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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   SA&Uacute;DE</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Imunoterapia: a virada do sistema imunol&oacute;gico contra o c&acirc;ncer</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Diego Freire</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O sistema imunol&oacute;gico sofre duplamente com o c&acirc;ncer: primeiro, perde por n&atilde;o conseguir combater as c&eacute;lulas cancerosas, dotadas de mecanismos que burlam as defesas do organismo; depois, com tratamentos que, em geral, atacam as c&eacute;lulas indiscriminadamente, tumorosas ou n&atilde;o - incluindo as c&eacute;lulas imunol&oacute;gicas, enfraquecendo ainda mais a sa&uacute;de. Mas o avan&ccedil;o da imunoterapia tem levado ao desenvolvimento de estrat&eacute;gias e tecnologias que estimulam o sistema imunol&oacute;gico do paciente para que ele mesmo combata diversos tipos de c&acirc;ncer, entre os quais os de pulm&atilde;o, pr&oacute;stata e mama, alguns dos mais incidentes na popula&ccedil;&atilde;o mundial e que t&ecirc;m se beneficiado da terap&ecirc;utica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O surgimento de agentes anticancer&iacute;genos que atuam nos <i>checkpoints</i> imunol&oacute;gicos - o "ponto de partida" da resposta do organismo a agressores - transformou a oncologia, levando a respostas dur&aacute;veis e melhorias na sobrevida global de pacientes com c&acirc;nceres de pele do tipo melanoma, de rim, cabe&ccedil;a e pesco&ccedil;o, bexiga e pulm&atilde;o, entre outros. Uma atividade cl&iacute;nica promissora tamb&eacute;m tem sido demonstrada no bloqueio da PD-L1, prote&iacute;na expressa pelas c&eacute;lulas tumorais que pode indicar uma inibi&ccedil;&atilde;o das respostas imunes, permitindo que o tumor cres&ccedil;a e se espalhe para outros &oacute;rg&atilde;os, gerando a met&aacute;stase. Isso tem levado a resultados promissores no tratamento de alguns linfomas, carcinoma de pulm&atilde;o e melanomas. Isso porque esses c&acirc;nceres s&atilde;o capazes de driblar o sistema imunol&oacute;gico usando uma "camuflagem" ou "desligando" os mecanismos respons&aacute;veis por identificar que h&aacute; algo errado com a c&eacute;lula. O tratamento, ent&atilde;o, oferece ferramentas para que o sistema imunol&oacute;gico enxergue as c&eacute;lulas cancer&iacute;genas e as combata mais fortemente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v71n4/a06fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de recente, o uso dessa terapia no combate a esses tipos de c&acirc;ncer tem acumulado resultados animadores. Os avan&ccedil;os s&atilde;o tantos que levaram os imunologistas James P. Allison, chefe da &aacute;rea de imunologia no MD Anderson Cancer Center, dos Estados Unidos, e Tasuku Honjo, da Universidade de Kyoto, do Jap&atilde;o, a ganharem o Nobel de Medicina em 2018. A premia&ccedil;&atilde;o se deu pela descoberta, conduzida por ambos, de que o sistema imunol&oacute;gico pode ser usado para atacar as c&eacute;lulas cancer&iacute;genas: Allison descobriu que a prote&iacute;na CTLA-4 pode parar o sistema imunol&oacute;gico e que havia como bloque&aacute;-la para atacar as c&eacute;lulas tumorais; j&aacute; Honjo revelou que a prote&iacute;na PD-1 pode "parar" as c&eacute;lulas tumorais - e que esse mecanismo tamb&eacute;m podia ser controlado. Juntos, os especialistas desenvolveram medicamentos que permitem que o sistema imunol&oacute;gico enfrente as c&eacute;lulas cancer&iacute;genas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>IMUNOTERAPIA MADE IN BRAZIL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas outras descobertas t&ecirc;m sido empreendidas desde Allison e Honjo - algumas das quais no Brasil. No Instituto Nacional de C&acirc;ncer (Inca), o grupo do biom&eacute;dico Mart&iacute;n Bonamino se dedica &agrave; descri&ccedil;&atilde;o e ao est&iacute;mulo das respostas imunes antitumorais avaliando os componentes imunol&oacute;gicos dos tumores. Para promover tais respostas, s&atilde;o desenvolvidas estrat&eacute;gias de imunoterapia alterando c&eacute;lulas do sistema imunol&oacute;gico por meio de cultivo celular e