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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   ANTROPOLOGIABIOL&Oacute;GICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Primatologia e ciências sociais</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Eliane Sebeika Rapchan</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Antrop&oacute;loga, doutora em ci&ecirc;ncias sociais e tem dois p&oacute;s-doutorados, um em psicologia experimental e outro em evolu&ccedil;&atilde;o humana, ambos pela Universidade de S&atilde;o Paulo (SUP). &Eacute; docente da Universidade Estadual de Maring&aacute; (UEM) e pesquisadora colaboradora do Laborat&oacute;rio de Arqueologia, Antropologia Ambiental e Ecol&oacute;gica da USP .Contato: <a href="mailto:esrapchan@gmail.com">esrapchan@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SOBRE HUMANOS E OUTROS PRIMATAS: SEMELHAN&Ccedil;AS E MARCADORES DE DIFEREN&Ccedil;A</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma marca do pensamento ocidental &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o dos marcadores que distinguem a humanidade como uma esp&eacute;cie &uacute;nica. As ci&ecirc;ncias sociais e humanas constitu&iacute;ram-se, ali&aacute;s, como disciplinas especializadas em estudar fen&ocirc;menos tidos como exclusivamente humanos. Ingold &#91;1&#93; j&aacute; sinalizou o estranhamento das ci&ecirc;ncias biol&oacute;gicas, considerando seu interesse pela vida de modo geral, frente a uma disciplina como a antropologia sociocultural, dedicada a estudar uma &uacute;nica esp&eacute;cie. Em parte, isso se justificava porque sociabilidade complexa, capacidades cognitivas diversas, deslocamento na postura ereta (bipedia), posse de um c&eacute;rebro grande em rela&ccedil;&atilde;o ao tamanho corporal (encefaliza&ccedil;&atilde;o) e capacidade para produzir e usar ferramentas foram habilidades tidas, at&eacute; h&aacute; poucas d&eacute;cadas, como exclusivamente humanas e, mais do que isso, como marcadores de diferen&ccedil;a entre humanos e n&atilde;o-humanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas esses marcadores t&ecirc;m sido questionados pela primatologia e por outras disciplinas dedicadas ao estudo do comportamento animal. Tanto os dados obtidos atrav&eacute;s de trabalho de campo quanto as an&aacute;lises que resultam na produ&ccedil;&atilde;o de modelos e de teorias indicam que uma s&eacute;rie de atributos, tidos outrora como exclusivamente humanos, est&atilde;o presentes em outras esp&eacute;cies. H&aacute; evid&ecirc;ncias, por exemplo, da exist&ecirc;ncia de capacidade para fabrica&ccedil;&atilde;o e uso de ferramentas n&atilde;o apenas entre os nossos antepassados homin&iacute;neos &#91;2&#93;, mas, tamb&eacute;m, entre alguns outros primatas, como os chimpanz&eacute;s &#91;3&#93; e os macacos-prego &#91;4&#93;; outros mam&iacute;feros, como os golfinhos nariz-de-garrafa &#91;5&#93;; e mesmo entre animais de outros filos, como os corvos &#91;6&#93;. Assim, em rela&ccedil;&atilde;o a esses marcadores, h&aacute; fortes ind&iacute;cios que as diferen&ccedil;as entre humanos e outras esp&eacute;cies sejam, de fato, gradua&ccedil;&otilde;es ou varia&ccedil;&otilde;es de um mesmo fen&ocirc;meno desenvolvido independentemente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, fatores como o fortalecimento das rela&ccedil;&otilde;es entre parentes afins (definidos por casamento) baseado na cria&ccedil;&atilde;o de regras de parentesco, o estabelecimento de regras sociais baseadas em diferen&ccedil;as sexuais, na proemin&ecirc;ncia dos anci&atilde;os na tomada de decis&otilde;es que afetam a coletividade,  a racionalidade abstrata, a linguagem sem&acirc;ntica, o registro gr&aacute;fico, os mitos, os ritos e a arte est&atilde;o ausentes tanto das din&acirc;micas de comportamento dos chimpanz&eacute;s quanto de nossos antepassados mais distantes &#91;2, 7&#93;. A ocorr&ecirc;ncia desse conjunto de fen&ocirc;menos depende da capacidade humana de produzir, elaborar e comunicar s&iacute;mbolos. Essa capacidade simb&oacute;lica implica certo tipo de intelig&ecirc;ncia e de sociabilidade capazes de articular duas opera&ccedil;&otilde;es: a abstra&ccedil;&atilde;o e a associa&ccedil;&atilde;o de elementos usados para representar e fixar essa abstra&ccedil;&atilde;o, como ideias, teorias, concep&ccedil;&otilde;es, imagens e palavras, a fen&ocirc;menos total ou parcialmente acess&iacute;veis aos sentidos e &agrave; cogni&ccedil;&atilde;o dos membros de determinado grupo. Fazem parte desse conjunto todas as express&otilde;es culturais humanas, desde o jogo de amarelinha at&eacute; os rituais funer&aacute;rios ou matrimoniais, o uso de colares, coroas ou pintura corporal, a arte desde a <i>Monalisa</i>, a <i>Sagra&ccedil;&atilde;o da Primavera</i>, <i>Romeu e Julieta</i>, o jazz ou o rock, o princ&iacute;pio da roldana, os rel&oacute;gios, foguetes e computadores. A produ&ccedil;&atilde;o de significados &eacute; um fen&ocirc;meno de tipo global e total, ou seja, uma vez ativado invade todo o tipo de fen&ocirc;meno social. E &eacute; prov&aacute;vel que a capacidade simb&oacute;lica seja