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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS    <br> ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Sergio Mascarenhas: parte da hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia do Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patricia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n3/a03fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma conversa com S&eacute;rgio Mascarenhas &eacute; como brincar com uma boneca russa. Do mesmo modo que uma boneca vai surgindo de dentro da outra, hist&oacute;rias brotam de hist&oacute;rias. Elas contam do menino que saiu no Rio de Janeiro, foi um mau aluno, estudou em um internato na adolesc&ecirc;ncia, escrevia poesias, achou que seria advogado, mas acabou estudando f&iacute;sica e qu&iacute;mica e se tornou um dos mais respeitados cientistas brasileiros. "Eu fui um mau aluno, desses que dava trabalho para os professores na escola. Depois da faculdade, no entanto, eu percebi que adoro dar aulas, nasci professor e quanto maior a turma melhor. Adoro o burburinho da sala de aula", contou ele. S&eacute;rgio &eacute; graduado em f&iacute;sica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, 1952) e em qu&iacute;mica pela mesma institui&ccedil;&atilde;o (1951). Professor aposentado do ent&atilde;o Instituto de F&iacute;sica e Qu&iacute;mica da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) em S&atilde;o Carlos. Foi professor visitante em diversas universidades dos Estados Unidos, M&eacute;xico, Jap&atilde;o, Reino Unido e It&aacute;lia. Fundou e dirigiu diversas institui&ccedil;&otilde;es, como o Instituto de F&iacute;sica e Qu&iacute;mica da USP de S&atilde;o Carlos e o Centro Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento de Instrumenta&ccedil;&atilde;o Agropecu&aacute;ria em S&atilde;o Carlos (Embrapa). Tamb&eacute;m criou o primeiro curso de engenharia de materiais do pa&iacute;s, que come&ccedil;ou a funcionar na Universidade Federal de S&atilde;o Carlos (UFSCar). Uma de suas mais importantes contribui&ccedil;&otilde;es &eacute; o Braincare, primeiro m&eacute;todo n&atilde;o invasivo para mensurar a press&atilde;o do interior do cr&acirc;nio (PIC). Em 2018, ele completou 90 anos e ainda n&atilde;o parou de dar aulas ou de pesquisar. Publicou este ano <i>Novos olhares de Janus </i>(Funpec Editora, 2018), continua&ccedil;&atilde;o do livro anterior <i>Os olhares de Janus </i>(Embrapa, 2009), onde ele reuniu cr&ocirc;nicas de suas experi&ecirc;ncias com pesquisador, educador e empreendedor. Com uma trajet&oacute;ria t&atilde;o rica e uma contribui&ccedil;&atilde;o fundamental para a ci&ecirc;ncia brasileira, S&eacute;rgio Mascarenhas &eacute; um dos nomes inescap&aacute;veis na hist&oacute;ria da SBPC, em seus 70 anos. Veja abaixo a entrevista que ele concedeu para a revista <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura (C&amp;C):<i> Desde quando o senhor &eacute; associado da SBPC? Destacaria algum momento dessa trajet&oacute;ria?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>S&eacute;rgio Mascarenhas (SM):</b> A SBPC foi uma das &uacute;nicas institui&ccedil;&otilde;es que protestava publicamente contra a ditadura e contra as pris&otilde;es ou aposentadorias compuls&oacute;rias impostas aos cientistas. Eu tenho uma hist&oacute;ria muito marcante nesse sentido. Quando eu era vice-presidente, na gest&atilde;o do Warnick Kerr (1971 - 1973), n&oacute;s organizamos um encontro onde foi elaborado um manifesto contra a pris&atilde;o e a tortura de cientistas brasileiros e decidimos levar a carta pessoalmente para o ent&atilde;o ministro da Educa&ccedil;&atilde;o Jarbas Passarinho. O presidente era Em&iacute;lio Garrastazu M&eacute;dici. Fomos eu, o Kerr e o Sim&atilde;o Matias, qu&iacute;mico da