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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>BRASIL    <br> HIST&Oacute;RIA AMBIENTAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Rela&ccedil;&atilde;o entre homens e animais transforma comportamentos dos humanos e dos bichos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a04fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cachorro ou gato? Ou talvez coelho, iguana, papagaio ou at&eacute; um peixinho dourado... N&atilde;o importa qual seja a op&ccedil;&atilde;o, o fato &eacute; que os bichos de estima&ccedil;&atilde;o est&atilde;o em boa parte dos lares ao redor do globo. No Brasil, j&aacute; existem mais de 132 milh&otilde;es de pets, de acordo com o IBGE. No mundo todo, s&atilde;o mais de 12 milh&otilde;es de fam&iacute;lias com animais de estima&ccedil;&atilde;o, o que corresponde a 40% dos lares segundo o relat&oacute;rio da organiza&ccedil;&atilde;o brit&acirc;nica Pet Food Manufacturer Association (PFMA). E a tend&ecirc;ncia &eacute; que esse n&uacute;mero continue crescendo. Esse aumento vem provocando transforma&ccedil;&otilde;es dr&aacute;sticas na rela&ccedil;&atilde;o entre homens e animais. Na esteira dessas mudan&ccedil;as, comportamento, economia e at&eacute; a legisla&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m t&ecirc;m se alterado nos &uacute;ltimos anos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>SUJEITOS COM DIREITOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em agosto de 2019, o Senado brasileiro aprovou o Projeto de Lei n&deg; 27/2018 que determina que os animais n&atilde;o humanos possuem natureza jur&iacute;dica <i>sui generis</i> e s&atilde;o sujeitos de direitos despersonificados, devendo gozar e obter tutela jurisdicional em caso de viola&ccedil;&atilde;o, vedado o seu tratamento como coisa. Com isso, eles ganham mais uma defesa jur&iacute;dica em caso de maus-tratos. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), relator do projeto na Comiss&atilde;o de Meio Ambiente (CMA), destacou que a nova lei contribuir&aacute; para elevar a compreens&atilde;o da legisla&ccedil;&atilde;o brasileira sobre o tratamento de outros seres. "N&atilde;o h&aacute; possibilidade de pensarmos na constru&ccedil;&atilde;o humana se a humanidade n&atilde;o tiver a capacidade de ter uma conviv&ecirc;ncia pac&iacute;fica com as outras esp&eacute;cies", declarou o senador. "Trata-se de um passo importante em um processo de mudan&ccedil;a institucional dirigida para a amplia&ccedil;&atilde;o da esfera de direitos", aponta Ana Lucia Camphora, professora de direito animal nas Faculdades Integradas H&eacute;lio Alonso. "Na &uacute;ltima d&eacute;cada, a 'causa animal' ganhou uma dimens&atilde;o pol&iacute;tica sem precedentes no Brasil. Do ativismo individualizado, caracterizado por iniciativas isoladas, pouco articuladas e quase exclusivamente associadas &agrave; prote&ccedil;&atilde;o de c&atilde;es e gatos, o movimento de prote&ccedil;&atilde;o animal vem redefinindo modos de intersubjetividade e, sobretudo, ampliando suas bases de articula&ccedil;&atilde;o", defende.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a04fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a04fig03.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a aprova&ccedil;&atilde;o dessa lei, o Brasil junta-se ao seleto grupo de sete pa&iacute;ses que v&ecirc;m mudando sua legisla&ccedil;&atilde;o para reconhecer os direitos dos animais. Alemanha, &Aacute;ustria, Su&iacute;&ccedil;a, Fran&ccedil;a, Portugal, Espanha e Nova Zel&acirc;ndia j&aacute; alteraram suas leis buscando reconhecer os animais como seres vivos dotados de sensibilidade e sujeitos de direito e n&atilde;o como meros "objetos" ou "propriedade".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seu livro <i>Fellow creatures: our obligations to the other animals</i> (Oxford, 2018 - sem tradu&ccedil;&atilde;o para o portugu&ecirc;s), a fil&oacute;sofa Christine Korsgaard defende que os seres humanos repensem suas rela&ccedil;&otilde;es com os animais. "Eles s&atilde;o seres sencientes e alguns s&atilde;o capazes de interagir conosco, mas, por outro lado, est&atilde;o em nossos pratos, puxando nossas carro&ccedil;as, s&atilde;o ca&ccedil;ados para n&oacute;s, s&atilde;o for&ccedil;ados a lutar entre si para nossa divers&atilde;o. Parece apenas uma quest&atilde;o moral &oacute;bvia e ainda assim evitamos nos perguntar: isso est&aacute; certo? Por que &eacute; bom fazer essas coisas?", diz.