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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Indígenas galeg@s e indígenas ameríndi@s: atitudes perante a substituição em contextos multilíngues]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> MULTILINGUISMO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="1b"></a><b>Ind&iacute;genas galeg@s e ind&iacute;genas amer&iacute;ndi@s: atitudes perante a substitui&ccedil;&atilde;o em contextos multil&iacute;ngues<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Teresa Moure Pereiro</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professora titular de lingu&iacute;stica geral na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, e membro da Academia Galega da L&iacute;ngua Portuguesa</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>1</b> A hip&oacute;tese que se apresenta nestas linhas identifica a Galiza como um povo ind&iacute;gena no conjunto da lusofonia, o qual pode parecer um atrevimento, mas, segundo tentaremos demostrar, &eacute; uma inova&ccedil;&atilde;o conceitual necess&aacute;ria para adotarmos medidas de recupera&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua num contexto amea&ccedil;ado pela substitui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maioria d@s galeg@s que n&atilde;o tenham estudos espec&iacute;ficos de lingu&iacute;stica partilham a ideia geral de que na Galiza se fala em galego (embora fosse mais exato dizer que tamb&eacute;m se fala galego porque o contexto de concorr&ecirc;ncia com o espanhol tem colocado a nossa l&iacute;ngua em situa&ccedil;&atilde;o de iminente perigo) &#91;2&#93;. A partir da&iacute;, alguns pensar&atilde;o que o galego &eacute; uma l&iacute;ngua derivada do latim, com o mesmo status de idioma que outras, como o espanhol, e outros que &eacute;, simplesmente, um modo de falar: "o que n&oacute;s falamos" &#91;3&#93;. Os movimentos pol&iacute;ticos e sociais surgidos &agrave; volta da dignifica&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua t&ecirc;m combatido com relativo sucesso a ideia de o galego ser um dialeto apenas apropriado em contextos informais, mas a popula&ccedil;&atilde;o, ap&oacute;s 40 anos de governo democr&aacute;tico, continua a queixar-se da artificialidade do <i>standard</i> (embora todos os <i>standards</i> tenham de ser artificiais) para logo a seguir lamentar que falam "mal", seguindo os modos dom&eacute;sticos ou locais (exatamente como &eacute; feito em toda a parte) ou, de maneira um bocado contradit&oacute;ria com a premissa anterior, que &eacute; perfeitamente natural incorporar formas alheias num processo de hibridiza&ccedil;&atilde;o semelhante ao dos crioulos. Num contexto pol&iacute;tico adverso &agrave; diversidade e &agrave; integra&ccedil;&atilde;o cultural, esquece-se voluntariamente a origem galego-portuguesa documentada na hist&oacute;ria, apesar de a filia&ccedil;&atilde;o do galego como uma variedade do portugu&ecirc;s ter conhecidos defensores entre os grandes vultos liter&aacute;rios, intelectuais e eruditos. Uma declara&ccedil;&atilde;o do g&eacute;nero de "eu estou a falar galego, n&atilde;o a falar em portugu&ecirc;s" &eacute;, sem d&uacute;vida, um preconceito lingu&iacute;stico guiado pela no&ccedil;&atilde;o de Estado, mas vamos tentar analisar o seu impacto duma maneira antropol&oacute;gica visto que poderia ter a ver com um certo orgulho pelo nosso sotaque, pelas nossas peculiaridades, e at&eacute; conter um ar de chauvinismo derivado das pol&iacute;ticas lingu&iacute;sticas estabelecidas. Na linha habitualmente promovida pelas institui&ccedil;&otilde;es, a tribo galega pode falar ou n&atilde;o galego, mas n&atilde;o pode admitir que o galego seja portugu&ecirc;s. Este &eacute; o primeiro ponto: identit&aacute;rio. Tem a ver com sermos uma tribo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>2</b> As e os galegos aprendem no ensino secund&aacute;rio que o latim se tornou em galego na Idade M&eacute;dia. Aprendem igualmente que na altura, a nossa l&iacute;ngua estava na moda e muitos poetas, mesmo estrangeiros, escreviam naquela variedade que vamos denominar galego-portuguesa. Os mapas s&atilde;o complicados porque ainda n&atilde;o havia Estados. Por&eacute;m, num momento determinado, os territ&oacute;rios ao sul do Minho foram com outros mais afastados de n&oacute;s e constitu&iacute;ram Portugal, enquanto os territ&oacute;rios ao norte do Minho ca&iacute;am sob o dom&iacute;nio da coroa de Castela. Como consequ&ecirc;ncia da perda de poder pol&iacute;tico, na Galiza a l&iacute;ngua ficou reduzida a &acirc;mbitos quotidianos e associada ao r&uacute;stico, ao tradicional e frequentemente pouco cultivada (durante os chamados de "s&eacute;culos escuros") ou declaradamente proibida (franquismo). Ao sul do Minho, no entanto, a mesma l&iacute;ngua tornou-se em l&iacute;ngua de na&ccedil;&atilde;o, com presen&ccedil;a na corte e no mercado, na ci&ecirc;ncia e nos caf&eacute;s, no p&uacute;blico e no privado. A tribo, portanto, fica fora da estrutura do Estado, isolada da hist&oacute;ria e do futuro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Usarei dois exemplos que ilustram, a meu ver, as carater&iacute;sticas lingu&iacute;sticas dessa variedade tribal, condenada