a &uacute;nica caracter&iacute;stica genuinamente humana, em outras palavras, devido &agrave; aus&ecirc;ncia de evid&ecirc;ncias, n&atilde;o se pode afirmar que animais n&atilde;o-humanos, inclusive os chimpanz&eacute;s, possuam cultura num sentido antropol&oacute;gico &#91;8&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quanto &agrave; pr&oacute;pria linhagem humana, dados consistentes indicam a presen&ccedil;a de express&otilde;es simb&oacute;licas entre <i>Neandertais</i> e <i>Sapiens</i> e n&atilde;o somente entre os humanos comportamentalmente modernos &#91;7&#93;. Contudo, e considerando a extens&atilde;o desse debate, bem como as imensas dificuldades de contempl&aacute;-lo integralmente, ser&atilde;o tratadas aqui apenas as interfaces entre a primatologia e as ci&ecirc;ncias sociais, considerando humanos e chimpanz&eacute;s. S&atilde;o crit&eacute;rios dessa escolha: 1) os chimpanz&eacute;s, juntamente com os bonobos, s&atilde;o a esp&eacute;cie viva com a qual partilhamos o maior n&uacute;mero de genes &#91;9&#93;; 2) os chimpanz&eacute;s s&atilde;o uma "esp&eacute;cie carism&aacute;tica" que provoca a imagina&ccedil;&atilde;o, sentimentos e rea&ccedil;&otilde;es nos humanos &#91;10&#93;; e 3) exceto os humanos, os chimpanz&eacute;s s&atilde;o a esp&eacute;cie viva sobre a qual temos o maior volume de dados j&aacute; acumulados, em que pesem as importantes e fundamentais resolu&ccedil;&otilde;es legais adotadas por muitos Estados em favor de banir pesquisas invasivas &#91;11&#93;. Os t&oacute;picos a seguir tratar&atilde;o das habilidades partilhadas por humanos e chimpanz&eacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BIPEDIA, C&Eacute;REBRO GRANDE E USO DE FERRAMENTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Humanos e chimpanz&eacute;s locomovem-se de formas distintas. A bipedia est&aacute; presente na linhagem humana h&aacute; bastante tempo, inclusive entre nossos ancestrais homin&iacute;neos mais antigos &#91;2&#93;. J&aacute; a locomo&ccedil;&atilde;o dos chimpanz&eacute;s &eacute; uma combina&ccedil;&atilde;o entre a braquia&ccedil;&atilde;o (deslocamento arb&oacute;reo que usa principalmente os bra&ccedil;os) e uma altern&acirc;ncia entre as posturas b&iacute;pede e quadr&uacute;pede em solo &#91;12&#93;. Por isso, eles combinam a possibilidade de andar com quatro ou dois apoios, possibilitando a libera&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, a habilidade para assumir uma postura ereta quando desejado ou necess&aacute;rio. Quais as consequ&ecirc;ncias disso? Ao assumir a postura ereta um chimpanz&eacute; pode alterar sua perspectiva sobre o mundo e, consequentemente, pode reposicionar sua cabe&ccedil;a e outros &oacute;rg&atilde;os do sentido. Pode, tamb&eacute;m, realizar tarefas complexas com as m&atilde;os, o que indica tanto a articula&ccedil;&atilde;o entre o manuseio de objetos e os est&iacute;mulos cerebrais quanto a lateraliza&ccedil;&atilde;o (a prefer&ecirc;ncia por um lado do corpo, o que estimula determinadas regi&otilde;es do c&eacute;rebro) &#91;13&#93;.  Na linhagem humana, a bipedia possibilitou a libera&ccedil;&atilde;o das m&atilde;os, que posteriormente favoreceu a fabrica&ccedil;&atilde;o e o uso de ferramentas l&iacute;ticas, e est&aacute; tamb&eacute;m fortemente relacionada ao aumento do tamanho do c&eacute;rebro. Como isso se manifesta entre os grandes s&iacute;mios?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando, na d&eacute;cada de 1960, Jane Goodall relatou, pela primeira vez, que os chimpanz&eacute;s selvagens de Gombe, na Tanz&acirc;nia, usavam ferramentas, o famoso paleoantrop&oacute;logo Louis Leakey disparou algo como: "Se voc&ecirc; estiver certa, precisaremos mudar o conceito de ferramenta, ou precisaremos redefinir o que &eacute; humano" &#91;14&#93;. Hoje sabemos que os chimpanz&eacute;s s&atilde;o uma esp&eacute;cie constitu&iacute;da por ferramenteiros h&aacute;beis, tanto na selva quanto em cativeiro. H&aacute;, atualmente, registros de que cada popula&ccedil;&atilde;o de chimpanz&eacute;s selvagens fabrica e reproduz, a cada gera&ccedil;&atilde;o, seu pr&oacute;prio kit, que varia de 8 a 22 tipos de ferramentas &#91;3&#93;. Os chimpanz&eacute;s fabricam ferramentas a partir de plantas (caules, folhas, esponjas), madeira ou pedra. Chamamos estas &uacute;ltimas de ferramentas l&iacute;ticas. Elas chamam a aten&ccedil;&atilde;o dos pesquisadores porque sua ocorr&ecirc;ncia &eacute; restrita a poucas esp&eacute;cies &#91;3&#93;, j&aacute; que elas s&atilde;o dif&iacute;ceis de transportar (o que demanda habilidades cognitivas espec&iacute;ficas) e de manipular. Al&eacute;m disso,  elas sobrevivem &agrave; passagem do tempo (o que permite o encontro de pe&ccedil;as em contexto antigo).