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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A ci&ecirc;ncia em movimento</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jos&eacute; Eli da Veiga</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor s&ecirc;nior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de S&atilde;o Paulo (IEE/USP) e autor de Amor &agrave; ci&ecirc;ncia (Senac, 2017), o mais recente de seus 27 livros. Mant&eacute;m dois sites: <a href="http://www.zeeli.pro.br" target="_blank">www.zeeli.pro.br</a> e <a href="http://www.sustentaculos.pro.br" target="_blank">www.sustentaculos.pro.br</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Um martelo surge do encaixe de duas pe&ccedil;as bem distintas, cabe&ccedil;a e cabo. &Eacute; dessa intera&ccedil;&atilde;o que sai algo bem mais proveitoso, a fun&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca &agrave; ferramenta, que nenhum de seus dois componentes pode executar com um m&iacute;nimo de efici&ecirc;ncia. &Eacute; dessa imprescind&iacute;vel uni&atilde;o que <i>emerge</i> tal propriedade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De maneira semelhante, uma mol&eacute;cula de &aacute;gua, com seus dois &aacute;tomos de hidrog&ecirc;nio e um de oxig&ecirc;nio, jamais dar&aacute; a algu&eacute;m a sensa&ccedil;&atilde;o de umidade. Mas alguns bilh&otilde;es dessas mol&eacute;culas em qualquer min&uacute;sculo recipiente permitem que se experimente a sensa&ccedil;&atilde;o do que o &uacute;mido quer dizer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A umidade <i>emerge</i> de manhosas intera&ccedil;&otilde;es entre mol&eacute;culas de &aacute;gua em determinado intervalo de temperaturas. Se a temperatura diminuir, as mol&eacute;culas interagir&atilde;o de outro modo, tendendo a formar o cristal de gelo, com emerg&ecirc;ncia da dureza. Se for elevada, ser&aacute; a vez do vapor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que mais h&aacute; de comum nesses exemplos  &eacute; o fen&ocirc;meno da "emerg&ecirc;ncia", extremamente desafiador em termos te&oacute;ricos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seu entendimento at&eacute; pode parecer bem simples: novidade qualitativa resultante da intera&ccedil;&atilde;o entre partes de um conjunto, mas ausente em cada uma delas. S&oacute; que este &eacute; um daqueles casos em que as apar&ecirc;ncias se revelam bem enganadoras. Para se dar conta, basta uma espiada em qualquer dicion&aacute;rio ou enciclop&eacute;dia de filosofia. &Eacute; intrincad&iacute;ssimo o debate sobre seus poss&iacute;veis significados. Vem de 1875, teve um eclipse entre 1930 e 1950, e desde ent&atilde;o ficou cada vez mais cabeludo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>COMPLEXIDADES</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamanho imbr&oacute;glio filos&oacute;fico em nada atrapalhou, contudo, as contribui&ccedil;&otilde;es do conceito de emerg&ecirc;ncia para avan&ccedil;os cient&iacute;ficos nos &acirc;mbitos da f&iacute;sica, da biologia, da neurologia e da matem&aacute;tica. N&atilde;o &eacute; imprescind&iacute;vel que se consiga alcan&ccedil;ar as altitudes ontol&oacute;gicas da no&ccedil;&atilde;o de emerg&ecirc;ncia para que tais proezas cient&iacute;ficas ocorram e possam ser entendidas. Basta que pragmaticamente se adote sua vers&atilde;o maliciosamente taxada de "fraca", por se restringir &agrave; epistemologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; bem verdade que epistemologia tem mais de um sentido. Sin&ocirc;nimo de filosofia da ci&ecirc;ncia para os que preferem a inclina&ccedil;&atilde;o francesa em priorizar a abordagem hist&oacute;rica em estudos do conhecimento cient&iacute;fico em vez da tradi&ccedil;&atilde;o anglo-sax&atilde;, que sempre deu muito mais &ecirc;nfase &agrave; l&oacute;gica, mesmo depois do terremoto provocado pela obra do f&iacute;sico estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). E ainda h&aacute; aqueles para quem seria epistemol&oacute;gica qualquer reflex&atilde;o sobre o conhecimento em geral, inclusive o po&eacute;tico ou at&eacute; mesmo