ao desaparecimento:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a) Embora o galego tenha desenvolvido a partir do s&eacute;culo XIX uma rica literatura, @s escritor@s &#91;1&#93; continuam a ter problemas para desenvolver as suas cria&ccedil;&otilde;es. Imaginemos um romance onde a protagonista &eacute; uma mulher galega na casa dos 70 anos e ju&iacute;za de profiss&atilde;o, um caso documentado na literatura galega dos &uacute;ltimos anos &#91;4&#93;. O/a autor/a teria s&eacute;rios problemas para caraterizar a fala dessa personagem, a maneira em que se expressaria informalmente, os prov&eacute;rbios que usaria. &Eacute; dif&iacute;cil, talvez, de perceber as dificuldades criativas que se enfrentam num tal caso quando a globaliza&ccedil;&atilde;o dita que habitamos um planeta uniforme. Apenas n&oacute;s, ind&iacute;genas, podemos entender o problema: &eacute; absolutamente inveros&iacute;mil na sociedade galega atual que uma mulher de proced&ecirc;ncia burguesa e dessa idade falasse com os filhos em galego. Isso &eacute; que significa n&atilde;o termos completamente (n&atilde;o ainda, n&atilde;o apesar de tantos esfor&ccedil;os) uma l&iacute;ngua de na&ccedil;&atilde;o. Temos como l&iacute;ngua culta uma variedade de portugu&ecirc;s. O que n&atilde;o temos &eacute; uma l&iacute;ngua vers&aacute;til, uma l&iacute;ngua com g&iacute;rias profissionais, com varia&ccedil;&otilde;es urbano/rural, com registos sociais; em particular, com registo juvenil.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">b) Vamos, desta maneira, para o segundo exemplo. Sempre pergunto nas aulas como se diz em galego uma frase da g&iacute;ria da noite que @s jovens usam em espanhol "Esse t&iacute;o me est&aacute; entrando". Habitualmente respondem com um "Esse t&iacute;o est&aacute;-me entrando". Eis o problema da hibrida&ccedil;&atilde;o. Porque que <i>entrar</i> em espanhol tenha a ace&ccedil;&atilde;o de "achegamento com inten&ccedil;&atilde;o sexual" n&atilde;o significa que noutras l&iacute;nguas tenha que suceder o mesmo. As e os galegos n&atilde;o traduziriam para o ingl&ecirc;s esse significado com o termo <i>enter</i>. De maneira semelhante, em espanhol diz-se <i>igual llueve</i> com sentido dubitativo. Isso n&atilde;o significa que em galego devamos dizer <i>igual chove</i>, renunciando a formas patrimoniais do estilo de <i>se calhar</i> ou da, mais habitual na Galiza, <i>se quadra</i>. Os galegos n&atilde;o come&ccedil;ariam uma frase dubitativa em ingl&ecirc;s com <i>equal</i>, mas com <i>perhaps</i> ou com <i>maybe</i>. A conclus&atilde;o que se extrai deste exemplo &eacute; que, no contexto de concorr&ecirc;ncia com o espanhol, devem ser estimuladas as pol&iacute;ticas lingu&iacute;sticas que permitam aos falantes da tribo isolada por uma barreira de Estado tomarem contacto com uma forma vers&aacute;til e fecunda da sua l&iacute;ngua; com uma l&iacute;ngua viva em todos os seus registos. Doutro modo, acabam por conhecer com maior aproveitamento o ingl&ecirc;s adquirido como segunda l&iacute;ngua que a sua pr&oacute;pria l&iacute;ngua nativa.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas pol&iacute;ticas implementadas durante estes 40 anos, considera-se que a popula&ccedil;&atilde;o galega, se estiver dentro do seu territ&oacute;rio, permanece dentro da tribo. Como se a l&iacute;ngua, a sua qualidade, j&aacute; n&atilde;o contasse. Nada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por&eacute;m, vista a proximidade gen&eacute;tica e hist&oacute;rica existente entre os romances da pen&iacute;nsula ib&eacute;rica, um galego de qualidade inserto no conjunto dos pa&iacute;ses de fala portuguesa, &eacute; imprescind&iacute;vel para a subsist&ecirc;ncia. Perdermos qualidade significa passarmos a falar esse espanhol que envolve a vida di&aacute;ria (no ensino, na comunica&ccedil;&atilde;o social e no relacionamento com o governo central).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ora, a variedade tornada em l&iacute;ngua de Estado ao sul do Minho, o portugu&ecirc;s, viu-se implicada em processos de coloniza&ccedil;&atilde;o na Am&eacute;rica, na &Aacute;frica, na &Aacute;sia. Eis que a unidade das etiquetas parcialmente quebra. Qualquer observador internacional pode perceber que entre as falas portuguesas e brasileiras existem as tens&otilde;es pr&oacute;prias das antigas metr&oacute;pole e col&oacute;nia. No entanto, quando uma pessoa galega e uma brasileira se encontram, esta &uacute;ltima fica surpreendida: pode perceber perfeitamente o que diz algu&eacute;m que tem carta de apresenta&ccedil;&atilde;o como cidad&atilde; espanhola; mesmo percebe melhor uma galega do que uma lisboeta. Essa cumplicidade - t&atilde;o interessante para a colabora&ccedil;&atilde;o em termos culturais, econ&oacute;micos, pol&iacute;ticos - ainda pode ser alimentada pela consci&ecirc;ncia de o Brasil e a Galiza sermos periferia e, sobretudo, pelo facto de a Galiza nunca ter colonizado o Brasil. Estamos a bater com os conceitos de centro e periferia, decisivos na hora de uma l&iacute;ngua se manter ou morrer.