<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252018000200018</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602018000200018</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Homem-Número]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Salvador]]></surname>
<given-names><![CDATA[Antonio]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,Humboldt-Universität zu Berlin  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
<country>Alemanha</country>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<volume>70</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>66</fpage>
<lpage>68</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252018000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252018000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252018000200018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Homem-N&uacute;mero</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Antonio Salvador</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Autor do romance A condessa de Pica&ccedil;urova e do livro sobre direitos culturais Tr&ecirc;s vint&eacute;ns para a cultura, publicados, respectivamente, em 2012 e 2014. No teatro, estreou com o espet&aacute;culo Experimento com bola de demoli&ccedil;&atilde;o sobre objetos de uso di&aacute;rio, em 2016, com encena&ccedil;&atilde;o do Coletivo de Areia. Homem-n&uacute;mero, do qual foi extra&iacute;do o trecho acima, &eacute; um romance in&eacute;dito. Paralelamente &agrave; atividade art&iacute;stica, dedica-se &agrave; carreira acad&ecirc;mica na Humboldt-Universit&auml;t zu Berlin. Mora na Alemanha</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez por causa das gotas, a percep&ccedil;&atilde;o dele estivesse deturpada, pois, bem n&atilde;o entrou no cart&oacute;rio, percebeu um movimento torto por detr&aacute;s das mesas e gaveteiros. Era como se j&aacute; o esperassem ali... Ficou excepcionalmente alerta. Algu&eacute;m, que arrastava uma escada, parou. Um tossido acol&aacute;, um ziguezague entre pilhas, e a oficiala veio saber em que poderia ser &uacute;til. Regina esteve prestes a perguntar por que &eacute; que todos olhavam para ele, mas conteve-se. A pergunta teria sido um disparate! O sujeito entra numa reparti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica aos sonoros gemidos, cambaleando, quem &eacute; que n&atilde;o vai notar isso? <i>Estou aqui... </i>algo rodopiou em sua cabe&ccedil;a; ele soltou um suspiro e recobrou a fala. Vinha registrar o &oacute;bito da amada filhinha. Se era obrigat&oacute;rio entremostrar alguma sacudidela de alma, a oficiala furtou-se a esse dever. Solicitou apenas o documento de identidade e o atestado de &oacute;bito. Ele entregou o papel e apressou-se em fazer a observa&ccedil;&atilde;o de que no atestado n&atilde;o constava ainda o nome da crian&ccedil;a - ningu&eacute;m havia sequer perguntado pelo nome -, fora tudo t&atilde;o &agrave;s pressas, talvez o hospital tenha sido negligente e... A sobrancelha direita da oficiala saiu da &oacute;rbita do olho. O nome n&atilde;o constava do atestado como n&atilde;o iria constar de parte alguma. <i>Ela n&atilde;o tem direito a nome.</i> O quase pai soltou um quase grito <i>Como &eacute; que &eacute;?</i> Depois, recompondo-se <i>Como n&atilde;o tem direito a nome? Que pessoa humana pode ser tratada assim?</i> A funcion&aacute;ria do cart&oacute;rio foi lac&ocirc;nica <i>Um natimorto, senhor.