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As habilidades dos chimpanz&eacute;s em rela&ccedil;&atilde;o ao uso de ferramentas desdobram-se, por sua vez, em pelo menos dois aspectos marcadamente sociais. Um deles corresponde ao reconhecimento de que aproximadamente 50% das ferramentas fabricadas por chimpanz&eacute;s selvagens atendem &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de obter alimentos &#91;3&#93;, enquanto os outros 50% exercem fun&ccedil;&otilde;es sociais. Entre os exemplos de ferramentas voltadas &agrave; edibilidade &#91;3&#93; temos segmentos de galhos flex&iacute;veis que servem para obter mel e pescar formigas ou cupins; folhas esponjosas s&atilde;o usadas para absorver e beber l&iacute;quidos; superf&iacute;cies &aacute;speras de ra&iacute;zes ou cascas de &aacute;rvores s&atilde;o &uacute;teis para extrair sementes que est&atilde;o em lugares profundos; peda&ccedil;os de pedra ou madeira tornam-se instrumentos para quebrar ou triturar castanhas e outros alimentos; rochas de formato de proj&eacute;til que podem ser lan&ccedil;adas para derrubar frutas ou pequenos animais; galhos servem para prospec&ccedil;&atilde;o de pequenos animais, ra&iacute;zes ou sementes; folhas podem conter l&iacute;quidos; rochas afiadas podem ser usadas com a fun&ccedil;&atilde;o de cunhas, outras s&oacute;lidas servem como martelos e bigornas para cortar carne, frutas ou ra&iacute;zes e triturar castanhas. Enfim, h&aacute; uma enorme diversidade de formas e fun&ccedil;&otilde;es.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre as ferramentas usadas com fins sociais temos o uso de galhos com folhas para acenar, bater, chamar a aten&ccedil;&atilde;o ou convidar para brincar; cip&oacute;s e galhos fortes e flex&iacute;veis servem para balan&ccedil;ar, saltar ou mesmo transpor dist&acirc;ncias, fazendo &agrave;s vezes de pontes; os galhos com folhas tamb&eacute;m servem para fazer o <i>grooming leaf</i> (cata&ccedil;&atilde;o usando folhas). O <i>grooming</i> &eacute; uma pr&aacute;tica social muito importante para os chimpanz&eacute;s e ser&aacute; tratada em detalhes adiante. Chimpanz&eacute;s selvagens tamb&eacute;m fabricam camas ou ninhos com folhas e cip&oacute;s que s&atilde;o dispostos de modo a aproximar familiares ou grupos de afinidade durante o sono, momento em que todos ficam desprotegidos e suscet&iacute;veis a ataques. Chimpanz&eacute;s tamb&eacute;m usam folhas duplicadas como luvas ou cal&ccedil;ados para proteger m&atilde;os e p&eacute;s de superf&iacute;cies pedregosas ou espinhosas &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cada uma dessas ferramentas pode, ou n&atilde;o, fazer parte do kit de determinada popula&ccedil;&atilde;o de chimpanz&eacute;s. Cada grupo possui padr&otilde;es pr&oacute;prios de sele&ccedil;&atilde;o, fabrica&ccedil;&atilde;o e utiliza&ccedil;&atilde;o de objetos. H&aacute; debates acerca do papel das varia&ccedil;&otilde;es e press&otilde;es ambientais na sele&ccedil;&atilde;o, contudo, isso n&atilde;o &eacute; determinante. As escolhas s&atilde;o resultado da combina&ccedil;&atilde;o entre prefer&ecirc;ncias e disponibilidade de mat&eacute;ria-prima. Isso tudo sinaliza a import&acirc;ncia da intera&ccedil;&atilde;o social e do uso de ferramentas como extens&otilde;es do pr&oacute;prio corpo. Al&eacute;m disso, permitem-nos saber que, al&eacute;m da complexidade individual e da import&acirc;ncia da esp&eacute;cie, cada popula&ccedil;&atilde;o de chimpanz&eacute;s &eacute; &uacute;nica em seu modo de vida e que as amea&ccedil;as sofridas pelos chimpanz&eacute;s, selvagens ou cativos, ao redor do planeta, implicam o risco de desaparecimento de formas coletivas de vida que s&atilde;o &uacute;nicas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao mesmo tempo, &eacute; importante enfatizar que tanto a fabrica&ccedil;&atilde;o quanto o uso de ferramentas espec&iacute;ficas n&atilde;o s&atilde;o habilidades inatas dos chimpanz&eacute;s, em que pesem as evid&ecirc;ncias de que os chimpanz&eacute;s nas&ccedil;am com predisposi&ccedil;&otilde;es e capacidades cognitivas para isso. Ou seja, cada filhote aprende com os adultos do seu grupo como e o que fazer, mesmo que os primat&oacute;logos n&atilde;o saibam ainda exatamente como isso acontece, dado que m&atilde;es e seus filhotes isolam-se durante os primeiros meses de vida, o que dificulta muito qualquer observa&ccedil;&atilde;o &#91;15&#93;. De qualquer modo, a forte propens&atilde;o &agrave; vida social e os intensos v&iacute;nculos constitu&iacute;dos entre filhotes e adultos decorrentes da enorme depend&ecirc;ncia e fragilidade prolongada dos rec&eacute;m-nascidos e filhotes (neotenia) &#91;15&#93; s&atilde;o fortemente relacionados &agrave;s habilidades dos chimpanz&eacute;s como ferramenteiros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Descobertas como essas afetaram, sobremaneira, as concep&ccedil;&otilde;es das ci&ecirc;ncias sociais sobre a singularidade humana. Ali&aacute;s, &eacute; importante lembrar que, dentre as cerca de 200 esp&eacute;cies de primatas conhecidas, pouqu&iacute;ssimas usam ferramentas &#91;3&#93;. Assim, a emerg&ecirc;ncia do uso de ferramentas n&atilde;o pode mais ser chamada de "hominiza&ccedil;&atilde;o". Acredita-se hoje que o antepassado comum partilhado por bonobos e chimpanz&eacute;s, que viveu no Pleistoceno h&aacute; aproximadamente 2 milh&otilde;es de anos&#91;16&#93;, provavelmente usava ferramentas feitas de folhas com o intuito de sinalizar, fazer prospec&ccedil;&otilde;es e