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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   PROSA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A mais bela morte</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ugo Giorgetti</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi artista residente do IdEA - Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de agosto a novembro de 2018</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um informe de algum departamento de sa&uacute;de p&uacute;blica de Buenos Aires, das primeiras horas do dia 10 de mar&ccedil;o, quinta-feira &uacute;ltima, dizia laconicamente: "ao redor das 2.26 desta madrugada, atrav&eacute;s da central 107 chegou uma solicita&ccedil;&atilde;o de aux&iacute;lio, vinda de um restaurante na rua Olga Cossetini ,791, e a informa&ccedil;&atilde;o de que havia uma pessoa ca&iacute;da. Uma ambul&acirc;ncia chegou ao local, providenciou os primeiros socorros e constatou que se tratava do senhor Roberto Perfumo, que tinha sofrido um traumatismo craniano".  Assim se relatava sua morte &agrave; maneira protocolar da burocracia de Estado. Descrevia-se a morte do "senhor Roberto Perfumo", como se fosse a morte de qualquer um, apenas uma entre todas as mortes que a cada noite acontecem nas grandes capitais do mundo. Uma descri&ccedil;&atilde;o para fazer parte das estat&iacute;sticas e pronto.  A edi&ccedil;&atilde;o do <i>Clarin</i> vinha cheia de homenagens, causadas pelo choque do falecimento de um &iacute;dolo nacional. N&atilde;o faltaram recorda&ccedil;&otilde;es de sua classe e cita&ccedil;&otilde;es de seus feitos no Racing, no Cruzeiro de Belo Horizonte, no River e na sele&ccedil;&atilde;o argentina. Sempre acreditei que jogadores de defesa devem ser mais inteligentes do que jogadores de ataque. Um jogador de defesa burro &eacute; uma trag&eacute;dia em potencial. O defensor tem que se antecipar ao atacante, tem que imaginar, e mesmo adivinhar, o que o atacante vai fazer, prever o desfecho do lance e chegar primeiro na bola. Depois deve, numa fra&ccedil;&atilde;o de segundo, decidir o que fazer: chut&atilde;o ou passe. E sempre fazer o certo. Intelig&ecirc;ncia, portanto, e n&atilde;o s&oacute; vigor f&iacute;sico, &eacute; o que necessita um jogador de defesa. Por isso s&atilde;o t&atilde;o raros. Pode parecer at&eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o, mas revela&ccedil;&otilde;es na zaga s&atilde;o mais dif&iacute;ceis de acontecer do que revela&ccedil;&otilde;es de atacantes. Infelizmente, nem dirigentes, nem mesmo treinadores se convencem disso. &Eacute; comum ver times investindo tudo no ataque, enchendo seus elencos com atacantes e nenhum defensor realmente de qualidade. Porque &eacute; dif&iacute;cil, repito. Roberto Perfumo foi um desses grandes jogadores. Zagueiro consagrado na Argentina chegou no Cruzeiro em 1971. Eu o vi jogar diversas vezes. Chegava junto, com o vigor dos jogadores argentinos, mas sa&iacute;a jogando com a mesma efici&ecirc;ncia. Foi um dos maiores. Sua morte me entristece muito, como deve entristecer a todos que gostam de futebol. Mas, ao mesmo tempo, me alegra na mesma intensidade. Todo mundo, pelo menos que conhe&ccedil;o, pede por uma morte r&aacute;pida, indolor e quase inadvertida. Outro dia um amigo meu conversava com a mulher e a irm&atilde; serenamente na sala da casa quando, de repente, caiu fulminado por um aneurisma. &Eacute; sem d&uacute;vida uma morte aceit&aacute;vel. H&aacute; quem prefira, e mesmo imagine, uma morte dormindo. Uma noite se vai para cama, despreocupado como um justo, talvez levando um livro, ou mesmo um <i>ebook </i>e depois de algumas linhas apaga-se a luz e o mundo cessa de existir, j&aacute; que nunca mais se acorda. Tamb&eacute;m &eacute; uma morte que evita sofrimento, agonia, desgaste e dor. Mas h&aacute; outra morte e essa me parece a melhor, a desejada. Que tal voc&ecirc; se reunir com amigos, daqueles amigos que o acompanham por toda a vida numa cantina italiana, pedir sua pasta preferida bem <i>al dente</i>, seu vinho mais apreciado e atravessar horas rindo e se divertindo com os velhos companheiros? Da&iacute; voc&ecirc; pede, de sobremesa, uma pastiera di grano, um caf&eacute; e, l&aacute; pelas duas da manh&atilde;, come&ccedil;a a sair do restaurante. N&atilde;o chega a sair, n&atilde;o chega sequer a interromper o riso que surgiu com a &uacute;ltima piada. A escada &agrave; sua frente &eacute; seu caminho para o nada. Voc&ecirc; cai por ela sem perceber que est&aacute; morto. Foi exatamente desse jeito, aos 73 anos de idade, saindo de uma cantina italiana de Buenos Aires, &agrave;s duas da manh&atilde;, alegre e rodeado de amigos que morreu Roberto Alfredo Perfumo. Voc&ecirc; seria capaz de imaginar uma morte melhor para um grande boleiro? Voc&ecirc; seria capaz de imaginar morte melhor para qualquer um?