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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma autorreflex&atilde;o pela autonomia universit&aacute;ria</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rafael Barros de Oliveira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A universidade est&aacute; em crise. No Brasil, em pa&iacute;ses da Am&eacute;rica Latina e da Europa, enfim, no mundo inteiro se ouve e se l&ecirc; essa frase. Para olhares desatentos ou afastados, a hist&oacute;ria da institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria parece ser uma sucess&atilde;o de trope&ccedil;os que a leva de uma crise a outra ou, pior, a hist&oacute;ria de uma &uacute;nica e intermin&aacute;vel crise, que a acompanha h&aacute; s&eacute;culos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; outra forma mais adequada, no entanto, de interpretar esse estado permanente de crise na universidade. A palavra <i>crise</i>, segundo o dicion&aacute;rio Houaiss, chegada a n&oacute;s do latim <i>crisis</i>, por sua vez uma recep&ccedil;&atilde;o do grego <i>kr&iacute;sis</i>, tem na sua origem o sentido de "momento de decis&atilde;o, de mudan&ccedil;a s&uacute;bita". Num contexto sem&acirc;ntico mais amplo, refere-se &agrave; "a&ccedil;&atilde;o ou faculdade de distinguir, decis&atilde;o". &Eacute; nesse sentido que melhor interpretaremos a t&atilde;o aludida crise na universidade: n&atilde;o como um momento de desequil&iacute;brio e transi&ccedil;&atilde;o, &agrave; maneira econ&ocirc;mica e sociol&oacute;gica, mas como o permanente exerc&iacute;cio dessa faculdade de distin&ccedil;&atilde;o. Em outras palavras, a universidade est&aacute; sempre em crise porque est&aacute; sempre <i>refletindo sobre si mesma</i>, examinando a si mesma e <i>decidindo</i> sobre seus rumos. A crise enquanto autorreflex&atilde;o &eacute; um elemento constitutivo daquilo que se pode propriamente chamar de universidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tal apontamento est&aacute; no rec&eacute;m-lan&ccedil;ado <i>Os desafios da autonomia universit&aacute;ria: hist&oacute;ria recente da USP </i>(Paco Editorial, 2018), livro de Paulo de Tarso Artencio Muzy e Jos&eacute; Roberto Drugowich de Felicio, professores da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Ambos f&iacute;sicos de forma&ccedil;&atilde;o e com larga experi&ecirc;ncia e participa&ccedil;&atilde;o na gest&atilde;o universit&aacute;ria, Muzy e Drugowich produzem uma obra que se caracteriza, a um s&oacute; tempo, como tomada de posi&ccedil;&atilde;o e estabelecimento de diretrizes para o futuro. O livro &eacute; pensado como um experimento em que os autores colhem tr&ecirc;s tipos de evid&ecirc;ncias: "a manifesta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica dos intelectuais sobre o tema; a variabilidade de entendimento que paira sobre o conceito; e a evolu&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es depois que passaram a contar com a autonomia no sentido amplo" (p. 18).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; primeira vista de um leitor apressado, <i>Os desafios da autonomia universit&aacute;ria</i> aparece como um livro de situa&ccedil;&atilde;o, restrito &agrave;s universidades estaduais de S&atilde;o Paulo - se n&atilde;o exclusivamente &agrave; USP - e ao seu momento hist&oacute;rico. De fato, encontra-se j&aacute; na introdu&ccedil;&atilde;o um aceno nesse sentido:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Na maior parte das vezes, o termo universidade designar&aacute; a USP, que &eacute; a mat&eacute;ria de nossa reflex&atilde;o e experi&ecirc;ncia. Outras vezes significar&aacute; a institui&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria gen&eacute;rica. Essa liberdade tamb&eacute;m se justifica porque a imprensa se refere &agrave; universidade usando frequentemente o exemplo da USP como paradigma, sem preju&iacute;zo ou dem&eacute;rito para a Unesp ou para a Unicamp" (p. 14).