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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Modos de vida dos ribeirinhos da Amazônia sob uma abordagem biocultural]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   ANTROPOLOGIABIOL&Oacute;GICA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Modos de vida dos ribeirinhos da Amazônia sob uma abordagem biocultural</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pedro Da-Gloria<sup>I</sup>; Barbara A. Piperata<sup>II</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Graduado em biologia e doutor em antropologia pela The Ohio State University, Estados Unidos. Atualmente &eacute; vinculado ao Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Antropologia da Universidade Federal do Par&aacute; (UFPA). Tem se dedicado a pesquisas sobre sa&uacute;de de popula&ccedil;&otilde;es pr&eacute;-hist&oacute;ricas brasileiras e de popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas da Amaz&ocirc;nia    <br> <sup>II</sup>Professora associada do Departamento de Antropologia da The Ohio State University, Estados Unidos. Possui vasta experi&ecirc;ncia de campo na Am&eacute;rica Latina, especialmente na Amaz&ocirc;nia, e sua pesquisa &eacute; direcionada para uma perspectiva biocultural e evolutiva no estudo da antropologia nutricional, da seguran&ccedil;a alimentar e da energ&eacute;tica reprodutiva</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A antropologia biol&oacute;gica &eacute; uma &aacute;rea que estuda a varia&ccedil;&atilde;o e a evolu&ccedil;&atilde;o biocultural dos seres humanos, e engloba desde primatas at&eacute; popula&ccedil;&otilde;es humanas do passado e do presente. Esse amplo espectro de atua&ccedil;&atilde;o abre m&uacute;ltiplas linhas de pesquisa para o bioantrop&oacute;logo, ao mesmo tempo que ressalta a alta complexidade do comportamento humano. O estudo dos modos de vida de popula&ccedil;&otilde;es humanas sob essa perspectiva enfatiza que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel explicar de forma determinista o nosso comportamento, seja atrav&eacute;s do determinismo gen&eacute;tico ou do social, e uma abordagem mais completa deve incluir uma complexa intera&ccedil;&atilde;o de fatores biol&oacute;gicos, ambientais e culturais. Um conceito hol&iacute;stico que leva todos esses fatores em considera&ccedil;&atilde;o &eacute; a abordagem denominada biocultural &#91;1&#93;, que &eacute; usada como base te&oacute;rica para este artigo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Amaz&ocirc;nia &eacute; uma regi&atilde;o particularmente prop&iacute;cia para estudos bioantropol&oacute;gicos, pois re&uacute;ne uma multiplicidade de popula&ccedil;&otilde;es humanas com diferentes modos de vida, tanto em grandes metr&oacute;poles quanto em &aacute;reas rurais, incluindo ribeirinhos e ind&iacute;genas, que tiram sua subsist&ecirc;ncia a partir dos recursos da floresta. Estudos sobre a origem e adapta&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es humanas &agrave; floresta tropical amaz&ocirc;nica remontam &agrave; d&eacute;cada de 1940 &#91;2&#93;, e, mesmo depois de reformula&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, esses temas de pesquisa permanecem importantes. O objetivo deste texto n&atilde;o &eacute; revisar todos os estudos com popula&ccedil;&otilde;es amaz&ocirc;nicas que envolvam aspectos de bioantropologia, mas sim mostrar estudos de caso que ilustrem a import&acirc;ncia dessa &aacute;rea no cen&aacute;rio brasileiro, especialmente na Amaz&ocirc;nia. Os estudos aqui inclu&iacute;dos foram escolhidos devido &agrave; participa&ccedil;&atilde;o direta dos autores no desenho da pesquisa, na coleta de dados e na publica&ccedil;&atilde;o dos resultados. V&aacute;rios pesquisadores t&ecirc;m publicado vastamente sobre aspectos relacionados &agrave; bioantropologia de popula&ccedil;&otilde;es amaz&ocirc;nicas, tais como Carlos Coimbra, Cristina Adams, Hilton da Silva, Ricardo Ventura, Rui Murrieta, entre outros, e esses autores e suas publica&ccedil;&otilde;es podem ser consultados para uma abordagem aprofundada do tema &#91;3&#93;. Se, por um lado, a etnologia ind&iacute;gena tem sido um tema cl&aacute;ssico na antropologia brasileira, as popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas t&ecirc;m recebido menos aten&ccedil;&atilde;o de pesquisadores, sendo caracterizadas na d&eacute;cada de 1990 como invis&iacute;veis tanto para a academia como para atores pol&iacute;ticos e sociais &#91;4&#93;. Por esse motivo, o foco deste texto ser&aacute; fornecer um panorama dessas popula&ccedil;&otilde;es rurais amaz&ocirc;nicas do Brasil. Al&eacute;m do mais, a antropologia biol&oacute;gica tem por caracter&iacute;stica um espectro amplo de atua&ccedil;&atilde;o, sendo que os estudos dentro dessa perspectiva buscam abordagens comparativas e evolutivas que n&atilde;o</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">se restrinjam apenas a um tipo espec&iacute;fico de popula&ccedil;&atilde;o, tal como as sociedade urbanas atuais. Popula&ccedil;&otilde;es tradicionais, ou seja, que t&ecirc;m um modo de produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o industrial, ser&atilde;o o foco deste artigo, em especial as comunidades ribeirinhas de duas &aacute;reas de pesquisa, uma delas no Par&aacute; e outra no Amazonas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DIETA, NUTRI&Ccedil;&Atilde;O, MEDIDAS