USP, ent&atilde;o secret&aacute;rio geral. Sem muitos recursos para comprar passagens de avi&atilde;o, n&oacute;s alugamos um pequeno avi&atilde;o, mas quando chegamos em Bras&iacute;lia nosso pouso n&atilde;o foi autorizado. Fomos for&ccedil;ados a descer na pista de um pequeno aeroclube de Lusi&acirc;nia, em Goi&aacute;s, a cerca de 50 quil&ocirc;metros de Bras&iacute;lia. Para voc&ecirc; ter uma ideia, tivemos que fazer um voo rasante para afastar o gado que ocupava a pista. Chegando l&aacute;, tivemos que ir a p&eacute; at&eacute; a cidade para conseguir um transporte para Bras&iacute;lia. Quando finalmente chegamos e entramos na sala do ministro, a primeira coisa que ele fez foi virar uma ampulheta na mesa, indicando que ter&iacute;amos pouco tempo para falar. O clima era tenso. N&oacute;s mencionamos v&aacute;rias pessoas que tinham sido presas. Passarinho, no entanto, disse que n&atilde;o havia muito a fazer, alegando que aquelas decis&otilde;es estavam acima dele. Na viagem da volta, a tens&atilde;o foi substitu&iacute;da por uma profunda tristeza com o destino do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Um dos v&aacute;rios projetos nos quais o senhor est&aacute; envolvido &eacute; o Braincare, primeiro m&eacute;todo n&atilde;o invasivo para mensurar a press&atilde;o do interior do cr&acirc;nio (PIC). Nesse projeto o senhor trabalha com alunos que o senhor mesmo formou. Como acontece esse di&aacute;logo com os mais jovens?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> Essa &eacute; uma pergunta important&iacute;ssima. Eu acredito na import&acirc;ncia de dar continuidade a uma escola, de contribuir com a &aacute;rvore geneal&oacute;gica da ci&ecirc;ncia. O professor que n&atilde;o tem alunos melhores do que ele, falhou! Essa &eacute; uma frase que eu repito em todas as entrevistas que dou. O bom professor deve incentivar o aluno, desejar que ele seja melhor, a despeito do seu pr&oacute;prio ego e vaidade. Eu sempre me lembro daquela frase de Isaac Newton: "Se vi mais longe foi por estar de p&eacute; sobre ombros de gigantes". No caso do professor, esse gigante tem que ser o pr&oacute;prio aluno. Caso contr&aacute;rio, n&atilde;o h&aacute; escola, n&atilde;o h&aacute; progresso! Essa &eacute; uma quest&atilde;o fundamental para a educa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> O senhor tem uma carreira longa como professor titular na Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), no Instituto de F&iacute;sica e Qu&iacute;mica da USP S&atilde;o Carlos. O que mudou ao longo dos anos na universidade?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> Nada! Como disse o escritor italiano Giuseppe di Lampedusa (1896-1957), tudo mudou para permanecer o mesmo! Sabe por qu&ecirc;? Porque a universidade que n&oacute;s temos hoje est&aacute; muito ruim. Para entender isso, precisamos visitar a hist&oacute;ria, pois sem isso n&atilde;o d&aacute; para pensar no futuro. E esse &eacute; o verdadeiro perigo. Pior do que n&atilde;o conhecer o passado &eacute; n&atilde;o ter um GPS para o futuro. Ent&atilde;o vamos l&aacute;: a universidade come&ccedil;ou a se formar na Idade M&eacute;dia, mais precisamente na It&aacute;lia. A Universidade de Bolonha &eacute; considerada a mais antiga da Europa. O modelo de organiza&ccedil;&atilde;o dessa universidade foi feito a partir das profiss&otilde;es que existiam na sociedade. Por exemplo: voc&ecirc; &eacute; ferreiro, trabalha com ferro, ent&atilde;o voc&ecirc; vai ser engenheiro. Voc&ecirc; &eacute; barbeiro, trabalha com uma navalha, ent&atilde;o vai ser m&eacute;dico. Criou-se, desse modo, a pior coisa do mundo, os departamentos, sem interdisciplinaridade. Da&iacute; que o m&eacute;dico n&atilde;o fala com o engenheiro, que n&atilde;o fala com o historiador, que tem medo de matem&aacute;tica. Eu