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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   100 ANOS DO ECLIPS EDESOBRAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Einstein e o Brasil</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Roberto Vergara Caffarelli</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Universidade de Pisa e Instituto de F&iacute;sica da Universidade de S&atilde;o Paulo</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> N&atilde;o sei responder, at&eacute; agora, &agrave; pergunta: quem foi o primeiro no Brasil a ter conhecimento das teorias de Einstein e quando isto se deu? &Eacute; uma pergunta interessante, porque est&aacute; ligada &agrave; hist&oacute;ria da cultura cient&iacute;fica no Brasil, um assunto que n&atilde;o tem merecido muita aten&ccedil;&atilde;o, comparado, por exemplo, com o interesse pela cultura liter&aacute;ria. O que posso dizer a respeito &eacute; que encontrei o nome de Einstein em jornais brasileiros, pela primeira vez, em abril de 1919; ali&aacute;s, seu nome estava escrito errado, sinal de que n&atilde;o era ainda conhecido, porque n&atilde;o encontrei repeti&ccedil;&atilde;o posterior deste fato. Foi num pequeno artigo no <i>Jornal do Com&eacute;rcio</i>, do Rio, destinado a ilustrar a expedi&ccedil;&atilde;o que estava sendo realizada pelas comiss&otilde;es brasileira e brit&acirc;nica a Sobral, no Cear&aacute;, a fim de observar o eclipse cujos resultados favor&aacute;veis deram tanta fama a Einstein.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Provavelmente, o artigo foi escrito ou inspirado pelo professor Henrique Morize, diretor do Observat&oacute;rio Nacional, um grande f&iacute;sico brasileiro, atualmente um pouco esquecido pela nova gera&ccedil;&atilde;o, mas que espero volte a ser uma figura conhecida. Ele muito contribuiu para que a expedi&ccedil;&atilde;o inglesa viesse ao Brasil. De fato, Eddington, que nessa ocasi&atilde;o n&atilde;o veio ao Brasil, tendo ido &agrave; Ilha do Pr&iacute;ncipe, no golfo da Guin&eacute;, j&aacute; tinha estado aqui em 1912 para observar outro eclipse. Ele sabia que podia confiar na organiza&ccedil;&atilde;o do prof. Morize e tamb&eacute;m que podia contar com os fundos do governo brasileiro, porque em 1912 e em 1919 foi promulgada uma lei especial, financiando a organiza&ccedil;&atilde;o para recep&ccedil;&atilde;o das comiss&otilde;es que vieram observar os eclipses desses anos. No dia do eclipse, saiu um artigo muito explicativo, apesar de bastante curto, escrito pelos dois cientistas brit&acirc;nicos, Crommelin e Davidson, que tinham ido a Sobral. A&iacute; encontramos a primeira explica&ccedil;&atilde;o (ou pelo menos in&uacute;meras informa&ccedil;&otilde;es) sobre a teoria da relatividade e as finalidades do experimento. Provavelmente existem outros artigos desses dois autores, publicados em jornais do Par&aacute;, mas ainda n&atilde;o os encontrei.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pioneiro na difus&atilde;o das ideias relativ&iacute;sticas no Brasil &eacute; Amoroso Costa, o grande f&iacute;sico-matem&aacute;tico cuja morte tr&aacute;gica num desastre de avi&atilde;o enlutou a festa de recep&ccedil;&atilde;o de Santos Dumont, naquele long&iacute;nquo dezembro de 1928. Seis dias depois que os ingleses noticiaram o resultado positivo da observa&ccedil;&atilde;o do eclipse, no dia 12 de novembro de 1919, Amoroso Costa escreveu um curto artigo no <i>O Jornal</i> o que demostra seu conhecimento pr&eacute;vio da teoria da relatividade. Por isto, penso que as ideias relativ&iacute;sticas no Brasil j&aacute; eram conhecidas antes de 1919.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Roberto Marinho, que era professor da Escola Polit&eacute;cnica, foi o primeiro a fornecer informa&ccedil;&otilde;es mais detalhadas, em dois artigos que apareceram na <i>Revista de Ci&ecirc;ncias</i> em 1920, mas que foram escritos em 1919, sem ter conhecimento ainda dos resultados do eclipse. Em 1921, Roberto Marinho escreveu um artigo de divulga&ccedil;&atilde;o que foi publicado pela <i>Revista do Brasil </i>e pela<i> Revista Brasileira de Engenharia</i>. No artigo escrito em 1919 ele cita oito livros sobre relatividade; na nota biogr&aacute;fica que sobre ele escreveu F. M. de Oliveira Castro, encontramos a afirma&ccedil;&atilde;o de que "a cole&ccedil;&atilde;o de livros de Roberto Marinho era excelente. Por volta de 1920, j&aacute; possu&iacute;a tudo o que havia de melhor sobre relatividade".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Amoroso Costa foi um pioneiro: publicou v&aacute;rios artigos e, em 1922, publicou um livrinho magistral: <i>Introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; teoria da relatividade.</i> Acho que deveria ser reeditado, porque &eacute; muito bem escrito.