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A coloniza&ccedil;&atilde;o leva-nos para a hip&oacute;tese inicial. Mesmo nos &acirc;mbitos acad&eacute;micos, termos como <i>ind&iacute;gena</i> ou <i>tribo </i>s&atilde;o usados com uma absoluta falta de rigor que permite qualificar o russo como uma l&iacute;ngua e o potaw&aacute;tomi como o dialeto duma tribo ind&iacute;gena. O etnocentrismo habitual nos centros de difus&atilde;o do saber afeta a nossa perce&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica da realidade. Embora muitas publica&ccedil;&otilde;es de refer&ecirc;ncia usem esse estilo de terminologia, para algu&eacute;m que mora na Galiza &eacute; evidente que essas etiquetas s&atilde;o armas carregadas de ideologia, que assinalam periferias do poder. Como n&oacute;s. Evidentemente, ser periferia &eacute; ocupar as bermas, mas da&iacute;, precisamente, emana uma fonte de contrapoder.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na tradi&ccedil;&atilde;o colonizadora europeia o termo <i>tribo</i> foi usado pela antropologia no sentido pejorativo de "agrupamento humano com uma cultura rudimentar". A falta de tecnologia de muitas tribos tornava num elemento fulcral para estas serem consideradas organiza&ccedil;&otilde;es primitivas, povos subdesenvolvidos que podiam ser saqueados ou tutelados. Um olhar cr&iacute;tico convida a revisar, no contexto atual de morte de l&iacute;nguas no planeta, os conceitos de <i>tribo</i> e de <i>ind&iacute;gena</i>. A hip&oacute;tese &eacute; se na Galiza somos um povo ind&iacute;gena e que contributo poder&iacute;amos chegar, por essa condi&ccedil;&atilde;o, ao conjunto da lusofonia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>3</b> Na hist&oacute;ria da lingu&iacute;stica aparece bem documentado o cap&iacute;tulo da coloniza&ccedil;&atilde;o. Nos barcos que partiam de Castela ou de Portugal para "fazer as &Iacute;ndias" viajavam tamb&eacute;m mission&aacute;rios, especialmente jesu&iacute;tas, que aprendiam rapidamente as l&iacute;nguas abor&iacute;genes para assim traduzirem a B&iacute;blia e completar a tarefa imperialista. Pretendiam inscrever a cosmovis&atilde;o europeia nas mentes das popula&ccedil;&otilde;es subjugadas. Foi a&iacute; que come&ccedil;ou a tradi&ccedil;&atilde;o de descrever as l&iacute;nguas ind&iacute;genas como menores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uns anos atr&aacute;s, um grupo de investiga&ccedil;&atilde;o da Universidade de Santiago de Compostela sob a minha dire&ccedil;&atilde;o &#91;5&#93; contrastou os dados dos grandes cat&aacute;logos e atlas de l&iacute;nguas do mundo para desvendar os mecanismos ideol&oacute;gicos que estavam a se infiltrar nos procedimentos cient&iacute;ficos e a deturpar os resultados. Esquematizarei a seguir sucintamente o tratamento que concedem &agrave;s l&iacute;nguas ind&iacute;genas.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">a) N&atilde;o temos estima&ccedil;&otilde;es fi&aacute;veis do n&uacute;mero de falantes: os atlas n&atilde;o coincidem nem de maneira aproximada. Com frequ&ecirc;ncia mencionam como base censos antigos sem dar explica&ccedil;&atilde;o das causas de n&atilde;o acudirem para cifras mais recentes: por acaso os governos dos Estados n&atilde;o responderiam a um inqu&eacute;rito universit&aacute;rio? Provavelmente n&atilde;o, mas isto tamb&eacute;m deveria ser denunciado. A usarmos a hip&oacute;tese do galego como povo ind&iacute;gena, podemos perguntar se todos os galegos devem aparecer no c&ocirc;mputo de falantes de galego ou se os galegos h&atilde;o de ser contados duas vezes - como falantes de galego e como falantes de espanhol. A dia de hoje as estima&ccedil;&otilde;es dos atlas parecem, no m&iacute;nimo, pouco rigorosas.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">b)  As l&iacute;nguas ind&iacute;genas t&ecirc;m nomes diversos e isso gera confus&atilde;o. Quando falamos duma l&iacute;ngua como o dan&ecirc;s, pequena em n&uacute;mero de falantes, mas protegida por um Estado, assumimos a exist&ecirc;ncia de varia&ccedil;&atilde;o interna: todos os daneses que puderem existir, variantes geogr&aacute;ficas, hist&oacute;ricas ou sociais, remitem para a entidade abstrata denominada de dan&ecirc;s. Por&eacute;m, a lingu&iacute;stica transmite uma dupla mensagem quando faz uma declara&ccedil;&atilde;o do estilo de "a l&iacute;ngua toba, tamb&eacute;m conhecida como tob, qom, namqom, qoml'ek, chaco sul ou toba qom, pertence ao grupo guaicuru". N&atilde;o sabemos se estas diversas denomina&ccedil;&otilde;es correspondem com grupos &eacute;tnicos, com dialetos ou com as diferentes formas de reconhecer esse povo por parte dos seus vizinhos. Mas ficamos com a sensa&ccedil;&atilde;o de o toba n&atilde;o ser uma l&iacute;ngua ao mesmo n&iacute;vel que o dan&ecirc;s.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">c) Observa-se no material publicado uma excessiva tend&ecirc;ncia ao ritual folk. Quando declararem, relativamente a uma comunidade, que &eacute; pequena e constitu&iacute;da por pastores n&oacute;mades ou agricultores, um dado aparentemente objetivo, est&atilde;o a contribuir para que a sua l&iacute;ngua seja interpretada como <i>tribal</i>, no sentido, inadequado, de "pr&oacute;pria duma sociedade fora de s&iacute;tio no s&eacute;culo XXI". Tribo &eacute;, de maneira sibilina, uma etiqueta depreciativa porque &eacute; reservada para os nivacl&eacute;, os tsakhur ou os nomatsiguenga, n&atilde;o para falantes de ingl&ecirc;s, &aacute;rabe ou catal&atilde;o.