CORPORAIS E BALAN&Ccedil;O ENERG&Eacute;TICO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os estudos sobre dieta e nutri&ccedil;&atilde;o na Amaz&ocirc;nia sob uma perspectiva bioantropol&oacute;gica iniciaram-se nas d&eacute;cadas de 1970 e 1980, buscando unir aspectos biol&oacute;gicos e culturais. Darna Dufor e Barbara Piperata &#91;5&#93; definem nutri&ccedil;&atilde;o de forma bem ampla, consistindo no consumo de comidas e nos seus efeitos nutricionais e energ&eacute;ticos na sa&uacute;de e fun&ccedil;&atilde;o do corpo humano. Nesse aspecto, as medidas corporais, que desde o s&eacute;culo XIX consistiram no cerne dos primeiros estudos em antropologia f&iacute;sica, agora s&atilde;o usadas de forma integrada com outros tipos de dados a fim de investigar fen&ocirc;menos bioculturais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um tema recorrente nos estudos com popula&ccedil;&otilde;es tradicionais &eacute; a transi&ccedil;&atilde;o nutricional &#91;6&#93;. Sua forma mais recente consiste na incorpora&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es tradicionais em um sistema econ&ocirc;mico global, resultando no maior consumo de alimentos industrializados e na redu&ccedil;&atilde;o da atividade f&iacute;sica. Os alimentos comprados em supermercado est&atilde;o cada vez mais dispon&iacute;veis para popula&ccedil;&otilde;es distantes dos centros urbanos, levando a uma diminui&ccedil;&atilde;o no consumo de frutas e fibras e a um aumento da quantidade ingerida de sal, gordura saturada e a&ccedil;&uacute;cares simples, e culminando em uma explos&atilde;o da incid&ecirc;ncia de sobrepeso, press&atilde;o alta e diabetes ao redor do mundo. Dentro de uma perspectiva bioantropol&oacute;gica, o estudo da transi&ccedil;&atilde;o nutricional em pequena escala &eacute; um importante modo de documentar a diversidade de configura&ccedil;&otilde;es desse fen&ocirc;meno em escala regional e local. Como veremos a seguir, se por um lado os estudos com popula&ccedil;&otilde;es afastadas das cidades t&ecirc;m fornecido algum apoio ao modelo geral, por outro, eles t&ecirc;m revelado uma s&eacute;rie de peculiaridades regionais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira &aacute;rea de pesquisa que examinaremos neste artigo &eacute; localizada ao redor da Floresta Nacional de Caxiuan&atilde; (FNC), nos munic&iacute;pios de Portel e Melga&ccedil;o, Par&aacute;. A pesquisa foi realizada com mulheres pertencentes a sete comunidades ribeirinhas nos anos de 2002 e 2009, usando uma metodologia longitudinal, ou seja, que envolveu o acompanhamento dessas mulheres ao longo do tempo &#91;7&#93;. Essas comunidades ribeirinhas praticam agricultura de coivara (conhecida tamb&eacute;m como de corte e queima), tendo a mandioca brava como colheita principal. A mandioca &eacute; transformada em farinha e outros subprodutos atrav&eacute;s de um processamento complexo que dura muitos dias e que inclui descascar, ralar, espremer, lavar e aquecer a mandioca para a extra&ccedil;&atilde;o da toxina cianeto &#91;8&#93;. A pesca, ca&ccedil;a e coleta s&atilde;o importantes complementos da dieta, merecendo especial destaque o consumo de a&ccedil;a&iacute; nativo e manejado. De fato, farinha de mandioca e peixe s&atilde;o os itens mais marcantes em termos culturais e nutricionais na alimenta&ccedil;&atilde;o dos ribeirinhos amaz&ocirc;nicos &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a dieta dos ribeirinhos tem sido complementada por alimentos industrializados obtidos atrav&eacute;s de comerciantes itinerantes ou pela compra em supermercados nos centros urbanos. As mulheres participantes do estudo tiveram o acompanhamento dos pesquisadores durante as suas refei&ccedil;&otilde;es, que foram sistematicamente pesadas antes e depois do consumo. Essa metodologia, embora relativamente invasiva, permitiu a obten&ccedil;&atilde;o da quantidade exata de alimentos ingeridos nas refei&ccedil;&otilde;es. &Eacute; importante destacar que essa metodologia s&oacute; foi poss&iacute;vel devido ao estabelecimento de um v&iacute;nculo de confian&ccedil;a de longo prazo entre os participantes e a pesquisadora principal (Barbara Piperata).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os resultados do estudo mostraram que houve uma significativa diminui&ccedil;&atilde;o do consumo de energia (kcal), carboidratos (g) e gordura (g) em 2009 em rela&ccedil;&atilde;o a 2002, ao passo que o consumo de prote&iacute;nas (g) apresentou estabilidade entre os dois per&iacute;odos. Question&aacute;rios de inseguran&ccedil;a alimentar aplicados em 2009 mostraram que a percep&ccedil;&atilde;o de escassez alimentar era alta naquele per&iacute;odo. Por outro lado, os alimentos comprados, em oposi&ccedil;&atilde;o aos produzidos localmente, contribu&iacute;ram significativamente mais para o consumo individual em 2009. De fato, a maioria dos moradores j&aacute; tinha uma integra&ccedil;&atilde;o muito maior com o mercado naquele ano atrav&eacute;s do recebimento de benef&iacute;cios governamentais (Bolsa Fam&iacute;lia, aposentadoria), sal&aacute;rio e venda de produtos agr&iacute;colas e extra&iacute;dos da floresta. Somado a isso, os pesquisadores notaram que houve uma diminui&ccedil;&atilde;o das atividades f&iacute;sicas di&aacute;rias, principalmente &agrave;quelas ligadas &agrave; subsist&ecirc;ncia. Esse