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sequer no livro usual de &oacute;bitos a filha de Regina poderia figurar. Para tais casos, o assento era lavrado num livrinho secund&aacute;rio, no qual a natimorta receberia, n&atilde;o um nome, mas um n&uacute;mero de identifica&ccedil;&atilde;o. <i>Um n&uacute;mero?De jeito nenhum!, O registro &eacute;obrigat&oacute;rio, senhor, Eu n&atilde;o vim registrar um n&uacute;mero, vim registrar uma pessoa!, O senhor veio registrar um natimorto, E onde &eacute; que est&aacute; escrito que uma pessoa deixa de ser pessoa porque nasceu sem vida?, N&atilde;o deixa de ser pessoa, s&oacute; n&atilde;o ter&aacute; direito a nome!, 'S&oacute;', voc&ecirc; diz! 'S&oacute; n&atilde;o ter&aacute; direito a nome'! Voc&ecirc; acha pouco um nome?, Senhor, &eacute; a lei quem acha! Eu, por mim, escreveria aqui qualquer coisa...</i> Nesse momento, entrou pela porta o chefe do cart&oacute;rio que ouvira apenas a palavra "lei" e, sem olhar para Regina, perguntou do que se tratava. A oficiala, que mostrara at&eacute; ent&atilde;o aquele desapego quanto a quest&otilde;es de nome, n&atilde;o deixou de se dirigir ao chefe pelo patron&iacute;mico precedido do tratamento de "doutor". Antes por&eacute;m, cuidou em expressar uma tal amabilidade de que qualquer um a teria julgado incapaz <i>Este senhor deseja fazer o registro de &oacute;bito da filhinha. Infelizmente, a crian&ccedil;a nasceu morta e..., Qual &eacute; a dificuldade?</i> perguntou o chefe <i>Est&aacute; a&iacute; o livro! &Eacute; s&oacute; registrar!</i> O chefe era um sujeito consciente das pr&oacute;prias atribui&ccedil;&otilde;es e empregava cada uma delas no tom de voz que era v&iacute;treo e positivista. Sim, a funcion&aacute;ria havia tentado explicar que h&aacute; um livro auxiliar para tais casos, mas o homem insistia no assento de um nome. <i>N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o!</i> o chefe sacudiu a cabe&ccedil;a e ainda fez assim com o indicador <i>Neste livro s&oacute; h&aacute; n&uacute;meros. Livro com nome &eacute;outra categoria. Caso o senhor desconhe&ccedil;a a lei...</i> Regina desferiu um soco contra o balc&atilde;o e deu dois berros <i>Pro caralho, a lei!Pro caralho, a lei!</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; bem verdade que esses dois palavr&otilde;es na mesma senten&ccedil;a, lei e..., tinham algo de perturbador e at&eacute; tautol&oacute;gico, mas definem o estado de esp&iacute;rito de Regina ao sair do tal cart&oacute;rio. N&atilde;o fez o registro. Entrou no carro suando frio, ofegante, as m&atilde;os tremiam - era a raiva ou, talvez, at&eacute;... era a raiva, s&oacute; podia ser a raiva! Quase n&atilde;o articulava palavra e 5 demorou para compreender minimamente o sucedido. Depreendendo da fala b&ecirc;bada e entrecortada de Regina que quiseram registrar a filha como um reles n&uacute;mero, o assombro tomou os olhos de 5 como Regina nunca vira; nesse instante, ele teve vontade de chorar, pois finalmente produzira alguma emo&ccedil;&atilde;o naquela pessoa. Tamb&eacute;m muito emocionado, mediunizou a eloqu&ecirc;ncia. N&atilde;o lhe escapava do instinto o dever de dar um nome &agrave; filhinha. Seria impens&aacute;vel sujeit&aacute;-la &agrave; impessoalidade do n&uacute;mero! Iria aos tribunais, desceria &agrave;s profundas do inferno, mas o nome era imprescind&iacute;vel! A realidade est&aacute; no nome. O nome &eacute; que p&otilde;e a exist&ecirc;ncia. &Eacute; nele que se origina a pessoa do filho e, de quebra, tamb&eacute;m a pessoa do pai! <i>Uma pessoa &eacute; o conjunto de seus ideais...</i> Sem d&uacute;vida, algu&eacute;m ter&aacute; proferido essa m&aacute;xima em qualquer parte, no entanto, Regina estava t&atilde;o enfiado nas pr&oacute;prias brechas que teve certeza ser ele o primeiro a chegar a esse brilhante racioc&iacute;nio... Pessoa: conjunto de ideais. Figurando o ideal entre n&uacute;meros avulsos, o pr&oacute;prio idealista n&atilde;o passaria de um n&uacute;mero. O n&uacute;mero &eacute; apenas uma contagem abstrata - e mais: a contagem de coisas sem nome &eacute; um vazio, e tem mais outra: a contagem do vazio &eacute; uma farsa, um insulto, o invent&aacute;rio das n&atilde;o-coisas. Era como se, al&eacute;m de tudo, o ideal de Regina viesse a ser apenas mais um n&uacute;mero registrado num livrinho secund&aacute;rio... <i>N&uacute;mero &eacute;o caralho!