilde;o nas nossas escolas est&aacute; amea&ccedil;ado. Calados e desvalorizados por um governo que n&atilde;o entende a import&acirc;ncia da ci&ecirc;ncia e da tecnologia para a sociedade, nos deparamos tamb&eacute;m com pesados cortes em nossas verbas. Milh&otilde;es foram alocados para os testes com a fosfoetanolamina. Milh&otilde;es foram cortados de nossas bolsas e de nossos projetos de pesquisa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em meio &agrave; calamidade, a comunidade cient&iacute;fica tentou falar. Percebemos enfim que a situa&ccedil;&atilde;o tinha ido longe demais. Protestamos. Organizamos marchas. Fomos ao Congresso, mandamos carta para o presidente da Rep&uacute;blica. Mas era tarde. J&aacute; fomos todos acometidos pela s&iacute;ndrome de Cassandra. N&atilde;o temos credibilidade. Ningu&eacute;m acredita no que temos a dizer. Assim como Cassandra, n&oacute;s enxergamos o futuro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sabemos o que vai acontecer com a ci&ecirc;ncia brasileira se tudo permanecer como est&aacute;. Mas assim como Cassandra, ningu&eacute;m acredita em n&oacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Logo v&aacute;rios de n&oacute;s estaremos desempregados ou fora do Brasil. Nossos pesquisadores ir&atilde;o embora, assim como nossos alunos. E desenvolver&atilde;o tecnologias no exterior que o Brasil ter&aacute; que importar, pois n&atilde;o teremos pessoal qualificado para desenvolv&ecirc;-las no pa&iacute;s, nem para ensinar a nova gera&ccedil;&atilde;o. Demoramos demais para falar com a sociedade. Falhamos quando deixamos de esclarecer o cidad&atilde;o sobre as propagandas enganosas, as pseudoci&ecirc;ncias e os movimentos anti-ci&ecirc;ncia, que colocavam em risco sua integridade, seu bolso e sua sa&uacute;de.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&oacute;s n&atilde;o falamos quando foi preciso. E agora n&atilde;o sobrou ningu&eacute;m para falar por n&oacute;s.</font></p>      ]]></body>
</article>