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro trabalho original sobre relatividade feito no Brasil deve-se a Teodoro Ramos, cujo nome &eacute; t&atilde;o ligado &agrave; funda&ccedil;&atilde;o da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Em 1923, publica na <i>Revista Polit&eacute;cnica</i>, de S&atilde;o Paulo, o artigo "A teoria da relatividade e as raias espectrais do hidrog&ecirc;nio", que envia tamb&eacute;m &agrave; Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias por interm&eacute;dio do prof. Amoroso Costa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Fa&ccedil;o esta pequena bibliografia para fazer ver que quando Einstein chegou ao Brasil, al&eacute;m da fama de tipo folclor&iacute;stico que se havia criado em torno dele, existiam pessoas que conheciam suas teorias, que estavam interessadas na sua vinda e em ouvi-lo. Entre outros, poderia mencionar, numa perspectiva um pouco diferente, Pontes de Miranda, o jurista, fil&oacute;sofo e soci&oacute;logo que entrou para a Academia Brasileira de Letras. Ele introduziu em seu livro <i>Sistema de ci&ecirc;ncia positiva do direito </i>uma an&aacute;lise dos fundamentos da teoria da relatividade. O mais interessante &eacute; que ele manteve correspond&ecirc;ncia com Einstein. Remeteu-lhe um artigo seu, onde estudava as implica&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas da teoria da relatividade geral, e o pr&oacute;prio Einstein enviou esse trabalho para o Quinto Congresso Internacional de Filosofia, realizado em N&aacute;poles em maio de 1924. Quando Einstein esteve no Rio em 1925, os dois se encontraram e discutiram o tema; cada um acabou mantendo o pr&oacute;prio ponto de vista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi nessa &eacute;poca que Einstein veio ao Brasil. Mas por qu&ecirc;? Na realidade, essa viagem foi organizada pelos argentinos. Em 1923, o escritor, jornalista e professor da Universidade de La Plata, Leopoldo Lugones, se encontrava na Alemanha. Preocupado com a situa&ccedil;&atilde;o pessoal de Einstein, que, como ouvimos do professor Guido Beck, havia recebido amea&ccedil;as e j&aacute; estava sendo submetido a uma certa persegui&ccedil;&atilde;o, Lugones procurou fazer com que se oferecesse a Einstein uma c&aacute;tedra na Argentina. Houve um movimento muito grande, os argentinos n&atilde;o conseguiram que Einstein ficasse permanentemente, mas obtiveram sua anu&ecirc;ncia para uma visita e uma s&eacute;rie de confer&ecirc;ncias. Leopoldo Lugones teve a possibilidade de influenciar Einstein porque os dois ingressaram no mesmo dia na Comiss&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o Intelectual da Liga das Na&ccedil;&otilde;es, em 1924 &#91;1&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein foi ent&atilde;o para a Argentina. Possivelmente (n&atilde;o posso dizer certamente) uma componente da decis&atilde;o que tomou estava ligada ao seu desejo de viajar, manifestado naquela &eacute;poca, foi para o Jap&atilde;o, foi aos Estados Unidos, foi &agrave; Espanha... Einstein passou pelo Rio de Janeiro no dia 21 de mar&ccedil;o de 1925, a caminho de Buenos Aires e desembarcou por algumas horas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi ent&atilde;o que o convidaram a passar uma semana ano Rio, por ocasi&atilde;o de sua viagem de regresso &agrave; Europa. O convite lhe foi transmitido por Aloysio de Castro, que era o integrante brasileiro da Comiss&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o Intelectual, e por Paulo de Frontin &#91;2&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Algumas fotografias ilustram essas horas que Einstein passou no Rio de Janeiro. A <a href="#fig1">figura 1</a> cont&eacute;m um aut&oacute;grafo de Einstein, ainda a bordo do navio Cap. Pol&ocirc;nio, endere&ccedil;ando uma sauda&ccedil;&atilde;o ao Brasil. Numa entrevista concedida no navio, antes que se realizassem contatos oficiais, Einstein j&aacute; tinha manifestado a inten&ccedil;&atilde;o de, na volta, passar alguns dias no Rio, porque sabia que a paisagem era bel&iacute;ssima. Est&aacute; claro que ele aceitou o convite com prazer. A <a href="#fig2">figura 2</a> ilustra o desembarque de Einstein, acompanhando a comitiva que fora recepcion&aacute;-lo. Ao lado de Einstein est&aacute; Aloysio de Castro, sempre muito elegante, e logo atr&aacute;s Isidoro Kohn, representando a comunidade israelita. Essa comiss&atilde;o tinha sido organizada pela Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias, cujo presidente era Henrique Morize. A <a href="#fig3">figura 3</a> &eacute; um close-up, em que podemos ver Einstein todo de branco, com um guarda-chuva que o acompanhar&aacute; durante toda essa primeira e breve estadia. Na <a href="#fig4">figura 4</a> v&ecirc;-se tamb&eacute;m Paulo de Frontin, reconhec&iacute;vel pela barba e bigodes caracter&iacute;sticos, e ainda Aloysio de Castro. A <a href="#fig5">figura 5</a> testemunha o n&uacute;mero de pessoas presentes. A intelectualidade do Rio foi receber Einstein nessa ocasi&atilde;o. Na <a href="#fig6">figura 6</a>, &agrave; direita de Einstein no carro em que deu um passeio pela cidade, identifiquei Alfredo Lisboa, que era um engenheiro famoso naquela &eacute;poca. Depois desse passeio pela