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa impress&atilde;o &eacute; refor&ccedil;ada pela estrutura do livro, que toma como fio condutor o Decreto 29.598/89, no qual o ent&atilde;o governador do estado de S&atilde;o Paulo, Orestes Qu&eacute;rcia, estabelece a autonomia das universidades estaduais paulistas (o decreto &eacute; objeto do cap&iacute;tulo 2, ponto de partida para os seguintes). Ademais, o cap&iacute;tulo intitulado "Autonomia entre n&oacute;s" deixa bem claro de que "n&oacute;s" se trata: a comunidade uspiana e, no m&aacute;ximo, a comunidade expandida das tr&ecirc;s universidades estaduais paulistas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v70n4/a18fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, uma leitura mais atenta mostra o equ&iacute;voco de reduzir a obra a um escrito circunstancial, por dois motivos: i) a circunscri&ccedil;&atilde;o do conceito de autonomia (cap&iacute;tulo 3) ultrapassa a experi&ecirc;ncia singular de uma universidade ou mesmo de um sistema nacional de ensino superior; e ii) o diagn&oacute;stico das potencialidades n&atilde;o exploradas de efetiva&ccedil;&atilde;o e amplia&ccedil;&atilde;o da autonomia universit&aacute;ria (cap&iacute;tulo 7) igualmente transcende os desafios de uma &uacute;nica institui&ccedil;&atilde;o, servindo de inspira&ccedil;&atilde;o e fomentando a discuss&atilde;o inclusive para al&eacute;m dos muros da universidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conceito de autonomia, para al&eacute;m da busca pelas ra&iacute;zes filos&oacute;ficas (a autonomia como chave para sair da menoridade e chegar ao esclarecimento, em Immanuel Kant) e hist&oacute;ricas (recuperando o desenvolvimento do conceito na Europa desde a Idade M&eacute;dia e nos Estados Unidos ainda no tempo de col&ocirc;nia), &eacute; apresentado como uma proposta de rearticula&ccedil;&atilde;o da universidade em torno dessa categoria. Para manter o tom filos&oacute;fico, podemos dizer que a pergunta tipicamente kantiana - <i>o que &eacute; a autonomia? - </i>&eacute; substitu&iacute;da pela pergunta nietzschiana: <i>quem &eacute; a autonomia</i>?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Na universidade aut&ocirc;noma, identificamos estruturas de unidades, departamentos e institutos nos quais as pessoas, ou seus agrupamentos, os docentes, funcion&aacute;rios e alunos atuam nas fun&ccedil;&otilde;es de ensino, pesquisa e extens&atilde;o e exercem parcelas ou modo dessa autonomia. (...) entre os segmentos reconhecidos de docentes, funcion&aacute;rios e alunos, que formalmente se apresentam nos processos de decis&atilde;o colegiada e na gest&atilde;o, uma figura t&iacute;pica e expressiva da universidade se destaca, a figura do <i>intelectual"</i>. (p. 79)</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O intelectual, de acordo com os autores, &eacute; o ponto focal da autonomia, a figura paradigm&aacute;tica para avaliar seu grau de efetividade, seu sentido institucional, seus modos de operacionaliza&ccedil;&atilde;o. "N&atilde;o se trata aqui de representatividade pol&iacute;tica, que mimetize a sociedade, ou uma comunidade, mas da representatividade na institui&ccedil;&atilde;o de acordo com sua miss&atilde;o" (p. 79). &Eacute; no intelectual que se manifesta a miss&atilde;o da universidade, desdobrada no trin&ocirc;mio ensino-pesquisa-extens&atilde;o. Afinal, "&eacute; nele &#91;intelectual&#93; que repousam as expectativas, as necessidades, as capacidades, os interesses e as representa&ccedil;&otilde;es que o conceito &#91;de autonomia&#93; apresenta e que eles expressam" (p.79).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Figura por excel&ecirc;ncia da pr&oacute;pria ideia de universidade e ocupante da maior parte dos cargos de dire&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o, &eacute; para o intelectual que devemos olhar ao examinar a concretiza&ccedil;&atilde;o, o alcance e os limites do conceito de autonomia universit&aacute;ria. Assim sendo, a liberdade acad&ecirc;mica - liberdade de pesquisar, ensinar e aprender - aparece como parte constitutiva da hist&oacute;ria da autonomia universit&aacute;ria, que os autores resgatam desde as origens da institui&ccedil;&atilde;o na Idade M&eacute;dia. Naturalmente, n&atilde;o