o religioso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas nada disso oferece s&eacute;rio obst&aacute;culo. Por mais que essas tr&ecirc;s variantes da epistemologia possam gerar controv&eacute;rsias sobre a dimens&atilde;o dita "fraca" da ideia de emerg&ecirc;ncia, h&aacute; consenso sobre sua import&acirc;ncia para o que costuma ser chamado de teoria da complexidade, conhecimento complexo, ou pensamento complexo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A atual teoria da complexidade &eacute; a terceira tentativa, em quase meio s&eacute;culo, de se trazer fen&ocirc;menos naturais (f&iacute;sicos e biol&oacute;gicos) para o contexto das propriedades altamente gen&eacute;ricas de sistemas e processos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TR&Ecirc;S PROPOSTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira permanece pouco conhecida: a teoria da cat&aacute;strofe, lan&ccedil;ada nos anos 1960 pelo not&aacute;vel matem&aacute;tico franc&ecirc;s Ren&eacute; Thom. Mostrou que as altera&ccedil;&otilde;es observadas em alguns sistemas que mudam no tempo conforme leis matem&aacute;ticas simples podem ser deforma&ccedil;&otilde;es cont&iacute;nuas e graduais do estado imediatamente anterior, mas que, em algum ponto cr&iacute;tico, o conjunto do sistema sofre uma mudan&ccedil;a "catastr&oacute;fica" e prossegue por um novo caminho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Exemplo cl&aacute;ssico &eacute; o da onda do mar que arrebenta por processo cont&iacute;nuo de mudan&ccedil;a. Uma ondula&ccedil;&atilde;o se transforma em curva convexa profunda, cuja caracter&iacute;stica tubular &eacute; subitamente perdida no ponto cr&iacute;tico da arrebenta&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre a da cat&aacute;strofe e a da complexidade esteve muito em voga a c&eacute;lebre teoria do caos, em grande parte inspirada na meteorologia dos anos 1980. Mostrou que alguns sistemas din&acirc;micos muito simples t&ecirc;m oscila&ccedil;&otilde;es regulares com um determinado conjunto de par&acirc;metros, mas que, com outros, sofrem transforma&ccedil;&otilde;es de estado que quase sempre parecem completamente aleat&oacute;rias. S&oacute; que tais mudan&ccedil;as podem ser explicadas por equa&ccedil;&otilde;es relativamente simples. Ec&oacute;logos desenvolveram modelos bem acess&iacute;veis de crescimento populacional nos quais &eacute; o comportamento ca&oacute;tico que evidencia mudan&ccedil;as aparentemente aleat&oacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mais recente tentativa - da complexidade - reside na esperan&ccedil;a de que sistemas e processos complexos obede&ccedil;am, em geral, a leis que t&ecirc;m origem na pr&oacute;pria multiplicidade de intera&ccedil;&otilde;es entre muitas partes.  Isto &eacute;, as leis dos processos complexos decorreriam, antes de tudo, do n&uacute;mero elevado das partes elementares em intera&ccedil;&otilde;es que geram <i>emerg&ecirc;ncias</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EPOPEIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre emerg&ecirc;ncia e complexidade n&atilde;o h&aacute;, em portugu&ecirc;s, algo que se compare ao dossi&ecirc; especial que a <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i> lhe dedicou em 2013 (v. 65, n. 4). Na publica&ccedil;&atilde;o, Osvaldo Pessoa Jr. observa que, malgrado o ac&uacute;mulo de s&eacute;rias diverg&ecirc;ncias sobre a vers&atilde;o "forte" (ontol&oacute;gica) da emerg&ecirc;ncia, estaria ocorrendo (em 2013) "esfor&ccedil;o cient&iacute;fico para descrever de maneira mais elegante e frut&iacute;fera a emerg&ecirc;ncia de padr&otilde;es complexos" (p. 25).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nos &uacute;ltimos cinco anos, o n&uacute;mero de publica&ccedil;&otilde;es pertinentes foi t&atilde;o elevado, que mesmo um mero resumo seria trabalho por demais ambicioso, at&eacute; para uma disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ent&atilde;o, como vislumbre dessa desej&aacute;vel atualiza&ccedil;&atilde;o, pode ser &uacute;til avaliar os dois &uacute;ltimos lan&ccedil;amentos de quem mais se dedicou ao tema ao longo do &uacute;ltimo meio s&eacute;culo. O franc&ecirc;s Edgar Morin, que acaba de completar 97 anos, oferece dois grandes apanhados de sua epopeia te&oacute;rica em <i>L'aventure de la m&eacute;thode</i> (Seuil, 2015) e <i>Connaissance ignorance myst&egrave;re</i> (Fayard, 2017).