cen&aacute;rio foi o resultado de viagens mais frequentes para a cidade e maior consumo de alimentos industrializados como a&ccedil;&uacute;car, arroz, bolacha, caf&eacute;, carne enlatada, feij&atilde;o e &oacute;leo de soja. Al&eacute;m disso, houve uma diminui&ccedil;&atilde;o do consumo de alimentos locais como peixes e frutas. Em termos econ&ocirc;micos, o aumento da renda por pessoa em 2009 foi acompanhado do abandono das ro&ccedil;as de mandioca por parte das fam&iacute;lias ribeirinhas &#91;7, 9&#93;. Uma maneira de lidar com um contexto crescente de inseguran&ccedil;a alimentar &eacute; a distribui&ccedil;&atilde;o diferencial do alimento na casa. Em 2009, dados de consumo individual de macronutrientes dentro da casa mostraram que as crian&ccedil;as, principalmente as mais novas e mais baixas, eram priorizadas em termos de ingest&atilde;o de prote&iacute;nas e carboidratos em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s m&atilde;es, mostrando uma rede de prote&ccedil;&atilde;o familiar direcionada para indiv&iacute;duos em maior vulnerabilidade &#91;10&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os mesmos trabalhos de campo que documentaram a dieta desses ribeirinhos tamb&eacute;m realizaram medi&ccedil;&otilde;es antropom&eacute;tricas, explorando as implica&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas das mudan&ccedil;as alimentares ocorridas na regi&atilde;o. As medidas consistiram no registro da altura (em p&eacute; e sentado), do peso, da circunfer&ecirc;ncia de partes do corpo (bra&ccedil;os, pernas, cintura, quadril) e porcentagem de gordura e de m&uacute;sculo, utilizando instrumentos como balan&ccedil;a, trena, estadi&ocirc;metro (equipamento para medir altura) e adip&ocirc;metro (instrumento em forma de pin&ccedil;a que mede a espessura de gordu- ra abaixo da pele). Os resultados das medidas comparando os dados de 2002 e de 2009 mostraram que, se por um lado houve um aumento da estatura dos meninos entre 2 e 7 anos de idade ao longo do tempo (embora ainda insuficiente para chegar a m&eacute;dias de altura de popula&ccedil;&otilde;es de refer&ecirc;ncia mundiais, <a href="/img/revistas/cic/v71n2/a14fig01.jpg">Figura 1</a>), por outro houve diminui&ccedil;&atilde;o do peso pela estatura (peso dividido pela altura) das meninas entre 2 e 7 anos de idade e das mulheres adultas, al&eacute;m de ter ocorrido uma diminui&ccedil;&atilde;o da massa muscular dos bra&ccedil;os dos ribeirinhos de todas as idades e sexos. Os resultados indicaram que, excetuando um aumento de estatura dos meninos entre 2 e 7 anos, a melhora nas medidas corporais dos ribeirinhos n&atilde;o ocorreu. Al&eacute;m disso, foi observada uma tend&ecirc;ncia de diminui&ccedil;&atilde;o de atividade f&iacute;sica nas popula&ccedil;&otilde;es mais recentes, medida atrav&eacute;s da musculatura dos bra&ccedil;os &#91;11&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um aspecto crucial nesse estudo de caso foi o esfor&ccedil;o de realizar a conex&atilde;o entre as medidas corporais, a dieta e os programas de transfer&ecirc;ncia de renda, tais como o Bolsa Fam&iacute;lia. Esse &uacute;ltimo programa, especificamente, iniciou-se no Brasil em 2003, permitindo assim a compara&ccedil;&atilde;o dessa mesma popula&ccedil;&atilde;o ribeirinha antes e depois do benef&iacute;cio. Em popula&ccedil;&otilde;es rurais, afastadas dos grandes centros urbanos, a melhora da renda advinda dos benef&iacute;cios vem acompanhada de uma maior depend&ecirc;ncia da cidade, uma vez que esses programas exigem que o benefici&aacute;rio busque l&aacute; regularmente o dinheiro. Al&eacute;m disso, o Bolsa Fam&iacute;lia condiciona o recebimento do dinheiro &agrave; frequ&ecirc;ncia escolar e &agrave; vacina&ccedil;&atilde;o dos filhos, o que gera uma liga&ccedil;&atilde;o maior com o sistema educacional e de sa&uacute;de vigentes nos centros urbanos &#91;9&#93;. O afastamento dos filhos de atividades de subsist&ecirc;ncia, tais como pescar e cuidar da ro&ccedil;a, gera perda de for&ccedil;a de trabalho, e pode explicar o abandono de ro&ccedil;as por muitas fam&iacute;lias ribeirinhas em 2009. Casas que recebiam o Bolsa Fam&iacute;lia em 2009 apresentaram um aumento do consumo de prote&iacute;nas. Por&eacute;m, essas mesmas casas apresentaram diminui&ccedil;&atilde;o da ingest&atilde;o de energia, de carboidratos e do consumo de alimentos locais, perda de peso em crian&ccedil;as e mulheres adultas, diminui&ccedil;&atilde;o da atividade f&iacute;sica e aumento da inseguran&ccedil;a alimentar. Esses dados n&atilde;o significam que o programa Bolsa Fam&iacute;lia, que em contextos urbanos tem sua import&acirc;ncia documentada, n&atilde;o tenha uma relev&acirc;ncia social. Eles indicam que o processo de integra&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es rurais ao sistema capitalista desestabiliza a economia de subsist&ecirc;ncia local, principalmente em locais que t&ecirc;m pouca infraestrutura de sa&uacute;de, de educa&ccedil;&atilde;o e de saneamento &#91;9&#93;. Essas popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas em transi&ccedil;&atilde;o nutricional acabam somando as desvantagens de estarem &agrave; margem das cidades com a perda de pr&aacute;ticas de subsist&ecirc;ncia que poderiam garantir o m&iacute;nimo de seguran&ccedil;a alimentar. De fato, mais estudos precisam ser realizados com