cidade, Einstein foi ao Jardim Bot&acirc;nico e na <a href="#fig7">figura 7</a> ele est&aacute; entre o prof. H. Morize e o diretor do Jardim Bot&acirc;nico, o dr. Pacheco Le&atilde;o. O Jardim Bot&acirc;nico causou-lhe forte impress&atilde;o. A <a href="#fig8">figura 8</a> mostra um grupo de pessoas, entre as quais Ant&ocirc;nio de Azevedo, que era vice-presidente do Senado, Isidoro Kohn e Assis Chateaubriand. H&aacute; mais uma fotografia (<a href="#fig9">Figura 9</a>) com estas mesmas pessoas, onde podemos tamb&eacute;m identificar Guilherme Guinle, que sempre trazia seu apoio financeiro aos empreendimentos culturais da &eacute;poca, e Aloysio de Castro, m&eacute;dico, poeta e acad&ecirc;mico. Deve ter sido tirada depois do almo&ccedil;o oferecido a Einstein no restaurante do Copacabana Palace Hotel.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig2"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig3"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig4"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig5"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig05.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig6"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig06.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig7"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig07.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig8"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig08.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig9"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig09.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein embarcou nas primeiras horas da tarde para a Argentina, onde passou mais de um m&ecirc;s. Na volta, deu alguns semin&aacute;rios em Montevid&eacute;u e finalmente, no dia 4 de maio, chegou novamente ao Rio. Ficou hospedado no melhor apartamento do Hotel Gl&oacute;ria. Nesse apartamento, no dia do desembarque, Einstein concedeu uma entrevista, cuja leitura &eacute; muito interessante porque o jornalista fez perguntas pouco ortodoxas, &agrave;s quais Einstein respondeu com sua originalidade. No dia seguinte, Einstein subiu o P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car, que muito o impressionou; ali&aacute;s, as declara&ccedil;&otilde;es de Einstein sobre o Rio s&atilde;o sempre de grande entusiasmo. Na <a href="#fig10">figura 10</a> vemos Einstein ao lado do presidente da Rep&uacute;blica, Artur Bernardes, a quem visitou no dia 6 de maio. A <a href="#fig11">figura 11</a> ilustra a sua primeira confer&ecirc;ncia no Clube de Engenharia. Nesse dia (6 de maio) Einstein tinha realizado um verdadeiro <i>tour de force</i>: depois do presidente da Rep&uacute;blica, visitou o ministro da Agricultura, o ministro da Justi&ccedil;a e o prefeito do Distrito Federal. Depois de passar pela lega&ccedil;&atilde;o alem&atilde;, foi visitar os jardins e finalmente, &agrave;s quatro horas da tarde, foi ao Clube de Engenharia para proferir sua primeira confer&ecirc;ncia sobre a teoria da relatividade restrita. Tendo conseguido uma reconstru&ccedil;&atilde;o parcial dessa confer&ecirc;ncia, gostaria de citar alguns trechos:</font></p>     <p><a name="fig10"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig10.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig11"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig11.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">".... Recebido com prolongada salva de palmas, Einstein ocupou lugar na mesa ao lado do presidente, que rememorou a sua vinda ao Rio, apresentando o ilustre conferencista. A expectativa era intensa, assim como o calor, que gradativamente ia transformando o sal&atilde;o num banho turco".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Einstein tinha entrado vagarosamente, as sobrancelhas caracteristicamente erguidas, como mostram os seus retratos, vestindo um fraque preto; os cabelos desciam abundantes sobre o pesco&ccedil;o, numa sugest&atilde;o impressionante de vigor f&iacute;sico e moral, cabelos crespos qual l&atilde; muito fina, onde j&aacute; se viam numerosos fios brancos. Sentado &agrave; direita do dr. Get&uacute;lio das Neves, que tinha &agrave; esquerda o senador Sampaio Correia, Einstein corria os olhos sobre a assist&ecirc;ncia, completamente indiferente ao discurso introdut&oacute;rio do presidente da sess&atilde;o".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Como este se alongava, um cavalheiro espada&uacute;do e de &oacute;culos, onde pareciam faiscar sinais alg&eacute;bricos, irrita-se e rosna: '&eacute; gafe tratar o Frontin de s&aacute;bio e de eminent&iacute;ssimo e chamar o homem de ilustre professor apenas'. Um rapaz, de olhos cansados talvez pelo abuso das equa&ccedil;&otilde;es, redarguiu: '&eacute; mania brasileira de falar'. E outro, com a irrever&ecirc;ncia do estudante, 'quando se recebe um visitante destes, d&aacute;-se logo a palavra. Isso n&atilde;o passa de verborragia'. Chios en&eacute;rgicos, aqui e ali, quando o dr. Get&uacute;lio exclama afinal: 'Cedo a palavra ao ilustre professor Albert Einstein'".