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TR&Ecirc;S TIPOS DE ERRO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Apesar de seus mais de cinquenta livros abordarem &aacute;reas t&atilde;o diversas quanto a condi&ccedil;&atilde;o humana, a pol&iacute;tica, a era planet&aacute;ria, o cinema, ou a pedagogia, pode-se dizer que, desde o fim dos anos 1960, o cerne das reflex&otilde;es te&oacute;ricas de Morin tem sido o pr&oacute;prio conhecimento. Foi seu mergulho profundo em pesquisas de fronteira sobre a vida e sobre o mundo f&iacute;sico que revelou a crucial necessidade de uma abordagem transdisciplinar ainda in&eacute;dita. O que logo o fez esbarrar naquilo que passou a possu&iacute;-lo, tanto como obst&aacute;culo, quanto como via &agrave; elucida&ccedil;&atilde;o: o conhecimento complexo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na linguagem mais trivial, os termos complexo e complexidade denotam grande dificuldade de se definir ou descrever alguma coisa muito complicada. Mas s&atilde;o termos que tamb&eacute;m podem ser entendidos como evid&ecirc;ncias da desafiante necessidade de se descrever e definir essas complica&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o percebidas como complexas. &Eacute; por isso que os melhores experts nessa tem&aacute;tica - como Edgard de Assis Carvalho - se valem do sentido etimol&oacute;gico do termo latino <i>complexus</i>: composto de v&aacute;rios elementos entrela&ccedil;ados a ser compreendido sob diversos &acirc;ngulos e pontos de vista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Morin usa a met&aacute;fora da "tape&ccedil;aria" para real&ccedil;ar a impossibilidade de que algum dos tipos de fio que a formam possa se expressar plenamente. &Eacute; assim que ilustra a inflex&atilde;o intelectual empreendida a partir de 1969, quando j&aacute; era cinquent&atilde;o. Desde seus trinta quis religar conhecimentos for&ccedil;osamente pulverizados pelas &oacute;bvias vantagens comparativas e competitivas das especializa&ccedil;&otilde;es. E desde seus quarenta tamb&eacute;m pretendeu superar alternativas entre op&ccedil;&otilde;es tidas por inconcili&aacute;veis, enfrentando as contradi&ccedil;&otilde;es em vez de contorn&aacute;-las.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Acabou por se dar conta que entre as mais sutis fontes de erros e ilus&otilde;es est&atilde;o a disjun&ccedil;&atilde;o entre os conhecimentos e a redu&ccedil;&atilde;o do que &eacute; composto aos seus elementos constitutivos. Percebeu que n&atilde;o se tratava mais do combate aos erros oriundos da ignor&acirc;ncia e do dogmatismo, com os quais fizera um incomum acerto de contas em seu s&eacute;timo livro: <i>Autocr&iacute;tica</i> (Seuil, 1959).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi assim que, na d&eacute;cada de 1970, passou a visar outros tr&ecirc;s tipos de erros: o do pensamento parcial (em seus dois sentidos); o do pensamento bin&aacute;rio, que s&oacute; v&ecirc; alternativa do tipo ou/ou, por ser incapaz de combinar a conjun&ccedil;&atilde;o e/e; e o do racioc&iacute;nio linear, inapto em conceber a retroa&ccedil;&atilde;o e a recurs&atilde;o. No fundo, tr&ecirc;s fal&aacute;cias das redu&ccedil;&otilde;es que frustram esfor&ccedil;os de apreens&atilde;o dos fen&ocirc;menos considerados complexos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>UMA CERTEZA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Conta Morin que foi sob o efeito de um impulso interno incontrol&aacute;vel seu engajamento na "aventura" ou "miss&atilde;o" de batalhar por uma renova&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria natureza do conhecimento cient&iacute;fico. E por mais que se possa duvidar da viabilidade de tamanha ambi&ccedil;&atilde;o, existe uma certeza: nesse meio s&eacute;culo o autor n&atilde;o