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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b> ARTIGOS    <br>   LITERATURA E CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Literatura como forma de conhecimento</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Lucia Santaella</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pesquisadora 1A do CNPq, professora titular da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP). Publicou 50 livros e organizou 21, al&eacute;m da publica&ccedil;&atilde;o de mais de 400 artigos no Brasil e no exterior. Recebeu os pr&ecirc;mios Jabuti (2002, 2009, 2011, 2014), o pr&ecirc;mio Sergio Motta (2005) e o pr&ecirc;mio Luiz Beltr&atilde;o (2010)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitos afirmam e com eles concordo que a m&uacute;sica, a arte e a literatura s&atilde;o formas de conhecimento. Certamente n&atilde;o se trata do mesmo tipo de conhecimento que a ci&ecirc;ncia nos propicia. Esta penetra pelos meandros mais &iacute;ntimos da realidade f&iacute;sico-qu&iacute;mica, biol&oacute;gica, geol&oacute;gica, ps&iacute;quica e social, entre outras, com a finalidade de desvendar os des&iacute;gnios do universo que habitamos. A literatura e as artes, por seu lado, lidam com distintos des&iacute;gnios, uma distin&ccedil;&atilde;o que este artigo visa explorar e colocar em discuss&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para isso, farei uso da concep&ccedil;&atilde;o muit&iacute;ssimo original que o fil&oacute;sofo, l&oacute;gico e cientista norte-americano, C. S. Peirce, tinha de est&eacute;tica e do papel que as artes e a literatura desempenham nesse contexto. A originalidade nesse caso &eacute; t&atilde;o profunda que come&ccedil;a com a afirma&ccedil;&atilde;o de que, para ele, arte e literatura s&atilde;o ci&ecirc;ncias pr&aacute;ticas. O que isso pode significar? Ao leitor desavisado e carregado de preconcep&ccedil;&otilde;es acerca do que seja ci&ecirc;ncia, de um lado, e arte, de outro, pode parecer que Peirce esteja querendo reduzir esta &uacute;ltima a um mero territ&oacute;rio subalterno da ci&ecirc;ncia. N&atilde;o &eacute; disso que se trata. Mas para bem compreender do que realmente se trata, &eacute; necess&aacute;rio proceder a alguns giros copernicanos em nossa mente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O QUE &Eacute; CI&Ecirc;NCIA PARA PEIRCE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Comecemos pela ci&ecirc;ncia. Quando se menciona esta palavra, os leigos n&atilde;o praticantes e que pouco conhecem sobre o desenvolvimento das ci&ecirc;ncias do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX para c&aacute;, confundem ci&ecirc;ncia com cientificismo a partir de uma concep&ccedil;&atilde;o arraigada de que toda ci&ecirc;ncia &eacute;, por princ&iacute;pio, positivista. Essa ideia de ci&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; mais capaz de caracterizar os avan&ccedil;os pelos quais a ci&ecirc;ncia vem passando, a come&ccedil;ar pela matem&aacute;tica depois do teorema da incompletude de G&ouml;del. Se nem mesmo na matem&aacute;tica existe a presen&ccedil;a do absoluto, onde mais poderia ele ser encontrado? Portanto, a incerteza e indetermina&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m rondam o fazer das ci&ecirc;ncias. Contudo, a concep&ccedil;&atilde;o peirciana de ci&ecirc;ncia vai al&eacute;m disso. &Eacute; ainda mais radical e original.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Peirce, existem duas convencionais concep&ccedil;&otilde;es de ci&ecirc;ncia: a primeira caracteriza a ci&ecirc;ncia como um corpo sistematizado de conhecimento. Na segunda concep&ccedil;&atilde;o, a ci&ecirc;ncia &eacute; um m&eacute;todo de conhecimento. Peirce n&atilde;o aceitou nenhuma das duas concep&ccedil;&otilde;es. A primeira captura apenas os remanescentes fossilizados da ci&ecirc;ncia. A segunda est&aacute; comprometida com uma concep&ccedil;&atilde;o de metodologia excessivamente individualista e n&atilde;o suficientemente din&acirc;mica. Em oposi&ccedil;&atilde;o a essas duas vers&otilde;es, para ele, quando a ci&ecirc;ncia &eacute; compreendida n&atilde;o como um corpo estagnado de cren&ccedil;as, mas como um corpo vivo, em crescimento, a sua inclina&ccedil;&atilde;o natural est&aacute; voltada para a liberdade e a mudan&ccedil;a. A ci&ecirc;ncia &eacute; a busca executada por seres humanos vivos e, quando essa busca &eacute; genu&iacute;na, a ci&ecirc;ncia vive em incessante estado de metabolismo e crescimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mero conhecimento, para ele, &eacute; mem&oacute;ria morta. Em fun&ccedil;&atilde;o disso, Peirce evitou qualquer defini&ccedil;&atilde;o abstrata, precisa e acabada de ci&ecirc;ncia, para preservar a margem de indetermina&ccedil;&atilde;o que &eacute; pr&oacute;pria de todo processo em progresso. Embora sistema e m&eacute;todo, e m&eacute;todo mais do que sistema, sejam essenciais &agrave; concep&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia, ambos falham em transmitir a ideia primordial da ci&ecirc;ncia como algo vivo, levado a cabo por cientistas vivos, movidos pelo desejo de aprender, o desejo inteligentemente sincero e efetivo de aprender. Nesse sentido, basta estarmos alimentados por esse desejo para estarmos inseridos nas comunidades dos cientistas, n&atilde;o importa o qu&atilde;o incipientes podemos nos encontrar nos caminhos da pesquisa (ver &#91;1&#93;, p. 9-11).