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Logo de p&eacute;, o c&eacute;lebre f&iacute;sico caminha na dire&ccedil;&atilde;o do quadro-negro, entre palmas, poltronas que se arrastam, pessoas que sobem em cadeiras e at&eacute; em mesas, enquanto outras se amontoam junto ao cavalete.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Messieurs!" - exclama Einstein e, com uma voz meiga, que corresponde perfeitamente ao clar&atilde;o meigo do seu olhar, come&ccedil;a a palestra naquele franc&ecirc;s pitoresco, em que alguns termos alem&atilde;es despontam pronunciados na l&iacute;ngua de Racine. Os fot&oacute;grafos explodem o magn&eacute;sio, juntam ao calor ambiente uma densa e detest&aacute;vel fuma&ccedil;a e finalmente se retiram.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein prossegue serenamente, esfor&ccedil;ando-se por fazer compreender a sua teoria a todos quantos t&ecirc;m a honra de ouvi-lo. A n&atilde;o ser os privilegiados que se colocaram rente ao s&aacute;bio, as demais pessoas escutam a disserta&ccedil;&atilde;o com dificuldade, perdendo, &agrave;s vezes, frases inteiras, de modo que todos se espremem, sobem em m&oacute;veis ou na ponta dos p&eacute;s, colocam a m&atilde;o na orelha. A assist&ecirc;ncia ia comprimindo o fil&oacute;sofo, cuja voz diminu&iacute;a &agrave; medida que os ouvintes, em semic&iacute;rculo, dele se aproximavam. Imponente, nos bra&ccedil;os de uma poltrona, numa atitude de colosso de Rodew, o professor Petrus Verdier, da Escola de Belas-Artes, com sua barba de coevo de P&eacute;ricles e seus &oacute;culos de contempor&acirc;neo de Harold Lloyd, rabisca nervosamente o perfil do conferencista, pensando possivelmente numa pr&oacute;xima medalha. E sua, sua tremendamente, como a assist&ecirc;ncia em peso, da qual pessoas se desagregam incessantemente, substitu&iacute;das por outras, curiosas de ouvir, de contemplar o mestre. Nas escadas do Clube de Engenharia, h&aacute; assim um vaiv&eacute;m constante e na cal&ccedil;ada, em frente &agrave; porta, movem-se grupos: - "O Einstein est&aacute; falando, ali em cima". "&Eacute; verdade. Vou subir...a entrada &eacute; franca". "Eu n&atilde;o, n&atilde;o entendo nada...em matem&aacute;tica nunca passei da conta de dividir". "Que me importa. Eu quero s&oacute; ver o colosso, at&eacute; j&aacute;".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Einstein, no entanto, desenvolvia a sua confer&ecirc;ncia, desenhando figuras e f&oacute;rmulas no quadro-negro, para tornar mais f&aacute;cil a compreens&atilde;o da mat&eacute;ria exposta:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Do mesmo modo que a termodin&acirc;mica estabelece, como postulado, a impossibilidade do moto cont&iacute;nuo, a teoria da relatividade estabelece, como postulado, a velocidade da luz como velocidade que n&atilde;o pode ser superada. Talvez ao metaf&iacute;sico repugne aceitar esse limite; o f&iacute;sico, por&eacute;m - e a teoria da relatividade &eacute; obra de f&iacute;sico e n&atilde;o de metaf&iacute;sico - recusa-se a trabalhar usando no&ccedil;&otilde;es e grandezas que n&atilde;o s&atilde;o pass&iacute;veis de medida, e assim parece-lhe natural basear suas teorias em grandezas mensur&aacute;veis, ao inv&eacute;s de introduzir arbitrariamente grandezas fict&iacute;cias sem defini&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica e n&atilde;o suscet&iacute;veis de medida".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E assim come&ccedil;a a confer&ecirc;ncia de Einstein. A &uacute;nica coisa que gostaria de acrescentar, sobre essa confer&ecirc;ncia, que &eacute; bastante longa, relaciona-se &agrave;s observa&ccedil;&otilde;es do prof. Schenberg sobre causalidade. Em sua confer&ecirc;ncia, Einstein referiu-se assim &agrave; causalidade: "Quanto ao princ&iacute;pio de causalidade, se para determinado observador um fen&ocirc;meno aparece como efeito de outro, o mesmo se dar&aacute; com qualquer outro observador. Este resultado &eacute; sumamente importante, pois, sendo o tempo relativo poder-se-ia chegar a pensar na possibilidade de que se alteraria a sucess&atilde;o dos fen&ocirc;menos (causa e efeito), caso esse em que deixaria de ser v&aacute;lido o princ&iacute;pio fundamental de toda a ci&ecirc;ncia f&iacute;sica. Mas, ao contr&aacute;rio, a teoria da relatividade n&atilde;o contradiz esse princ&iacute;pio. A demonstra&ccedil;&atilde;o fundamenta-se no resultado dessa teoria, segundo o qual n&atilde;o se podem produzir na natureza, com respeito a nenhum sistema, velocidades maiores do que a velocidade da luz. Assim, os fundamentos da teoria da relatividade podem enunciar-se matematicamente da seguinte forma: <i>As leis f&iacute;sicas devem ser formuladas de tal modo que sejam invariantes em rela&ccedil;&atilde;o a toda transforma&ccedil;&atilde;o de coordenadas que n&atilde;o modifique o invariante fundamental</i>".