manipula&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Foi assim que, entre seus feitos mais recentes, o grupo desenvolveu protocolos para terapias com CAR-T cells, c&eacute;lulas de defesa extra&iacute;das do pr&oacute;prio corpo e moldadas em laborat&oacute;rio para se tornarem mais agressivas contra a doen&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O processo, em geral, pode levar algumas semanas. Primeiro, as c&eacute;lulas T do sistema imunol&oacute;gico, grupo de gl&oacute;bulos brancos (leuc&oacute;citos) respons&aacute;veis pela defesa do organismo contra agentes desconhecidos (ant&iacute;genos), s&atilde;o coletadas do sangue do paciente, por meio de um procedimento chamado leucoferese. Ap&oacute;s a coleta, as c&eacute;lulas s&atilde;o geneticamente alteradas em laborat&oacute;rio para incluir um novo gene sint&eacute;tico, que cont&eacute;m uma prote&iacute;na espec&iacute;fica: um receptor quim&eacute;rico de ant&iacute;geno (CAR) que as direciona para atingir e destruir c&eacute;lulas cancerosas. Modificadas, elas s&atilde;o infundidas de volta ao paciente.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A terapia CAR-T vem sendo desenvolvida e estudada desde a d&eacute;cada de 1990 e, em pa&iacute;ses onde j&aacute; &eacute; comercializada, chega a custar 350 mil d&oacute;lares por paciente. Um dos diferenciais da t&eacute;cnica brasileira &eacute; que as c&eacute;lulas geneticamente modificadas tamb&eacute;m s&atilde;o capazes de reconhecer o v&iacute;rus Epstein-Barr, envolvido em v&aacute;rias complica&ccedil;&otilde;es hematol&oacute;gicas, desde a mononucleose at&eacute;  linfomas e quadros de prolifera&ccedil;&atilde;o celular descontrolada em  pacientes com baixa imunidade, como transplantados com  medulas &oacute;sseas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro diferencial &eacute; a forma como os pesquisadores fazem a mudan&ccedil;a no gene das c&eacute;lulas T: em vez de utilizar um v&iacute;rus para infectar a c&eacute;lula do sistema imune e promover a mudan&ccedil;a gen&eacute;tica, t&eacute;cnica mais amplamente utilizada, s&atilde;o empregados fragmentos n&atilde;o infecciosos de DNA. "Nosso grupo &eacute; um dos primeiros fora da Europa e Estados Unidos a conseguir levar o gene CAR para o n&uacute;cleo da c&eacute;lula sem usar o v&iacute;rus. E isso tem uma s&eacute;rie de vantagens potenciais que estamos explorando, entre elas, a redu&ccedil;&atilde;o no custo", conta Bonamino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Resultados da etapa da pesquisa em animais foram recentemente publicados na revista <i>Human Gene Therapy</i>. Agora, o grupo se prepara para a etapa com pacientes. Al&eacute;m do Inca, o trabalho &eacute; conduzido em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Centro Infantil Boldrini e a Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz (Fiocruz).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>IMUNOTERAPIA TURBINADA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Enquanto isso, novas pesquisas s&atilde;o conduzidas ao redor do mundo combinando a imunoterapia a outras estrat&eacute;gias terap&ecirc;uticas. Na &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o do congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Cl&iacute;nica (Asco), em Chicago (EUA), o oncologista alem&atilde;o Axel Hauschild, especialista em oncologia cut&acirc;nea da Universidade de Kiel, na Alemanha, falou sobre uma an&aacute;lise combinada de seis estudos de neoadjuv&acirc;ncia, a administra&ccedil;&atilde;o de agentes terap&ecirc;uticos antes do tratamento principal, que avaliaram o benef&iacute;cio de imunoterapia pr&eacute;-operat&oacute;ria para pacientes com melanoma. Os resultados, apresentados na programa&ccedil;&atilde;o do congresso da Asco, revelaram acentuadas taxas de resposta completa desse esquema, principalmente quando utilizada a combina&ccedil;&atilde;o de dois imunoter&aacute;picos: nivolumabe e ipilimumabe. "A imunoterapia tamb&eacute;m demonstrou um benef&iacute;cio duradouro, uma vez que, ap&oacute;s o uso de inibidores de <i>checkpoints</i> imunol&oacute;gicos, nenhum dos pacientes apresentou recorr&ecirc;ncia da doen&ccedil;a durante o seguimento  do estudo", diz Hauschild.