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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TEND&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Desmatamento, fogo e clima est&atilde;o intimamente conectados na Amaz&ocirc;nia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Margareth Copertino<sup>I</sup>; Maria Teresa Fernandez Piedade<sup>II</sup>; Ima C&eacute;lia Guimar&atilde;es Vieira<sup>III</sup>; Mercedes Bustamante<sup>IV</sup></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><sup>I</sup>Professora associada no Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg)    <br>   <sup>II</sup>Pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz&ocirc;nia (Inpa)    <br>   <sup>III</sup>Pesquisadora titular do Museu Paraense Emilio Goeldi    <br>   <sup>IV</sup>Professora titular do Instituto de Biologia da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A aparente homogeneidade da floresta amaz&ocirc;nica engana os olhos de quem a visualiza de cima. O bioma, na verdade, abriga diversos tipos florestais, como matas de terra firme, florestas &uacute;midas e secas, matas de v&aacute;rzea e de igap&oacute;, manguezais, campos inundados, al&eacute;m das &aacute;reas de transi&ccedil;&atilde;o com os biomas adjacentes. A biodiversidade e a vulnerabilidade de cada um desses tipos de vegeta&ccedil;&atilde;o aos impactos de secas, desmatamentos e queimadas diferem. As florestas prim&aacute;rias de terra firme s&atilde;o densas, perenes e adaptadas &agrave; &aacute;gua em abund&acirc;ncia. A elevada densidade de &aacute;rvores e suas copas frondosas mant&ecirc;m uma alta umidade no solo e no ar, tornando esse ecossistema naturalmente resistente ao fogo. A a&ccedil;&atilde;o humana, entretanto, altera o equil&iacute;brio da floresta e sua resist&ecirc;ncia &agrave; seca e ao fogo, porque, uma vez derrubadas as &aacute;rvores, o material do solo - como folhas e galhos - pode ser facilmente desidratado e incendiado. Distintamente da vegeta&ccedil;&atilde;o do cerrado, que pode se recuperar rapidamente ap&oacute;s a queimada, a maioria das &aacute;rvores das florestas prim&aacute;rias amaz&ocirc;nicas n&atilde;o possui adapta&ccedil;&otilde;es para resistir e se recuperar ap&oacute;s o fogo, de forma que esses eventos costumam ser catastr&oacute;ficos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir da d&eacute;cada de 1960, o incentivo &agrave; intensa ocupa&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o Norte do Brasil promoveu o incremento nas taxas de desmatamento e de mudan&ccedil;as no uso da terra e alterou drasticamente o regime de fogo na Amaz&ocirc;nia. Os desmatamentos crescentes causaram fragmenta&ccedil;&atilde;o das florestas e as queimadas usadas para preparo de &aacute;rea agr&iacute;cola, que eram naturalmente bloqueadas pela umidade floresta, agora encontram fragmentos florestais e, assim, avan&ccedil;am sobre essas matas e empurram os seus limites ano ap&oacute;s ano. Ainda, as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas afetaram a vulnerabilidade das florestas &agrave;s queimadas diretamente, por meio do aumento da temperatura e redu&ccedil;&atilde;o da precipita&ccedil;&atilde;o; e, indiretamente, pelas mudan&ccedil;as induzidas na estrutura da vegeta&ccedil;&atilde;o. As consequ&ecirc;ncias s&atilde;o florestas menos densas, menos &uacute;midas, mais inflam&aacute;veis e com menor capacidade de tamponar o fogo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fogo tem sido usado tradicionalmente na agricultura e pecu&aacute;ria na Amaz&ocirc;nia para o manejo e preparo do solo, pois &eacute; um