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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   HIST&Oacute;RIA DA ALIMENTA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Por uma cultura  brasileira do milho</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Patricia Mariuzzo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil &eacute; o terceiro maior produtor mundial de milho, atr&aacute;s de Estados Unidos e China. Segundo os dados do acompanhamento da safra de gr&atilde;os, de dezembro de 2018, feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paran&aacute;, S&atilde;o Paulo e Goi&aacute;s s&atilde;o os maiores produtores brasileiros. A hist&oacute;ria do milho nessas regi&otilde;es, no entanto, &eacute; bem mais antiga. Juntamente com Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, parte do Rio de Janeiro e Esp&iacute;rito Santo esses estados comp&otilde;em a Paulist&acirc;nia, territ&oacute;rio onde o milho era a base de uma cozinha rica e diversa, a culin&aacute;ria caipira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"V&aacute;rios produtos eram obtidos do milho-verde rec&eacute;m-colhido, tanto na dieta ind&iacute;gena, quanto na caipira. Desta restaram o curau, a pamonha, o bolo de milho e os mingaus. &Eacute; o milho seco, entretanto, que se constituiu em mat&eacute;ria-prima de maior import&acirc;ncia hist&oacute;rica, seja porque esteve associado &agrave; conquista do sert&atilde;o, seja porque &eacute; dele que derivam os principais elementos da dieta caipira", afirmam Carlos Alberto D&oacute;ria e Marcelo Corr&ecirc;a Bastos no livro<i> A culin&aacute;ria caipira da Paulist&acirc;nia</i> (Tr&ecirc;s Estrelas, 2018). "Entendo a cozinha caipira como aquela produzida primordialmente como atividade de subsist&ecirc;ncia, em pequenas propriedades, chamadas 's&iacute;tios', que gravitam em torno da cultura do milho e dos seus derivados, al&eacute;m de esp&eacute;cies nativas de legumes como ab&oacute;bora, feij&atilde;o, amendoim, que mostra, ainda, agregados o chiqueiro, o galinheiro, o pomar, a horta", explica D&oacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n1/a16fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nativo da Am&eacute;rica Central, <i>abati</i> era como o milho era conhecido entre os tupis-guaranis. "Ele ocupava um papel central na vida desses povos. Seu poder germinativo, aliado &agrave; rapidez e &agrave; facilidade do cultivo, fez com que ele se adequasse perfeitamente ao ideal de vida n&ocirc;made dessas comunidades", afirma Rafaela Basso, historiadora que desenvolve pesquisa sobre alimenta&ccedil;&atilde;o dos paulistas no Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH Unicamp). Essas caracter&iacute;sticas tamb&eacute;m viabilizaram as viagens bandeirantes para os sert&otilde;es brasileiros. "O milho garantiu a sobreviv&ecirc;ncia e a melhor adapta&ccedil;&atilde;o dos europeus - cuja cultura estava alicer&ccedil;ada no trigo - &agrave;s adversidades e possibilidades proporcionadas pelo meio que encontram aqui", complementa. No caso dos bandeirantes, ela menciona ainda a facilidade de transportar os gr&atilde;os sem que eles se estragassem. As expedi&ccedil;&otilde;es sertanistas s&oacute; puderam acontecer porque pequenos grupos de colonos viajavam antes e faziam ro&ccedil;as de milho que antecipavam o comboio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>COMPLEXO DO MILHO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com o tempo essas ro&ccedil;as deram origem a povoados. "Muitos desses colonos acabaram por se fixar nas rotas para os distritos minerat&oacute;rios onde, juntamente com o milho, cultivavam e vendiam outros produtos como feij&atilde;o, carne de porco e de galinha", explica Basso. Al&eacute;m das vantagens no cultivo, o milho tamb&eacute;m proporcionava uma grande variedade de receitas, mesmo em uma cozinha r&uacute;stica, caracter&iacute;stica