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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   LITERATURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Setenta anos de <i>1984</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Armando Martinelli</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>1984</i>, uma das mais importantes distopias do s&eacute;culo XX, cuja primeira edi&ccedil;&atilde;o foi publicada em 1949, completa setenta anos em 2019. Trata-se da obra mais conhecida de George Orwell, pseud&ocirc;nimo de Eric Arthur Blair, jornalista, ensa&iacute;sta e romancista nascido na &Iacute;ndia (ent&atilde;o col&ocirc;nia inglesa), crescido na Inglaterra, e autor de outros livros importantes como: <i>A revolu&ccedil;&atilde;o dos bichos, Dias na Birm&acirc;nia, A flor da Inglaterra, Caminhos para Wigan Pier, Na pior em Paris e Londres</i>, al&eacute;m de resenhas, cartas e ensaios. Traduzido para mais de 65 idiomas, <i>1984</i>, est&aacute; presente em quase todas as listas de livros imprescind&iacute;veis da literatura mundial. &Eacute; uma obra que transcende seu tempo e o mundo das palavras para inspirar in&uacute;meras manifesta&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas, seja em adapta&ccedil;&otilde;es no cinema, no teatro e na m&uacute;sica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nascido em 1903, George Orwell teve uma vida marcada pelos grandes conflitos do s&eacute;culo XX. Era adolescente durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), lutou contra os fascistas na Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), quando levou um tiro no pesco&ccedil;o. Como correspondente da BBC, viu de perto os horrores da Segunda Grande Guerra (1939 a 1945). Todos esses acontecimentos se refletem nos seus livros, especialmente nos mais famosos como a <i>Arevolu&ccedil;&atilde;o dos bichos </i>e<i> 1984</i>, notoriamente cr&iacute;ticos aos Estados totalit&aacute;rios. Uma cr&iacute;tica que serviu, por exemplo, para que os Estados Unidos tentassem usar <i>1984</i> como instrumento de propaganda contra o comunismo da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica no per&iacute;odo da Guerra Fria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a17fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Fabio Akcelrud Dur&atilde;o, livre-docente do Departamento de Teoria Liter&aacute;ria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a obra ultrapassa as dicotomias simplistas de esquerda e direita. "&Eacute; preciso reconhecer que o Partido descrito por Orwell em <i>1984</i> tem semelhan&ccedil;as com os da antiga Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e de seus aliados no Leste Europeu. Entretanto, uma reflex&atilde;o mais profunda permite observar que a burocracia hoje, principalmente no setor privado, atingiu graus absurdos, como bem mostra o antrop&oacute;logo norte-americano David Graeber em <i>The utopia of rules</i> (2015) e em <i>Bullshit jobs</i> (2018). Seria assim fact&iacute;vel notar ind&iacute;cios de <i>1984</i> tamb&eacute;m nas democracias liberais e seus regimes de linguagem", aponta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O "GRANDE IRM&Atilde;O" ENTRE N&Oacute;S</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> <i>1984 </i>n&atilde;o s&oacute; se mant&eacute;m contempor&acirc;neo, como surpreendente em suas previs&otilde;es. No romance, todas as pessoas t&ecirc;m a vida literalmente comandada pelo Grande Irm&atilde;o, l&iacute;der m&aacute;ximo que assume o poder depois de uma guerra de escala global que eliminou as na&ccedil;&otilde;es e que resultou na cria&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s grandes estados transcontinentais. Orwell descreve cartazes espalhados pelas ruas mostrando a figura dessa autoridade suprema juntamente com o slogan: "O Grande Irm&atilde;o est&aacute; de olho em voc&ecirc;". Esse controle &eacute; feito por meio das chamadas "teletelas", espalhadas em lugares p&uacute;blicos e nos espa&ccedil;os mais &iacute;ntimos dos lares, esp&eacute;cie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a popula&ccedil;&atilde;o. Se imaginarmos o n&uacute;mero de monitores nos grandes centros urbanos hoje em dia, al&eacute;m da capacidade da internet de filtrar informa&ccedil;&otilde;es, chega a ser espantoso vislumbrar a capacidade de Orwell de prever esse mundo repleto de c&acirc;meras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, as declara&ccedil;&otilde;es do ex-analista da ag&ecirc;ncia de seguran&ccedil;a norte-americana Edward Snowden, que revelou a exist&ecirc;ncia de uma rede de espionagem eletr&ocirc;nica por parte dos Estados Unidos, d&atilde;o a dimens&atilde;o do fato. Em dezembro de 2013, ent&atilde;o refugiado na R&uacute;ssia, Snowden disse ao canal brit&acirc;nico, Channel 4, que todas as pessoas carregam sensores nos bolsos capazes de os denunciarem em qualquer lugar, fazendo refer&ecirc;ncia aos aparelhos celulares.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ESCREVENDO A HIST&Oacute;RIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> O livro de Orwell retrata uma sociedade onde o Estado se imp&otilde;e sobre todas as inst&acirc;ncias. Winston Smith trabalha no chamado Minist&eacute;rio da Verdade, departamento respons&aacute;vel por falsificar registros hist&oacute;ricos. Dessa forma, al&eacute;m de manipular as informa&ccedil;&otilde;es, repassando ao povo somente fatos positivos da administra&ccedil;&atilde;o central, o Estado interfere tamb&eacute;m na no&ccedil;&atilde;o de passado, remodelando a hist&oacute;ria a seu bel prazer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Dur&atilde;o, o fato mais atual da obra diz respeito "&agrave; sistematiza&ccedil;&atilde;o e instrumentaliza&ccedil;&atilde;o da mentira como elemento pol&iacute;tico, como material a ser racionalmente explorado com fins de domina&ccedil;&atilde;o". Ainda segundo ele, no livro "o desaparecimento total de qualquer lastro para o mundo dos valores, de qualquer resqu&iacute;cio da moralidade ou de possibilidade de imagina&ccedil;&atilde;o criadora nos choca profundamente, por&eacute;m isso est&aacute; muito pr&oacute;ximo do que vem ocorrendo em rela&ccedil;&atilde;o ao conceito de verdade no campo pol&iacute;tico, com as chamadas <i>fake news</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>1984</i> antecipou a manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o como conceito chave na esfera pol&iacute;tica. "&Eacute; fato que a manipula&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es sempre fez parte do jogo pol&iacute;tico de governos autorit&aacute;rios, como no nazismo, por exemplo, mas a grande diferen&ccedil;a &eacute; que antes havia alguma no&ccedil;&atilde;o da origem das mensagens, que de qualquer modo pertenciam &agrave; esfera p&uacute;blica; agora as not&iacute;cias falsas se originam nos mais diversos espa&ccedil;os, penetrando inclusive, e principalmente, nos c&iacute;rculos pessoais e &iacute;ntimos. A velocidade e quantidade assombrosa faz com que sejam ainda mais nocivas, com impactos decisivos nas elei&ccedil;&otilde;es de candidatos a governos democr&aacute;ticos", finaliza o pesquisador da Unicamp.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n2/a17fig02.jpg"></p>      ]]></body>
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