conhe&ccedil;o um exemplo de universidade no mundo que n&atilde;o &eacute; organizada por departamentos, mas por projetos: a Universidade de Tsukuba, no Jap&atilde;o. Projetos que t&ecirc;m come&ccedil;o, meio e fim. Os departamentos criam muros. A universidade que temos hoje tem que mudar! Temos que fazer uma esp&eacute;cie de ontologia do ensino superior, ou seja, olhar para o passado criticamente. Tem uma frase de um amigo meu que eu gosto muito, o professor Jos&eacute; Policarpo Gon&ccedil;alves de Abreu, atual diretor cient&iacute;fico da Funda&ccedil;&atilde;o de Amparo &agrave; Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig): "seja o passado meu mestre, mas n&atilde;o o meu senhor!"</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Um dos desafios da universidade do s&eacute;culo XXI &eacute; se aproximar da sociedade, seja da ind&uacute;stria, do mercado, na &aacute;rea da sa&uacute;de e tamb&eacute;m das escolas. O senhor participou de um programa em S&atilde;o Carlos que envolveu o Instituto de F&iacute;sica e as escolas da cidade. Pode falar um pouco desse projeto?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> A ideia que estava na base desse projeto &eacute; acabar com os muros entre a universidade e a comunidade. &Eacute; fazer a universidade caminhar para a sociedade e n&atilde;o para uma zona de conforto, para a chamada Torre de Marfim. Outro meio de proporcionar essa aproxima&ccedil;&atilde;o &eacute; incentivando o empreendedorismo entre os estudantes e pesquisadores. Al&eacute;m disso, a universidade tem que se conectar com os jovens nas escolas, se abrir para eles. Os professores das universidades deveriam visitar as escolas do ensino fundamental e m&eacute;dio, para falar das carreiras cient&iacute;ficas, incentivar e despertar o interesse dos jovens pela ci&ecirc;ncia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Ainda sobre os jovens, em um pa&iacute;s com tantos desafios, como envolver a juventude no projeto de Brasil melhor?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> O que responde a essa pergunta &eacute; o conceito de b&ocirc;nus demogr&aacute;fico (per&iacute;odo em que a popula&ccedil;&atilde;o ativa &eacute; mais numerosa do que a popula&ccedil;&atilde;o de jovens), porque precisamos de pol&iacute;ticas de Estado, de m&eacute;dio e longo prazo, n&atilde;o de pol&iacute;ticas de governo, onde a pessoa que entra destr&oacute;i o que o anterior fez. Nossa popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; envelhecendo, por isso temos que tratar das duas pontas: os jovens e os velhos. As mulheres jovens s&atilde;o motivo de grande preocupa&ccedil;&atilde;o para mim. N&oacute;s vivemos em um pa&iacute;s machista, onde mulheres e homens s&atilde;o educados de maneira diferente. Infelizmente, a mulher ainda &eacute; educada para obedecer ao homem. &Eacute; por meio da educa&ccedil;&atilde;o da mulher jovem que voc&ecirc; consegue reduzir o machismo. Por isso eu estou criando um projeto, que ser&aacute; lan&ccedil;ado este ano, chamado "Pr&ecirc;mio Marie Curie para jovem cientista brasileira", inspirado nessa pesquisadora que foi a primeira mulher a ganhar um Pr&ecirc;mio Nobel. No primeiro ano eu quero, com recursos pr&oacute;prios, conceder uma bolsa para uma jovem ainda na escola fundamental para inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. O objetivo &eacute; dar uma demonstra&ccedil;&atilde;o para a sociedade de que ci&ecirc;ncia sem mulher n&atilde;o vai dar certo, porque quando voc&ecirc; perde esse contingente de jovens voc&ecirc; est&aacute; desperdi&ccedil;ando 50% da cogni&ccedil;&atilde;o do nosso pa&iacute;s. Para dar continuidade a esse projeto, eu estou convocando empres&aacute;rios brasileiros a fazer um fundo para a jovem cientista brasileira. Eu vou percorrer algumas escolas p&uacute;blicas para divulgar o projeto. Eu acho fundamental transformar as ideias em coisas concretas, sen&atilde;o vira s&oacute; fuma&ccedil;a, vaidade e ego. Ideias s&atilde;o importantes para fazer nascer uma nova realidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Falando nisso, como o senhor v&ecirc; o papel da mulher na ci&ecirc;ncia e na sociedade?