esmoreceu, muito menos desistiu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para que possa entender o enunciado proposto por Morin para o conceito de emerg&ecirc;ncia, &eacute; aconselh&aacute;vel que o leitor lembre dos exemplos concretos que abriram este artigo (martelo, &aacute;gua). Para ele, emerg&ecirc;ncias s&atilde;o propriedades ou qualidades advindas da organiza&ccedil;&atilde;o de diversos elementos ou constituintes imbricados em um todo, n&atilde;o dedut&iacute;veis a partir das qualidades ou propriedades dos constituintes isolados, e irredut&iacute;veis a tais constituintes. &Eacute; por isso que as emerg&ecirc;ncias n&atilde;o s&atilde;o epifen&ocirc;menos ou superestruturas, e sim qualidades superiores advindas da complexidade organizacional. Elas podem retroagir sobre os constituintes conferindo-lhes as qualidades do todo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TRINDADE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dada essa import&acirc;ncia atribu&iacute;da &agrave; emerg&ecirc;ncia, fica bem dif&iacute;cil entender por que tal conceito n&atilde;o entra na defini&ccedil;&atilde;o proposta por Morin para complexidade, conhecimento complexo ou pensamento complexo. Defini&ccedil;&atilde;o baseada numa trinca de "princ&iacute;pios", que os experts preferem chamar de "operadores". Eles ser&atilde;o a seguir apresentados de tr&aacute;s para frente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O terceiro &eacute; do holograma, imagem na qual cada ponto cont&eacute;m a quase totalidade da informa&ccedil;&atilde;o sobre o objeto representado. Significa que n&atilde;o somente a parte est&aacute; no todo, mas que o todo tamb&eacute;m est&aacute;, de certa maneira, inscrito na parte. Assim, a c&eacute;lula cont&eacute;m a integralidade da informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica, o que permite a clonagem. E o conjunto da sociedade, mediante a cultura, est&aacute; inserido na mente de cada indiv&iacute;duo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O segundo &eacute; a recursividade organizadora. &Eacute; recursivo todo circuito cujos produtos e/ou efeitos s&atilde;o necess&aacute;rios &agrave; sua pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o ou &agrave; sua pr&oacute;pria causa&ccedil;&atilde;o. Uma bela imagem, apresentada no livro de 2015, &eacute; a figueira-de-bengala, &aacute;rvore end&ecirc;mica na &Iacute;ndia, Bangladesh e Sri Lanka. Sua caracter&iacute;stica mais marcante &eacute; gerar ra&iacute;zes a&eacute;reas delgadas que crescem at&eacute; atingir o solo, come&ccedil;ando ent&atilde;o a engrossar at&eacute; formarem novos troncos indistingu&iacute;veis do tronco principal. Segundo Morin, esse <i>ficus benghalensis</i> simboliza o ciclo recursivo pr&oacute;prio a tantos processos complexos em que produtos viram produtores daquilo que os produziu.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DIAL&Oacute;GICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; o primeiro princ&iacute;pio, ou operador, dito "dial&oacute;gico", foi deixado para o fim por ser bem menos aceit&aacute;vel, causando at&eacute; hostilidade entre entendidos em epistemologia. Nas palavras do autor, trata-se da unidade complexa entre duas l&oacute;gicas, entidades ou inst&acirc;ncias complementares, concorrentes e antagonistas, que se nutrem uma da outra, se completam, mas tamb&eacute;m se op&otilde;em e se combatem. Afirma ser algo distinto da dial&eacute;tica hegeliana, na qual as contradi&ccedil;&otilde;es encontrariam sua solu&ccedil;&atilde;o, se superariam e se suprimiriam em unidade superior. J&aacute; nesse neologismo "dial&oacute;gica", antagonismos permaneceriam constitutivos das entidades ou fen&ocirc;menos complexos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o parece razo&aacute;vel, contudo, a afirma&ccedil;&atilde;o de que na dial&eacute;tica hegeliana as contradi&ccedil;&otilde;es sempre seriam antagonismos que encontrariam sua solu&ccedil;&atilde;o em unidade superior. O termo que Hegel mais utilizou foi "'<i>aufgehoben</i>'", que tem triplo sentido: a) dissolver, desfazer, anular; b) guardar; c) p&ocirc;r em lugar mais alto, colocar em cima.