se deixa de notar a correla&ccedil;&atilde;o dessa liberdade com outro sentido de autonomia: a financeira. Igualmente importante era a esfera que diz respeito &agrave; sua organiza&ccedil;&atilde;o ou administra&ccedil;&atilde;o, a qual demanda um regime jur&iacute;dico particular para as universidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A essa genealogia contrap&otilde;e-se o diagn&oacute;stico local e contempor&acirc;neo: entre n&oacute;s -brasileiros, no geral, e paulistas, no particular -, autonomia tornou-se sin&ocirc;nimo de autonomia financeira <i>tout court</i>. Pelo menos desde o decreto de 1989, e dada a sua reda&ccedil;&atilde;o, a pergunta pelo sentido da autonomia universit&aacute;ria costuma ser respondida, como mostram Muzy e Drugowich, pela alus&atilde;o ao percentual da arrecada&ccedil;&atilde;o do ICMS (Imposto sobre Circula&ccedil;&atilde;o de Mercadorias e Servi&ccedil;os) destinado ao custeio das universidades estaduais de S&atilde;o Paulo. Ou seja, um conceito que se desenvolveu em m&uacute;ltiplas facetas ao longo da hist&oacute;ria &eacute; hoje reduzido a uma dimens&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse achatamento ou estreitamento do conceito produz uma verdadeira incapacidade estrutural de sua concretiza&ccedil;&atilde;o. Eis a tese forte do livro, que transcende o contexto espa&ccedil;o-temporal no e para o qual foi escrito. Sem atentar &agrave;s dimens&otilde;es acad&ecirc;mica e administrativa, bem como &agrave; necess&aacute;ria radicaliza&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o financeira, ser&aacute; imposs&iacute;vel construir uma universidade verdadeiramente aut&ocirc;noma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim temos o<i> leitmotiv</i> que organiza o &uacute;ltimo cap&iacute;tulo da obra, acerca das possibilidades da autonomia universit&aacute;ria entre n&oacute;s. Os autores apontam para um conjunto de medidas que creem ben&eacute;ficas ao alargamento da autonomia universit&aacute;ria e que promover&atilde;o sua maior efetiva&ccedil;&atilde;o. Da pluralidade de fontes de financiamento &agrave; inova&ccedil;&atilde;o no regime jur&iacute;dico, passando pelo combate ao corporativismo, o leitor discernir&aacute; o esbo&ccedil;o de um plano de universidade aut&ocirc;noma - se for capaz, &eacute; claro, de superar as impress&otilde;es que subestimam o poder e o alcance da obra. Revela-se, ent&atilde;o, mais um n&iacute;vel de sentido do livro: um chamamento &agrave; a&ccedil;&atilde;o, uma conclama&ccedil;&atilde;o aos intelectuais universit&aacute;rios para redirecionar sua vida na institui&ccedil;&atilde;o segundo a orienta&ccedil;&atilde;o desse velho valor, retomado em seu alcance mais amplo e diversificado. Trata-se, sobretudo, de levantar os antolhos que estreitam nossos horizontes, de modo a liberar o potencial criativo inerente &agrave; universidade e p&ocirc;-lo a servi&ccedil;o da autonomia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se trata aqui de avaliar os m&eacute;ritos ou dem&eacute;ritos das sugest&otilde;es de Muzy e Drugowich. Antes, parece mais importante salientar a maneira como os autores reconfiguram a perspectiva dos problemas da universidade em torno do eixo da autonomia. A recupera&ccedil;&atilde;o desse conceito em sua multiplicidade de sentidos &eacute; a chave para o aperfei&ccedil;oamento institucional que se imp&otilde;e nos momentos de crise.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Naturalmente, para que o esfor&ccedil;o seja bem-sucedido, h&aacute; de se contar com a colabora&ccedil;&atilde;o de setores do Estado e da sociedade civil â€” em nenhum momento os autores vendem um del&iacute;rio de hero&iacute;smo intelectual. Mas para que isso ocorra, &eacute; necess&aacute;rio antes (re)construir o discurso pela autonomia, em sua devida extens&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao que parece, com o livro <i>Os desafios da autonomia universit&aacute;ria</i>, um importante passo j&aacute; foi dado. Prossigamos.</font></p>      ]]></body>

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