popula&ccedil;&otilde;es rurais para que a implementa&ccedil;&atilde;o de benef&iacute;cios sociais n&atilde;o resulte no indesejado aumento de inseguran&ccedil;a alimentar &#91;9&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, um outro aspecto importante trabalhado com as mulheres ribeirinhas refere-se ao balan&ccedil;o energ&eacute;tico durante o per&iacute;odo de amamenta&ccedil;&atilde;o. A demanda energ&eacute;tica adicional durante essa fase chega a ser de 25 a 30%, tendo importantes consequ&ecirc;ncias evolutivas. Entre os ribeirinhos da Amaz&ocirc;nia, a amamenta&ccedil;&atilde;o dura em m&eacute;dia cerca de um ano e dois meses, e a pr&aacute;tica do resguardo durante 40 dias ap&oacute;s o parto &eacute; um tra&ccedil;o cultural marcante. Durante o resguardo, a mulher diminui suas atividades f&iacute;sicas e tem uma s&eacute;rie de restri&ccedil;&otilde;es alimentares, incluindo a evita&ccedil;&atilde;o de alimentos gordurosos, frutas &aacute;cidas e que tenham colora&ccedil;&atilde;o vermelha &#91;12&#93;. Ela evita sair de casa e muitas vezes &eacute; ajudada por parentes em suas atividades dom&eacute;sticas. Tr&ecirc;s tipos de dados coletados entre 2002 e 2004 foram relevantes para essa investiga&ccedil;&atilde;o: consumo alimentar, padr&otilde;es de atividade f&iacute;sica e medidas corporais. Os resultados desse estudo mostraram que durante a lacta&ccedil;&atilde;o, as mulheres ribeirinhas apresentaram um balan&ccedil;o energ&eacute;tico negativo, ou seja, gastaram mais energia do que consumiram, mesmo levando em conta uma consider&aacute;vel redu&ccedil;&atilde;o nas atividades f&iacute;sicas. Esse balan&ccedil;o fez com que as mulheres em m&eacute;dia perdessem cerca de 3 kg durante a lacta&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, foi poss&iacute;vel precisar o local do corpo com maior redu&ccedil;&atilde;o de medidas durante esse per&iacute;odo: o quadril e as coxas. Em popula&ccedil;&otilde;es tradicionais, onde n&atilde;o h&aacute; abund&acirc;ncia alimentar, o corpo &eacute; um fator crucial para lidar com as flutua&ccedil;&otilde;es de demanda energ&eacute;tica ao longo do ciclo reprodutivo, especialmente a regi&atilde;o inferior do corpo, que possui um tipo de gordura metabolicamente mais acess&iacute;vel ap&oacute;s o parto &#91;13&#93;. Al&eacute;m disso, o repouso nos primeiros seis meses de gravidez, especialmente no resguardo, permite que a mulher passe mais tempo com o beb&ecirc; em um momento crucial para o seu desenvolvimento biol&oacute;gico e para a forma&ccedil;&atilde;o de la&ccedil;os emocionais entre m&atilde;e e filho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do ponto de vista energ&eacute;tico, nos primeiros seis meses de amamenta&ccedil;&atilde;o as crian&ccedil;as ficam protegidas de uma alimenta&ccedil;&atilde;o pobre em energia e de contamina&ccedil;&atilde;o por parasitoses da &aacute;gua. Todavia, as m&atilde;es t&ecirc;m uma alta demanda energ&eacute;tica (perda de peso) e as mulheres participam pouco de atividades de subsist&ecirc;ncia, diminuindo a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos da casa. J&aacute; ap&oacute;s um ano do parto, as m&atilde;es diminuem o ritmo de amamenta&ccedil;&atilde;o, participam mais da subsist&ecirc;ncia, por&eacute;m os filhos tendem a ter problemas no crescimento devido &agrave; inclus&atilde;o de alimentos s&oacute;lidos e possivelmente &aacute;gua contaminada &#91;14&#93;. De fato, existe uma estrat&eacute;gia reprodutiva em mulheres ribeirinhas que busca compatibilizar as demandas energ&eacute;ticas do seu corpo, o crescimento de suas crian&ccedil;as e as atividades produtivas da casa. Esse equil&iacute;brio, praticado pelas mulheres de forma consciente e inconscientemente, tamb&eacute;m leva em conta as caracter&iacute;sticas nutricionais e higi&ecirc;nicas das fontes de &aacute;gua e alimento do local. Em s&iacute;ntese, os estudos realizados com ribeirinhos ao redor da FNC s&atilde;o bons exemplos de como fatores culturais e biol&oacute;gicos se inter-relacionam no comportamento humano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ETNOBIOARQUEOLOGIA: CONECTANDO PRESENTE E PASSADO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Abordagens de pesquisa biocultural em popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas apresentam um amplo espectro de possibilidades. Nesta se&ccedil;&atilde;o mostraremos como &eacute; poss&iacute;vel integrar estudos de popula&ccedil;&otilde;es do passado e do presente em &aacute;reas rurais da Amaz&ocirc;nia. Pesquisas que utilizam remanescentes humanos como fonte de informa&ccedil;&atilde;o pertencem ao campo da bioarqueologia, definido aqui como "&#91;...