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> Me incomoda muito a diferen&ccedil;a entre homens e mulheres. Temos que parar de ensinar a mulher a depender do marido. Isso n&atilde;o tem o menor sentido e gera grande preju&iacute;zo para a sociedade. Falando como um cientista, eu posso afirmar que a mulher, na fun&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica geradora, &eacute; muito mais complexa do que o homem. Todos nascemos f&ecirc;meas, o macho &eacute; uma variante tardia na evolu&ccedil;&atilde;o embriol&oacute;gica. N&oacute;s homens somos mulheres de segunda classe. No entanto, como o homem &eacute; fisicamente mais forte, ele se imp&ocirc;s socialmente, deixando a mulher escrava dos filhos e do marido. Felizmente isso est&aacute; mudando. Pouco a pouco, elas est&atilde;o assumindo seu potencial, n&atilde;o apenas como geradoras de vida, mas como geradoras de conhecimento. A ci&ecirc;ncia n&atilde;o pode prescindir disso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> O senhor estudou qu&iacute;mica e f&iacute;sica, mas tamb&eacute;m fala frequentemente de assuntos da economia, filosofia, hist&oacute;ria. Quando ficou f&aacute;cil aprender?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> H&aacute; dois tipos de intelectuais. Os que sabem muito sobre pouco e os que sabem um pouco sobre muito. H&aacute; que se respeitar os dois. Eu admiro pessoas que tem um conhecimento profundo sobre um assunto. Mozart era assim, um g&ecirc;nio revelado ainda crian&ccedil;a. Nesse sentido eu me considero um homem de conhecimentos superficiais. A &uacute;nica pessoa que eu conheci que tinha os dois perfis ao mesmo tempo foi o f&iacute;sico italiano Enrico Fermi (1901-1954), respons&aacute;vel pelo desenvolvimento do primeiro reator nuclear. Eu acho que a facilidade para aprender tem a ver com uma abertura para a transdisciplinaridade. Me lembro do Mito de S&iacute;sifo, personagem da mitologia grega que, punido pelos deuses, &eacute; condenado a empurrar uma grande pedra montanha acima, para depois v&ecirc;-la cair quando ele alcan&ccedil;a o cume. Eu tenho uma leitura mais construtiva desse mito: cada vez que S&iacute;sifo alcan&ccedil;a o topo da montanha, ele consegue ter uma vis&atilde;o do todo, ele v&ecirc; al&eacute;m do que via quando estava na parte de baixo. Trata-se de uma epifania. Isso significa tamb&eacute;m ver al&eacute;m do conhecimento especializado, olhar de modo transdisciplinar. Eu acredito que o esfor&ccedil;o de S&iacute;sifo, que tamb&eacute;m &eacute; o nosso esfor&ccedil;o de conhecer, deve levar a uma vis&atilde;o prospectiva e mais inteligente dos cen&aacute;rios.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Isso tem a ver com a terceira cultura, que o senhor menciona frequentemente?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> Sim, exatamente. Eu falo do que foi defendido pelo f&iacute;sico e romancista ingl&ecirc;s Charles Percy Snow, j&aacute; no in&iacute;cio da d&eacute;cada de 1960, em seu livro <i>As duas culturas </i>(1959). Ele se referia&agrave; falta de di&aacute;logo entre uma cultura cient&iacute;fico-tecnol&oacute;gica e uma cultura humanista. Eu penso, assim como Snow, que o futuro virtuoso da humanidade depende dessa terceira cultura, onde convivem o cientista-tecn&oacute;logo, com sua linguagem quantitativa, baseada na matem&aacute;tica e na l&oacute;gica e o humanista, que expressa emo&ccedil;&otilde;es, afetos e valores sociais e &eacute;ticos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i>Como incentivar o aprendizado nas crian&ccedil;as?