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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br>   IGUALDADE DE G&Ecirc;NERO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Intrusas: uma reflex&atilde;o sobre mulheres e meninas na ci&ecirc;ncia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Fabiana de Oliveira Benedito</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute; 20 anos, a escritora Susan Bordo utilizou o termo "o outro" para sintetizar a percep&ccedil;&atilde;o coletiva das contribui&ccedil;&otilde;es da cr&iacute;tica feminista &agrave; ci&ecirc;ncia. O conceito, elaborado pela fil&oacute;sofa Simone de Beauvoir, aponta para a exist&ecirc;ncia de uma posi&ccedil;&atilde;o social perif&eacute;rica - marcada pelas diferen&ccedil;as sexuais e raciais - onde estariam localizados os estudos feministas. "O outro" &eacute;, ainda hoje, uma met&aacute;fora poss&iacute;vel para falar sobre as mulheres e meninas na ci&ecirc;ncia. Desde 2015, 11 de fevereiro foi estabelecido como o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ci&ecirc;ncia. A data foi definida pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), com o objetivo de tornar vis&iacute;vel o papel e as contribui&ccedil;&otilde;es das mulheres para o desenvolvimento cient&iacute;fico, e que tamb&eacute;m serve para fomentar as discuss&otilde;es sobre quais barreiras elas enfrentam nas universidades, institutos de pesquisas e nas carreiras cient&iacute;ficas, de maneira geral.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Adla Betsaida Martins Teixeira, pesquisadora e professora da Faculdade de Educa&ccedil;&atilde;o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), embora a organiza&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria tenha uma ordem masculina, &eacute; desde o in&iacute;cio da forma&ccedil;&atilde;o escolar que os saberes e potencialidades das meninas costumam ser sabotados. "A menina n&atilde;o pode errar. O menino tem mais chance. Quando ele erra, n&atilde;o tem tanto a sensa&ccedil;&atilde;o do fracasso. Para uma menina pesa muito mais", aponta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a03fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>LUGAR DE MULHER</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma pesquisa realizada pela Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, Ci&ecirc;ncia e Cultura (Unesco), em 2015, mostrou que as mulheres s&atilde;o apenas 28% dos pesquisadores de todo o mundo. No Brasil, 80% da popula&ccedil;&atilde;o com idade entre 25 a 34 anos nem sequer chega ao ensino superior, de acordo com dados do F&oacute;rum Econ&ocirc;mico Mundial. No entanto, h&aacute; outras estat&iacute;sticas que apontam para um cen&aacute;rio potencialmente mais positivo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s quest&otilde;es de g&ecirc;nero: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An&iacute;sio  Teixeira (Inep), em 2016, as mulheres eram 57,2% nos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s e, de acordo com a Coordena&ccedil;&atilde;o de Aperfei&ccedil;oamento de Pessoal de N&iacute;vel Superior (Capes), as mulheres tamb&eacute;m constituem maioria nos cursos de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. Em 2016, eram mais de 126 mil mulheres matriculadas em cursos de doutorado e mestrado - n&uacute;mero 18% maior que o de homens matriculados nos mesmos cursos (cerca de 107 mil), (ver tabela).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de serem maioria na gradua&ccedil;&atilde;o e na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, as mulheres ainda est&atilde;o sub-representadas em &aacute;reas tradicionalmente concebidas como masculinas, como as engenharias, a computa&ccedil;&atilde;o, as ci&ecirc;ncias exatas e da terra. Para a f&iacute;sica Vera Soares, que foi Secret&aacute;ria de Articula&ccedil;&atilde;o Institucional e A&ccedil;&otilde;es Tem&aacute;ticas da Secretaria de Pol&iacute;ticas para as Mulheres (SPM), a ideia de que existem profiss&otilde;es para mulheres e profiss&otilde;es para homens &eacute; cultivada em diversos dos espa&ccedil;os de socializa&ccedil;&atilde;o das meninas e meninos. "Esses preconceitos de que as meninas n&atilde;o gostam das disciplinas das &aacute;reas de exatas est&atilde;o presentes na fam&iacute;lia, na sociedade e tamb&eacute;m na escola", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi esse entendimento que motivou a SPM a criar o projeto <i>Meninas e jovens fazendo ci&ecirc;ncias exatas, engenharias e computa&ccedil;&atilde;o</i>, em parceria do Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia, Tecnologia, Inova&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&otilde;es (MCTIC), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient&iacute;fico e Tecnol&oacute;gico (CNPq) e a Petrobras. O objetivo era selecionar propostas - para apoio financeiro - que estimulassem a forma&ccedil;&atilde;o de mulheres para as carreiras nas &aacute;reas que d&atilde;o nome &agrave; iniciativa. "A ideia era mudar esse panorama onde vemos poucas mulheres na f&iacute;sica, na matem&aacute;tica, nas engenharias", conta Soares. O projeto envolveu meninas de escolas p&uacute;blicas e professores das universidades e do ensino m&eacute;dio. "As meninas est&atilde;o em profiss&otilde;es que refletem e dialogam com o estere&oacute;tipo de que o papel das mulheres na sociedade &eacute; o cuidado, de que a mulher est&aacute; restrita ao cuidado", afirma a f&iacute;sica. "O que a ministra da Mulher, da Fam&iacute;lia e dos Direitos Humanos, Damares Alves, disse - que menina veste rosa e menino veste azul - est&aacute; reafirmando os pap&eacute;is sociais definidos para meninas e meninos. E isso se reflete fortemente nas escolhas profissionais", completa Soares.