&#93; o estudo de restos humanos em contexto arqueol&oacute;gico" &#91;15, p. 3&#93;. Esse campo utiliza teorias biol&oacute;gicas, socioculturais e ambientais para investigar o componente biol&oacute;gico humano do registro arqueol&oacute;gico, abrangendo disciplinas como antropologia, arqueologia, qu&iacute;mica, biologia humana, osteologia, entre outras. Esse campo de pesquisa, surgido na d&eacute;cada de 1970, nos Estados Unidos, prop&otilde;e que a bioarqueologia &eacute; parte integrante da antropologia e que deve reconstruir comportamentos humanos e n&atilde;o meramente medir e classificar ossos e dentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar do melhoramento das t&eacute;cnicas e dos m&eacute;todos bioarqueol&oacute;gicos ao longo das &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a interpreta&ccedil;&atilde;o dos modos de vida no passado &eacute; bastante dif&iacute;cil devido &agrave; natureza fragmentada do material arqueol&oacute;gico e &agrave;s dificuldades inerentes &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o de restos esqueletais em s&iacute;tios arqueol&oacute;gicos. A fim de melhorar a nossa capacidade de reconstruir comportamentos humanos no passado, alguns pesquisadores desenvolveram metodologias focadas em estudar popula&ccedil;&otilde;es vivas com o objetivo de melhor compreender as origens, as mudan&ccedil;as e as varia&ccedil;&otilde;es das popula&ccedil;&otilde;es humanas no passado e presente. As vantagens das pesquisas com popula&ccedil;&otilde;es vivas s&atilde;o o grande n&uacute;mero de vari&aacute;veis &#8203;&#8203;dispon&iacute;veis para an&aacute;lise e o controle quantitativo mais preciso dessas vari&aacute;veis e de suas intera&ccedil;&otilde;es. Na arqueologia, esse tipo de estudo &eacute; realizado desde a d&eacute;cada de 1970 e &eacute; chamado de etnoarqueologia, que pode ser definida como o estudo em contexto etnogr&aacute;fico da rela&ccedil;&atilde;o entre a cultura material e as pessoas que a produziram &#91;16&#93;. Embora a bioarqueologia e a etnoarqueologia tenham experimentado um grande e s&oacute;lido crescimento nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, a intera&ccedil;&atilde;o entre esses campos tem sido pequena. Ou seja, pouco se tem trabalhado com abordagens bioculturais junto a popula&ccedil;&otilde;es vivas que possibilitem a constru&ccedil;&atilde;o de modelos interpretativos do passado, integrando m&eacute;todos de campo da antropologia sociocultural, biologia humana e ecologia comportamental. Esse campo, denominado de etnobioarqueologia, ainda &eacute; pouco explorado, mas tem um grande potencial de crescimento na arqueologia &#91;17&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um aspecto importante do estudo de sa&uacute;de no passado &eacute; a origem e a frequ&ecirc;ncia de patologias bucais. Com o surgimento da agricultura h&aacute; cerca de dez mil anos, um aumento significativo da frequ&ecirc;ncia de c&aacute;ries, abscessos e perda de dentes ocorreu em popula&ccedil;&otilde;es humanas, e isto est&aacute; conectado a uma transforma&ccedil;&atilde;o na subsist&ecirc;ncia e no estilo de vida dessas popula&ccedil;&otilde;es &#91;15&#93;. O modelo tradicional para explicar essas mudan&ccedil;as &eacute; relacionado ao aumento do consumo de carboidratos depois do surgimento da agricultura, e que foi ainda mais intensificado recentemente com a incorpora&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;cares simples na dieta. Por outro lado, outros pesquisadores t&ecirc;m argumentado que fatores biol&oacute;gicos, tais como saliva, horm&ocirc;nios, bact&eacute;rias orais, fatores imunol&oacute;gicos e gen&eacute;tica, podem ser t&atilde;o importantes quanto fatores alimentares &#91;18&#93;. Esse modelo alternativo tamb&eacute;m explica o porqu&ecirc; de mulheres terem mais c&aacute;ries do que homens em sociedades pr&eacute;-hist&oacute;ricas, uma vez que elas sofrem altera&ccedil;&otilde;es do sistema imunol&oacute;gico e hormonal durante a gravidez, aumentando a susceptibilidade a c&aacute;ries. O modelo alternativo n&atilde;o prediz que fatores biol&oacute;gicos s&atilde;o a causa exclusiva das les&otilde;es de c&aacute;ries, mas defende que esses fatores biol&oacute;gicos s&atilde;o sim significativos na compreens&atilde;o da etiologia da doen&ccedil;a.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os ribeirinhos da Amaz&ocirc;nia representam um conjunto de popula&ccedil;&otilde;es que, embora esteja em transforma&ccedil;&atilde;o devido &agrave; expans&atilde;o da cultura ocidental e do sistema capitalista ao redor do globo, ainda mant&ecirc;m um estilo de vida tradicional baseado na pesca e na agricultura de corte e queima. Com o intuito de entender melhor quais s&atilde;o os fatores relacionados &agrave; sa&uacute;de bucal nessas popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas, um projeto de pesquisa liderado por Pedro Da-Gloria foi empreendido em 26 comunidades que vivem na &aacute;rea rural dos munic&iacute;pios de Fonte Boa, Mara&atilde; e Uarini, &agrave;s margens dos rios Solim&otilde;es e Japur&aacute;, Amazonas. A popula&ccedil;&atilde;o escolhida, que vive a uma dist&acirc;ncia de uma a doze horas de rabeta (canoa pequena com motor de polpa) dos centros urbanos, tem algumas caracter&iacute;sticas importantes para a constru&ccedil;&atilde;o de modelos bioculturais de sa&uacute;de bucal em popula&ccedil;&otilde;es antigas: alta fertilidade, baixa densidade demogr&aacute;fica (ver <a href="/img/revistas/cic/v71n2/a14fig02.jpg">Figura 2</a>), consumo relativamente baixo de produtos industrializados, baixa assist&ecirc;ncia odontol&oacute;gica e higiene bucal, e aus&ecirc;ncia de fl&uacute;or na &aacute;gua. A regi&atilde;o escolhida nesse estudo fica dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustent&aacute;vel Mamirau&aacute;, que &eacute; uma regi&atilde;o ainda muito rica em peixes e recursos florestais, contribuindo para a manuten&ccedil;&atilde;o de um modo de vida ainda tradicional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A