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E depois continua, falando da teoria da relatividade restrita. O assunto da relatividade geral s&oacute; deveria ser tratado na segunda confer&ecirc;ncia, que se realizou dois dias depois na Escola Polit&eacute;cnica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas voltemos &agrave; <a href="#fig11">figura 11</a>. A plateia dessa primeira confer&ecirc;ncia foi descrita corretamente pelos jornais: um c&iacute;rculo de pessoas oprimindo Einstein. Mais alto de todos, atr&aacute;s do quadro-negro, reconhecemos Assis Chateaubriand, tomando notas em um pequeno caderno. Quero lembrar que Assis Chateaubriand, nos deixou uma not&aacute;vel descri&ccedil;&atilde;o da conversa que teve com Einstein durante almo&ccedil;o no Copacabana Palace Hotel, por ocasi&atilde;o do primeiro desembarque, em mar&ccedil;o. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A <a href="#fig12">figura 12</a> mostra Einstein em frente ao Museu Nacional, tendo &agrave; esquerda Roquette-Pinto e &agrave; direita Miranda Ribeiro. No grupo est&atilde;o presentes, entre outros, H. Morize, M&aacute;rio de Souza e Alfredo Lisboa; a visita &eacute; do dia 7 de maio. </font></p>     <p><a name="fig12"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig12.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="#fig13">figura 13</a> observa-se Einstein, sempre no Museu Nacional, em frente ao famoso meteorito de Bendeng&oacute;. Notem os sapatos de Einstein, que Assis Chateaubriand definiu como "quase alpargatas". </font></p>     <p><a name="fig13"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig13.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="#fig14">figura 14</a>, vemos um grupo em frente &agrave; sede da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias, no pavilh&atilde;o de madeira que tinha servido &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o da Tcheco-Eslov&aacute;quia, em 1922. Ao lado de Einstein, v&ecirc;-se Juliano Moreira, o psiquiatra, que havia estado muitas vezes em Berlim, onde tinha dado confer&ecirc;ncias e era muito estimado, tendo-se a&iacute; casado com uma senhora alem&atilde;. Einstein almo&ccedil;ou em casa dele no dia 11. Nessa fotografia &eacute; facilmente reconhec&iacute;vel a figura excepcional de Henrique Morize. V&ecirc;-se tamb&eacute;m Francisco Lafayette Pereira, que faria, em franc&ecirc;s, o discurso de recep&ccedil;&atilde;o, na entrega do t&iacute;tulo de s&oacute;cio da academia conferido a Einstein. Este j&aacute; havia recebido dois t&iacute;tulos de lente* honor&aacute;rio e doutor honoris causa da Faculdade de Filosofia. Juliano Moreira saudou Einstein em lugar do prof. Henrique Morize, presidente da academia, adoentado, entregando-lhe o t&iacute;tulo de s&oacute;cio correspondente. Depois dos discursos de Francisco Lafayette Pereira e M&aacute;rio Ramos, Einstein tomou a palavra, desenvolvendo uma r&aacute;pida comunica&ccedil;&atilde;o sobre a natureza da luz.</font></p>     <p><a name="fig14"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig14.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma recente teoria de Bohr, Kramers e Slater tentava explicar os fen&ocirc;menos qu&acirc;nticos da luz a partir da teoria ondulat&oacute;ria, evitando os f&oacute;tons, ou <i>quanta</i> de luz, previstos por Einstein desde 1905. Nessa comunica&ccedil;&atilde;o Einstein anuncia os resultados preliminares da experi&ecirc;ncia dos f&iacute;sicos de Berlim, Geiger e Bothe, favor&aacute;veis &agrave; exist&ecirc;ncia real de <i>quanta</i> de luz. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="#fig15">figura 15</a> Einstein tem &agrave; sua direita Carlos Chagas, cujo centen&aacute;rio ser&aacute; tamb&eacute;m celebrado proximamente, e &agrave; esquerda Carneiro Felippe. Ao lado de Carlos Chagas est&aacute; Adolf Lutz. &Eacute; claro que estamos em Manguinhos, que Einstein visitou no dia 8. Nessa visita, Einstein gravou um pequeno improviso em um cilindro de cera. Fui a Manguinhos e vi o ditafone que pertenceu a Oswaldo Cruz, e que era usado especialmente para gravar resultados de an&aacute;lises. &Eacute; prov&aacute;vel que tenha sido esse o aparelho usado por Einstein. Teria o Brasil um dos mais antigos registros da voz de Einstein, num daqueles 7 ou 8 cilindros, que s&atilde;o conservados no museu? Infelizmente esta pergunta fica sem resposta, porque o ditafone est&aacute; quebrado.</font></p>     <p><a name="fig15"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig15.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A <a href="#fig16">figura 16</a> foi obtida de um recorte de revista; lamento n&atilde;o poder mostrar o original, que &eacute; uma das fotografias mais significativas e expressivas dessa visita. Nela aparece Einstein com o rabino Raffalovich. A foto da <a href="#fig17">figura 17</a> foi tirada na Escola Polit&eacute;cnica, provavelmente depois da confer&ecirc;ncia. N&atilde;o reconhe&ccedil;o a todos, mas a figura de grandes bigodes &eacute; Guilherme Guinle, o &uacute;ltimo &agrave; direita &eacute; M&aacute;rio de Souza, e tamb&eacute;m est&aacute; presente Isidoro Kohn, facilmente reconhec&iacute;vel. Lendo os jornais da &eacute;poca, reconstru&iacute; tamb&eacute;m a descri&ccedil;&atilde;o dessa confer&ecirc;ncia que foi muito interessante; vou citar alguns trechos:</font></p>     <p><a name="fig16"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig16.