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por isso, s&atilde;o tr&ecirc;s os sentidos que ocorrem na forma&ccedil;&atilde;o do que Hegel chamou de "s&iacute;ntese". No primeiro, a oposi&ccedil;&atilde;o dos polos, que constitui a contradi&ccedil;&atilde;o, &eacute; superada e anulada. E o car&aacute;ter excludente que existia entre tese e ant&iacute;tese &eacute; dissolvido e desaparece. No segundo sentido, os polos s&atilde;o conservados e guardados em tudo o que tinham de positivo, apesar da dissolu&ccedil;&atilde;o havida. E no terceiro, vai-se a um plano mais alto: na unidade h&aacute; ascens&atilde;o a n&iacute;vel superior.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na verdade, interpretar contradi&ccedil;&otilde;es exclusivamente como antagonismos foi inclina&ccedil;&atilde;o comum entre marxistas. O equ&iacute;voco foi certamente induzido pela leitura dos escritos de Marx que mais revelam o predom&iacute;nio do aguerrido revolucion&aacute;rio sobre o cientista social. S&oacute; que os outros dois tipos de contradi&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m s&atilde;o parte do projeto filos&oacute;fico do velho barbudo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TR&Ecirc;S PROCESSOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao aprofundar seus estudos sobre o funcionamento da economia capitalista, Marx tamb&eacute;m detectou oposi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-antag&ocirc;nicas, nas quais os contr&aacute;rios est&atilde;o em posi&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica de simetria. Nesses casos, n&atilde;o h&aacute; elimina&ccedil;&atilde;o inovadora de um deles, nem supera&ccedil;&atilde;o "sint&eacute;tica" dos dois, mas sim uma esp&eacute;cie de reprodu&ccedil;&atilde;o c&iacute;clica, ou ondulat&oacute;ria, da oposi&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Marx tamb&eacute;m detectou um outro tipo, no qual a oposi&ccedil;&atilde;o dos contr&aacute;rios engendra algo essencialmente novo. Ou seja, identificou ao menos tr&ecirc;s esp&eacute;cies de oposi&ccedil;&atilde;o que podem ser entendidas como determinantes de processos <i>revolucion&aacute;rios</i>, <i>ondulat&oacute;rios</i> e <i>embrion&aacute;rios</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o faz sentido, portanto, se apelar para uma suposta dial&oacute;gica, como se ela pudesse ser complemento &agrave; dial&eacute;tica, seja a de Hegel, como a de Marx. Pois as retic&ecirc;ncias de Morin ao termo dial&eacute;tica s&atilde;o parte integrante dos debates filos&oacute;ficos sobre o tema. Tentar resolver as dificuldades que permeiam tais debates pelo lan&ccedil;amento de nova moda - a dial&oacute;gica - foi uma temeridade que n&atilde;o pegou e que irrita muitos pesquisadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mais ir&ocirc;nico, contudo, &eacute; que o autor n&atilde;o abandonou o uso da locu&ccedil;&atilde;o "dial&eacute;tica", que parece at&eacute; ocorrer com mais frequ&ecirc;ncia que "dial&oacute;gica" nos v&aacute;rios milhares de p&aacute;ginas que publicou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m dessa obje&ccedil;&atilde;o sobre a infelicidade de bagun&ccedil;ar a dial&eacute;tica, h&aacute; uma outra cuja consequ&ecirc;ncia &eacute; at&eacute; mais grave: n&atilde;o se dar conta da pertin&ecirc;ncia da conjectura de Darwin para a aproxima&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica das ci&ecirc;ncias. Por isso, o que vem a seguir &eacute; crucial para a reflex&atilde;o sobre emerg&ecirc;ncia e complexidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOVA S&Iacute;NTESE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que dizer do que vem ocorrendo na f&iacute;sica qu&acirc;ntica com o chamado <i>quantum darwinism</i>, e nas ci&ecirc;ncias cognitivas com o <i>neural darwinismo</i>? Paralelamente, tamb&eacute;m h&aacute; no interior da biologia evolucion&aacute;ria um processo t&atilde;o significativo de mudan&ccedil;a no pensamento sobre hereditariedade, que parece prenunciar o surgimento de uma nova s&iacute;ntese que n&atilde;o ser&aacute; mais fissurada no gene.