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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   ENTREVISTA: FRANCISCO VISSANI</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A import&acirc;ncia  de fortalecer a  cultura cient&iacute;fica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Meghie Rodrigues</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n4/a05fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Francesco Vissani tem riso f&aacute;cil e boa prosa - o que faz parecer que f&iacute;sica de part&iacute;culas pode ser mais simples do que na verdade &eacute;. O f&iacute;sico italiano, que &eacute; diretor de pesquisa nos Laborat&oacute;rios Nacionais de Gran Sasso no Istituto Nazionale di Fisica Nucleare (INFN), estuda o neutrino, part&iacute;cula subat&ocirc;mica de carga neutra com massa quase inexistente que interage muito pouco com a mat&eacute;ria - e mesmo assim &eacute; uma das part&iacute;culas mais abundantes no universo. Apaixonado por divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, Vissani integra a divis&atilde;o de educa&ccedil;&atilde;o, divulga&ccedil;&atilde;o e patrim&ocirc;nio da Uni&atilde;o Astron&ocirc;mica Internacional (IAU) e, em 2014, criou o Pr&ecirc;mio Asimov, que busca engajar alunos de ensino m&eacute;dio com divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica na It&aacute;lia. Eles escolhem, todo ano, o melhor livro de cunho cient&iacute;fico publicado no pa&iacute;s - dentro de uma sele&ccedil;&atilde;o pr&eacute;via de cinco livros feita por professores, cientistas, jornalistas e profissionais de diversas &aacute;reas engajados com divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Os estudantes participam fazendo resenhas justificando sua escolha - e as melhores s&atilde;o lidas por seus autores na cerim&ocirc;nia de premia&ccedil;&atilde;o. Em sua terceira visita ao Brasil, Vissani &eacute; o primeiro cientista convidado a participar do programa "Cesar Lattes" do Cientista Residente pelo Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados (IdEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em entrevista &agrave; <i>Ci&ecirc;ncia &amp; Cultura</i>, ele fala sobre a natureza e a complexidade do estudo dos neutrinos e sobre a import&acirc;ncia da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica no atual contexto de polariza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica em &acirc;mbito mundial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ci&ecirc;ncia&amp;Cultura:<i> Como &eacute; que descobrimos os neutrinos e qual a fun&ccedil;&atilde;o deles na natureza?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: &Eacute; muito curioso como a possibilidade da exist&ecirc;ncia do neutrino foi introduzida na ci&ecirc;ncia. Come&ccedil;ou com o f&iacute;sico austr&iacute;aco Wolfgang Pauli (pai da teoria do spin do el&eacute;tron), que estava com problemas para entender alguns fen&ocirc;menos que ele estava observando. No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a radioatividade era estudada e alguns fen&ocirc;menos n&atilde;o se conformavam de maneira alguma com o que entend&iacute;amos. Ao se desintegrar, alguns elementos n&atilde;o conservavam a mesma energia que tinham quando ativos. Se pr&oacute;tons, n&ecirc;utrons e el&eacute;trons t&ecirc;m sempre a mesma massa, esses elementos deveriam se desintegrar com a mesma energia at&ocirc;mica que sempre tiveram. Mas isso n&atilde;o acontecia - alguns el&eacute;trons tinham mais energia, algumas vezes, menos. A energia at&ocirc;mica de todos os elementos deveria ser conservada - e algu&eacute;m estava levando a energia embora. Essa foi uma quest&atilde;o s&eacute;ria durante algumas d&eacute;cadas. Pauli pensou, ent&atilde;o, que isso talvez acontecesse "por a&ccedil;&atilde;o de algum agente invis&iacute;vel, fantasma", mas n&atilde;o estava muito feliz com essa hip&oacute;tese. A conversa evoluiu, a ideia foi refinada e descobriu-se que a "part&iacute;cula fantasma" n&atilde;o era exatamente um fantasma, mas tinha uma intera&ccedil;&atilde;o muito fraca com a mat&eacute;ria e, anos depois, na d&eacute;cada de 1950, p&ocirc;de ser observada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Pode explicar isso melhor? </i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: De acordo com o que sabemos, a energia &eacute; conservada em qualquer situa&ccedil;&atilde;o. Os neutrinos