<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252018000400016</article-id>
<article-id pub-id-type="doi">10.21800/2317-66602018000400016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mapas e museus: uma nova cartografia social]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Almeida]]></surname>
<given-names><![CDATA[Alfredo Wagner Berno de]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="AFF"/>
<xref ref-type="aff" rid="AAF"/>
<xref ref-type="aff" rid="A A"/>
<xref ref-type="aff" rid="A3"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="AF1">
<institution><![CDATA[,Universidade Estadual do Maranhão Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF2">
<institution><![CDATA[,Universidade do Estado do Amazonas Programas de Pós-Graduação em Cidadania e Direitos Humanos em Segurança Pública e em Ciências Humanas ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="AF3">
<institution><![CDATA[,Universidade Federal do Amazonas Programas de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia e em Antropologia Social ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>10</month>
<year>2018</year>
</pub-date>
<volume>70</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>58</fpage>
<lpage>61</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252018000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252018000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252018000400016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> ENSAIOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mapas e museus: uma nova cartografia social</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Alfredo Wagner Berno de Almeida</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antrop&oacute;logo, professor do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Cartografia Social e Pol&iacute;tica da Amaz&ocirc;nia, da Universidade Estadual do Maranh&atilde;o (Uema), dos Programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Cidadania e Direitos Humanos em Seguran&ccedil;a P&uacute;blica e em Ci&ecirc;ncias Humanas, na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e dos Programas de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sociedade e Cultura na Amaz&ocirc;nia e em Antropologia Social, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). &Eacute; tamb&eacute;m pesquisador do CNPq</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma distin&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para in&iacute;cio de conversa: a proposi&ccedil;&atilde;o de uma "nova cartografia social", enquanto orientadora de pr&aacute;ticas de pesquisa, distingue-se do sentido corrente do voc&aacute;bulo "cartografia" e n&atilde;o pode ser entendida como circunscrevendo-se a uma descri&ccedil;&atilde;o de cartas ou a um tra&ccedil;ado de mapas e seus pontos cardeais com vistas &agrave; defesa ou &agrave; apropria&ccedil;&atilde;o de um territ&oacute;rio. Distingue-se igualmente do sentido manualesco de "cartografia social" que vem sendo largamente usado por ag&ecirc;ncias multilaterais, empresas mineradoras e de georreferenciamento, como a Google. Ao contr&aacute;rio de qualquer significa&ccedil;&atilde;o &uacute;nica, dicionarizada e fechada, a ideia de "nova" visa propiciar uma pluralidade de entradas a uma descri&ccedil;&atilde;o aberta, conect&aacute;vel em todas as suas dimens&otilde;es, e voltada para m&uacute;ltiplas experimenta&ccedil;&otilde;es fundadas, sobretudo, num conhecimento mais detido de realidades localizadas. A verifica&ccedil;&atilde;o <i>in loco</i> de situa&ccedil;&otilde;es empiricamente observ&aacute;veis remete, sobretudo, a rela&ccedil;&otilde;es de pesquisa e de confian&ccedil;a m&uacute;tua entre os investigadores e os agentes sociais estudados, que se referem aos chamados povos e comunidades tradicionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa descri&ccedil;&atilde;o de pretens&atilde;o plural compreende pr&aacute;ticas de trabalho de campo e rela&ccedil;&otilde;es em planos sociais