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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Di&aacute;logo controverso e atual sobre o conhecimento</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Raquel Almeida</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Existe uma l&oacute;gica do conhecimento, da inven&ccedil;&atilde;o, da descoberta cient&iacute;fica? &Eacute; em torno de t&atilde;o controverso tema, o da teoria do conhecimento, que o educador An&iacute;sio Teixeira e o m&eacute;dico Maur&iacute;cio Rocha e Silva travaram um elegante e duro embate por meio de correspond&ecirc;ncia trocada entre dezembro de 1965 e abril de 1967. A batalha apaixonada de conceitos e posi&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias dos pensadores acerca dos processos (l&oacute;gicos ou nada l&oacute;gicos) que levam &agrave; constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento cient&iacute;fico aconteceu em pleno regime militar brasileiro e seus atos institucionais. As cartas foram organizadas em livro, editado primeiramente em 1968, e republicado em 2007, pela editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quase 40 anos depois. E, mesmo ap&oacute;s tanto tempo, &eacute; poss&iacute;vel identificar ali a contemporaneidade da discuss&atilde;o que ainda hoje divide a ideia do conhecimento entre ci&ecirc;ncias humanas e exatas, arte e ci&ecirc;ncia, e que funciona como obst&aacute;culo &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e ao acesso a novos conhecimentos cient&iacute;ficos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Curiosamente intitulado <i>Di&aacute;logo sobre a l&oacute;gica do pensamento</i>, o que menos se percebe ao longo das 121 p&aacute;ginas &eacute; uma conversa entre os dois pensadores. O exerc&iacute;cio da dial&eacute;tica, que parte do reconhecimento da posi&ccedil;&atilde;o adversa, n&atilde;o acontece ali. A intera&ccedil;&atilde;o que se apresenta resulta de mon&oacute;logos constru&iacute;dos para convencer e persuadir o receptor, sempre sustentados em argumenta&ccedil;&otilde;es s&oacute;lidas e referendadas em outros estudos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para enriquecer a percep&ccedil;&atilde;o sobre a controv&eacute;rsia estabelecida, &eacute; bom termos em perspectiva tamb&eacute;m os elos existentes entre os dois autores no ambiente da ci&ecirc;ncia brasileira no per&iacute;odo em que se deu a troca de ideias. An&iacute;sio Teixeira, fil&oacute;sofo e educador, defensor das ideias de educa&ccedil;&atilde;o integral, p&uacute;blica e democr&aacute;tica, havia sido fundador e vice-reitor da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), assim como fez parte da diretoria da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (SBPC). A mesma SBPC que apoiou o projeto de cria&ccedil;&atilde;o da UNB e que teve Rocha e Silva entre seus fundadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; Teixeira quem desfere a cr&iacute;tica inicial e parece levantar o muro entre cientistas e fil&oacute;sofos j&aacute; na primeira carta, escrita para comentar o ent&atilde;o rec&eacute;m lan&ccedil;ado livro de Rocha e Silva, <i>L&oacute;gica da inven&ccedil;&atilde;o.</i> Ao mesmo tempo em que enaltece a contribui&ccedil;&atilde;o da obra para abrir um caminho de elabora&ccedil;&atilde;o de uma ci&ecirc;ncia comum, de uma s&oacute; cultura de base cient&iacute;fica, o educador destaca as dificuldades do m&eacute;dico "que, como cientista, parte de uma real viv&ecirc;ncia do m&eacute;todo cient&iacute;fico, sobretudo no campo biol&oacute;gico, para as especula&ccedil;&otilde;es e an&aacute;lises do mundo". Reprova com veem&ecirc;ncia a tentativa do bi&oacute;logo de identificar um denominador comum entre o processo de cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica com o processo de cria&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Enquanto Rocha e Silva aproxima e defende o progresso existente nos dois campos, Teixeira combate a ideia de acumula&ccedil;&atilde;o construtiva nas