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>UM POUCO DE FIC&Ccedil;&Atilde;O</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ter&ccedil;a-feira &agrave; noite, nervoso com um notici&aacute;rio confuso na tv, do qual n&atilde;o entendia quase nada, o homem resolveu deixar o apartamento para ir, talvez, ao supermercado. &Agrave;s ter&ccedil;as lhe &eacute; permitido fazer pequenos passeios. Saiu do seu apartamento sem esquecer, como pessoa respeit&aacute;vel, de se colocar em palet&oacute; e gravata. Ao abrir-se a porta do elevador o homem impulsivamente deu um passo para dentro e imediatamente viu-se rodeado de uma grande quantidade de pessoas alegres, carregando garrafas de Champagne, falando e rindo alto com copos nas m&atilde;os. Aturdido tentou voltar, mas a porta do elevador se fechou e ele viu que subia. N&atilde;o podia entender o que falavam. Nada pior para um homem pouco familiarizado com um idioma, do que pessoas falando ao seu redor ao mesmo tempo. A confus&atilde;o de vozes &eacute; fatal. E l&aacute; foi ele entre multimilion&aacute;rios, loucos de alegria, meio incr&eacute;dulos, que se abra&ccedil;avam. Sem poder fazer nada deixou-se abra&ccedil;ar e ficou contente de reconhecer uma cara que j&aacute; tinha visto. O conhecido se aproximou e o cumprimentou afavelmente. Foi nesse momento que a porta do elevador se abriu e o bloco de pessoas o arrastou para dentro de outro apartamento. Reconheceu a cobertura, que j&aacute; tinha visto em fotos e que secretamente almejava um dia visitar. A algazarra dentro do magn&iacute;fico apartamento em m&aacute;rmore branco era indescrit&iacute;vel. Perdido, tateando, ele permaneceu vagamente por l&aacute;. N&atilde;o via muita gente da sua idade, mas viu imediatamente ele. Ele, o seu vizinho ilustre, cercado por jovens e n&atilde;o t&atilde;o jovens, com sua cara e seu penteado inconfund&iacute;veis. Chegou mais perto do vizinho e ali ficou olhando para ele em sil&ecirc;ncio embasbacado. Os olhos do vizinho cruzaram os seus e ele ent&atilde;o sorriu, o conhecido sorriso brasileiro diante de um estrangeiro, simp&aacute;tico, reverente, cheio de gratuita e calorosa admira&ccedil;&atilde;o. O sorriso fez o efeito esperado. O vizinho chamou algu&eacute;m que estava por ali, justamente a pessoa que o havia cumprimentado no elevador e com quem j&aacute; tinha esbarrado. Ouviu, sem compreender bem, o vizinho perguntar olhando para ele: Who's this? Seu conhecido replicou: "The ex president". O vizinho poderoso olhou para ele at&ocirc;nito: "ex president? E o interlocutor, talvez julgando um pouco complicado explicar o que era a CBF resolveu resumir: "from Brazil". O vizinho ficou muito admirado e alegremente surpreendido. "Brazil?!". Ergueu-se de onde estava, evitou alguns abra&ccedil;os e aproximou-se estendendo as m&atilde;os. O nosso homem tinha l&aacute;grimas nos olhos e no sorriso fixo. Jamais poderia supor que, sobretudo nos dias atribulados pelos quais passava, o destino lhe fosse oferecer ocasi&atilde;o t&atilde;o rara. A conversa, se essa &eacute; a palavra, se desenvolveu entre os dois numa curiosa mistura de express&otilde;es de simpatia em novayork&ecirc;s de rua e respostas em hesitantes grunhidos num inequ&iacute;voco paulist&ecirc;s. Mas isso n&atilde;o tinha nenhuma import&acirc;ncia. O que interessava &eacute; que estava l&aacute;. Lembrou, num esfor&ccedil;o, que estava em pleno dia das elei&ccedil;&otilde;es americanas. N&atilde;o tinha podido pensar muito nisso, ocupado com reuni&otilde;es com advogados, mas agora se dava conta. Maravilhado viu que era algu&eacute;m importante nas primeiras comemora&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas da elei&ccedil;&atilde;o. Reparou que pessoas j&aacute; olhavam para ele com aten&ccedil;&atilde;o, algumas at&eacute; lhe dirigiram a palavra. Inutilmente: o barulho era muito e o conhecimento do ingl&ecirc;s pouco. Mas podia reconhecer claramente coisas como "president" e "Brazil". Por um instante esqueceu at&eacute; da tornozeleira. Pensou em descer ao seu apartamento e convidar a esposa para a reuni&atilde;o. Mas logo lhe ocorreu um velho prov&eacute;rbio de seu mundo passado: em time que est&aacute; ganhando n&atilde;o se mexe. Resolveu ent&atilde;o ficar apenas por ali, e gozar a felicidade. E foi assim que Jos&eacute; Maria Marin entrou na hist&oacute;ria, na noite de ter&ccedil;a-feira &uacute;ltima em Nova Iorque. Afinal ele e Donald Trump moram no mesmo pr&eacute;dio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i><b>Ugo Giorgetti</b> (S&atilde;o Paulo, 1942) &eacute; cineasta. Fez cerca de 20 filmes, sendo 12 deles longa-metragens, com destaque para S&aacute;bado (1994), Boleiros (1998), Festa (1989), O pr&iacute;ncipe (2002) e Cara e coroa (2012). Gra&ccedil;as a Boleiros, foi convidado a escrever uma coluna semanal sobre futebol no jornal O Estado de S.Paulo, que continua saindo todos os domingos. A cr&ocirc;nicas aqui republicadas s&atilde;o exemplos de colunas escritas em &eacute;pocas mais ou menos recentes: A mais bela morte (11/3/2016); Um pouco de fic&ccedil;&atilde;o (11/11/2016). Foi artista residente do IdEA - Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de agosto a novembro de 2018.</i></font></p>      ]]></body>
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