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">d) A hist&oacute;ria das tribos apresenta-se como conflituosa: ocupa&ccedil;&otilde;es do territ&oacute;rio por parte doutros povos, ex&iacute;lios for&ccedil;ados, migra&ccedil;&otilde;es por perda do habitat s&atilde;o frequentes. Obviamente n&atilde;o se reconstrue da mesma maneira o ingl&ecirc;s (ocupado pelos normandos em parte da sua hist&oacute;ria), ou o &aacute;rabe na pen&iacute;nsula ib&eacute;rica.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">e) A hist&oacute;ria interna da l&iacute;ngua no caso das tribos apenas &eacute; conhecida. Enquanto l&iacute;nguas como o italiano ou o alem&atilde;o, relativamente recentes na sua estandardiza&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&atilde;o nunca descritas como afetadas de dialetaliza&ccedil;&atilde;o, para as pequenas l&iacute;nguas do mundo incide-se nas dificuldades de os falantes se compreenderem entre si, na aus&ecirc;ncia de est&acirc;ndares ou de formas escritas.</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">f) Falta de apoio t&eacute;cnico. As l&iacute;nguas em perigo n&atilde;o s&atilde;o descritas como deposit&aacute;rias dum saber interessante. Os dados lingu&iacute;sticos acumulam-se sem ordem e os investigadores aproveitam para l&aacute; colocar qualquer informa&ccedil;&atilde;o ao dispor. N&uacute;mero de fonemas, forma&ccedil;&atilde;o do feminino ou peculiaridades do sistema verbal aparecem por junto, como marca de erudi&ccedil;&atilde;o: a l&iacute;ngua existe, parecem dizer. Pouco mais. Quando os dados lingu&iacute;sticos n&atilde;o primarem sobre aprecia&ccedil;&otilde;es culturais gen&eacute;ricas (frequentemente depreciativas como <i>animistas</i> ou <i>xamanistas</i>), o respeito para o outro impl&iacute;cito no estudo lingu&iacute;stico desaparece.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">g) Falta de referentes: N&atilde;o se fala de que Kofi Annan, que chegou a ser secret&aacute;rio geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), nasceu na Ghana e falou fante antes que ingl&ecirc;s. N&atilde;o se fala de que Philip Emeagwali, cientista da computa&ccedil;&atilde;o, nasceu na Nig&eacute;ria e foi criado em diferentes l&iacute;nguas africanas, como Christopher Chetsanga, doutor em bioqu&iacute;mica e biologia molecular e prestigioso cientista, nascido em Zimbabwe. N&atilde;o se fala da biotecn&oacute;loga Kiran Mazumdar-Shaw, de l&iacute;ngua materna gujarati. Quando se vincula a l&iacute;ngua a agricultores e recolectoras e n&atilde;o a personalidades da pol&iacute;tica, cientistas, artistas est&aacute;-se a minguar o seu prest&iacute;gio. Neste sentido, a escritora ugandesa Doreen Baingana publicava em 2009 &#91;6&#93; umas declara&ccedil;&otilde;es bem ricas sobre convic&ccedil;&otilde;es, hist&oacute;rias de fam&iacute;lia, vontades e limites:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Para quase todos os africanos, nalgum lugar na linha familiar, existe um momento de encontro com um poder e uma cultura colonial que determina a linha das gera&ccedil;&otilde;es futuras. &#91;...&#93; A m&atilde;e fala-nos em runyankore, a l&iacute;ngua do pai, que &eacute; muito semelhante ao rukiga, a sua l&iacute;ngua materna. N&oacute;s respondemos em ingl&ecirc;s. A gera&ccedil;&atilde;o dos meus pais, que fora &agrave; escola nos dias coloniais de 40 e 50, foi ensinada por brancos. O ingl&ecirc;s da minha m&atilde;e &eacute; melhor do que o de muitas pessoas da minha gera&ccedil;&atilde;o, em parte porque as nossas escolas p&uacute;blicas foram piorando com a passagem dos anos. Acho que os meus pais estavam orgulhosos de que n&oacute;s fal&aacute;ssemos ingl&ecirc;s t&atilde;o novos porque eles tiveram de o aprender sendo adultos. Nunca pensaram que tinham de nos ensinar runyankore ou rukiga. Chegaram l&aacute; naturalmente e assim fariam. N&oacute;s n&atilde;o. Fomos &agrave; escola prim&aacute;ria em Entebbe, onde era proibida qualquer l&iacute;ngua que n&atilde;o fosse o ingl&ecirc;s. N&oacute;s pr&oacute;prios levamos a pol&iacute;tica para a casa. A brutalidade e a guerra econ&oacute;mica tiveram uma consequ&ecirc;ncia ainda mais nociva: colocaram a cultura em coma. Como resultado, n&atilde;o havia muita cultura nova a que pud&eacute;ssemos abra&ccedil;ar-nos. O sua&iacute;li tornou-se numa l&iacute;ngua de tortura e viu-se relegado para o ex&eacute;rcito. Havia livros acess&iacute;veis, ainda que velhos e escassos. O meu cora&ccedil;&atilde;o adorava os livros e o ingl&ecirc;s deu-me uma fina aprecia&ccedil;&atilde;o de nuances e poesia. N&atilde;o &eacute; acidental que seja escritora. O ingl&ecirc;s funcionou comigo. Por&eacute;m que &eacute; o que dei em troca nessa luta? N&atilde;o se trata apenas da l&iacute;ngua, mas de todos os aspetos da cultura que recebemos e escolhemos abra&ccedil;ar e passar para outros: que hist&oacute;rias contamos &agrave;s crian&ccedil;as, que can&ccedil;&otilde;es lhes ensinamos a cantar, que comida comemos e como a cozinhamos, que rituais internalizamos ou n&atilde;o, o modo em que pensamos. Deixaremos tudo isto ao acaso ou