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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br> GEOGRAFIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cartografia e as novas representa&ccedil;&otilde;es de tempo e espa&ccedil;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Adriana Lopes Rodrigues</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Naquele imp&eacute;rio, a arte da cartografia alcan&ccedil;ou tal perfei&ccedil;&atilde;o que o mapa de uma &uacute;nica prov&iacute;ncia ocupava uma cidade inteira, e o mapa do imp&eacute;rio uma prov&iacute;ncia inteira. Com o tempo, estes mapas desmedidos n&atilde;o bastaram e os col&eacute;gios de cart&oacute;grafos levantaram um mapa do imp&eacute;rio que tinha o tamanho do imp&eacute;rio e coincidia com ele ponto por ponto". No trecho dessa f&aacute;bula de Jorge Luis Borges, publicada no livro <i>Hist&oacute;ria universal da inf&acirc;mia</i> (1935), o escritor argentino fala do empenho em criar mapas detalhados. Se coincidente ponto a ponto deixaria ele de ser uma representa&ccedil;&atilde;o. O mapa passaria a ser perfeito, a pr&oacute;pria coisa do mundo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A arte da cartografia existe na medida em que n&atilde;o se disp&otilde;e a um saber absoluto, mas se prop&otilde;e a criar uma representa&ccedil;&atilde;o do real. Os cart&oacute;grafos usam termos como proje&ccedil;&atilde;o e distor&ccedil;&atilde;o. Enquanto a proje&ccedil;&atilde;o procura ser uma rela&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica de propor&ccedil;&otilde;es para a transposi&ccedil;&atilde;o daquilo que est&aacute; no mundo f&iacute;sico para um plano no papel, a distor&ccedil;&atilde;o seria um lembrete de que algo ficou de fora. Ambos os termos, proje&ccedil;&atilde;o - enquanto transfer&ecirc;ncia - e distor&ccedil;&atilde;o - enquanto equ&iacute;voco - reafirmam que o mapa precisa ser interpretado, &eacute; dependente de leitura atenta &agrave;s suas condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o. Um mapa que coincidisse com a realidade condenaria a pr&oacute;pria representa&ccedil;&atilde;o, resultando no apagamento do s&iacute;mbolo pelo real, a aus&ecirc;ncia de significado por ser algo em si. O que diria Borges diante do n&iacute;vel de detalhamento que temos hoje que, com a tecnologia que envolve sat&eacute;lites, confere aos mapas precis&atilde;o de cent&iacute;metros?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atualmente, a densidade de informa&ccedil;&otilde;es possibilita correla&ccedil;&otilde;es de dados via sensoriamento remoto que v&atilde;o para al&eacute;m do alcance do olho humano, alterando profundamente nossas percep&ccedil;&otilde;es do mundo e adicionando uma nova dimens&atilde;o de linguagem para a representa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o. Assim, das verdadeiras obras de arte que eram os mapas medievais e renascentistas, chegamos &agrave; cartografia contempor&acirc;nea, com mapas gerados por softwares capazes de analisar grandes massas de informa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO NOVO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sistema de informa&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas (SIG), por exemplo, gera mapas com alto grau de detalhamento por meio de fotos a&eacute;reas, sensoriamento remoto, imagens de sat&eacute;lites, entre outros. No entanto, a percep&ccedil;&atilde;o de que o mundo est&aacute; sendo apreendido por meio dessas tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o pode criar um efeito de transpar&ecirc;ncia, de que, afinal, essa cartografia tecnol&oacute;gica, ao trazer maior detalhamento do mundo, seria capaz de desvelar o real. Mas, n&atilde;o se pode perder de vista a dimens&atilde;o humana que envolve a interpreta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v70n2/a08fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v70n2/a08fig01thumb.jpg">    <br> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No caso de imagens de sat&eacute;lite, por exemplo, h&aacute; processos pelos quais tais imagens ganham sentido. Como explica Marko Monteiro, antrop&oacute;logo e professor do Departamento de Pol&iacute;tica Cient&iacute;fica e Tecnol&oacute;gica da Universidade Estadual de Campinas (DPCT/ Unicamp), na forma "bruta", a imagem de sat&eacute;lite &eacute; um pacote extenso de dados: sobre a quantidade de vegeta&ccedil;&atilde;o em determinada &aacute;rea, presen&ccedil;a de determinados minerais, tipos de solos etc. No entanto, "a constru&ccedil;&atilde;o de evid&ecirc;ncias a partir de imagens de sat&eacute;lite depende da intera&ccedil;&atilde;o de especialistas com esse pacote de informa&ccedil;&otilde;es, uma rela&ccedil;&atilde;o mediada por protocolos de an&aacute;lise, softwares de processamento de imagem e a pr&oacute;pria sensibilidade do cientista em perceber determinados fen&ocirc;menos pelo olhar (sensibilidade constru&iacute;da pela experi&ecirc;ncia, forma&ccedil;&atilde;o e pela intera&ccedil;&atilde;o com outros cientistas)", afirmou em artigo em que discutiu a constru&ccedil;&atilde;o de imagens por meio do sensoriamento remoto <i>(Hist&oacute;ria, Ci&ecirc;ncias, Sa&uacute;de - Manguinhos,</i> v.22, n.2, 2015). "Cada imagem de sat&eacute;lite &eacute; sempre mais do que uma imagem: ela &eacute; um conjunto de informa&ccedil;&otilde;es que, processado pelo cientista com o aux&iacute;lio de ferramentas computacionais, torna-se uma imagem significativa", escreveu.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MAPAS NA DISPUTA POL&Iacute;TICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ge&oacute;grafo brit&acirc;nico David Harvey ressalta que a representa&ccedil;&atilde;o cartogr&aacute;fica da Renascen&ccedil;a desempenhou um papel fundamental para uma nova compreens&atilde;o do espa&ccedil;o e do tempo. Em seu livro <i>Condi&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-moderna</i> (Loyola, 1992), ele afirma: "De uma perspectiva etnoc&ecirc;ntrica, as viagens de descoberta produziram um assombroso fluxo de conhecimento acerca de um mundo mais amplo que teve de ser, de alguma maneira, absorvido e representado. Elas indicavam um globo que era finito e potencialmente apreens&iacute;vel. O saber geogr&aacute;fico se tornou uma mercadoria valiosa numa sociedade que assumia uma consci&ecirc;ncia cada vez maior do lucro. A acumula&ccedil;&atilde;o de riqueza, de poder e de capital passou a ter um v&iacute;nculo com o conhecimento personalizado do espa&ccedil;o e o dom&iacute;nio individual dele. Do mesmo modo, todos os lugares ficaram vulner&aacute;veis &agrave; influ&ecirc;ncia direta do mundo mais amplo gra&ccedil;as ao com&eacute;rcio, &agrave; competi&ccedil;&atilde;o intraterritorial, &agrave; a&ccedil;&atilde;o militar, ao fluxo de novas mercadorias, ao ouro e &agrave; prata", escreveu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; poss&iacute;vel afirmar que as novas tecnologias cartogr&aacute;ficas determinam novas rela&ccedil;&otilde;es de dom&iacute;nio do espa&ccedil;o e, ao mesmo tempo em que fornecem novas informa&ccedil;&otilde;es, abrem espa&ccedil;o para novas disputas. O monitoramento por imagens de sat&eacute;lite de &aacute;reas de desmatamento no Brasil exemplifica como a nova cartografia se insere nas disputas por territ&oacute;rios. No debate sobre a altera&ccedil;&atilde;o do c&oacute;digo florestal brasileiro, em 2011, o (ent&atilde;o) senador Blairo Maggi (Partido Progressista) desqualificou os dados levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas, Inpe, argumentando que n&atilde;o tinha certeza de que os dados apurados pelo sat&eacute;lite estavam certos. Na &eacute;poca ele contratou t&eacute;cnicos para produ&ccedil;&atilde;o de novas informa&ccedil;&otilde;es. "O apagamento ou n&atilde;o dos aspectos humanos do monitoramento &eacute; sempre objeto de disputa", afirmou Monteiro. "Quando Blairo Maggi acusou o Inpe de mentir, o que estava em jogo era se as imagens eram politizadas ou objetivas. Quando ele sugere medidas alternativas de desmate, ou quando o Inpe busca reiterar a robustez do seu sistema, est&aacute; em jogo a&iacute; tamb&eacute;m se o fator humano distorce ou n&atilde;o as imagens", completa. Na opini&atilde;o do pesquisador n&atilde;o h&aacute; como separar o fator humano do cient&iacute;fico, desde o processo de produ&ccedil;&atilde;o das imagens at&eacute; o momento em que elas circulam socialmente e tornam-se tamb&eacute;m objeto de debate e controv&eacute;rsia social.</font></p>      ]]></body>
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