diversos, que envolvem m&uacute;ltiplos agentes, os quais contribuiriam &agrave; descri&ccedil;&atilde;o com suas narrativas m&iacute;ticas, suas sequ&ecirc;ncias cerimoniais, suas modalidades pr&oacute;prias de uso dos recursos naturais e seus atos e modos intr&iacute;nsecos de percep&ccedil;&atilde;o de categorias (tempo, espa&ccedil;o, lugar) e objetos. Semelhante constru&ccedil;&atilde;o descritiva, que nada tem de uma interpreta&ccedil;&atilde;o dos atos como texto, ocorre na "confronta&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua das experi&ecirc;ncias e das reflex&otilde;es dos participantes" &#91;1&#93;, desfazendo a ilus&atilde;o empirista das "auto evid&ecirc;ncias" de campo e a ilus&atilde;o culturalista que enfatiza a "textualiza&ccedil;&atilde;o". As confronta&ccedil;&otilde;es acham-se dispersas na vida social e se estruturam a partir da perspectiva de diferentes posi&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es sociais e n&atilde;o apenas do prisma das inst&acirc;ncias de poder referidas ao Estado ou do "ponto de vista dos nativos".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Poderia ser nomeada como uma "nova descri&ccedil;&atilde;o", que se avizinha da etnografia, ao buscar descrever de maneira detida, atrav&eacute;s de rela&ccedil;&otilde;es de pesquisa e de t&eacute;cnicas de observa&ccedil;&atilde;o direta, a vida social de povos, comunidades e grupos, classificados como "tradicionais" e considerados &agrave; margem da cena pol&iacute;tica, mas que revelam consci&ecirc;ncia de suas fronteiras e dos meios de descrev&ecirc;-la, principalmente em situa&ccedil;&otilde;es de conflito social.  Est&aacute; se chamando de consci&ecirc;ncia de suas fronteiras a conflu&ecirc;ncia de pelo menos duas vertentes, ou seja, a unifica&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia de seu territ&oacute;rio com a consci&ecirc;ncia de si mesmos, manifestas de maneira expl&iacute;cita pelos pr&oacute;prios agentes sociais em suas reivindica&ccedil;&otilde;es face ao Estado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal unifica&ccedil;&atilde;o indica uma ruptura com o monop&oacute;lio de classifica&ccedil;&otilde;es identit&aacute;rias e territoriais produzidas historicamente pela sociedade colonial, mediante recenseamentos, cadastros, invent&aacute;rios, c&oacute;digos e mapas. Enuncia uma tens&atilde;o, cada vez mais percept&iacute;vel, entre a consci&ecirc;ncia de si mesmos, expressa por a&ccedil;&otilde;es coletivas, por mobiliza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e pelas autodefini&ccedil;&otilde;es, e as categorias censit&aacute;rias de identidade, apoiadas em crit&eacute;rios crom&aacute;ticos (preto, amarelo, branco, pardo) e primordialistas, de n&iacute;tida inspira&ccedil;&atilde;o em classifica&ccedil;&otilde;es raciais, impostas uniformemente pelo poder do Estado desde pelo menos 1872, data do primeiro censo demogr&aacute;fico do Brasil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v70n4/a16fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v70n4/a16fig01thumb.jpg">    <br> <font size="2" face="verdana, arial, helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A principal configura&ccedil;&atilde;o dessa ruptura concerne a um quadro de intensas mobiliza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas desses agentes sociais articuladas tanto com o advento das categorias de autodefini&ccedil;&atilde;o, quanto com a emerg&ecirc;ncia de formas pol&iacute;tico-organizativas espec&iacute;ficas. Ambas convergem para uma identidade coletiva objetivada em movimento social, notadamente a partir de 1985-86, no &acirc;mbito das discuss&otilde;es que perpassaram a Constituinte e foram incorporadas &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o Federal de 1988. Por meio dessas pr&aacute;ticas mobilizat&oacute;rias, que evidenciam conhecimento de seus direitos constitucionais, &eacute; que tais agentes interrogam sobre suas rela&ccedil;&otilde;es com a pol&iacute;tica, parcialmente exprimidas pelas organiza&ccedil;&otilde;es e movimentos que os representam.