cavar, segundo dados moleculares levantados a partir da demografia das duas esp&eacute;cies. J&aacute; o uso de ferramentas l&iacute;ticas surgiu independentemente nas duas esp&eacute;cies. Entre os humanos, na &Aacute;frica Oriental, durante o Plioceno, h&aacute; cerca de 3 milh&otilde;es de anos. Entre os chimpanz&eacute;s h&aacute; 200 e 150 mil anos na costa ocidental da &Aacute;frica, onde ficam hoje a Guin&eacute;, a Costa do Marfim e a Lib&eacute;ria &#91;16&#93;. Contudo, partilhamos com nossos parentes mais pr&oacute;ximos a intelig&ecirc;ncia, a destreza e o discernimento que nos permite retirar algo da natureza, transform&aacute;-lo e us&aacute;-lo para estender e/ou potencializar as dimens&otilde;es dos nossos corpos atrav&eacute;s do uso de ferramentas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v71n2/a13fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a13fig01tb.jpg">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contudo, e apesar da grandeza dessas descobertas, &eacute; necess&aacute;rio destacar que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel aceitar, sob a &oacute;tica da antropologia, ao menos at&eacute; agora, que o conjunto de ferramentas fabricado e usado por chimpanz&eacute;s selvagens seja chamado de "cultura material" (<i>chimpanzee material culture</i>, segundo McGrew &#91;3&#93;). Isso porque, apesar de o trabalho apresentar um rico invent&aacute;rio das ferramentas produzidas e usadas por chimpanz&eacute;s, comparando diferentes s&iacute;tios africanos, a express&atilde;o "cultura material" &eacute; inadequada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cultura material &eacute;, para a antropologia sociocultural, mas tamb&eacute;m para a hist&oacute;ria, a geografia e a arqueologia, n&atilde;o exclusivamente o conjunto dos objetos, seus usos, contextos e fun&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m, e principalmente, a articula&ccedil;&atilde;o entre tudo isso e seus significados simb&oacute;licos definidos atrav&eacute;s da din&acirc;mica da vida social. Em outras palavras, para essas disciplinas n&atilde;o se trata apenas de considerar mat&eacute;ria-prima, forma, manufatura e caracter&iacute;sticas dos usu&aacute;rios, mas tamb&eacute;m valores, tecnologias dominantes, hierarquias, poder, conhecimento, magia, sagrado, medo e beleza.  Esses fatores n&atilde;o s&atilde;o acess&oacute;rios nem "somente ideias". Ao inv&eacute;s disso, s&atilde;o dimens&otilde;es socialmente reais para os humanos, carregadas de car&aacute;ter simb&oacute;lico. S&atilde;o fatores essenciais que definem a produ&ccedil;&atilde;o e o uso de absolutamente todos os objetos circulantes nos grupos humanos, tanto coletiva quanto individualmente &#91;17&#93;. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A COMPLEXA VIDA SOCIAL DOS CHIMPANZ&Eacute;S: DIN&Acirc;MICAS DE GRUPO E APRENDIZADO SOCIAL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir do in&iacute;cio de 1960, al&eacute;m dos dados sobre uso de ferramentas, come&ccedil;aram tamb&eacute;m a se acumular dados e relatos sobre o comportamento de chimpanz&eacute;s em seus <i>habitats </i>africanos originais que, do mesmo modo, impactaram as concep&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o vigentes relativas &agrave; singularidade humana. Acreditava-se, ent&atilde;o, que o humano era o &uacute;nico ser social que n&atilde;o era orientado por instintos. Contudo, a ado&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos que contemplam observa&ccedil;&atilde;o prolongada e sistem&aacute;tica coordenada pelo mesmo n&uacute;cleo de pesquisadores, registro minucioso dos fen&ocirc;menos associado &agrave; identifica&ccedil;&atilde;o dos primatas por nomes, caracteriza&ccedil;&atilde;o de grupos e fam&iacute;lias e produ&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias de vida, originados nas pesquisas sobre chimpanz&eacute;s, gorilas e orangotangos, tornaram-se pr&aacute;tica disseminada nos estudos sobre comportamento de grandes primatas &#91;14,15,18,19&#93;, e t&ecirc;m-se estendido para outras fam&iacute;lias, como &eacute; o caso do <i>Cebus</i> latino-americano &#91;4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jane Goodall dedica-se desde a segunda metade da d&eacute;cada de 1960 aos chimpanz&eacute;s do Parque Nacional de Gombe, na Tanz&acirc;nia.  Registrou, pela primeira vez, o uso de ferramentas, a dieta on&iacute;vora e as pr&aacute;ticas de guerra pelos chimpanz&eacute;s. Christophe Boesch e Edwiges Boesch trabalham desde 1976 na Floresta de Ta&iuml;, na Costa do Marfim, onde descobriram que chimpanz&eacute;s n&atilde;o s&oacute; usam ferramentas, mas tamb&eacute;m as fabricam. Toshisada Nishida desenvolveu, desde 1965, trabalhos no Parque Nacional das Montanhas Mahale, na Tanz&acirc;nia, onde fez v&aacute;rias descobertas sobre as din&acirc;micas coletivas dos chimpanz&eacute;s &#91;14,15,18,19&#93;. Esses pioneiros da primatologia &#91;14&#93; tiveram uma enorme dificuldade para identificar e reconhecer que os chimpanz&eacute;s s&atilde;o animais sociais. Inicialmente, eles foram, de fato, descritos como membros