tomaremos decis&otilde;es calculadas? N&atilde;o dei ao meu filho um nome em ingl&ecirc;s e n&atilde;o o batizarei, embora isso apavore os meus vizinhos. Falo a Kamara num runyankore rudimentar e a minha m&atilde;e e as minhas irm&atilde;s gozam comigo. Agora vivemos no Qu&eacute;nia, de maneira que ele fala uma mistura de sua&iacute;li, luhya e ingl&ecirc;s &#91;&hellip;&#93; Embora eu quisesse aprender o que a minha m&atilde;e sabe e o meu pai soube, para o passar a Kamara, ia isso ajud&aacute;-lo na &Aacute;frica que estamos a criar? "</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todos os problemas aludidos por Doreen Baingana s&atilde;o tristemente conhecidos na Galiza. Mas talvez n&atilde;o seja a hist&oacute;ria familiar, posta em foco no texto, o mais emotivo a meu ver. O que comove sem d&uacute;vida &eacute; a frase "falo a Kamara num runyankore rudimentar", eloquente da convic&ccedil;&atilde;o da escritora e das suas dificuldades para se expressar nessa l&iacute;ngua. Porque este fen&ocirc;meno tamb&eacute;m existe entre n&oacute;s: o de pessoas que querem transmitir um legado &agrave; gera&ccedil;&atilde;o seguinte, mesmo se para elas seria mais c&oacute;modo expressar-se na l&iacute;ngua dominante. A lingu&iacute;stica galega elaborou para elas o termo <i>neofalante</i>, carregado de &oacute;dio, porque assinala para algu&eacute;m n&atilde;o completamente confi&aacute;vel nos seus usos. Por&eacute;m, uma neofalante de runyankore como Doreen Baingana est&aacute; a devolver &agrave; l&iacute;ngua a sua dignidade. Todas as pol&iacute;ticas lingu&iacute;sticas que idealizemos numa &eacute;poca de tend&ecirc;ncia para a uniformiza&ccedil;&atilde;o como a presente deveriam estar destinadas a que muitos indiv&iacute;duos se comprometessem com l&iacute;nguas menorizadas, mesmo com as dificuldades expressivas comentadas no apartado 2. Para a preserva&ccedil;&atilde;o. E para a desforra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente &eacute; preciso mencionar o assunto, n&atilde;o muito claro, dos suic&iacute;dios abor&iacute;genes. Existem casos documentados de tribos inteiras que querem desaparecer. Entre os guarani-kaiow&aacute; do Brasil, por exemplo, regista-se um suic&iacute;dio juvenil por semana, uma taxa 34 vezes superior a m&eacute;dia nacional. Importa c&aacute; dizer que na hist&oacute;ria recente essa comunidade foi obrigada a viver em reservas para as suas terras serem entregues a agricultores. Na antropologia chamam isto de <i>genoc&iacute;dio silencioso</i>. Igualmente, o governo da Austr&aacute;lia j&aacute; abriu um projeto para a preven&ccedil;&atilde;o do suic&iacute;dio entre abor&iacute;genes, fen&oacute;meno que tamb&eacute;m afeta os nunak da Col&ocirc;mbia ou os atawapiskat do Canad&aacute;. Existem muitos mais exemplos, marcados pela pobreza, o &aacute;lcool, as drogas, a falta de emprego e a discrimina&ccedil;&atilde;o. Nos casos mais leves, os povos simplesmente n&atilde;o encontram no mundo atual vias para se manterem diferenciados e n&atilde;o querem assimilar-se. Deixam de ter descend&ecirc;ncia, deixam de se projetarem no futuro. Nestes casos, a l&iacute;ngua fica diretamente sem falantes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todos esses tra&ccedil;os est&atilde;o a se manifestar na nossa tribo, que debate se o seu nome deve ser Galiza (o nome na nossa l&iacute;ngua) ou Galicia (o nome em espanhol), que canta a diversidade dialetal e despreza as suas possibilidades de comunica&ccedil;&atilde;o com outras na&ccedil;&otilde;es, que carece de referentes nas modas da cultura popular, para al&eacute;m de ter uma alta taxa de suic&iacute;dio e a menor natalidade da Europa. O Estado espanhol est&aacute; interessado em apresentar-nos como uma tribo no sentido rudimentar. O Estado portugu&ecirc;s nem sempre olha para n&oacute;s porque somos a sua origem e a sua vergonha, no sentido de sermos quem se apresenta perante si como falante de espanhol. Se, al&eacute;m do mais, a tradi&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica dos estudos lingu&iacute;sticos n&atilde;o se ocupa disto, a superviv&ecirc;ncia revela-se como assunto complicado &#91;7&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>4</b> A morte das l&iacute;nguas &eacute; o fen&oacute;meno cultural mais pavoroso que podemos contemplar a dia de hoje porque encena todos os demais: materialismo capitalista, supremacismo branco, &oacute;dio para o outro e aplauso generalizado do pensamento &uacute;nico. O problema come&ccedil;ou a ser percebido em 1992, quando Michael Krauss publicava um artigo a augurar que para fins do s&eacute;culo XXI 90% das l&iacute;nguas faladas naquela altura (j&aacute; diminu&iacute;das relativamente a um s&eacute;culo atr&aacute;s, por exemplo) ter&atilde;o desaparecido &#91;8&#93;. &Eacute; curioso que na Galiza, sempre que se fala deste tema se levantem feridas. Os conservadores pensam que n&atilde;o &eacute; assim t&atilde;o importante; os nacionalistas pensam que isso n&atilde;o pode ser dito, como se tivessem medo de que a profecia se cumprisse apenas por se falar dela. Por&eacute;m, proteger o galego na Galiza com medidas legais ou pr&aacute;ticas educativas s&oacute; arranjaria uma parte do problema. Importa &eacute; reconhecer que o fen&oacute;meno n&atilde;o se deve ao franquismo, &agrave;s peculiaridades pol&iacute;ticas do Estado espanhol ou a qualquer tra&ccedil;o idiossincr&aacute;tico dos galegos. As l&iacute;nguas est&atilde;o a morrer no mundo de maneira acelerada. A globaliza&ccedil;&atilde;o influi ainda mais que as pol&iacute;ticas dos Estados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pensar que a morte das l&iacute;nguas &eacute; um problema lingu&iacute;stico (ou de linguistas) &eacute; um erro, visto que a pr&oacute;pria disciplina, com os seus m&eacute;todos, est&aacute; implicada no problema. Na biologia fala-se duma pr&aacute;tica "de bota" e outra "de bata", segundo seja feita a partir da observa&ccedil;&atilde;o da natureza ou no laborat&oacute;rio. Usando esse s&iacute;mil, a lingu&iacute;stica de bota &eacute; escassa; quase todas as escolas que fizeram a hist&oacute;ria da disciplina foram de bata, no sentido de se fazerem num gabinete. Este panorama muda se colocarmos o foco no interesse suscitado na tradi&ccedil;&atilde;o antropol&oacute;gica dos estudos lingu&iacute;sticos pelas l&iacute;nguas amer&iacute;ndias. Por serem claramente diferentes das l&iacute;nguas indo-europeias, armadas em modelo para elaborar o imenso aparato conceptual da lingu&iacute;stica contempor&acirc;nea, as variedades amer&iacute;ndias produzem reflex&otilde;es de valor filos&oacute;fico, alertam sobre a exist&ecirc;ncia doutras cosmovis&otilde;es; desafiam o pensamento &uacute;nico. Finalmente, s&atilde;o um tesouro que deve ser preservado e dalguma maneira tamb&eacute;m s&atilde;o nossas, das pessoas que falamos outras variedades diferentes e long&iacute;nquas. Todas as l&iacute;nguas s&atilde;o patrim&oacute;nio da humanidade, como o museu do Louvre ou a muralha chinesa e as que conservam pontos de vista diferentes sobre a realidade constituem uma extraordin&aacute;ria porta aberta para o mundo, porque nos fazem pensar em quest&otilde;es que, da nossa &oacute;tica, n&atilde;o poder&iacute;amos pensar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em luisenho, uma l&iacute;ngua do grupo uto-azteca, origin&aacute;ria do sul da Calif&oacute;rnia, os verbos t&ecirc;m formas l&eacute;xicas diferentes para singular, de maneira que o equivalente a <i>correr</i> expressa-se duma maneira se houver um s&oacute; corredor ou se um grupo de pessoas correrem juntas ou <i>voar</i> ter&aacute; uma forma para um p&aacute;ssaro a cruzar s&oacute; pelo c&eacute;u e outra se a a&ccedil;&atilde;o for realizada por uma bandada inteira. O luisenho est&aacute; a conceder valor gramatical aos coletivos. O kalispel, falado no Oreg&atilde;o, n&atilde;o tem formas de substantivo para <i>lago</i> ou <i>montanha</i>; &eacute; obrigado a usar verbos e, dessa maneira, assinalar que a montanha ou o lago est&atilde;o a suceder como um evento; n&atilde;o s&atilde;o entidades passivas. Com efeito, a revolu&ccedil;&atilde;o industrial produziu-se em sociedades que falavam l&iacute;nguas indo-europeias, onde os acidentes da paisagem eram idealizados como coisas e, portanto, um rio podia ser destinado a mover uma turbina e produzir energia, ou uma montanha podia ser furada para obter minerais. Estes exemplos encenam uma diferente maneira de contemplar a natureza e o relacionamento dos humanos com ela; s&oacute; por esse motivo j&aacute; deveriam ser preservadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este estilo de conhecimentos sobre l&iacute;nguas consideradas ex&oacute;ticas chega a n&oacute;s atrav&eacute;s duma rama dos estudos lingu&iacute;sticos que permite retomar o assunto da tribo e dos ind&iacute;genas. Nos Estados Unidos, a antropologia e a lingu&iacute;stica de come&ccedil;os do s&eacute;culo XX percebem que t&ecirc;m um arsenal de dados ao dispor. Esses linguistas superaram o preconceito de que as <i>verdadeiras</i> l&iacute;nguas eram o latim e o grego e lan&ccedil;aram-se a viver em tribos, a apanhar conhecimento delas. Por focar num caso, conhecemos a gram&aacute;tica do potaw&aacute;tomi porque Charles Hockett, um dos vultos da lingu&iacute;stica, lhe dedicou a sua tese de doutoramento em 1939. O potaw&aacute;tomi era uma l&iacute;ngua de &iacute;ndios. Nesse caso, algonquinos que moravam numa extensa regi&atilde;o, da zona do Ont&aacute;rio (no Canad&aacute;), at&eacute; os estados de Wisconsin, Illinois, Indiana e Michigan. Hockett era algu&eacute;m com um genu&iacute;no interesse pelas l&iacute;nguas todas. De facto, serviu no ex&eacute;rcito e dedicou-se durante anos a escrever um manual de chin&ecirc;s, meticuloso e magn&iacute;fico, que produziu tanto respeito nos seus superiores como para lhe permitirem dar aulas dessa l&iacute;ngua em vez de seguir o treino militar: a tropa tinha que aprender chin&ecirc;s. Eram outras &eacute;pocas. Ao regressar &agrave; vida civil, editou gram&aacute;ticas de v&aacute;rias l&iacute;nguas amer&iacute;ndias e os seus trabalhos sempre apareciam ilustrados com exemplos ex&oacute;ticos, que exibiam estruturas diferentes das testemunhadas pelas europeias. Por&eacute;m, conclu&iacute;das essas estadias como estudante e como militar, fecha-se em Cornell e n&atilde;o volta a sair. Passa d&eacute;cadas a fazer