artes. Para o educador, que se diz chocado e desconcertado com tais considera&ccedil;&otilde;es, o m&eacute;dico "deforma a natureza do real progresso que se opera no campo da ci&ecirc;ncia em contraste com o da arte". "A arte &eacute; uma forma de sentir o universo, a ci&ecirc;ncia uma forma de conhecer o universo. As rela&ccedil;&otilde;es entre os dois mundos consistem, sobretudo, em que o novo conhecimento produz uma nova arte, uma nova forma de sentir o universo (...). A arte n&atilde;o &eacute; uma acumula&ccedil;&atilde;o de esfor&ccedil;os em marcha permanente, como &eacute; a ci&ecirc;ncia, mas sempre, e em cada momento, algo de &uacute;nico, podendo ser perfeita ou imperfeita em cada caso ou em cada tempo, mas n&atilde;o propriamente progressiva", escreveu Teixeira, que conclui a carta saudando o colega "cientista <i>doubl&eacute;</i> de homem das letras".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rocha e Silva rebate com uma lista de exemplos de como as artes pl&aacute;sticas tamb&eacute;m apresentam um progresso acumulado, da Renascen&ccedil;a at&eacute; os modernistas. E explica que seu principal objetivo com os ensaios fora compreender o mecanismo da cria&ccedil;&atilde;o original na ci&ecirc;ncia e, eventualmente, na arte. Ressalta que o educador est&aacute; certo ao pontuar que ci&ecirc;ncia &eacute; poder, se for considerada como "um acervo de fatos verificados e que podem ser utilizados pela tecnologia". Mas lembra que h&aacute; um momento, uma fase muitas vezes nebulosa, da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica ou pura, em que a ci&ecirc;ncia ainda n&atilde;o configura um poder e onde o trabalho do cientista se aproxima do trabalho do artista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, os dois autores seguem no impasse da exist&ecirc;ncia da l&oacute;gica da inven&ccedil;&atilde;o ou da investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, o que aparenta, em alguns momentos do debate, significar mais um desajuste de nomenclaturas. &Eacute; ao longo dessa disputa de ideias que os intelectuais se encontram em um ponto: a vis&atilde;o de que a inova&ccedil;&atilde;o, a inven&ccedil;&atilde;o, a novidade acontece quando as regras deixam de ser seguidas e s&atilde;o rompidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E, ainda que n&atilde;o apare&ccedil;a de forma muito expl&iacute;cita no in&iacute;cio do "di&aacute;logo", a querela entre os intelectuais traz &agrave; tona a vis&atilde;o mais importante para o nosso debate contempor&acirc;neo: a exist&ecirc;ncia de dois mundos, de duas culturas, a dos literatos e a dos cientistas. Para Maur&iacute;cio Rocha e Silva, esses mundos estariam fadados a viver separados, especialmente por operarem em l&oacute;gicas diversas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; neste ponto que se revela porque An&iacute;sio Teixeira &eacute; t&atilde;o incisivo em suas cr&iacute;ticas e o que de fato tanto o desconcerta e incomoda na vis&atilde;o do m&eacute;dico: a liberdade liter&aacute;ria usada pelo cientista, que refor&ccedil;a a exist&ecirc;ncia dessas duas vis&otilde;es de mundo, de duas culturas e l&oacute;gicas de funcionamento. Para o educador, esse ambiente &eacute; o que precisa ser superado e unificado para que todos os homens possam compreender as ci&ecirc;ncias, inclusive os fil&oacute;sofos. O caminho proposto por Teixeira &eacute; o de que a educa&ccedil;&atilde;o, formal ou n&atilde;o, aproxime esses mundos com uma l&oacute;gica da experi&ecirc;ncia, da investiga&ccedil;&atilde;o e da descoberta para vencer "dualismos e conflitos que v&ecirc;m criando e nutrindo a injustificada Babel moderna". Para criar, inovar, inventar &eacute; preciso conhecer. Mais de cinco d&eacute;cadas depois &eacute; evidente o quanto esse di&aacute;logo segue pertinente e exige dedica&ccedil;&atilde;o, participa&ccedil;&atilde;o e responsabilidade de todos n&oacute;s, cientistas, fil&oacute;sofos, educadores e intelectuais.</font></p>      ]]></body>
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