de "hordas" ca&oacute;ticas que se agrupavam, periodicamente, para reprodu&ccedil;&atilde;o. Foi Nishida quem primeiro percebeu que a vida social dos chimpanz&eacute;s selvagens &eacute; regida por uma din&acirc;mica de "fus&atilde;o e fiss&atilde;o" &#91;20&#93;. Isso significa que cada popula&ccedil;&atilde;o &eacute; constitu&iacute;da por sub-grupos dispersos constitu&iacute;dos por m&atilde;es e seus filhotes adultos e pequenos, juvenis machos, adultos machos ou por ambos os sexos, que se aglutinam ou dispersam em um territ&oacute;rio em fun&ccedil;&atilde;o de fatores tais como o cuidado dos filhotes, a ca&ccedil;a ou a coleta de alimentos, o <i>grooming</i>, a atividade sexual, a presen&ccedil;a de predadores etc. &#91;20&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na &Aacute;frica, as popula&ccedil;&otilde;es de chimpanz&eacute;s s&atilde;o conjuntos de 19 a 106 indiv&iacute;duos, formados por machos e f&ecirc;meas, que adotam estrat&eacute;gias reprodutivas diversas. Contudo, sempre os machos alfa, ou seja, aqueles com maior status no grupo, t&ecirc;m privil&eacute;gio em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s f&ecirc;meas que est&atilde;o no estro (per&iacute;odo de ovula&ccedil;&atilde;o em que as f&ecirc;meas est&atilde;o f&eacute;rteis, sinalizado pela presen&ccedil;a de traseiros bem vermelhos e protuberantes). Nishida chamou os agrupamentos de chimpanz&eacute;s de "unidades de grupo" (<i>unit-group</i>), rebatizados posteriormente para "comunidades" (<i>community</i>) pelos primat&oacute;logos ocidentais. A partir de ent&atilde;o, o ac&uacute;mulo dos dados de campo gerou evid&ecirc;ncias em favor do reconhecimento da organiza&ccedil;&atilde;o e complexidade social dos chimpanz&eacute;s, e da import&acirc;ncia destes para o seu pleno desenvolvimento e bem-estar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O subgrupo formado por f&ecirc;meas e seus filhotes &eacute; o mais est&aacute;vel, e os v&iacute;nculos formados entre eles costumam estender-se at&eacute; a vida adulta. Machos adultos que possuem afinidades m&uacute;tuas tamb&eacute;m formam subgrupos est&aacute;veis. Os outros agrupamentos, constitu&iacute;dos na base da intera&ccedil;&atilde;o, da alian&ccedil;a e da atra&ccedil;&atilde;o sexual s&atilde;o mais fluidos &#91;14, 15, 18, 19, 20&#93;. Os v&iacute;nculos entre machos adultos n&atilde;o aparentados costumam ser mais fortes que entre f&ecirc;meas n&atilde;o aparentadas. Esses grupos de machos patrulham as fronteiras e controlam sexualmente as f&ecirc;meas, pois um grupo chimpanz&eacute; costuma manifestar intensa animosidade contra seus vizinhos de mesma esp&eacute;cie, o que n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o haja uma esp&eacute;cie de "sexo na fronteira" para as f&ecirc;meas adultas que conseguem burlar a vigil&acirc;ncia ou para as f&ecirc;meas jovens, geralmente de status social mais baixo, que migram quando atingem a maturidade sexual. Apenas as f&ecirc;meas deixam o grupo onde nasceram, o que ocorre quando s&atilde;o juvenis e est&atilde;o no estro, mas as f&ecirc;meas cujas m&atilde;es possuem alto status social n&atilde;o costumam abandonar seu grupo. O alto status de uma m&atilde;e pode tamb&eacute;m beneficiar seu filhote macho, aumentando suas possibilidades de se tornar alfa. Nesse processo, o comportamento sexual, uma vez classificado como prom&iacute;scuo e instintivo pelos pesquisadores, passou a ser observado pela &oacute;tica das estrat&eacute;gias reprodutivas &#91;14, 15, 18, 19, 20&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro aspecto importante nas din&acirc;micas sociais dos chimpanz&eacute;s &eacute; o <i>grooming</i> (cata&ccedil;&atilde;o), previamente mencionado &#91;21&#93;. Quando dois ou mais chimpanz&eacute;s permitem-se tocar uns pelos outros, eles est&atilde;o se comunicando e expressando informa&ccedil;&otilde;es sobre o tipo de rela&ccedil;&atilde;o existente entre eles. Assim, o <i>grooming </i>assume uma forma muito importante e pl&aacute;stica de comunica&ccedil;&atilde;o social. &Agrave;s vezes, expressa hierarquia, em outras cuidado ou camaradagem &#91;22&#93;. O <i>grooming </i>indica, tamb&eacute;m, o apaziguamento de um conflito ou um momento de relaxamento de um grupo familiar ou de afinidade &#91;23&#93;. Cada popula&ccedil;&atilde;o de chimpanz&eacute;s possui tamb&eacute;m formas pr&oacute;prias de <i>grooming</i>. Pode ser feito em filas indianas compostas por cinco ou mais indiv&iacute;duos ou em duplas, de modo que cada indiv&iacute;duo tem uma das m&atilde;os espalmada e a outra livre para fazer a cata&ccedil;&atilde;o. Esse tipo de <i>grooming</i> &eacute; chamado de <i>hand clasping grooming </i>(cata&ccedil;&atilde;o com aperto de m&atilde;o) &#91;23&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O reconhecimento de chimpanz&eacute;s como animais sociais possibilitou an&aacute;lises dos grupos sociais pelas chaves da alian&ccedil;a e do conflito, observando a import&acirc;ncia do <i>status</i> e das vantagens adquiridas por cada chimpanz&eacute; no interior de seu grupo, bem como os ganhos advindos de suas capacidades