teoriza&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o consegue estimular o trabalho antropol&oacute;gico numa lingu&iacute;stica que, a partir dos anos 1950, fica orientada para os modelos formais de Chomsky de quem Hockett ser&aacute; advers&aacute;rio lingu&iacute;stico. Explico isto porque a interven&ccedil;&atilde;o de Hockett, embora fosse um entusiasta praticante da lingu&iacute;stica de bota, serviu afinal para que tiv&eacute;ssemos potaw&aacute;tomi em lata, n&atilde;o fresco. Temos potaw&aacute;tomi bem descrito, com as suas peculiaridades de idealizar o tempo como circular, mas n&atilde;o conseguimos preserv&aacute;-la: a &uacute;ltima falante de potaw&aacute;tomi faleceu em 2011. Dos 12 mil potaw&aacute;tomis que ainda existem ningu&eacute;m fala a l&iacute;ngua, mas existe um programa de recupera&ccedil;&atilde;o no ensino, algo bastante frequente nas l&iacute;nguas amer&iacute;ndias de muitos estados norte-americanos; teimam em que as crian&ccedil;as o aprendam nas escolas e t&ecirc;m atualmente uma importante quantidade de recursos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quanto aos estere&oacute;tipos sobre os potaw&aacute;tomis, como em geral sobre todos os &iacute;ndios americanos, s&atilde;o muitos e parcialmente contradit&oacute;rios. Do in&iacute;cio do contato intercultural, foi repetido que os &iacute;ndios eram selvagens, indisciplinados, pregui&ccedil;osos e b&ecirc;bedos. Em simult&acirc;neo, e devido ao sentimento de culpa que aflige as sociedades ocidentais ao contemplar a comprida hist&oacute;ria de abusos e trai&ccedil;&otilde;es perpetradas pelos brancos sobre os &iacute;ndios, &eacute; habitual louvar as suas habilidades, especialmente o relacionamento com a natureza e a espiritualidade. Hoje, existe um grande interesse pela produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica dos potaw&aacute;tomi. Por&eacute;m, cabe notar que as suas produ&ccedil;&otilde;es representam a imaginaria ocidental do &iacute;ndio, n&atilde;o a sua pr&oacute;pria. Como o potaw&aacute;tomi era um povo origin&aacute;rio da floresta profunda do Michigan, os seus s&iacute;mbolos n&atilde;o se relacionam exatamente com os espa&ccedil;os que hoje habitam, num claro sintoma de perda de identidade. Isto na Galiza lembra-me profundamente ao Halloween que substitui aos ritos tradicionais de defuntos, ou &agrave;s festas (feria de abril, touradas) importadas do sul da Espanha com grandes campanhas publicit&aacute;rias. Os ind&iacute;genas do mundo n&atilde;o podem reconciliar-se com institui&ccedil;&otilde;es que os dispersam ou os aniquilam. Na Am&eacute;rica, os ind&iacute;genas noutras &eacute;pocas n&atilde;o falavam as l&iacute;nguas dominantes nem entendiam as rotinas do trato com os governos. Porque o m&eacute;todo &iacute;ndio tradicional de resolver problemas consiste, precisamente, em se reunir em conc&iacute;lios para falar todos os temas e chegar a consensos. Abandonar a l&iacute;ngua implicou abandonar o como falar, mas tamb&eacute;m o <i>de que falar</i>, o costume de decidir conjuntamente sobre todos os assuntos. Com as devidas dist&acirc;ncias, porque a cultura galega &eacute; uma cultura europeia, isto est&aacute; a passar aqui: acultura&ccedil;&atilde;o, perda de tra&ccedil;os diferenciais e aceita&ccedil;&atilde;o do modo de vida dos pa&iacute;ses ditos desenvolvidos. No caso galego, a perda de perfil diferenciado aprecia-se em que eucaliptaliza&ccedil;&atilde;o e desgaleguiza&ccedil;&atilde;o sejam processos paralelos. Cada tribo precisa perceber o seu car&aacute;ter &uacute;nico, atrav&eacute;s de experi&ecirc;ncias relevantes. Nem os &iacute;ndios parvos dos <i>westerns</i>, nem Potahontas podem ser referentes. Tamb&eacute;m n&atilde;o os &iacute;ndios que presenteiam com tabaco e tomates aos senhores navegantes europeus. Cada grupo deve decidir se quer defender a sua terra e os seus s&iacute;mbolos. Eis o legado dos movimentos em defesa da l&iacute;ngua nos pa&iacute;ses sem Estado da Europa. Eis o papel do povo galego no conjunto da lusofonia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>5</b> A variedade de portugu&ecirc;s falada ainda na Galiza, o galego, pode subsistir. Comparado com o noruegu&ecirc;s, o dan&ecirc;s ou o hebreu, n&atilde;o &eacute; assim muito menor em n&uacute;mero de falantes, mas diferentemente dessas l&iacute;nguas n&atilde;o conta com um aparato de Estado na sua defesa. Uma possibilidade de revitaliza&ccedil;&atilde;o muito presente no ativismo passa por estreitar os la&ccedil;os com o resto da lusofonia. Isso exige v&aacute;rios compromissos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em primeiro lugar, dever&iacute;amos revistar os nossos pr&oacute;prios preconceitos como sociedade, recuperando a fala dos nossos maiores e procurando a conflu&ecirc;ncia com as demais falas lus&oacute;fonas. A nossa l&iacute;ngua ganharia em respeito ao passado e em capacidade de comunica&ccedil;&atilde;o internacional, precisamente a via que o ativismo lingu&iacute;stico explora. Em segundo lugar, dever&iacute;amos exigir da administra&ccedil;&atilde;o uma escolariza&ccedil;&atilde;o rigorosa, quer dizer, a aprendizagem do portugu&ecirc;s nas aulas galegas como exige a lei Paz Andrade. N&atilde;o se trata de falarmos ao