m&eacute;todo barato, acess&iacute;vel mesmo em &aacute;reas remotas, al&eacute;m de n&atilde;o demandar tecnologias ou maquin&aacute;rio. Embora a legisla&ccedil;&atilde;o pro&iacute;ba o uso do fogo na vegeta&ccedil;&atilde;o, ela abre exce&ccedil;&atilde;o para essa pr&aacute;tica em certas circunst&acirc;ncias. De acordo com o artigo 38 do C&oacute;digo Florestal brasileiro (Lei nº 12.651/2012): "I - em locais ou regi&otilde;es que justifiquem o emprego do fogo em pr&aacute;ticas agropastoris ou florestais, mediante pr&eacute;via aprova&ccedil;&atilde;o do &oacute;rg&atilde;o estadual ambiental". Assim, desde que dentro das normas e em pequena escala, o uso do fogo &eacute; legal, pois, em princ&iacute;pio, a pr&aacute;tica pressup&otilde;e a possibilidade de retorno da floresta ap&oacute;s o cultivo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como desmatamento e fogo est&atilde;o intimamente relacionados na Amaz&ocirc;nia, seria esperado que, ap&oacute;s o aumento registrado nas taxas de desmatamento no m&ecirc;s de julho de 2019 (80% comparado a julho de 2018), focos de queimadas aparecessem nas &aacute;reas mais desmatadas - fato confirmado em publica&ccedil;&atilde;o recente na revista <i>Global Change Biology</i>. Mais da metade do desmatamento observado ocorreu em &aacute;reas privadas ou em em terras p&uacute;blicas em diversos est&aacute;gios de posse (&aacute;reas sem destina&ccedil;&atilde;o pelo Estado), enquanto o restante foi registrado em assentamentos (20%), unidades de conserva&ccedil;&atilde;o (19%) e terras ind&iacute;genas (6%). Os resultados do sistema Prodes confirmam o aumento relativo nas taxas de desmatamento entre 2018 e 2019, o que j&aacute; tinha sido previamente alertado pelo sistema Deter em julho de 2019. Ambos sistemas operacionais s&atilde;o complementares e pertencem ao programa de monitoramento da Amaz&ocirc;nia do Instituto Nacional da Pesquisas Espaciais (Inpe).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Embora em geral as queimadas na Amaz&ocirc;nia sejam espacialmente limitadas &agrave;s &aacute;reas desmatadas, de manejo agropecu&aacute;rio e pr&oacute;ximas &agrave;s rodovias, elas podem escapar ao controle. Nesses casos, podem provocar inc&ecirc;ndios desastrosos que avan&ccedil;am sobre &aacute;reas florestadas, particularmente em anos de secas extremas, como nos em que se registra o El Nino - como aconteceu em 1997-98, quando 30% a 40% da Amaz&ocirc;nia brasileira (5,5 milh&otilde;es de km<sup>2</sup>) se tornou inflam&aacute;vel e 39 mil km<sup>2</sup> de florestas pegaram fogo, contribuindo para a libera&ccedil;&atilde;o imediata de 200-600 megatoneladas de carbono para a atmosfera em uma &uacute;nica esta&ccedil;&atilde;o. Nos anos 2000, mais de 85 mil km<sup>2</sup> de florestas foram incendiados, a maioria durante os anos quentes e secos de 2005, 2007 e 2010. Para 2019, embora os climatologistas n&atilde;o tenham registrado seca severa, os focos de calor est&atilde;o superando aqueles de anos anteriores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m de conter uma mega biodiversidade, a Amaz&ocirc;nia &eacute; um grande regulador do clima do planeta. A evapotranspira&ccedil;&atilde;o da floresta alimenta os extensos "rios voadores" - correntes de jato que se formam na regi&atilde;o equatorial do Oceano Atl&acirc;ntico e que percorrem as altas camadas da atmosfera (3-5 km de altura). A floresta retroalimenta esses rios de vapor d&acute;&aacute;gua que transportam a umidade da Amaz&ocirc;nia para o centro-oeste, sudeste e sul do Brasil. O desmatamento e queimadas alteram o equil&iacute;brio