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig17"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig17.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> "No sal&atilde;o de honra da Escola, mais ou menos &agrave;s dezesseis e trinta, chegou o prof. Einstein, que tomou assento em frente &agrave; mesa, presidida pelo prof. Agostinho dos Reis. Ao lado destes estavam o prof. Morize, diretor do Observat&oacute;rio Nacional e o almirante Gago Coutinho. Em cadeiras dispostas em semic&iacute;rculo ao redor do conferencista, os professores da Escola e convidados especiais. Ao longo da sala, atr&aacute;s, a grande maioria dos assistentes e alunos da escola. O prof. Agostinho dos Reis fez breve discurso apresentando Einstein, que se achava a&iacute; presente para honrar a Escola com uma prele&ccedil;&atilde;o sobre suas ideias e teorias". O diretor da Escola Polit&eacute;cnica, falando em portugu&ecirc;s, ergueu sua voz &agrave; altura de ser ouvida por toda a casa. Einstein, com aquela sua fisionomia calma, dilatou os olhos vivos como os de uma crian&ccedil;a, em uma grande interroga&ccedil;&atilde;o, tentando decifrar pelos gestos do orador e o jogo fision&ocirc;mico dos ouvintes o que estaria dizendo a veem&ecirc;ncia ardente daquela linguagem, para ele estranha. Apenas pronunciadas as &uacute;ltimas s&iacute;labas, Einstein levantou-se e come&ccedil;ou a falar. Ao murm&uacute;rio esquisito que envolvia a sala, talvez a resson&acirc;ncia ricocheteante da voz do eminente diretor da escola que acabara de discursar, sucedeu um sil&ecirc;ncio profundo, que a fon&eacute;tica met&aacute;lica do mestre alem&atilde;o feria pausadamente. Felizmente, gra&ccedil;as &agrave;s medidas tomadas a fim de evitar a invas&atilde;o do recinto por grande n&uacute;mero de pessoas, Einstein p&ocirc;de desenvolver a sua teoria em um ambiente de sil&ecirc;ncio e de aten&ccedil;&atilde;o, e dessa maneira os cientistas brasileiros acompanharam a sua exposi&ccedil;&atilde;o."</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Os efeitos que a teoria do conferencista produzia sobre as respectivas convic&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas foram notados nos gestos de alguns dos assistentes. Assim, por exemplo, foi visto o almirante Gago Coutinho, conhecidamente contraditor de Einstein, sobrecarregar num &iacute;ndice de incredulidade inabal&aacute;vel, aqueles sulcos voltairianos de sarcasmo, que lhe desciam dos l&aacute;bios num cunho caracter&iacute;stico da sua fisionomia. Os gr&aacute;ficos de Einstein n&atilde;o o demoviam, parece, das suas ideias j&aacute; adquiridas sobre a mec&acirc;nica cl&aacute;ssica". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O prof. Morize, esguio, emergia do colarinho alvo e proporcional: as linhas severas de sua fisionomia, como um sistema de coordenadas im&oacute;vel, n&atilde;o deixavam transparecer sua opini&atilde;o, sen&atilde;o a grande curiosidade de ver algo de novo. O sr. Lic&iacute;nio Cardoso, na primeira fila, tinha ar de quem, acompanhando a exposi&ccedil;&atilde;o feita, contrapunha mentalmente aos princ&iacute;pios da mec&acirc;nica einsteiniana os dogmas de August Comte. Parecia tamb&eacute;m um irredut&iacute;vel. Um cavalheiro moreno e gordo, careca e c&eacute;tico, oscilava a cabe&ccedil;a e dizia ao vizinho, de vez em quando: "romances, ideias fantasistas... na pr&aacute;tica, na realidade, isto &eacute; nada". O prof. Einstein chegara a um ponto em que declarava que a geometria euclidiana n&atilde;o corresponde &agrave; grande realidade do universo. S&oacute; o prof. Sodr&eacute; da Gama se mostrou entusiasmado. A cada tra&ccedil;o de giz, que feria o quadro-negro pela m&atilde;o segura de Einstein, na demonstra&ccedil;&atilde;o esquem&aacute;tica de suas ideias, o jovem professor de c&aacute;lculo da Escola Polit&eacute;cnica movimentava a cabe&ccedil;a num sinal de plena aprova&ccedil;&atilde;o. Sublinhava, numa ader&ecirc;ncia de opini&atilde;o concordante, o discreto sorriso de vit&oacute;ria que o conferencista esbo&ccedil;ava, ao evidenciar a falsidade de certas no&ccedil;&otilde;es corrente e aceitas. Mas Einstein foi, para muitos, uma decep&ccedil;&atilde;o. A sua doutrina, que segundo o pensamento geral s&oacute; podia ser exposta e entendida atrav&eacute;s da floresta inextric&aacute;vel dos sinais abstratos da matem&aacute;tica, foi exposta sem equa&ccedil;&otilde;es, sem integrais, sem c&aacute;lculos complicados. Com o poder l&oacute;gico das palavras e com os recursos gr&aacute;ficos de alguns desenhos, fez compreender as principais conclus&otilde;es da sua teoria. A cr&iacute;tica de algumas defini&ccedil;&otilde;es e princ&iacute;pios da mec&acirc;nica cl&aacute;ssica, como da geometria de Euclides, adquiriram uma clareza inesperada, para preju&iacute;zo de muitos".