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre 2005 e 2018, na execu&ccedil;&atilde;o de atividades de mapeamento social, verificamos o surgimento dos chamados "museus vivos" ou "pequenos museus" em territ&oacute;rios &eacute;tnicos, em povoados, em projetos de assentamento e em bairros perif&eacute;ricos das metr&oacute;poles. A primeira constata&ccedil;&atilde;o &eacute; que, tal como os mapas, esses "pequenos museus" s&atilde;o acionados hoje nas mobiliza&ccedil;&otilde;es pelo reconhecimento identit&aacute;rio de povos e comunidades tradicionais, tornando-se um fator din&acirc;mico de conhecimentos espec&iacute;ficos e um instrumento pol&iacute;tico. Tamb&eacute;m de forma semelhante ao que acontece com os mapas, verifica-se que a ideia de museu est&aacute; sendo apropriada por aqueles que s&atilde;o usualmente designados como os "outros". Em outras palavras, o mapa nos levou ao museu. A "nova cartografia" nos impeliu aos novos significados de museu vivo, que passam a integrar seu campo de significa&ccedil;&atilde;o. Os croquis e mapas s&atilde;o complementados com a consolida&ccedil;&atilde;o de museus vivos, cujas plantas s&atilde;o produzidas pelos pr&oacute;prios membros das comunidades tradicionais, tal como o mapeamento social. Os chamados "outros" se tornam autores e sujeitos da a&ccedil;&atilde;o que consolida seus territ&oacute;rios, como veremos adiante.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pano de fundo concerne &agrave;s vicissitudes de processos reais e de realidades empiricamente observ&aacute;veis no decorrer dos trabalhos de campo realizados em regi&otilde;es amaz&ocirc;nicas pelos pesquisadores do Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Cartografia Social e Pol&iacute;tica da Amaz&ocirc;nia (PNCSA) da Universidade Estadual do Maranh&atilde;o (Uema), que j&aacute; realizaram nos &uacute;ltimos 13 anos quase tr&ecirc;s centenas de mapeamentos, publicados em fasc&iacute;culos e disponibilizados no site  www.novacartgografiasocial.com, e j&aacute; contribu&iacute;ram na montagem de cerca de 20 museus vivos ou pequenos museus. Dentre eles gostar&iacute;amos de destacar aqueles apoiados pela rede de pesquisadores da Nova Cartografia Social, consolidados atrav&eacute;s do projeto "Centro de ci&ecirc;ncias e saberes (CCS): experi&ecirc;ncia de cria&ccedil;&atilde;o de museus vivos na afirma&ccedil;&atilde;o de saberes e fazeres representativos dos povos e comunidades tradicionais" (MCTI/CNPq/SECIS N.85/2013. Projeto N.458207/2013-6), quais sejam: CCS M&atilde;e Anica, em Canelatiua (Alc&acirc;ntara, MA); CCS Lua Verde  e CCS Antonio Samias, ambos dos Kokama, em Manaus (AM); CCS do Povo Trememb&eacute;, na Raposa (MA); CCS das Comunidades Quilombolas do Andir&aacute; (AM); CCS Museu Casa Branca, em Imperatriz (MA); e CCS Escola da Cultura, em S&atilde;o Jos&eacute; da Povoa&ccedil;&atilde;o (Curralinho, PA). Ainda, os CCS's em consolida&ccedil;&atilde;o na comunidade quilombola de Cachoeira Porteira, no rio Trombetas (PA), e na comunidade de ribeirinhos do rio Jauaperi, na Resex do Baixo Rio Branco (RR/AM). Em todas essas situa&ccedil;&otilde;es, as oficinas de mapas nos levaram aos pequenos museus, ou seja, o mapa foi coet&acirc;neo do museu &#91;2&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas por que tantas comunidades tradicionais demandam mapeamento social e se empenham na montagem de pequenos museus? Os deslocamentos nos significados de museus, ao produzirem cole&ccedil;&otilde;es intr&iacute;nsecas aos seus padr&otilde;es culturais, e o empenho em produzir seus pr&oacute;prios mapas demonstram n&atilde;o apenas uma afirma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria, mas sobretudo situa&ccedil;&otilde;es de tens&atilde;o social, envolvendo povos e comunidades tradicionais, cujos territ&oacute;rios e bens culturais encontram-se submetidos a grandes riscos, amea&ccedil;ados por conflitos provocados pela implanta&ccedil;&atilde;o