coleta de dados do projeto come&ccedil;ou em outubro de 2014 e terminou em julho de 2017, consistindo em 180 dias de trabalho de campo. Usando uma abordagem biocultural, a pesquisa n&atilde;o restringiu a coleta de dados &agrave;s patologias orais, buscando caracterizar o estilo de vida dessa popula&ccedil;&atilde;o rural em seus aspectos biol&oacute;gicos, ambientais e socioculturais. Os dados biol&oacute;gicos inclu&iacute;ram amostras de bact&eacute;rias orais, intestinais e da pele, dados antropom&eacute;tricos e amostras de saliva. Os dados culturais inclu&iacute;ram um registro quantitativo da ingest&atilde;o de alimentos e entrevistas de economia, sa&uacute;de, padr&otilde;es migrat&oacute;rios e inseguran&ccedil;a alimentar. Al&eacute;m disso, foram realizadas tamb&eacute;m entrevistas semiestruturadas sobre a percep&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de bucal, ajudando a compor o contexto cultural local sobre essa tem&aacute;tica. Finalmente, os dados ambientais inclu&iacute;ram a coleta de amostras de saliva e ingest&atilde;o de alimentos em duas esta&ccedil;&otilde;es do ano: &uacute;mida e seca, uma vez que o n&iacute;vel da &aacute;gua na regi&atilde;o varia em m&eacute;dia cerca de 10 metros ao longo do ano. Al&eacute;m disso, inclu&iacute;mos comunidades rurais que vivem em &aacute;reas inundadas (v&aacute;rzea) e secas (terra firme). O n&uacute;mero de ribeirinhos participantes no projeto foi de 242 pessoas, consistindo de casais entre 14 e 49 anos. Uma vez que as les&otilde;es de c&aacute;ries s&atilde;o uma patologia fortemente dependente da idade, a maioria dos participantes foi selecionada dentro de uma faixa et&aacute;ria espec&iacute;fica, entre 20 e 35 anos, contribuindo para que a varia&ccedil;&atilde;o na idade n&atilde;o seja um fator t&atilde;o significante na an&aacute;lise. O projeto contou com uma equipe de pesquisadores de v&aacute;rias &aacute;reas (microbiologia, odontologia, nutri&ccedil;&atilde;o, biologia, ci&ecirc;ncias sociais) a fim de implementar uma pesquisa interdisciplinar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os m&eacute;todos empregados na coleta e an&aacute;lise de dados envolveram &aacute;reas muito distintas do conhecimento. O maior esfor&ccedil;o de coleta foi a quantifica&ccedil;&atilde;o da dieta ribeirinha, realizada para cada indiv&iacute;duo por at&eacute; cinco dias na seca (entre outubro e dezembro de 2015) e por at&eacute; cinco dias na cheia (entre maio e julho de 2015). Foi utilizado o m&eacute;todo do recordat&oacute;rio 24 horas, em que o indiv&iacute;duo estudado respondeu a uma entrevista com perguntas semiestruturadas, a fim de caracterizar quantitativamente quais alimentos foram consumidos no dia anterior. Para isso foram utilizados medidores de volumes conhecidos (jarras, copos graduados e colheres com volumes conhecidos; ver <a href="/img/revistas/cic/v71n2/a14fig02.jpg">Figura 3</a>), bem como r&eacute;guas para o registro do tamanho dos alimentos, principalmente peda&ccedil;os de peixes. Foram tamb&eacute;m recolhidos os r&oacute;tulos de produtos processados consumidos para a quantifica&ccedil;&atilde;o nutricional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O segundo maior esfor&ccedil;o de coleta foram as amostras biol&oacute;gicas. Foram coletadas amostras de saliva n&atilde;o estimulada (produzida ao longo do dia) e, em seguida, atrav&eacute;s da mastiga&ccedil;&atilde;o de parafina, foi realizada a coleta de saliva estimulada (produzida durante a mastiga&ccedil;&atilde;o), sempre nos mesmos hor&aacute;rios (9 e 11 horas da manh&atilde;) para controlar as an&aacute;lises para as flutua&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas do corpo humano ao longo do dia. Essas amostras foram coletadas tanto na esta&ccedil;&atilde;o seca como na cheia. Testes de capacidade tamp&atilde;o da saliva estimulada (medi&ccedil;&atilde;o do potencial de neutraliza&ccedil;&atilde;o de &aacute;cido pela saliva) foram realizados em campo. As amostras biol&oacute;gicas foram mantidas permanentemente em baixa temperatura (-80 ºC) para que o conte&uacute;do n&atilde;o fosse degradado, atrav&eacute;s da conserva&ccedil;&atilde;o em nitrog&ecirc;nio l&iacute;quido durante o campo (<a href="/img/revistas/cic/v71n2/a14fig02.jpg">Figura 4</a>), em gelo seco no transporte a&eacute;reo, e em um ultrafreezer em laborat&oacute;rio. Neste &uacute;ltimo, as amostras de saliva foram liofilizadas (transformadas em p&oacute;) para o seu uso em m&uacute;ltiplos estudos sem a necessidade de constante descongelamento. Por fim, as entrevistas socioecon&ocirc;micas foram realizadas utilizando como base os censos realizados pelo Instituto Mamirau&aacute; nos &uacute;ltimos 20 anos, permitindo a comparabilidade dos resultados com um banco de dados previamente estabelecido &#91;19&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As primeiras an&aacute;lises desses dados t&ecirc;m mostrado que c&aacute;ries dent&aacute;rias s&atilde;o de fato uma patologia multifatorial &#91;20&#93;. Ao construir um modelo estat&iacute;stico (regress&atilde;o linear m&uacute;ltipla) que usa aspectos da biologia humana (fluxo salivar e idade) e alimentares (frequ&ecirc;ncia de ingest&atilde;o e quantidade relativa e absoluta de carboidratos na dieta) para explicar os dentes cariados, perdidos e obturados de 107 indiv&iacute;duos das comunidades