de dissimular diante dos mais fortes, o potencial para reagir diante do inesperado e a transmiss&atilde;o de conhecimento adquirido aos mais jovens, mediados pelo que os pesquisadores t&ecirc;m chamado de "tradi&ccedil;&atilde;o" &#91;24&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essas "tradi&ccedil;&otilde;es" comportamentais, adquiridas durante o processo de desenvolvimento do organismo, s&atilde;o repassadas no interior do mesmo grupo, de gera&ccedil;&atilde;o a gera&ccedil;&atilde;o, e caracterizam-se pela plasticidade, pela estabilidade intragrupal e pela variabilidade e pluralidade intergrupal. Toda essa complexidade e variabilidade levou os primat&oacute;logos a pesquisarem como os comportamentos sociais s&atilde;o aprendidos e reproduzidos. Esses processos s&atilde;o chamados de aprendizado social (<i>social learning</i>) &#91;25&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os chimpanz&eacute;s possuem comportamentos, n&atilde;o inatos, repassados por rela&ccedil;&otilde;es ensino-aprendizado intergeracionais, principalmente, mas n&atilde;o exclusivamente, da m&atilde;e para seus filhos e filhas &#91;14, 15, 18, 19, 20&#93;. Tais comportamentos variam com rela&ccedil;&atilde;o ao meio ambiente, mas n&atilde;o de modo determin&iacute;stico, e diferem entre grupos &#91;14, 15, 18, 19, 20&#93;. Estudos sobre aprendizado social s&atilde;o desenvolvidos entre chimpanz&eacute;s selvagens &#91;15&#93; ou em parques, zoos e laborat&oacute;rios.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em laborat&oacute;rio, as pesquisas sobre aprendizado social permitem aferir as m&uacute;ltiplas habilidades cognitivas dos chimpanz&eacute;s em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; capacidade de sinaliza&ccedil;&atilde;o com fins de comunica&ccedil;&atilde;o e suas dimens&otilde;es correlatas: percep&ccedil;&atilde;o espacial, representa&ccedil;&atilde;o, linguagem, aprendizado, inven&ccedil;&atilde;o, desenvolvimento de capacidades classificat&oacute;rias e num&eacute;ricas &#91;26&#93;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS: SOBRE SEMELHAN&Ccedil;AS E DIFEREN&Ccedil;AS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante das semelhan&ccedil;as identificadas entre humanos e outros animais, fica a pergunta: h&aacute; sentido nas disciplinas especializadas em fen&ocirc;menos humanos? As controv&eacute;rsias entre as ci&ecirc;ncias sociais e as chamadas "ci&ecirc;ncias duras", entre elas a primatologia, s&atilde;o a express&atilde;o da import&acirc;ncia de um projeto de conhecimento mais relacional que integre conhecimentos, ao inv&eacute;s de apart&aacute;-los.  Tanto Latour &#91;27&#93; quanto Ingold &#91;28&#93; nos lembram que as ci&ecirc;ncias modernas repousam sobre contradi&ccedil;&otilde;es que sugerem que qualquer di&aacute;logo &eacute; invi&aacute;vel. Contudo, se ousarmos superar os limites positivistas postos pelas fronteiras disciplinares, talvez sejamos capazes de produzir um outro tipo de conhecimento, mais relacional, capaz de se valer dos ganhos resultantes das alian&ccedil;as entre as disciplinas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, e ao mesmo tempo, &eacute; importante refor&ccedil;ar que n&atilde;o se deve atrelar o valor de uma esp&eacute;cie, qualquer que seja ela, a suas semelhan&ccedil;as com os humanos. Cada esp&eacute;cie &eacute; &uacute;nica &#91;29&#93; e possui seu valor pr&oacute;prio e incontest&aacute;vel. Qualquer animal n&atilde;o deve se tornar importante porque se parece com os humanos, mas por seu pr&oacute;prio valor como esp&eacute;cie e como ser vivo &#91;30&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Resta, ent&atilde;o, o fen&ocirc;meno de car&aacute;ter simb&oacute;lico mencionado no in&iacute;cio deste texto como o prov&aacute;vel e &uacute;nico fator que parece, efetivamente, distinguir os humanos dos n&atilde;o-humanos. Mas, afinal, em que consiste o simb&oacute;lico?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fen&ocirc;meno simb&oacute;lico, tomado em sua dimens&atilde;o humana e cultural, &eacute; a habilidade que nos permite dar sentidos a fen&ocirc;menos quaisquer, desde que sejam relevantes para o nosso grupo. Os sentidos simb&oacute;licos atrelados &agrave; cultura s&atilde;o p&uacute;blicos e coletivos, organizam e constituem toda a vida f&iacute;sica, social e mental dos humanos &#91;31&#93;. Est&atilde;o profundamente articulados a cada pr&aacute;tica, a cada comportamento e a cada experi&ecirc;ncia &#91;28&#93;. As experi&ecirc;ncias mediadas pelos s&iacute;mbolos afetam nossos sentidos &#91;32&#93; e modificam nossa percep&ccedil;&atilde;o do mundo, modulam nossas emo&ccedil;&otilde;es &#91;28&#93; e cristalizam ideias, ou permitem que elas sejam questionadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, o s&iacute;mbolo tem o potencial de transcender os pr&oacute;prios limites dados por determinados contextos hist&oacute;ricos e sociais nos quais uma sociedade est&aacute; estabelecida. Por isso, muitos s&iacute;mbolos circulam entre sociedades distintas e permanecem apesar de profundas mudan&ccedil;as hist&oacute;ricas: seus significados podem ser reinventados. Ainda n&atilde;o temos evid&ecirc;ncias de que os chimpanz&eacute;s possuem capacidade simb&oacute;lica. Essa lacuna pode se dever a falhas nos m&eacute;todos de pesquisa ou pode ser que o fen&ocirc;meno n&atilde;o exista mesmo. Isso, contudo, n&atilde;o torna os chimpanz&eacute;s menos importantes ou fascinantes. Nem o di&aacute;logo entre as disciplinas menos necess&aacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.	