de um tipo de vida itinerante, como era a desses viajantes. Sal e a&ccedil;&uacute;car, por exemplo, eram ingredientes caros, aos quais s&oacute; os mais ricos tinham acesso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um alimento derivado do milho, que se tornou fundamental na conforma&ccedil;&atilde;o da culin&aacute;ria caipira, foi a farinha de milho. E, aqui, &eacute; importante notar que a introdu&ccedil;&atilde;o do monjolo nos s&iacute;tios paulistas pelos portugueses possibilitou aumentar e disseminar sua produ&ccedil;&atilde;o e uso. Conforme explica Basso, os ind&iacute;genas j&aacute; produziam farinha, mas utilizavam o pil&atilde;o manual cavado em troncos de &aacute;rvores. O monjolo, movido a &aacute;gua ou com tra&ccedil;&atilde;o animal, facilitou o trabalho e fez da farinha de flocos amarelos e do fub&aacute; mat&eacute;rias-primas de pratos ic&ocirc;nicos da culin&aacute;ria caipira como bolos, p&atilde;es, virados, pa&ccedil;ocas, mingaus e bebidas. "A contribui&ccedil;&atilde;o do uso dessas farinhas para a coloniza&ccedil;&atilde;o brasileira &eacute; inestim&aacute;vel, sem contar que ambas tinham a fun&ccedil;&atilde;o de alimentar o grande n&uacute;mero de escravos, cujo trabalho era a base de toda a economia colonial", afirmou Basso.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MINEIRIZA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito da import&acirc;ncia do milho no processo de coloniza&ccedil;&atilde;o brasileiro, essa mem&oacute;ria n&atilde;o permaneceu como elemento da cultura gastron&ocirc;mica brasileira ou mesmo dos paulistas. Conforme explica Basso, ao mesmo tempo em que o milho tem import&acirc;ncia fundamental como fonte alimentar dos homens da Col&ocirc;nia, ele tamb&eacute;m servia para alimentar os animais. "Isso dava um significado secund&aacute;rio e pejorativo para essa planta. N&atilde;o &eacute; &agrave; toa que mandioca - outra planta nativa das Am&eacute;ricas - foi escolhida por muitos chefs como s&iacute;mbolo da gastronomia brasileira", explica a historiadora.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para D&oacute;ria e Bastos, a exist&ecirc;ncia da cultura caipira &eacute; mais ideol&oacute;gica ou imagin&aacute;ria do que real, j&aacute; que nenhuma comunidade da antiga Paulist&acirc;nia vive hoje comendo exclusivamente aquela cozinha que se construiu entre os homens pobres ao longo dos s&eacute;culos. "Essa sociedade e essa cultura s&atilde;o vistas, em especial a partir dos anos 1950, majoritariamente como rurais, em oposi&ccedil;&atilde;o ao dinamismo urbano que surgia; atrasadas, em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave; cultura moderna que se americanizava. E indesejadas, sob qualquer ponto de vista", dizem. Por isso sua cozinha foi como que soterrada pela comida industrializada, pelos h&aacute;bitos dos imigrantes europeus e "pelo solene desprezo que o Brasil moderno devota ao seu passado ind&iacute;gena". Ainda de acordo com eles, boa parte dos pratos caipiras s&atilde;o conhecidos hoje como parte da cozinha mineira, algo que eles chamam de mineiriza&ccedil;&atilde;o da cozinha caipira. "No fim das contas, n&atilde;o existe diferen&ccedil;a not&aacute;vel entre a cozinha mineira e a tradicional paulista, a ponto de justificar uma classifica&ccedil;&atilde;o distinta. O que parece existir s&atilde;o atitudes diferentes dos mineiros e paulistas diante da culin&aacute;ria caipira", acreditam os autores.