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda em Chicago, o oncologista S&eacute;rgio Simon, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Cl&iacute;nica, comentou dados de atualiza&ccedil;&atilde;o do estudo IMpassion130, que teve novas an&aacute;lises divulgadas durante o congresso, a respeito de sobrevida global - per&iacute;odo durante o qual um paciente permanece vivo ap&oacute;s o diagn&oacute;stico da doen&ccedil;a ou o in&iacute;cio do tratamento. Publicado no <i>The New England Journal of Medicine</i>, o estudo teve a participa&ccedil;&atilde;o de mulheres com um subtipo de c&acirc;ncer de mama metast&aacute;tico, que receberam tratamento com nab-paclitaxel associado a placebo ou a atezolizumabe, um inibidor de <i>checkpoint</i> imunol&oacute;gico antiPD-L1. As pacientes do grupo que recebeu a imunoterapia tiveram ganho de sete meses na  sobrevida global.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As perspectivas da imunoterapia s&atilde;o tantas que v&atilde;o al&eacute;m do c&acirc;ncer, com desenvolvimentos nas &aacute;reas b&aacute;sica, translacional e cl&iacute;nica, e aplica&ccedil;&otilde;es em diversas frentes de tratamento e preven&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as infecciosas, autoimunes e cr&ocirc;nico-degenerativas, vacinas, transplantes e terapia celular, entre outras. A comunidade brasileira de imunologistas recebeu cientistas de todo o globo para tratar dos in&uacute;meros potenciais da &aacute;rea no ImmunoTherapy 2019, congresso que a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) promoveu em Florian&oacute;polis (SC), de 29 de setembro a 2 de outubro. "Ao entendermos que o sistema imune &eacute; o conjunto de c&eacute;lulas e mol&eacute;culas respons&aacute;veis pela conserva&ccedil;&atilde;o da homeostasia tecidual por meio do reconhecimento de padr&otilde;es de inj&uacute;ria celular e da manuten&ccedil;&atilde;o de tecidos pr&oacute;prios ao organismo, podemos perceber que sua ativa&ccedil;&atilde;o envolve a participa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios tipos celulares e mecanismos efetores presentes em diferentes &oacute;rg&atilde;os e tecidos. H&aacute; uma regula&ccedil;&atilde;o estreita de cada um dos efeitos gerados por esses componentes e a perda do controle da resposta imunol&oacute;gica pode levar ao aparecimento de um conjunto amplo de doen&ccedil;as, como alergias, inflama&ccedil;&otilde;es, doen&ccedil;as autoimunes e o pr&oacute;prio c&acirc;ncer", explica o imunologista Jo&atilde;o Viola, pesquisador do Inca e presidente do comit&ecirc; organizador do evento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Viola, mesmo diante dos avan&ccedil;os, h&aacute; um longo caminho a ser trilhado at&eacute; a ampla ado&ccedil;&atilde;o da imunoterapia contra o c&acirc;ncer. "Apesar da grande revolu&ccedil;&atilde;o que as imunoterapias antitumorais est&atilde;o imprimindo no tratamento de neoplasias, ainda temos muitos desafios pela frente. O primeiro deles s&atilde;o os seus efeitos adversos, pois como essas terapias est&atilde;o baseadas na quebra da toler&acirc;ncia imunol&oacute;gica, muitos pacientes apresentam o desenvolvimento de doen&ccedil;as autoimunes", relata. Al&eacute;m disso, a resposta &agrave;s imunoterapias n&atilde;o s&atilde;o homog&ecirc;neas, variando entre pacientes e tipos de tumor.  "Sendo assim, somente mais investimento em pesquisas na &aacute;rea poder&aacute; gerar novos conhecimentos que minimizem efeitos adversos e ampliem a efic&aacute;cia terap&ecirc;utica", defende.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Viola ressalta ainda que "novas terapias costumam apresentar custo elevado devido &agrave; baixa competitividade da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica, protegida por patentes - e esse &eacute; o caso da imunoterapia". A sa&iacute;da, acredita  o pesquisador, &eacute; o incentivo &agrave; ci&ecirc;ncia brasileira, "que poder&aacute; reverter esse panorama em m&eacute;dio e longo prazo, com pesquisas direcionadas &agrave; nossa popula&ccedil;&atilde;o e associadas ao desenvolvimento de tecnologia nacional".</font></p>     ]]></body>
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