ribeirinhas investigadas, foi explicado apenas 20,7% da varia&ccedil;&atilde;o dos dados, mostrando que ainda h&aacute; muitos fatores a serem explorados para entender as causas das c&aacute;ries dent&aacute;rias. Por outro lado, o que surpreendeu nesses resultados foi que o fluxo salivar estimulado, ou seja, a saliva que &eacute; produzida quando estamos mastigando um alimento, foi um fator significativamente correlacionado com c&aacute;ries, estando &agrave; frente de vari&aacute;veis como a quantidade de carboidratos consumidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A saliva tem uma fun&ccedil;&atilde;o importante em lavar a boca e neutralizar a produ&ccedil;&atilde;o de &aacute;cido pelas bact&eacute;rias durante a ingest&atilde;o do alimento, e dessa forma evitar a ocorr&ecirc;ncia de c&aacute;ries. Os resultados da pesquisa tamb&eacute;m mostraram que os ribeirinhos salivam pouco em rela&ccedil;&atilde;o a outras popula&ccedil;&otilde;es, indicando que uma boca relativamente seca pode estar contribuindo para os altos &iacute;ndices de c&aacute;ries encontrados localmente. &Eacute; importante enfatizar que esse modelo de c&aacute;ries ainda n&atilde;o engloba todos os dados coletados em campo e que est&atilde;o ainda sendo analisados, a dizer: fatores gen&eacute;ticos, hormonais e imunol&oacute;gicos, composi&ccedil;&atilde;o das bact&eacute;rias orais, eletr&oacute;litos da saliva e dados socioecon&ocirc;micos. Al&eacute;m disso, o modelo foi constru&iacute;do usando todos os carboidratos consumidos como um dos par&acirc;metros, juntando alimentos pouco cariog&ecirc;nicos, como a farinha, e alimentos ricos em a&ccedil;&uacute;cares simples, como doces e refrigerante. Novos resultados devem ser produzidos em breve, fornecendo uma ideia mais refinada dos fatores associados &agrave; frequ&ecirc;ncia de c&aacute;ries em ribeirinhos da Amaz&ocirc;nia. O que &eacute; importante enfatizar aqui s&atilde;o os benef&iacute;cios de trabalhar com abordagens bioculturais, incluindo m&eacute;todos oriundos de diversas &aacute;reas, para entender os modos de vida e sa&uacute;de de popula&ccedil;&otilde;es tradicionais. O comportamento humano &eacute; complexo e multifatorial, e o desenvolvimento de modelos bioculturais em popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas tem potencial para gerar uma melhor compreens&atilde;o da sa&uacute;de de popula&ccedil;&otilde;es atuais e antigas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estudos utilizando uma abordagem biocultural em antropologia t&ecirc;m um papel crucial ao revelar as conex&otilde;es complexas entre biologia e cultura, fornecendo um quadro mais completo do comportamento humano na multiplicidade de contextos espaciais e temporais. Neste artigo, mostramos dois estudos de caso, sendo um deles nas cidades de Portel e Melga&ccedil;o, ao redor da Floresta Nacional de Caxiuan&atilde;, Par&aacute;, e o outro nas margens dos rios Solim&otilde;es e Japur&aacute;, na Reserva de Desenvolvimento Sustent&aacute;vel Mamirau&aacute;, Amazonas. Esses estudos tiveram a lideran&ccedil;a de bioantrop&oacute;logos e envolveram uma equipe multidisciplinar de pesquisadores. Eles investigaram aspectos bioculturais dos modos de vidas dos ribeirinhos da Amaz&ocirc;nia, que inclu&iacute;ram dieta, nutri&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de bucal e corp&oacute;rea, balan&ccedil;o energ&eacute;tico e programas de transfer&ecirc;ncia de renda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O modo de vida rural tem sido relativamente pouco abordado por estudos cient&iacute;ficos e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, e a antropologia tem um papel importante em restaurar essas popula&ccedil;&otilde;es de uma condi&ccedil;&atilde;o de invisibilidade. Al&eacute;m disso, &eacute; not&oacute;rio que a antropologia brasileira, como tem sido tradicionalmente feita desde a d&eacute;cada de 1950, estuda o humano sem uma preocupa&ccedil;&atilde;o com seu corpo biol&oacute;gico nem com sua hist&oacute;ria evolutiva. A antropologia biol&oacute;gica, em uma perspectiva biocultural, busca justamente mostrar a conex&atilde;o do corpo com a cultura e, dessa forma, revelar aspectos do modo de vida que podem passar desapercebidos com uma abordagem meramente biol&oacute;gica ou cultural. Esperamos que este artigo possa contribuir com o aumento de trabalhos que incluam uma perspectiva mais ampla e complexa sobre as rela&ccedil;&otilde;es do corpo, da cultura e do ambiente na antropologia brasileira.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, por&eacute;m n&atilde;o menos importante, trabalhar com popula&ccedil;&otilde;es vivas &eacute; assumir um compromisso &eacute;tico com o seu bem-estar, a sua sa&uacute;de e a preserva&ccedil;&atilde;o do seu modo de vida. A divulga&ccedil;&atilde;o desses estudos para um p&uacute;blico mais amplo &eacute; uma forma de garantir que essas popula&ccedil;&otilde;es tenham mais aten&ccedil;&atilde;o por parte do poder p&uacute;blico e possam ter sua voz e seus problemas devidamente documentados e solucionados. Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a pesquisa cient&iacute;fica aqui descrita cumpre um papel social em revelar as contradi&ccedil;&otilde;es, problemas e solu&ccedil;&otilde;es contidas na pr&aacute;tica das popula&ccedil;&otilde;es locais, mostrando as implica&ccedil;&otilde;es disso para quest&otilde;es amplas sobre o comportamento e a sa&uacute;de humana. Nesse sentido, &eacute; crucial que a diversidade biocultural das popula&ccedil;&otilde;es brasileiras seja respeitada e preservada, e que popula&ccedil;&otilde;es mais distantes das &aacute;reas urbanas tenham o direito a uma vida digna e saud&aacute;vel.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Zuckerman, M. K.; Turner, B. L.; Armelagos, G. J. "Evolutionary thought in paleopathology and the rise of the biocultural approach". In: Grauer, A. L. (org.). <i>A companion to paleopathology</i>. Chichester, United Kingdom: Wiley-Blackwell, p. 34-57, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Steward, J. H. "Culture areas of the tropical forest". In: Steward, J. H. (org.). <i>Handbook of South American Indians, vol. 3: The tropical forest tribes</i>. Bureau of American Ethnology Bulletin, 143 (3), p. 883-889, 1948.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Adams, C.; Piperata, B. A. "Ecologia humana, sa&uacute;de e nutri&ccedil;&atilde;o na Amaz&ocirc;nia". In: Vieira, I. C. G.; Toledo, P. M.; Santos Junior, R. A. O. (orgs.). <i>Ambiente e sociedade na Amaz&ocirc;nia: uma abordagem interdisciplinar</i>. Rio de Janeiro: Garamond, p. 341-378, 2014.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Nugent, S. <i>Amazon Caboclo Society: an essay on invisibility and peasant economy</i>. Providence: Berg, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Dufour, D.; Piperata, B. "Reflections on nutrition in biological anthropology". <i>American Journal of Physical Anthropology</i>, 165, p. 855-864, 2018.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Popkin, B. M. "Nutritional patterns and transitions". In: <i>Population and Development Review</i>, 19, p.138-157, 1993.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Piperata, B.; Ivanova, S.; Da-Gloria, P.; Veiga, G.; Polsky, A.; Spence, J.; Murrieta, R. "Nutrition in transition: dietary patterns of Amazonian women during a period of economic change". In: <i>American Journal of Human Biology</i>, 23, p. 458-469, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Dufour, D. L. "Effectiveness of cassava detoxification techniques used by indigenous peoples in Northwest Amazonia". In: <i>Interciencia</i>, 2, p. 86-91, 1989.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Piperata, B. A.; McSweeney, K.; Murrieta, R. S. S. "Conditional cash transfers, food security, and health biocultural insights, for poverty-alleviation policy from the Brazilian Amazon". In: <i>Current Anthropology</i>, 57, p. 806-826, 2016.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Piperata, B. A.; Schmeer, K. K.; Hadley, C.; Ritchie-Ewing, G. "Dietary inequalities of mother-child pairs in the rural Amazon: evidence of maternal-child buffering?" In: <i>Social Science &amp; Medicine</i>, 96, p.183-191, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Piperata, B. A.; Spence, J.; Da-Gloria, P.; Hubbe, M. "The nutrition transition in Amazonia: rapid economic change and its impact on growth and development in ribeirinhos". <i>American Journal of Physical Anthropology</i>, 146, p.1-13, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Piperata, B. A. "40 days and 40 nights: a biocultural perspective on postpartum practices in the Amazon". In: <i>Social Science &amp; Medicine,</i> 67, p. 1094-1103, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Piperata, B. A.; Dufour, D. "Diet, energy expenditure, and body composition of lactating Ribeirinha women in the Brazilian Amazon". In: <i>American Journal of Human Biology</i>, 19, p. 722-734, 2007.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14. Piperata, B. A.; Mattern, L. M. G. "Longitudinal study of breastfeeding structure and women's work in the Brazilian Amazon". In: <i>American Journal of Physical Anthropology</i>, 144, p. 226-237, 2011.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">15. Larsen, C. S. <i>Bioarchaeology: Interpreting behavior from the human skeleton</i>. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">16. David, N.; Kramer, C.<i> Ethnoarchaeology in action</i>. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17. Harrod, R. P. "Ethnobioarchaeology". In: <i>The SAA Archaeological Record</i>, p. 32-34, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18. Lukacs, J. R. "Sex differences in dental caries experience: clinical evidence and complex etiology". In: <i>Clinical Oral Investigations</i>, 15, p. 649-656, 2011.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19. O estudo foi aprovado pelo comit&ecirc; de &eacute;tica do Instituto de Bioci&ecirc;ncias da Universidade de S&atilde;o Paulo (processo 32845314.1.0000.5464).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">20. Da-Gloria, P.; Piperata, B. A.; Hoffmann, C.; Oliveira, R. E.; Simionato, M. R. L.; Nogueira, F. "Oral health in a rural population of the Brazilian Amazon: implications for interpretation of dental caries in the past. In: <i>American Association of Physical Anthropologists</i>, 168 (S68), p. 53, 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">21. Piperata, B. A. "Nutritional status of ribeirinhos in Brazil and the nutrition transition". <i>American Journal of Physical Anthropology,</i> 133:868-878, 2007.    </font></p>      ]]></body><back>
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