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n1/a16fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESIST&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma cozinha &agrave; base de milho, no entanto, n&atilde;o &eacute; algo do passado. No Vale do Paranapanema, interior de S&atilde;o Paulo, o milho ainda &eacute; um elemento central na cultura culin&aacute;ria, presente no cotidiano e nas festas comunit&aacute;rias. A pesquisadora da Ag&ecirc;ncia Paulista de Tecnologia dos Agroneg&oacute;cios (Apta), Cristina Fachini, identificou diversos pratos &agrave; base de milho verde e farinha de milho. A lista de receitas que ela recolheu &eacute; grande:  pa&ccedil;oca de carne feita no pil&atilde;o, encapotado, bolinho frito de farinha de milho, cardito de ovo, cabe&ccedil;a de porco "moqueada", quirela de milho com costelinha de porco e o roj&atilde;o. "A farinha de milho &eacute; um ingrediente ainda muito presente aqui na regi&atilde;o o que faz com que ainda exista muitos monjolos ativos ou pequenas f&aacute;bricas de farinha rudimentares", conta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para evidenciar essas pr&aacute;ticas tradicionais de produ&ccedil;&atilde;o e uso culin&aacute;rio do alimento, Fachini est&aacute; organizando um roteiro tur&iacute;stico do milho. O projeto foi contemplado pelo Programa de A&ccedil;&atilde;o Cultural (Proac). "O turista poder&aacute; saborear essas receitas e ainda conhecer o modo de vida rural que inclui as festas do milho, dan&ccedil;as tradicionais e pr&aacute;ticas como a fabrica&ccedil;&atilde;o de peneiras e cestos de palha, uma heran&ccedil;a ind&iacute;gena", contou Fachini.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo ela, ainda permanece nessas localidades formas de colabora&ccedil;&atilde;o que envolvem a participa&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria de mais de 200 pessoas para colheita do milho que ser&aacute; utilizado na confec&ccedil;&atilde;o de produtos para as festas, em geral organizadas pela Igreja Cat&oacute;lica. "Na Festa do Milho Verde de Ribeir&atilde;o Grande, por exemplo, volunt&aacute;rios plantam o milho em um terreno cedido para esse fim. As sementes de milho criolo, pr&oacute;prio para pamonha, tamb&eacute;m s&atilde;o doadas", conta.  Cada festa consome de sete a 19 toneladas de milho verde para a produ&ccedil;&atilde;o dos pratos t&iacute;picos: pamonha doce e salgada, bolo de milho, curau doce, mingau de milho com frango, quirera com costela defumada, suco de milho verde, milho cozido, bolinho pingado de milho verde, pamonha na chapa e o bolinho de frango.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na tradi&ccedil;&atilde;o culin&aacute;ria da regi&atilde;o tamb&eacute;m ocorre n&iacute;tida separa&ccedil;&atilde;o dos pratos preparados com a farinha de milho daqueles &agrave; base de milho verde. "O milho verde &eacute; vendido nas festas devido &agrave; sazonalidade e &agrave; curta dura&ccedil;&atilde;o do produto em ponto de verde. Tamb&eacute;m est&aacute; associado &agrave;s celebra&ccedil;&otilde;es, &agrave;s colheitas, &agrave; comensalidade, &agrave;s reuni&otilde;es familiares. J&aacute; a farinha de milho, que pode ser armazenada, faz parte do cotidiano, &eacute; a companheira do trabalho na ro&ccedil;a e da vida pr&aacute;tica. &Eacute; o ingrediente que d&aacute; sust&acirc;ncia aos demais pratos, que engrossa o caldo, que d&aacute; corpo", explica Fachini.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ela, o roteiro tur&iacute;stico e gastron&ocirc;mico do milho &eacute; uma possibilidade de valorizar  um modo de vida marcado por um calend&aacute;rio anual que associa fluxos de vida, per&iacute;odos de colheita, semeadura e celebra&ccedil;&otilde;es. Ao caminhar pelas ruas de Ribeir&atilde;o Grande durante a semana santa, por exemplo, pode-se sentir o cheiro dos biscoitos de polvilho com farinha de milho assados na folha de bananeira. "Um roteiro gastron&ocirc;mico do milho traz a possibilidade de criar uma narrativa dessas pr&aacute;ticas, de forma a proporcionar ao turista uma experi&ecirc;ncia sobre as formas de produ&ccedil;&atilde;o e de vida que ainda hoje resistem e s&atilde;o praticadas at&eacute; mesmo no meio urbano dessa regi&atilde;o", acredita a pesquisadora.</font></p>      ]]></body>
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