de megaempreendimentos e obras de infraestrutura e de seguran&ccedil;a. Barragens, bases de lan&ccedil;amento de foguetes, ferrovias, rodovias, portos, minerodutos, gasodutos, oleodutos, linhas de transmiss&atilde;o de energia e hidrovias, implantados de maneira concomitante, provocam danos e t&ecirc;m efeitos devastadores sobre o modo de vida e a reprodu&ccedil;&atilde;o desses povos e comunidades e sobre o que eles consideram os lugares relevantes de sua mem&oacute;ria hist&oacute;rica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n4/a16fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Insisto, pois, na pergunta: como interpretar a atual dissemina&ccedil;&atilde;o dessas iniciativas de "museus vivos" e demais pr&aacute;ticas designadas atrav&eacute;s de express&otilde;es similares em que o termo "museu" funciona como uma sorte de prefixo, acompanhado da identidade social respectiva e suas variantes, tais como: museu ind&iacute;gena (Kokama, Trememb&eacute;, Ticuna), museu quilombola, museu de quebradeiras de coco baba&ccedil;u, museu de ribeirinhos, museu de seringueiros, museu de castanheiros, museu de pantaneiros, museu de pescadores artesanais, museu de pia&ccedil;abeiros, museu de cai&ccedil;aras, museu de geraizeiros, museu das comunidades de fundos e fechos de pasto e museu de faxinais? Antes de tudo, cabe dizer que a nomea&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita dos sujeitos na cria&ccedil;&atilde;o desses museus vivos implode com o significado de "outros", evidenciando que, ao omitir ou ocultar deliberadamente o nome, sob uma designa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica, inviabilizava-se qualquer possibilidade concreta de autodefini&ccedil;&atilde;o. Ao contr&aacute;rio, no momento atual, as autodefini&ccedil;&otilde;es &eacute; que nomeiam os museus, os territ&oacute;rios e os mapas, demonstrando n&atilde;o somente suas especificidades, mas tamb&eacute;m que os "museus vivos" s&atilde;o indissoci&aacute;veis da consci&ecirc;ncia de si mesmos ou do processo de autodefini&ccedil;&atilde;o dos agentes sociais correspondentes &agrave;s identidades coletivas explicitamente mencionadas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n4/a16fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A emerg&ecirc;ncia desses pequenos museus que, inclusive, n&atilde;o demandam necessariamente uma institucionaliza&ccedil;&atilde;o, pode ser articulada com a perda da estabilidade sem&acirc;ntica de termos e conceitos como "tradi&ccedil;&atilde;o", "exposi&ccedil;&atilde;o" e "cole&ccedil;&atilde;o" e a complexidade de seus usos sociais na vida cotidiana e em mobiliza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas por afirma&ccedil;&atilde;o identit&aacute;ria e por direitos territoriais. Elas colocam na ordem do dia da vida intelectual e pol&iacute;tica e nos meandros dos mecanismos burocr&aacute;ticos o prop&oacute;sito de repensar os significados usuais de museu e suas varia&ccedil;&otilde;es. Essa tarefa n&atilde;o &eacute; trivial, tampouco f&aacute;cil, uma vez que tais significados, al&eacute;m de historicamente cristalizados, possuem uma ambiguidade conflitiva e deveras perturbadora.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse trabalho encerra, pois, uma cr&iacute;tica &agrave;s no&ccedil;&otilde;es usuais de cartografia e de historicidade da morte. Os outrora mapeados nos levaram &agrave;queles cujos artefatos eram museificados, como eles pr&oacute;prios, num lento exterm&iacute;nio simb&oacute;lico. Os museus consistiam nessa paradoxal historicidade da morte, e esse significado de museifica&ccedil;&atilde;o nos remete diretamente a Baudrillard &#91;3&#93;. Por outro lado, as recentes pr&aacute;ticas de mapeamento social &#91;4&#93; correspondentes &agrave; nova cartografia social nos facultaram condi&ccedil;&otilde;es de possibilidades para detectar o estado nascente de "pequenos museus" ou "museus vivos" e o potencial de mobiliza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica de povos que reverteram a sua propalada condena&ccedil;&atilde;o ao exterm&iacute;nio e romperam com os estigmas de "primitivos" e "atrasados", atribu&iacute;dos usualmente &agrave; categoria "outros".