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> A tecnologia pode ser uma aliada nessa empreitada. As pessoas confundem conhecimento com cogni&ccedil;&atilde;o. O conhecimento est&aacute; espalhado por a&iacute;, mas ele s&oacute; tem valor quando &eacute; apropriado. Cogni&ccedil;&atilde;o &eacute; quando voc&ecirc; se apropria do conhecimento. Eu leio muito, tenho 70 livros no meu celular. Levo isso comigo para todo lugar. Eu acho que o livro digital &eacute; a maior inven&ccedil;&atilde;o que houve para a cogni&ccedil;&atilde;o. O garoto de hoje &eacute; completamente diferente do garoto que eu fui, e das crian&ccedil;as que meus filhos foram. Eu defendo que as crian&ccedil;as, os jovens tenham acesso &agrave; tecnologia, que tenham celulares, tablets. As pessoas t&ecirc;m medo disso. Ele pode ser altamente instrutivo para cogni&ccedil;&atilde;o. &Eacute; claro que h&aacute; que se tomar cuidados porque um celular pode ter conte&uacute;dos prejudiciais tamb&eacute;m. O que temos que fazer &eacute; ter uma pol&iacute;tica de Estado para o ensino a dist&acirc;ncia, para a leitura digital. A tecnologia une, mesmo que aparentemente ela pare&ccedil;a isolar as pessoas. Na verdade, esses jovens est&atilde;o conectados, est&atilde;o em um mundo diferente do que n&oacute;s conhecemos. Temos que entender e aproveitar isso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Ainda sobre tecnologia, o que o senhor espera das tecnologias emergentes como, por exemplo, a intelig&ecirc;ncia artificial?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> A grande pergunta que j&aacute; est&aacute; em discuss&atilde;o: ser&aacute; que o computador vai ter intelig&ecirc;ncia igual ou superior &agrave; de um ser humano. Stephen Hawking e o Roger Penhouse (matem&aacute;tico e fil&oacute;sofo da ci&ecirc;ncia ingl&ecirc;s, da Universidade de Oxford), s&atilde;o pesquisadores expoentes que discutiram esse assunto. Para Penhouse, a resposta &eacute; n&atilde;o. Nunca haver&aacute; um computador capaz de superar a mente humana. Ele escreveu um livro famoso chamado <i>A mente nova do rei </i>(Campus, 1989). Hawking, ao contr&aacute;rio, acha que seremos colonizados pela intelig&ecirc;ncia artificial. &Eacute; o que eu acho tamb&eacute;m, e isso me anima muito porque isso pode eliminar um grave problema do comportamento humano que &eacute; a dualidade que introduz incertezas ou que cria aliena&ccedil;&otilde;es, como as que fazem o homem acreditar em algo maior do que a realidade, em um deus. Ao fazer isso, voc&ecirc; aliena sua compreens&atilde;o do mundo e cria um deus, algo que foi altamente prejudicial na hist&oacute;ria humana. Com as m&aacute;quinas n&atilde;o teremos isso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Que temas t&ecirc;m despertado seu interesse recentemente?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SM:</b> Eu tenho me dedicado &agrave; pesquisas sobre o c&eacute;rebro e tenho aprendido muito sobre os outros e sobre mim mesmo. Tenho projetos que est&atilde;o sendo apoiados pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e pela Organiza&ccedil;&atilde;o Panamericana da Sa&uacute;de (Opas). A neuroci&ecirc;ncia desponta como uma disciplina fundamental para a compreens&atilde;o do ser humano. &Eacute; uma &aacute;rea de grande beleza. Para mim pensar &eacute; uma grande festa. Pena que acaba! Eu adoro a vida, mas tenho plena consi&ecirc;ncia de que a morte est&aacute; sempre presente. O Nietzsche dizia que a &uacute;nica coisa que nos faz valorizar a vida &eacute; a morte. Ele est&aacute; cert&iacute;ssimo!</font></p>      ]]></body>
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