t&ecirc;m, digamos, sua parcela na composi&ccedil;&atilde;o dessa energia. Eles t&ecirc;m rota&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o t&ecirc;m carga el&eacute;trica. E s&atilde;o absurdamente min&uacute;sculos, mesmo em escala at&ocirc;mica. Se ampli&aacute;ssemos um &aacute;tomo ao tamanho do planeta Terra, seu n&uacute;cleo seria do tamanho de um campo de futebol - e o neutrino seria do tamanho de um v&iacute;rus. Por causa do seu tamanho, ele atravessa a mat&eacute;ria sem perturba&ccedil;&atilde;o (ou intera&ccedil;&atilde;o com ela) e &eacute; muito dif&iacute;cil "peg&aacute;-lo". Ele &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil de detectar que, para faz&ecirc;-lo, &eacute; preciso faz&ecirc;-lo indiretamente, vendo seu efeito sobre outros &aacute;tomos para perceber que ele est&aacute; ali - al&eacute;m disso, &eacute; preciso muitos neutrinos para ver um s&oacute;. O Sol, ao fundir hidrog&ecirc;nio em h&eacute;lio, libera neutrinos no processo. Vemos a luz do Sol, que &eacute; o resultado dessa rea&ccedil;&atilde;o, que requer muita energia, e tamb&eacute;m libera luz. Se podemos ver o interior dos nossos corpos com m&aacute;quinas de raios-x, conseguimos ver o interior do Sol com telesc&oacute;pios de neutrinos. Com o Borexino, detector de neutrinos que opera no Laboratori Nazionali del Gran Sasso, conseguimos ver praticamente todo tipo de neutrinos do Sol e as rea&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas acontecendo em tempo real, com elementos se transformando em outros e liberando energia em forma de neutrino - tal como no sonho de um alquimista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Al&eacute;m de "part&iacute;cula fantasma", o neutrino j&aacute; recebeu outros apelidos, como "part&iacute;cula vampira". Por que isso?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: &Eacute; uma forma de falar de algumas propriedades desta part&iacute;cula. O nome "fantasma" n&atilde;o &eacute; porque o neutrino morreu e voltou para nos assombrar (risos) e nem porque passa pelas paredes, mas porque passa pelo Sol e todo tipo de mat&eacute;ria - e esse &eacute; o melhor tipo de fantasma que se poderia ter. Sobre ele ser uma part&iacute;cula "vampira", existe uma hist&oacute;ria curiosa. Ao contr&aacute;rio dos el&eacute;trons, que t&ecirc;m spins ou rota&ccedil;&otilde;es em dire&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias - para cima e para baixo, por exemplo - sendo, portanto, "espelhados", os neutrinos n&atilde;o funcionam assim. Tal como os vampiros, neutrinos n&atilde;o conseguem "se ver no espelho" porque s&oacute; giram em uma dire&ccedil;&atilde;o. Essa &eacute; uma raz&atilde;o pela qual chamamos o neutrino de "vampiro". A outra raz&atilde;o &eacute; porque ele rouba energia de outras part&iacute;culas. O neutrino, al&eacute;m disso, n&atilde;o &eacute; uma part&iacute;cula est&aacute;vel, imut&aacute;vel. Um neutrino que "anda" junto de um el&eacute;tron &eacute; chamado de el&eacute;tron-neutrino. Saindo do Sol ele pode, no meio do caminho para a Terra, se transformar em um m&uacute;on-neutrino, por exemplo - por passar a andar com um m&uacute;on, o primo mais pesado do el&eacute;tron. Essas observa&ccedil;&otilde;es renderam o Nobel de F&iacute;sica de 2015 a Takaaki Kajita e Arthur McDonald, f&iacute;sicos das universidades de Tokyo, no Jap&atilde;o, e de Queen's, em Kingston, no Canad&aacute;, respectivamente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n4/a05fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> O que n&atilde;o sab&iacute;amos &agrave; &eacute;poca do Nobel, em 2015, que sabemos agora?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: &Eacute; importante dizer que esse achado que rendeu o Nobel em 2015 nos mostra que a melhor teoria que temos para explicar o comportamento das part&iacute;culas, o modelo padr&atilde;o, n&atilde;o &eacute; uma teoria completa da natureza. De l&aacute; para c&aacute;, conseguimos entender melhor fen&ocirc;menos que nos d&atilde;o pistas sobre a massa dos neutrinos. E agora tamb&eacute;m conseguimos ver todos os neutrinos que est&atilde;o sendo produzidos pelo Sol, o que tamb&eacute;m amplia nosso conhecimento sobre eles. Tamb&eacute;m h&aacute; avan&ccedil;os numa &aacute;rea para a qual o f&iacute;sico brasileiro C&eacute;sar Lattes  (1924-2005) contribuiu muito, que &eacute; o estudo de p&iacute;ons - part&iacute;culas