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A recorr&ecirc;ncia com que esses agentes sociais designam suas iniciativas museol&oacute;gicas como "museus vivos" possibilita a compreens&atilde;o de porqu&ecirc; atribuem uma &ecirc;nfase desmedida &agrave; vida, desdizendo os "hist&oacute;ricos" progn&oacute;sticos de morte. Ambos, mapa e museu, s&atilde;o coet&acirc;neos da emerg&ecirc;ncia dessas identidades coletivas objetivadas em diferentes formas pol&iacute;tico-organizativas e suas a&ccedil;&otilde;es transformadoras, que passam a representar a historicidade da vida se contrapondo ao mofo dos museus reais e imperiais, &agrave; soturnidade dos museus nacionais e &agrave; morte que paira sobre esses grandes museus das antigas metr&oacute;poles, que agora buscam desesperadamente se renovar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.  Bourdieu, P. <i>A mis&eacute;ria do mundo</i>, Petr&oacute;polis, Ed. Vozes, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.  Para maiores informa&ccedil;&otilde;es consulte-se Almeida, A.W.B. de; Arenillas-Oliveira, M. <i>Museus ind&iacute;genas e quilombolas: Centro de Ci&ecirc;ncias e Saberes</i>, Manaus, UEA/MAST/UEMA, 2018.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.  O conceito de museifica&ccedil;&atilde;o, como historicidade da morte, &eacute; trabalhado por Baudrillard, <i>in Simulacros e simula&ccedil;&atilde;o</i>, em conson&acirc;ncia, a nosso ver, com Sartre e Merleau-Ponty, sen&atilde;o vejamos: "Estamos fascinados com Rams&eacute;s como os crist&atilde;os da Renascen&ccedil;a o estavam com os &iacute;ndios da Am&eacute;rica, que nunca tinham conhecido a palavra de Cristo (...). Deste modo ter&aacute; bastado exumar Rams&eacute;s para o exterminar ao museificar: &eacute; que as m&uacute;mias n&atilde;o apodrecem com os vermes: elas morrem por transumarem de uma ordem lenta do simb&oacute;lico, senhora da podrid&atilde;o e da morte, para uma ordem da hist&oacute;ria, da ci&ecirc;ncia e do museu, a nossa, que j&aacute; n&atilde;o domina nada, que s&oacute; sabe votar o que precedeu &agrave; podrid&atilde;o e &agrave; morte e tentar em seguida ressuscit&aacute;-lo pela ci&ecirc;ncia. Viol&ecirc;ncia irrepar&aacute;vel para com todos os segredos, viol&ecirc;ncia de uma civiliza&ccedil;&atilde;o sem segredo, &oacute;dio de toda uma civiliza&ccedil;&atilde;o contra suas pr&oacute;prias bases.". Ver Baudrillard, J. <i>Simulacros e simula&ccedil;&atilde;o</i>, Portugal, Rel&oacute;gio d'Agua, 1991.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.  Refer&ecirc;ncia ao Projeto Nova Cartografia Social da Amaz&ocirc;nia (PNCSA), institu&iacute;do a partir de 2005 por uma rede de pesquisadores de universidades p&uacute;blicas da Amaz&ocirc;nia e do Nordeste.</font></p>      ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Bourdieu]]></surname>
<given-names><![CDATA[P.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A miséria do mundo]]></source>
<year>2003</year>
<publisher-loc><![CDATA[Petrópolis ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Ed. Vozes]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Almeida]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.W.B. de]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Arenillas-Oliveira]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Museus indígenas e quilombolas: Centro de Ciências e Saberes]]></source>
<year>2018</year>
<publisher-loc><![CDATA[Manaus ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[UEA/MAST/UEMA]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Baudrillard]]></surname>
<given-names><![CDATA[J.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Simulacros e simulação]]></source>
<year>1991</year>
<publisher-name><![CDATA[Relógio d'Agua]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