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assertivas dessa corrente por uma "s&iacute;ntese ampliada" parecem pura heresia a quem seja prisioneiro da vers&atilde;o mais difundida da teoria da evolu&ccedil;&atilde;o de  Darwin, que tudo reduz &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o por meio de sele&ccedil;&atilde;o natural de varia&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas aleat&oacute;rias. Mas a biologia molecular tende a mostrar que est&atilde;o erradas muitas das suposi&ccedil;&otilde;es sobre o sistema gen&eacute;tico. J&aacute; mostrou, por exemplo, que as c&eacute;lulas s&atilde;o capazes de transmitir informa&ccedil;&atilde;o &agrave;s c&eacute;lulas-filhas por heran&ccedil;a n&atilde;o relacionada ao DNA, a epigen&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em princ&iacute;pio, os organismos t&ecirc;m ao menos esses dois sistemas de hereditariedade. Mas nos animais tamb&eacute;m h&aacute; muita informa&ccedil;&atilde;o transmitida por meio de comportamentos, o que lhes confere um terceiro sistema. E os humanos teriam quatro, pois uma heran&ccedil;a baseada em s&iacute;mbolos - particularmente a linguagem - desempenha papel crucial em sua evolu&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desponta, portanto, uma vis&atilde;o muito diferente do materialismo darwiniano quando se leva em conta esses quatro sistemas de heran&ccedil;a e as intera&ccedil;&otilde;es entre eles, pois mudan&ccedil;as induzidas e adquiridas tamb&eacute;m podem ter pap&eacute;is na evolu&ccedil;&atilde;o. As heran&ccedil;as epigen&eacute;tica, comportamental e simb&oacute;lica tamb&eacute;m podem fornecer varia&ccedil;&otilde;es sobre as quais atuaria a chamada sele&ccedil;&atilde;o natural. N&atilde;o &eacute; razo&aacute;vel, ent&atilde;o, reduzir hereditariedade e evolu&ccedil;&atilde;o &agrave; dimens&atilde;o gen&eacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>APROXIMA&Ccedil;&Atilde;O EPISTEMOL&Oacute;GICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tanto pela emerg&ecirc;ncia de uma nova s&iacute;ntese muito mais abrangente que a "moderna", quanto pela expans&atilde;o da "epistemologia evolutiva", fica claro que s&atilde;o muitas as novidades te&oacute;ricas sobre os determinantes da hereditariedade e da coopera&ccedil;&atilde;o que poder&atilde;o acelerar o processo de aproxima&ccedil;&atilde;o iniciado nos anos 1980 com a forma&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s originais sociedades cient&iacute;ficas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Psic&oacute;logos e antrop&oacute;logos se juntaram a bi&oacute;logos para fundar a Human Behavior and Evolution Society (HBES), que lan&ccedil;ou o peri&oacute;dico <i>Evolution &amp; Human Behavior</i> como sucessor do <i>Ethology &amp; Sociobiology</i>. Pesquisadores dessas tr&ecirc;s disciplinas tamb&eacute;m se associaram a ec&oacute;logos na International Society for Behavioral Ecology (ISBE), que publica a revista <i>Behavioral Ecology</i>. E economistas fundaram a International Joseph A. Schumpeter Society (ISS), que edita o <i>Journal of Evolutionary Economics</i>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">T&atilde;o ou mais importante, contudo, &eacute; informar que, no Brasil, a melhor refer&ecirc;ncia sobre as quest&otilde;es abordadas neste artigo &eacute; Charbel El-Hani, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele coordena o Instituto Nacional de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia (INCT) em Estudos Interdisciplinares e Transdisciplinares em Ecologia e Evolu&ccedil;&atilde;o (IN-TREE), que hospeda o excelente <i>blog Darwinianas: a ci&ecirc;ncia em movimento</i> (<a href="https://darwinianas.com" target="_blank">https://darwinianas.com</a>).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A vers&atilde;o completa deste artigo est&aacute; dispon&iacute;vel em <a href="http://www.zeeli.pro.br/5447" target="_blank">http://www.zeeli.pro.br/5447</a></font></p>      ]]></body>
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