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na <a href="#fig18">figura 18</a>, aparecem participantes da recep&ccedil;&atilde;o oferecida ao ilustre visitante pelo Clube Germ&acirc;nia. Einstein est&aacute; ao lado do ministro da Alemanha, Knipping; &agrave; sua direita est&atilde;o M&aacute;rio de Souza e Assis Chateaubriand. Estavam presentes tamb&eacute;m o ministro da &Aacute;ustria, os banqueiros Stahmer, Gutchow e Erb e o sr. Rudge. A fotografia seguinte (<a href="#fig19">Figura 19</a>) foi tirada no Observat&oacute;rio Nacional. Da esquerda para a direita, sentados, aparecem Domingos Costa, Alfredo Lisboa, Alex Corr&ecirc;a Lemos, Einstein, Henrique Morize, que era o diretor do Observat&oacute;rio, Isidoro Kohn e Jos&eacute; In&aacute;cio Azevedo do Amaral. O prof. L&eacute;lio Gama &eacute; o quinto da comiss&atilde;o brasileira que foi observar o eclipse de Sobral em 1919. Ele discutiu com Einstein a pesquisa que estava desenvolvendo, referente a um estudo de medidas astron&ocirc;micas para detectar varia&ccedil;&otilde;es do polo terrestre. Einstein fez algumas sugest&otilde;es, que anteciparam o desenvolvimento desses estudos.</font></p>     <p><a name="fig18"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig18.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig19"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig19.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Na <a href="#fig20">figura 20</a>, aparecem junto a Einstein Salom&atilde;o Hazan, o rabino Raffalovich, Dora Hazan e v&ecirc;-se tamb&eacute;m a cabe&ccedil;a de Isidoro Kohn. &Eacute; um flagrante de um almo&ccedil;o. Einstein tamb&eacute;m participou de um almo&ccedil;o em casa de Aloysio de Castro, que causou alvoro&ccedil;o devido a algumas declara&ccedil;&otilde;es suas, muito comentadas pelos jornais e revistas da &eacute;poca. A recep&ccedil;&atilde;o da col&ocirc;nia israelita realizou-se no Autom&oacute;vel Clube: na <a href="#fig21">figura 21</a>, vemos Einstein subindo as escadas. Na <a href="#fig22">figura 22</a> v&ecirc;-se parte da assist&ecirc;ncia, mas a fotografia n&atilde;o d&aacute; ideia da quantidade de pessoas presentes: o primeiro andar, ladeado de amplos terra&ccedil;os, estava repleto. A fotografia seguinte (<a href="#fig23">Figura 23</a>) &eacute; um flagrante do discurso em que Einstein est&aacute; respondendo a todos, tendo ao lado Raffalovich. Nessa oportunidade, Einstein fez uma declara&ccedil;&atilde;o de religiosidade, acentuando o quanto as ideias religiosas "t&ecirc;m contribu&iacute;do para orient&aacute;-lo na senda do estudo a que se vem dedicando". </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="fig20"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig20.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig21"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig21.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig22"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig22.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="fig23"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig23.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Estamos chegando ao fim da nossa hist&oacute;ria. Einstein visitou o Hospital Nacional dos Alienados, centro avan&ccedil;ado de tratamento das doen&ccedil;as mentais, cujo diretor era o grande psiquiatra Juliano Moreira. Einstein se interessou pelas v&aacute;rias se&ccedil;&otilde;es, tendo desejado inclusive conversar com um paciente l&aacute; internado. A <a href="#fig24">figura 24</a> est&aacute; ligada a um fato especial. O <i>Jornal</i> tinha tomado a iniciativa de uma subscri&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica para doar-lhe uma lembran&ccedil;a; foi escolhida uma caixa contendo quinze pedras preciosas brasileiras em estado bruto e lapidadas. A fotografia representa Einstein na reda&ccedil;&atilde;o de O <i>Jornal</i>. As &uacute;ltimas reprodu&ccedil;&otilde;es s&atilde;o de caricaturas de Einstein.</font></p>     <p><a name="fig24"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig24.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n3/a13fig25.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; dif&iacute;cil concluir esta palestra: vimos as fotografias, reconstru&iacute;mos o ambiente... insisto em dizer que j&aacute; naquela &eacute;poca havia pesquisadores, pessoas que escreviam sobre relatividade e outros que tinham procurado entender as teorias de Einstein. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Havia tamb&eacute;m opositores, como vimos. Por exemplo, quando Einstein chegou ao Rio, Gago Coutinho (que ali&aacute;s deixou contribui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&oacute; como pioneiro da avia&ccedil;&atilde;o, mas como escritor sobre hist&oacute;ria da navega&ccedil;&atilde;o e que em 1926 escreveu um livrinho contra a relatividade, publicado pela Universidade de Coimbra) escreveu um longo artigo, bastante hostil &agrave; relatividade. Seria interessante saber porque havia opositores e como se propagava essa hostilidade. Em seu artigo, Gago Coutinho escreve: "O eclipse total do Sol que em 1919 foi observado na cidade de Sobral, estado do Cear&aacute;, tornou-se muito popular, porque ao fazer a sua propaganda internacional Einstein e os seus partid&aacute;rios n&atilde;o deixam nunca de aproveitar aquele eclipse, afirmando que essa experi&ecirc;ncia confirmou plenamente a teoria, de uma maneira que n&atilde;o podia ser mais satisfat&oacute;ria. O pr&oacute;prio professor, ao passar no Rio em mar&ccedil;o deste ano, afirma: 'o problema concebido pelo meu c&eacute;rebro, incumbiu-se de resolv&ecirc;-lo o luminoso c&eacute;u do Brasil'. Assim, o relativismo aproveita romanticamente o prest&iacute;gio popular dos primitivos descobridores para fazer a conquista intelectual da Am&eacute;rica". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pouco depois da partida de Einstein, no dia 16 de maio, O <i>Jornal</i> publica um artigo de Lic&iacute;nio Cardoso, que era professor de mec&acirc;nica racional na Escola Polit&eacute;cnica, intitulado "Relatividade imagin&aacute;ria". Lic&iacute;nio diz que comprou muitos livros sobre relatividade e leu todos, mas n&atilde;o conseguia aceitar a teoria. Assim julga o livro de Einstein <i>La th&eacute;orie de la relativit&eacute; restreinte e gen&eacute;ralis&eacute;e:</i> "A cada p&aacute;gina, pode-se dizer, da obra eu encontrava proposi&ccedil;&otilde;es an&aacute;logas: umas confundindo o objetivo com o subjetivo, outras afirmando coisas de imposs&iacute;vel realiza&ccedil;&atilde;o, outras estabelecendo conceitos elementar&iacute;ssimos e velhos como se fossem novos, tudo, est&aacute; claro, no meu fraco entender; outras produzindo afirma&ccedil;&otilde;es incompreens&iacute;veis como esta "nous verrons plus tard que ce raisonnement qui s'appelle dans la m&eacute;canique classique le th&eacute;or&egrave;me de la composition des vitesses n'est pas rigoureux et, par consequente, que ce theor&eacute;me n'est pas v&eacute;rifi&eacute; em r&eacute;alit&eacute;". O que tem a lei abstrata da composi&ccedil;&atilde;o das velocidades com a velocidade particular de cada corpo? Sempre a confus&atilde;o entre o abstrato e o concreto... "O ponto central da cr&iacute;tica deste extremado expoente da escola positivista parece-me ser o seguinte: "Demonstrei que o professor Einstein, confundindo os pontos de vista abstrato e concreto, toma por objetivo o que &eacute; subjetivo e vice-versa e n&atilde;o distingue entre ci&ecirc;ncia abstrata e rela&ccedil;&otilde;es particulares das exist&ecirc;ncias concretas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Esse artigo, como se poderia esperar, deu origem a uma forte pol&ecirc;mica. Na Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias, onde Lic&iacute;nio Cardoso leu seu artigo no dia 26 de maio, ele foi criticado por Adalberto Menezes, Alvaro Alberto, In&aacute;cio do Amaral e Roberto Marinho.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Einstein permaneceu no Rio de Janeiro do dia 4 at&eacute; dia 12 de maio; recebeu presentes, levou consigo a lembran&ccedil;a de uma recep&ccedil;&atilde;o calorosa e a vis&atilde;o duma natureza encantadora e deixou no Brasil a vis&atilde;o do que ele tinha de melhor: a sua intelig&ecirc;ncia e a sua bondade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> &Agrave; Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, &agrave; Biblioteca Municipal de S&atilde;o Paulo (em particular &agrave;s se&ccedil;&otilde;es de peri&oacute;dicos e microfilmagem dessas institui&ccedil;&otilde;es) e ao sr. Geraldo Nunes, respons&aacute;vel pelo gabinete fotogr&aacute;fico do Instituto de F&iacute;sica da USP, quero agradecer pela efici&ecirc;ncia no atendimento de meus in&uacute;meros pedidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS DO EDITOR:</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 1. Em 1922 j&aacute; havia uma discuss&atilde;o na Institui&ccedil;&atilde;o Cultural Argentino Germana para convidar Einstein para ir &agrave; Argentina. Em outubro do mesmo ano, o f&iacute;sico Jorge Duclout prop&ocirc;s ao Conselho da Universidade de Buenos Aires que fizesse um convite a Einstein para dar uma s&eacute;rie de palestras. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Ainda antes da partida de Einstein da Alemanha, o rabino Raffalovih enviou um convite a Einstein, em nome de Aloysio de Castro e de Paulo de Frontin, convidando-o a visitar a capital brasileira quando de seu retorno da Argentina. Ele acrescentou que a comunidade judaica, que ele liderava, teria uma grande honra em saud&aacute;-lo. Einstein aceitou o convite, o qual foi refor&ccedil;ado quando de sua primeira passagem pelo Rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Artigo publicado originalmente na revista <i>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura</i>, 31(12), dezembro de 1979. Dispon&iacute;vel na Hemeroteca da Biblioteca Nacional.</font></p>      ]]></body>
</article>