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica (IBGE), divulgados em 2018, mostram que as mulheres brasileiras gastam, em m&eacute;dia, 72% a mais de tempo que os homens no trabalho dom&eacute;stico e de cuidados. Outro estudo, realizado pelo movimento Parent in Science, mostra que, no ambiente acad&ecirc;mico, 54% das mulheres que s&atilde;o m&atilde;es declaram que cuidam sozinhas dos filhos. "Obviamente n&atilde;o podemos esperar que as mulheres consigam o mesmo desempenho na atividade acad&ecirc;mica quando t&ecirc;m que atuar em casa e no trabalho. Algumas profissionais conseguem fazer isso delegando a atividade do cuidar dos filhos a outras mulheres, mas os homens n&atilde;o precisam fazer isso para continuar no trabalho e ter uma fam&iacute;lia", declara a f&iacute;sica, professora e pesquisadora do Instituto de F&iacute;sica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Marcia Bernardes Barbosa. "H&aacute; uma forte correla&ccedil;&atilde;o entre maternidade e diminui&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o no per&iacute;odo onde somos mais avaliadas. Atualmente estamos trabalhando para reverter isto", completa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v71n2/a03tab01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a03tab01tb.jpg">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BASTA DE ASS&Eacute;DIO!</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O ass&eacute;dio - moral e sexual - &eacute; outra "barreira invis&iacute;vel", nas palavras de Vera Soares, que as universit&aacute;rias e cientistas enfrentam em suas atividades profissionais. Como h&aacute; poucos estudos que apresentem n&uacute;meros sobre o problema, um grupo de pesquisadores da UFRGS construiu um question&aacute;rio que ser&aacute; repassado para toda a comunidade acad&ecirc;mica, ap&oacute;s a aprova&ccedil;&atilde;o do comit&ecirc; de &eacute;tica, a fim de reunir dados sobre a quest&atilde;o. "O tema &eacute; espinhoso e estamos esperando muito barulho pelo simples fato de perguntar", comenta Barbosa, que est&aacute; envolvida nesta iniciativa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Soares, a quest&atilde;o est&aacute; vindo &agrave; tona, entre outras raz&otilde;es, pela atua&ccedil;&atilde;o dos in&uacute;meros coletivos feministas que se organizaram nas universidades nos &uacute;ltimos anos. "Esse movimento &eacute; muito alvissareiro porque, organizadas em coletivos, essas jovens discutem, se apoiam e denunciam o que est&aacute; acontecendo. Com isso, obrigam as universidades a tomar algumas medidas", comenta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a03fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>VOCABUL&Aacute;RIO DA DESIGUALDADE </b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No di&aacute;logo com mulheres cientistas, &eacute; frequente ouvir que o trabalho delas n&atilde;o rende o mesmo reconhecimento creditado aos colegas homens. De t&atilde;o recorrente, o fen&ocirc;meno ganhou nome: "efeito Matilda", em uma refer&ecirc;ncia &agrave; Matilda Joslyn Gage, ativista pelo sufr&aacute;gio universal, abolicionista e pensadora americana, que em 1893 escreveu o ensaio <i>Woman as an inventor</i>, em que protesta contra o senso comum de que as mulheres n&atilde;o possuem voca&ccedil;&atilde;o para inven&ccedil;&otilde;es. O conceito foi consagrado pela historiadora da ci&ecirc;ncia Margaret W. Rossiter, da Universidade de Cornell, em 1993, na revista <i>Social Studies of Science</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro fen&ocirc;meno &eacute; o "efeito tesoura", termo utilizado para mostrar como as mulheres v&atilde;o sendo expulsas da ci&ecirc;ncia ao longo de suas carreiras, impedindo que elas ocupem posi&ccedil;&otilde;es de lideran&ccedil;a. A elite cient&iacute;fica no Brasil &eacute; composta, majoritariamente, por homens. Enquanto 59% das bolsas de inicia&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica (IC) ficam com mulheres, apenas 35,5% das bolsas de produtividade cient&iacute;fica - um dos principais mecanismos de reconhecimento nas carreiras cient&iacute;ficas - s&atilde;o destinadas a elas. No grupo de bolsas com maiores recursos (1A), o percentual &eacute; ainda menor: 24,6%. Esta dificuldade, de ascender nas carreiras, tamb&eacute;m &eacute; chamada de "teto de vidro".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Efeito Matilda, efeito tesoura, teto de vidro s&atilde;o algumas barreiras e dificuldades que as mulheres enfrentam para ser cientistas. Elas formam um conjunto de estere&oacute;tipos de g&ecirc;nero cultivados na fam&iacute;lia, nas escolas e no ambiente de trabalho. H&aacute;, ainda, um longo caminho a ser percorrido para alcan&ccedil;ar a igualdade de g&ecirc;nero na ci&ecirc;ncia e em toda a sociedade.</font></p>      ]]></body>
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