</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5 nunca o vira naquele estado e arregalava mais e mais os olhos &agrave; cada men&ccedil;&atilde;o de que a filha esteve prestes a ser contabilizada como um reles n&uacute;mero. Por fim, a esposa expeliu todo o seu assombro <i>Regina! Desde quando isso tem import&acirc;ncia, Regina?</i> Como se lhe tivessem amputado as duas m&atilde;os, ele parou de gesticular. <i>Nome, n&uacute;mero, &eacute; tudo escrita! D&aacute; tudo no mesmo!</i>Por alguma raz&atilde;o, a assertiva dita com tanta &ecirc;nfase foi-lhe mais persuasiva do que qualquer argumento. Talvez ele estivesse s&oacute; cansado de pensar... Quem sabe n&atilde;o estivesse exagerando? Teria 5 raz&atilde;o? Assim como uma pessoa n&atilde;o deixa de ser pessoa porque nasceu morta, tamb&eacute;m n&atilde;o deixar&aacute; de ser pessoa porque n&atilde;o tem nome. O que ainda quer entre n&oacute;s essa doutrina nominalista? N&uacute;mero tamb&eacute;m &eacute; marca gr&aacute;fica no papel, exatamente como o s&atilde;o as letras! E outra, se o registro &eacute; feito no livro principal ou no secund&aacute;rio, eis a&iacute; uma quest&atilde;o mais secund&aacute;ria do que o livro secund&aacute;rio! N&atilde;o afeta em nada o fato de que a filhinha, o doce pecado de sua carne, estava morta, e somente isso, morta. Sem d&uacute;vida, j&aacute; estaria contabilizada em livros superiores; isso basta! Com efeito, frente a essa realidade chocante e viva, nada podia ter qualquer import&acirc;ncia... <i>Vamos? </i>5 prontificava-se a acompanh&aacute;-lo de volta ao cart&oacute;rio. Definitivamente, ele n&atilde;o estava em condi&ccedil;&otilde;es de tomar a dianteira de coisa alguma. Antes de sair do carro, Regina ainda hesitou um pouco, mas, ao final, cedeu sacudindo a cabe&ccedil;a numa tristeza terr&iacute;vel <i>Estou &eacute; farto de nada ter import&acirc;ncia...</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Voltou ao pr&eacute;dio, tomou o elevador, dirigiu-se &agrave; sala, pegou a senha, cumpriu o que lhe era demandado. A oficiala recebeu o emolumento e fez o registro. 5 assinou o protocolo e pediu para abrirem o livro sobre o balc&atilde;o, a fim de conferir se estava tudo certinho. Depois, virando-se para Regina, rematou <i>As formalidades s&atilde;o o de menos. </i>Sem querer, ele bateu o olho na p&aacute;gina, e mais especificamente no registro da filha. Ao ver o resultado, o n&uacute;mero 6, essa espiral macabra, defeituosa, que come&ccedil;a sem aviso, gira e colide dentro de si mesma, Regina entrou em p&acirc;nico. O n&uacute;mero era realmente um n&uacute;mero. No painel, o guich&ecirc; chamou a &uacute;ltima senha. O hor&aacute;rio de atendimento afixado. O valor do servi&ccedil;o. A sala. O andar. Sem equil&iacute;brio, Regina fugiu pela escada de inc&ecirc;ndio. Nenhuma estat&iacute;stica poder&aacute; dar conta do montante de sensa&ccedil;&otilde;es que o fizeram cambetear como uma crian&ccedil;a ao descer do gira-gira, &agrave; espera da realoca&ccedil;&atilde;o dos sentidos que foram centrifugados para as quinas da cabe&ccedil;a. Aquela cole&ccedil;&atilde;o de n&uacute;meros desmoronou pr&eacute;dio afora e levou Regina de rojos. 5 encontrou-o ca&iacute;do na cal&ccedil;ada, cercado por meia-d&uacute;zia de transeuntes. Era uma convuls&atilde;o.</font></p>      ]]></body>
</article>