inst&aacute;veis que nascem da colis&atilde;o de outras part&iacute;culas de alta energia, como as presentes em raios c&oacute;smicos (Lattes foi o codescobridor do m&eacute;son pi). Os p&iacute;ons decaem e se desintegram espontaneamente, produzindo neutrinos. Isso &eacute; algo que j&aacute; sab&iacute;amos h&aacute; algum tempo, mas n&atilde;o sabemos de onde v&ecirc;m os raios c&oacute;smicos. Pode ser que os neutrinos que v&ecirc;m junto com eles nos ofere&ccedil;am algumas pistas sobre a origem desses raios c&oacute;smicos. H&aacute; um experimento no Polo Sul, no The IceCube Neutrino Observatory, financiado pela National Science Foundation (NSF), investigando isso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Voc&ecirc; tem grande envolvimento com divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica e criou o Pr&ecirc;mio Asimov alguns anos atr&aacute;s. O que motivou a cria&ccedil;&atilde;o do pr&ecirc;mio e como tem sido o processo?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: Quando eu era crian&ccedil;a, costumava ler bastante sobre ci&ecirc;ncia e fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. E acho que livros ainda t&ecirc;m uma vantagem sobre outros meios de comunica&ccedil;&atilde;o porque te obrigam a parar e pensar para absorver o que est&aacute; ali. A ideia do Pr&ecirc;mio Asimov &eacute; estimular estudantes a fazer isso. Hoje, centenas de escolas na It&aacute;lia participam da premia&ccedil;&atilde;o. &Eacute; muito curioso porque os alunos que t&ecirc;m suas resenhas escolhidas s&atilde;o muito s&eacute;rios e as pessoas ficam impressionadas com a articula&ccedil;&atilde;o desses jovens. E os alunos que n&atilde;o t&ecirc;m resenhas t&atilde;o boas s&atilde;o muito estimulados a melhorar. Praticamente n&atilde;o h&aacute; dinheiro envolvido no pr&ecirc;mio, mas pagamos a viagem do autor da melhor resenha para se encontrar com o autor do livro vencedor em um festival de ci&ecirc;ncias onde eles podem passar algum tempo juntos. O processo todo &eacute; bastante artesanal - h&aacute; uma placa de cer&acirc;mica feita &agrave; m&atilde;o com a imagem do vencedor, que ele leva para casa. A ideia foi inspirada em um modelo parecido da Royal Society, no Reino Unido. A partir desse modelo eu pensei: "bom, isso poderia funcionar na It&aacute;lia tamb&eacute;m!", e ent&atilde;o resolvemos fazer - e tem dado certo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>C&amp;C:<i> Falar de ci&ecirc;ncia e lutar contra a desinforma&ccedil;&atilde;o nos tempos que correm s&atilde;o tarefas cada vez mais dif&iacute;ceis. A desinforma&ccedil;&atilde;o sempre esteve conosco e n&atilde;o percebemos? Como falar de ci&ecirc;ncia de uma forma emp&aacute;tica em meio a tanta polariza&ccedil;&atilde;o?</i></b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vissani: Muitas pessoas foram acusadas de bruxaria e mandadas para a fogueira por produzir sabonete caseiro artesanal na It&aacute;lia do s&eacute;culo XVII. Hoje em dia, descobrimos doen&ccedil;as e as tratamos com o conhecimento que temos. O que estou tentando dizer com isso &eacute; que as pessoas tentam seu melhor para reagir a situa&ccedil;&otilde;es que veem com a informa&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m. O importante &eacute; ter informa&ccedil;&atilde;o confi&aacute;vel - e o fortalecimento de uma cultura cient&iacute;fica &eacute; absolutamente crucial para isso. Como cientistas, nosso papel na divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica n&atilde;o &eacute; apenas noticiar descobertas para angariar mais financiamento para pesquisa ou soltar frases bomb&aacute;sticas para causar frisson na m&iacute;dia - isto est&aacute; realmente estragando as coisas. &Eacute; important&iacute;ssimo que fa&ccedil;amos bem nosso trabalho e que sejamos justos e comuniquemos nossas descobertas - e ent&atilde;o as pessoas podem decidir o que pensar sobre isso, baseadas na melhor informa&ccedil;&atilde;o dispon&iacute;vel. H&aacute; muita gente que delega o racioc&iacute;nio a terceiros, mas eu acredito que as pessoas querem pensar e tirar suas pr&oacute;prias conclus&otilde;es. Precisamos reportar o que estamos fazendo, n&atilde;o os devaneios do que gostar&iacute;amos de fazer. Penso que, para comunicar melhor a ci&ecirc;ncia, precisamos manter os p&eacute;s no ch&atilde;o.</font></p>      ]]></body>

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