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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[À espera do pai]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br> PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>&Agrave; espera do pai</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rog&eacute;rio Pereira</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jornalista, editor e escritor. Em 2000, fundou em Curitiba o jornal Rascunho - uma das raras publica&ccedil;&otilde;es sobre literatura no Brasil. Desde janeiro de 2011, &eacute; diretor da Biblioteca P&uacute;blica do Paran&aacute;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nunca odiei tanto o pai. Eu o esperava na porta de casa. Ele descia a rua de pedregulhos. Havia pouco tempo deix&aacute;ramos a ro&ccedil;a. Agora, t&iacute;nhamos de cavar um ch&atilde;o de concreto e asfalto. Trocamos a companhia de bois vagarosos pela insana voracidade de carros e &ocirc;nibus. Aos poucos, nos acostumar&iacute;amos ao ru&iacute;do da nova vida. Atr&aacute;s da casa de madeira, constru&iacute;mos nosso est&aacute;dio - um estropiado Maracan&atilde; ladeado por cedros e uma t&iacute;mida valeta. Nossa rede, as ancas do paiol em cujas v&iacute;sceras dormiam ratos pan&ccedil;udos. E as ripas para a constru&ccedil;&atilde;o das estufas na floricultura onde mor&aacute;vamos de favor. &Eacute;ramos retirantes num mundo que nos amedrontava.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pai carrega o pacote. E vem em minha dire&ccedil;&atilde;o. Eu o espero. A ansiedade pulsando nas v&eacute;rtebras do pesco&ccedil;o. Um n&oacute; prestes a estourar no urro do animal ancestral. Ele caminha devagar, como se ambicionasse congelar o tempo, paralisar o momento de entregar ao filho o p&atilde;o que jamais saciaria a fome que arranhava as costelas delicadas. Te odiei tanto, pai, na tarde sem fim. A m&atilde;e ali por perto cuidando das azaleias, avencas e samambaiais. Eu j&aacute; havia anunciado aos amigos. A minha espera era a espera deles. &Eacute;ramos uma horda de gnus &agrave; beira de um rio seco, sem crocodilos. Correr&iacute;amos em disparada ao nosso est&aacute;dio de mentira. Ser&iacute;amos, enfim, pequenos deuses capazes de milagres indecentes. Bastava o pai me estender as m&atilde;os grossas, calosas, heran&ccedil;a de uma ro&ccedil;a arcaica e indesejada. O pai estendeu-me as m&atilde;os. Sobre elas, o pacote. Um simulacro de Papai Noel, cujas vestes tornavam ris&iacute;vel a triste silhueta. Toma, filho. Agarrei com todas as minhas for&ccedil;as de nove anos. Davi e Golias trocando car&iacute;cias e gentilezas. Rasguei o papel esverdeado feito o esfomeado a estra&ccedil;alhar o vestido da amante.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; minha volta, pares de olhos em febre. Enfim, abandonar&iacute;amos a bola de pl&aacute;stico emprestada. Ter&iacute;amos nossa bola: grande, branca, de capot&atilde;o. Do papel amassado, a desilus&atilde;o. Uma bola pequena, de cor escura, de borracha, fincava espinhos na palma da minha m&atilde;o. Gostou, filho? A pergunta do pai se perdeu no sil&ecirc;ncio indestrut&iacute;vel. Quietos e resignados, rumamos ao nosso est&aacute;dio. Eu carregava o &oacute;dio debaixo do bra&ccedil;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A bola pequena e feia - borracha maldita - rapidamente se transformou. Inventamos a bola perfeita. Nosso sil&ecirc;ncio virou algazarra. Os gnus ruidosos lambiam o rio caudaloso. Crocodilos n&atilde;o nos assustavam. Inventamos dribles para a bola que pulava uma imensid&atilde;o. Nossos p&eacute;s sofriam para domin&aacute;-la. Aos poucos, arrefecemos a sua f&uacute;ria. Driblamos e a chutamos vida afora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">D&oacute;i menos odiar o pai quando se est&aacute; feliz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">(Texto lido na Feira de Frankfurt, em 2013.)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Rog&eacute;rio Pereira nasceu em Galv&atilde;o (SC), em 1973. &Eacute; jornalista, editor e escritor. Em 2000, fundou em Curitiba o jornal Rascunho - uma das raras publica&ccedil;&otilde;es sobre literatura no Brasil. Desde janeiro de 2011, &eacute; diretor da Biblioteca P&uacute;blica do Paran&aacute;. Tem contos publicados no Brasil, Alemanha, Fran&ccedil;a, Peru e Finl&acirc;ndia. &Eacute; autor do romance Na escurid&atilde;o, amanh&atilde; (2013), finalista do Pr&ecirc;mio S&atilde;o Paulo de Literatura, men&ccedil;&atilde;o honrosa no Pr&ecirc;mio Casa de Las Am&eacute;ricas (Cuba) e traduzido na Col&ocirc;mbia.</i></font></p>      ]]></body>
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