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MERCADO EM EXPANS&Atilde;O </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A previs&atilde;o &eacute; de que mais pa&iacute;ses se juntem a esse grupo. Tanto por press&atilde;o dos grupos de defesa dos animais, quanto por press&atilde;o do pr&oacute;prio mercado. Afinal, com cada vez mais casas com animais de estima&ccedil;&atilde;o, o mercado pet &eacute; um dos setores que mais vem crescendo nos &uacute;ltimos anos. Mesmo em meio &agrave; crise, o setor continuou em expans&atilde;o, movimentando cerca de R$ 20 bilh&otilde;es no Brasil, segundo dados da Euromonitor International. Essa movimenta&ccedil;&atilde;o colocou o pa&iacute;s como o segundo maior mercado de produtos pet do mundo, com 6,4% de participa&ccedil;&atilde;o, atr&aacute;s apenas dos Estados Unidos. "O setor de cuidados para animais de estima&ccedil;&atilde;o continua a se expandir, principalmente impulsionado pela humaniza&ccedil;&atilde;o dos animais. As categorias <i>premium</i> de <i>pet care</i> apresentaram um forte crescimento e oferecem as melhores perspectivas, j&aacute; que os consumidores de todo o mundo continuam a mimar seus animais de estima&ccedil;&atilde;o", comenta Paula Flores, <i>head de pet care</i> da Euromonitor International, no relat&oacute;rio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>UM LONGO RELACIONAMENTO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Homens e animais compartilham um longo relacionamento. Os animais tiveram um grande papel na vida dos seres humanos, tornando-se parte integrante de nossa sobreviv&ecirc;ncia, nossa hist&oacute;ria e nossa pr&oacute;pria identidade. "A presen&ccedil;a do animal dom&eacute;stico como ser integrante da vida familiar n&atilde;o &eacute; uma novidade nem uma marca da sociedade contempor&acirc;nea", explica Camphora. "O antrop&oacute;logo Felipe Vander Velden realizou um estudo sobre os v&iacute;nculos entre etnias ind&iacute;genas e seus animais de estima&ccedil;&atilde;o. A literatura hist&oacute;rica &eacute; rica em registros de animais privilegiados, sobretudo c&atilde;es, mantidos com status diferenciado no seio da nobreza europeia e russa, sem esquecer dos cavalos. No Brasil, n&atilde;o seria poss&iacute;vel organizar a ocupa&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio, estabelecer canais de circula&ccedil;&atilde;o, consolidar n&uacute;cleos humanos e estabelecer um modelo cultural vinculado ao modelo social portugu&ecirc;s sem a participa&ccedil;&atilde;o ativa e decisiva do gado bovino e dos cavalos, introduzidos j&aacute; no s&eacute;culo XVI", conta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Acredita-se que a domestica&ccedil;&atilde;o de animais data de cerca 12 mil anos atr&aacute;s, no per&iacute;odo neol&iacute;tico: quando o homem aprendeu a cultivar a terra, ele tamb&eacute;m aprendeu a criar animais como reserva alimentar. A associa&ccedil;&atilde;o entre humanos e animais possibilitou uma co-evolu&ccedil;&atilde;o, em que ambas as partes puderam mudar para se adaptar a uma nova realidade.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os animais domesticados, em compara&ccedil;&atilde;o com os animais selvagens, sofreram in&uacute;meras mudan&ccedil;as no comportamento, na fisiologia e na morfologia. Isso explicaria por que os c&atilde;es dom&eacute;sticos de hoje s&atilde;o muito diferentes de seu ancestral, o lobo-cinzento. Essas mudan&ccedil;as incluem, al&eacute;m de maior docilidade, altera&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas no tamanho, na cor e nas caracter&iacute;sticas faciais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recentemente, um estudo realizado na Universidade Harvard, dos Estados Unidos, mostrou que essas altera&ccedil;&otilde;es podem ter sido ainda mais profundas. Em uma an&aacute;lise baseada em resson&acirc;ncia magn&eacute;tica, a neurocientista Erin Hecht demonstrou que a conviv&ecirc;ncia com humanos alterou a estrutura cerebral dos c&atilde;es. Sabe-se que as ra&ccedil;as variam em cogni&ccedil;&atilde;o, temperamento e comportamento, mas as origens neurais dessa varia&ccedil;&atilde;o s&atilde;o desconhecidas. Os resultados da pesquisa apontaram que, atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o seletiva, os seres humanos alteraram significativamente os c&eacute;rebros de diferentes linhagens de c&atilde;es dom&eacute;sticos, de diversas maneiras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas essa &eacute; uma via de m&atilde;o dupla. A conviv&ecirc;ncia com os animais tamb&eacute;m mudou os seres humanos. Talvez o exemplo mais popular seja o consumo de leite: antes da domestica&ccedil;&atilde;o animal, as pessoas naturalmente desenvolviam intoler&acirc;ncia &agrave; lactose &agrave; medida que cresciam e n&atilde;o precisavam mais do leite materno. Quando os seres humanos come&ccedil;aram a criar gado, come&ccedil;aram a beber mais leite, havendo uma adapta&ccedil;&atilde;o do sistema digestivo para acomodar o leite durante toda a vida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Pat Shipman, paleoantrop&oacute;loga da Universidade Pennsylvania State, nos Estados Unidos, a domestica&ccedil;&atilde;o contribuiu para que o homem desenvolvesse ferramentas e at&eacute; a linguagem. "A conex&atilde;o animal percorre toda a hist&oacute;ria humana e conecta os outros grandes saltos evolutivos, incluindo ferramentas de pedra, linguagem e domestica&ccedil;&atilde;o. &Eacute; muito profundo e muito antigo", aponta Shipman, em artigo publicado na revista <i>Current Anthropology</i>.</font></p>      ]]></body>
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