Ingold, T. "Humanity and animality". In: T. Ingold (ed.). <i>Companion Encyclopedia of Anthropology</i>, London: Routledge, p. 14-34, 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.	Klein, R. <i>The human career: human biological and cultural origins</i>. Chicago: Chicago University Press, 2009. 3ª edi&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.	McGrew, W. C. <i>Chimpanzee material culture</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 1992;    <!-- ref --> McGrew, W. C. "Is primate tool use special? Chimpanzee and New Caledonian crow compared". <i>Philosofical Transactions of Royal Society London B Biology and Sciences </i>368(1630): 20120422, 2013, nov 19;    <!-- ref --> McGrew, W. C. "Chimpanzee technology". <i>Science</i> 328, p.579-580, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.	Ottoni, E.; Izar, P. "Capuchin monkey tool use: overview and implications". <i>EvolutionaryAnthropology</i> 17, p.171-178, 2008;    <!-- ref --> Mannu, M.; Ottoni, E. 2009. "The enhanced tool-kit of two groups of wild bearded capuchin monkeys in the Caatinga: tool making, associative use, and secondary tools". <i>American Journal of Primatology</i> 71, p.242-251, 2009;    <!-- ref --> Fragaszy, D. M.; Biro, D.; Eshchar, Y.; Humle, T.; Izar, P.; Resende, B.; Visalberghi, E. "The fourth dimension of tool use: temporally enduring artefacts aid primates learning to use tools". <i>Philosophy Transactions of Royal Socicety </i>B 368, p. 20120410, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.	Kr&uuml;tzen, M.; Mann, J.; Heithaus, M. R.; Connor, R. C.; Bejder, L.; Sherwin, W. B. "Cultural transmission of tool use in bottlenose dolphins". <i>PNAS</i> 102(25), p.8939-8943, 2005.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Hunt, G.R. 1996. "Manufacture and use of hook-tools by New Caledonian crows". <i>Nature</i> 379, p.249-251, 1996;    <!-- ref --> Rutz, C.; St Clair, J. J. H. "The evolutionary origins and ecological context of tool use in New Caledonian crows". <i>Behavavior Proceedings</i> 89, p.153-165, 2012;    <!-- ref --> St Clair, J. J. H.; Rutz, C. "New Caledonian crows attend to multiple functional properties of complex tools". <i>Philosophical Transactions Royal Society</i> B 368, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Mellars, P. "Neanderthal symbolism and ornament manufacture: The bursting of a bubble?", <i>Proceedings of the National Academy of Sciences</i>, 107 (47), p.20147-20148, 2010;    <!-- ref --> Johansson, S. "The thinking Neanderthals: What do we know about Neanderthal cognition?", <i>WIREs Cognitive Science</i> 5(6), P.613-620, 2014;    <!-- ref --> Foley, R.; Gamble, C. "The ecology of social transitions in human evolution". <i>Philosophycal Transactions of Royal Society B</i> 364, p.3267-3279, 2009;    <!-- ref --> Whiten, A.; Erdal, D. "The human socio-cognitive niche and its evolutionary origins". <i>Philosophycal Transactions of Royal Society B</i> 367, p.2119-2129, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Rapchan, E. S.; Neves, W. A. "'Culturas de chimpanz&eacute;s': uma revis&atilde;o contempor&acirc;nea das defini&ccedil;&otilde;es em uso"<i>. Boletim do Museu Paraense Em&iacute;lio Goeldi. Ci&ecirc;ncias Humanas </i>11(3), p. 745-768, 2016;    <!-- ref --> Rapchan, E. S.; Neves, W. A. "Ser ou n&atilde;o ser: poderia um chimpanz&eacute; fazer a pergunta de Hamlet?", <i>Horizontes Antropol&oacute;gicos</i> 48, p.303-333, 2017.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Pr&uuml;fer, K. et.al. "The bonobo genome compared with the chimpanzee and human genomes". <i>Nature</i> 486. 2012/06/13/online.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10.	Albert, C.; Luque, G. M.; Courchamp, F. "The twenty most charismatic species". <i>PLoSONE</i> 13(7): e0199149, 2018.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11.	de Waal, F. B. M. "Research chimpanzees may get a break". <i>PLoS Biology</i> 10(3): e1001291, 2012.    <!-- ref --> Johnson, J.; Barnard, N. D. "Chimpanzees as vulnerable subjects in research", <i>Theoretical medicine and bioethics</i> 35(2), p.133-141, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Pontzer, H.; Raichlen, D. A.; Rodman, P. S. "Bipedal and quadrupedal locomotion in chimpanzees". <i>Journal of Human Evolution</i> 66, p. 64-82, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Braccini, S.; Lambeth, S.; Schapir, S.; Fith, F. "Bipedal tool use strengthens chimpanzee hand preferences". <i>Journal of Human Evolution</i> 58(3), 2010, p. 234-241.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Goodall, J. <i>Through a window</i>. Boston: Houghton Mifflin, 1990.    <!