modo de Lisboa, mas de termos capacidade de desenvolver as nossas peculiaridades. Precisamos dum quadro internacional de contactos culturais e econ&oacute;micos que favore&ccedil;a a estima dos falantes pela sua l&iacute;ngua. Nesse sentido, &eacute; importante evitar o risco da atomiza&ccedil;&atilde;o. A diversidade impl&iacute;cita na dialetologia, tem sido usada como arma pol&iacute;tica. Da&iacute; o apego, academicamente dirigido, &agrave;s falas locais hibridadas com o espanhol. &Eacute; curioso o interesse em escrever com a grafia do espanhol que nos afasta dos demais pa&iacute;ses que falam o nosso idioma e que n&atilde;o vejamos como perigoso ter perdido o futuro de conjuntivo que nos permite pensar no futuro como uma realidade, com o imenso valor pol&iacute;tico de dar forma gramatical &agrave;s utopias. Finalmente, como ind&iacute;genas, temos muito que dar ao conjunto da lusofonia. &Agrave; partida, o reencontro hist&oacute;rico com as ra&iacute;zes pode curar os males da coloniza&ccedil;&atilde;o. Que as crian&ccedil;as em Luanda ou no Rio de Janeiro falem com palavras que podem estimular a fraternidade num tempo onde o conceito de col&oacute;nia deixou de afetar os mapas para se instalar nas mentes, nas rela&ccedil;&otilde;es de classe e de g&eacute;nero. Na Galiza a l&iacute;ngua est&aacute; enferma. Por isso deviam sentir-se comovidos por esse problema noutros territ&oacute;rios lus&oacute;fonos; porque &eacute; a sua mesma l&iacute;ngua que est&aacute; em perigo. Quando o ingl&ecirc;s invade tudo, os galegos podemos ser um indicador de identidade. O termo indigenismo aparece na d&eacute;cada de 1930 com o significado de pol&iacute;tica ou a&ccedil;&atilde;o especial dirigida aos abor&iacute;genes. Neste significado estava inclu&iacute;da a moderniza&ccedil;&atilde;o (a ideia de que era preciso aprimorar as condi&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas e sociais dessas minorias), mas tamb&eacute;m a indianiza&ccedil;&atilde;o que visava resgatar, revalorizar ou reinventar elementos ind&iacute;genas relativos &agrave;s l&iacute;nguas e &agrave;s culturas (costumes, institui&ccedil;&otilde;es tradicionais, tratamento da terra e dos recursos naturais; exatamente os aspetos que na Galiza est&atilde;o presentes nas reivindica&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas do ativismo lingu&iacute;stico). Eis o efeito da emerg&ecirc;ncia: pareceria que durante os s&eacute;culos XIX e XX, &agrave; medida que o liberalismo se centrava nos direitos de cidadania, os ind&iacute;genas teriam desaparecido. Por&eacute;m, ind&iacute;genas existimos, tribos existimos. Temos dificuldades para manter o nosso legado ancestral e fazer parte do conjunto da humanidade. Temos dificuldades com o conceito de Estado homogeneizador. Temos dificuldades para decidir se a nossa descend&ecirc;ncia ser&aacute; ou n&atilde;o ind&iacute;gena. Mas guardamos ainda as nossas diferen&ccedil;as. Porque o poder subversivo de sermos tribo implica aceitar que, como na biologia, na l&iacute;ngua a diversidade &eacute; riqueza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Utilizo a grafia @ para expressar a diversidade de g&eacute;nero a evitar a duplica&ccedil;&atilde;o masculino/feminino.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Existem cifras oficiais para corroborar essa leitura que podem ser comprovadas nos diferentes volumes do <i>Atlas Sociolingu&iacute;stico de Galicia</i> publicado pela Real Academia Galega em 2004 (de consulta on-line). Para uma vers&atilde;o das causas lida em termos de ecologia lingu&iacute;stica, vid. Moreira Barbeito, M. (2014), <i>Contra a morte das l&iacute;nguas. O caso do galego, Vigo, Xerais</i>.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. O galego aparece hoje como l&iacute;ngua independente em muitos atlas de l&iacute;nguas do mundo, entre eles o <i>Ethnologue</i>.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Moure, T. (2014). <i>Uma m&atilde;e t&atilde;o punk</i>, Lisboa: Chiado.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. <i>Linguagem e ideologia: o invent&aacute;rio da linguodiversidade </i>(PGIDIT02PXIA20406PR).    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. O fragmento corresponde a um artigo de Doreen Baingana publicado em <i>The Africa Report,</i> 23 de novembro de 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Para uma informa&ccedil;&atilde;o mais detalhada destes e doutros dados inclu&iacute;dos no presente artigo, vid. Moure, T. (2019), <i>Lingu&iacute;stica eco. O estudo das l&iacute;nguas no Antropoceno</i>, Santiago de Compostela: Atrav&eacute;s editora.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Krauss, M. (1992), "The world's languages in crisis". <i>Language,</i> 68, p. 1-42.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt"></a><a href="#nta">*</a> Nota do editor: Este artigo est&aacute; escrito em portugu&ecirc;s da Galiza. Optamos por manter a grafia e o l&eacute;xico, pois apesar de algumas pequenas diferen&ccedil;as em rela&ccedil;&atilde;o ao portugu&ecirc;s brasileiro (como alguns acentos e palavras), o texto &eacute; completamente compreens&iacute;vel.</font></p>       ]]></body><back>
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