desse ciclo hidrol&oacute;gico, reduzem a evapotranspira&ccedil;&atilde;o da floresta, diminuindo as chuvas sobre a pr&oacute;pria Amaz&ocirc;nia e aumentando o risco de tempestades extremas no sul e sudeste do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Amaz&ocirc;nia j&aacute; entrou em um novo regime de clima mais quente e altamente vari&aacute;vel, com esta&ccedil;&otilde;es secas mais prolongadas e intensas. A severidade das secas altera o regime de fogo, amplificando as queimadas para maiores por&ccedil;&otilde;es da floresta e para al&eacute;m das &aacute;reas desmatadas para o manejo agr&iacute;cola. Al&eacute;m de causar emiss&otilde;es imediatas de CO<sub>2</sub>, as queimadas constantes induzem mudan&ccedil;as na vegeta&ccedil;&atilde;o, reduzindo a capacidade natural da floresta em estocar e reciclar nutrientes, com enormes implica&ccedil;&otilde;es para o ciclo global de carbono. Al&eacute;m disso, a remo&ccedil;&atilde;o da floresta vem trazendo profundas consequ&ecirc;ncias ao ciclo hidrol&oacute;gico da regi&atilde;o, mudando os padr&otilde;es de precipita&ccedil;&atilde;o e de varia&ccedil;&atilde;o nos n&iacute;veis do rios, com extremos de cheias e secas. Esse cen&aacute;rio &eacute; ampliado pelas mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e pelo uso indiscriminado do fogo. A combina&ccedil;&atilde;o desses fatores est&aacute; levando a floresta amaz&ocirc;nica a um ponto de inflex&atilde;o a partir do qual, especialmente os ecossistemas na Amaz&ocirc;nia oriental, sul e central podem deixar de ser floresta, passando para um tipo de vegeta&ccedil;&atilde;o aberta, em um processo denominado de "savaniza&ccedil;&atilde;o" &#91;1&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O gigantesco estoque de carbono contido na biomassa da floresta amaz&ocirc;nica (100 petagramas ou 100 bilh&otilde;es de toneladas de carbono) equivale a aproximadamente 370 bilh&otilde;es de toneladas de CO<sub>2</sub>. O balan&ccedil;o de sequestro/emiss&otilde;es mostra que, entre 2003 e 2014, as florestas tropicais do mundo emitiram mais carbono do que absorveram da atmosfera. Os maiores balan&ccedil;os negativos, quando as emiss&otilde;es superam os valores de sequestro de CO<sub>2</sub>, foram observadas na Am&eacute;rica Latina, principalmente no Brasil - atualmente, o pa&iacute;s &eacute; o oitavo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, com 50% das emiss&otilde;es brasileiras provindas das atividades de desmatamento e agropecu&aacute;ria.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A floresta amaz&ocirc;nica resistiu a mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas no passado e poder&aacute; se adaptar &agrave;s mudan&ccedil;as futuras, desde que seu manejo e conserva&ccedil;&atilde;o sejam priorizados. Para isso, a manuten&ccedil;&atilde;o de grandes &aacute;reas de floresta intacta &eacute; fundamental para preservar sua biodiversidade e controlar o fogo na regi&atilde;o. Ainda, a restaura&ccedil;&atilde;o de &aacute;reas degradadas e a promo&ccedil;&atilde;o do uso sustent&aacute;vel da biodiversidade, da &aacute;gua e de outros recursos florestais, al&eacute;m de melhorar a qualidade de vida das comunidades da regi&atilde;o, poder&aacute; tamb&eacute;m auxiliar a redu&ccedil;&atilde;o da concentra&ccedil;&atilde;o de CO<sub>2</sub> atmosf&eacute;rico do planeta e combater as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> 1. Lovejoy, T. E.; Nobre, C. "Amazon tipping point". <i>Sci. Adv</i>., 4, eaat2340. 2018.    </font></p>      ]]></body><back>
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