-- ref --> Goodall J. "Tool-using and aimed throwing in a community of free-living chimpanzees". <i>Nature</i> 201, p.1264-1266, 1964.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Matsuzawa, T.; Tomonaga, M.; Tanaka, M. <i>Cognitive development in chimpanzees</i>, Tokyo: Spring-Verlag, 2006;    <!-- ref --> Van de Rijf-Plooij, H.; Plooij, F. "Growing independence, conflict and learning in mother-infant relations in free-ranging chimpanzees", <i>Behavior</i> 101(1-3),  jan 1987,  p. 1-86.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. Haslam, M. 2014. "On the tool use behavior of the bonobo-chimpanzee last common ancestor, and the origins of hominine stone tool use". <i>American Journal of Primatology</i> 76(10), 2014, p. 910-918.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. O <i>Journal of Material Culture</i>, publicado desde 1996 at&eacute; o presente, traz artigos que demonstram os sentidos que a cultura material adquire para as ci&ecirc;ncias sociais. Em portugu&ecirc;s, o dossi&ecirc; "Repensando objetos, arte e cultura material", publicado na revista <i>Horizontes Antropol&oacute;gicos </i>17(36), jul-dec 2011, tamb&eacute;m traz um conjunto representativo de textos sobre o assunto.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Wrangham, R. W.; McGrew, W. C.; de Waal, F. B. M.; Heltne, P. G. (eds.) <i>Chimpanzee cultures</i>, Harvard: Harvard University Press, 1996.    <!-- ref --> McGrew, W.; Marchant, L. F.; Nishida, T. <i>Great ape societies</i>. Harvard: Harvard University Press, 2008.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. Boesch, C.; Boesch, H. "Tool use and tool making in wild chimpanzees", <i>Folia Primatologica </i>54, 1990.    <!-- ref --> Goodall, J. <i>Uma janela para a vida: 30 anos com os chimpanz&eacute;s da Tanz&acirc;nia</i>, Rio de Janeiro: Zahar, 1991.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Blackburn, A.; Mcgrew, W. C. "Fission-fusion in chimpanzees: feeding as a proximal mechanism at gombe". <i>American Journal of Physical Anthropology</i> 20(2), p.19-22, 2014;    <!-- ref --> Hanamura, S. "Fission-fusion grouping". In: Nakamura, M.; Hosaka, K.; Ith, N.; Zamma, K. (eds.) <i>Mahale chimpanzees. 50 years of research</i>. Cambridge: Cambridge University Press, p.106-118, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21.	Nishida, T.; Mitani, J. C.; Watts, D. P. "Variable grooming behaviours in wild chimpanzees". <i>Folia Primatologica</i> 75, p.31-36, 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">22. Nishida, T. "Development of social grooming between mother and offspring in wild chimpanzees". <i>Folia Primatologica</i> 50, p.109-123, 1988;    <!-- ref --> Foster, M. W.; Gilby, I. C.; Murray, C. M.; Johnson, A.; Wroblewski, E. E.; Pusey, A. E. "Alpha male chimpanzee grooming patterns: implications for dominance 'style'". <i>American Journal of Primatology</i> 71(2), p. 136-144, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">23. McGrew, W. C.; Marchant, L. F.; Scott, S. E.; Tutin, C. E. G. "Intergroup differences in a social custom of wild chimpanzees: the grooming hand-clasp of the Mahale Mountains". <i>Current Anthropology </i>42(1), p.148-153, 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">24. Fragaszy, D. M.; Perry, S. <i>The biology of traditions</i>. <i>Models and evidence</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">25. Call, J.; Carpenter, M.; Tomasello, M. "Copying results and copying actions in the process of social learning: chimpanzees (<i>Pan troglodytes</i>) and human children (<i>Homo sapiens</i>)". <i>Animal Cognition</i> 8, p.151-163, 2005;    <!-- ref --> Tagliatela, J. P.; Reamer, L.; Schapiro, S. J.; Hopkins, W. D. "Social learning of a communicative signal in captive chimpanzees". <i>Biology Letters</i> 8(4). Royal Society, 2011;    <!-- ref --> Horner, V.; Proctor, D.; Bonnie, K. E.; Whiten, A.; de Waal, F. B. M. "Prestige affects cultural learning in chimpanzees". <i>PLoS ONE</i> 5(5): e10625, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">26. de Waal, F. B. M.; Ferrari, P. F. "Towards a bottom-up perspective on animal and human cognition". <i>Trends in Cognitive Sciences</i> 15(5), p.201-207, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">27. Latour, B. <i>Jamais fomos modernos.</i>Rio de Janeiro: Ed.34, 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">28. Ingold, T. <i>Estar vivo.</i>Rio de Janeiro: Vozes, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">29. Foley, R. <i>Apenas mais uma esp&eacute;cie &uacute;nica. </i>S&atilde;o Paulo: Edusp, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">30. Rapchan, E. S. <i>Somos todos primatas. E o que a antropologia tem a ver com isso?</i> Curitiba: Appris, 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">31. Wagner, R. <i>S&iacute;mbolos que representam a si mesmos.</i> S&atilde;o Paulo: Ed.Unesp, 2018.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">32. Favret-Saada, J. "Ser afetado". Tradu&ccedil;&atilde;o Paula Siqueira. <i>Cadernos de Campo </i>13, p.155-161, 2005.    </font></p>      ]]></body><back>
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