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O FAZER DA LITERATURA COMO CI&Ecirc;NCIA PR&Aacute;TICA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A concep&ccedil;&atilde;o da literatura e das artes como ci&ecirc;ncias pr&aacute;ticas necessita de explica&ccedil;&otilde;es. Peirce arquitetou uma gigantesca classifica&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias em n&iacute;veis e estratos que v&atilde;o dos mais abstratos at&eacute; os mais concretos e pr&aacute;ticos. Nesse contexto, a filosofia &eacute; uma ci&ecirc;ncia respons&aacute;vel por estabelecer princ&iacute;pios fenomenol&oacute;gicos, est&eacute;ticos, &eacute;ticos, semi&oacute;ticos e metaf&iacute;sicos para as ci&ecirc;ncias especiais, ou seja, as ci&ecirc;ncias emp&iacute;ricas, da f&iacute;sica at&eacute; a psicologia e todas as outras entre elas. As ci&ecirc;ncias n&atilde;o se constituem em ilhas separadas, mas intercomunicantes. As mais abstratas fornecem princ&iacute;pios conceituais para as mais emp&iacute;ricas ao mesmo tempo em que estas fornecem dados para aquelas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, dentro de cada ci&ecirc;ncia os n&iacute;veis se repetem, ou seja, toda ci&ecirc;ncia deve conter um n&iacute;vel nomol&oacute;gico, quer dizer, teor&eacute;tico, conceitual, ent&atilde;o, um n&iacute;vel classificat&oacute;rio, seguido por um n&iacute;vel descritivo e, por fim, um n&iacute;vel aplicado. H&aacute; ci&ecirc;ncias mais formais, outras mais heur&iacute;sticas. Na &eacute;poca em que viveu, na segunda metade do s&eacute;culo XIX, as ci&ecirc;ncias n&atilde;o haviam ainda atingido seu atual n&iacute;vel de complexidade. Isso significa que nem toda ci&ecirc;ncia j&aacute; havia desenvolvido um n&iacute;vel conceitual pr&oacute;prio, tendo, portanto, que importar esse n&iacute;vel de ci&ecirc;ncias mais abstratas. Hoje, entretanto, todas as &aacute;reas do conhecimento humano desenvolveram e continuam desenvolvendo os quatro n&iacute;veis mencionados por Peirce.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No cap&iacute;tulo sobre "A literatura e seus desdobramentos", do livro <i>A assinatura das coisas. Peirce e a literatura</i> &#91;2, p. 159-184&#93;, utilizei o campo da literatura para exemplificar a exist&ecirc;ncia e rela&ccedil;&otilde;es entre os n&iacute;veis propostos por Peirce, a saber, o teorem&aacute;tico, o classificat&oacute;rio, o descritivo e o aplicado, conforme a explana&ccedil;&atilde;o abaixo.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A pretens&atilde;o deste cap&iacute;tulo &eacute; entrar na arena da Literatura. N&atilde;o a &aacute;rea ingovern&aacute;vel e ainda mais desafiadora da arte liter&aacute;ria, da produ&ccedil;&atilde;o criativa das obras em si &#91;...&#93;, mas o intrincado campo da teoria, cr&iacute;tica, interpreta&ccedil;&atilde;o, coment&aacute;rio, divulga&ccedil;&atilde;o, pedagogia e aplica&ccedil;&otilde;es da Literatura que, em todas as suas varia&ccedil;&otilde;es, encaixa-se indiscutivelmente nos diversos n&iacute;veis previstos no diagrama das ci&ecirc;ncias, podendo essas varia&ccedil;&otilde;es serem consideradas como diferentes facetas das ci&ecirc;ncias liter&aacute;rias (nos sentidos que Peirce dava ao termo ci&ecirc;ncia, evidentemente). " &#91;2, p. 159&#93;.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma vez que a tarefa acima j&aacute; foi realizada no passado, o presente artigo visa proceder a um deslocamento da discuss&atilde;o para o papel que as obras liter&aacute;rias, no seu fazer criativo em si, desempenham como forma de conhecimento, quer dizer, &agrave; luz de Peirce, como uma ci&ecirc;ncia pr&aacute;tica. Mais uma vez, o caminho para isso n&atilde;o segue em linhas retas, pois esse papel da literatura s&oacute; pode ser esclarecido por meio da sua conex&atilde;o com a original&iacute;ssima concep&ccedil;&atilde;o de est&eacute;tica de Peirce.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A EST&Eacute;TICA COMO CI&Ecirc;NCIA DO ADMIR&Aacute;VEL</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diferentemente de uma concep&ccedil;&atilde;o extraviada da tradi&ccedil;&atilde;o que concebe a est&eacute;tica como uma ci&ecirc;ncia ou teoria do belo, ou ainda, como uma teoria da arte, para Peirce, a est&eacute;tica &eacute; uma dentre aquelas que ele chamou de ci&ecirc;ncias normativas, a saber: a l&oacute;gica concebida como semi&oacute;tica, a &eacute;tica e a est&eacute;tica. Acreditando que o fim ideal do pensamento nasceria atrav&eacute;s da experi&ecirc;ncia futura, ele compreendeu que as ci&ecirc;ncias normativas teriam por tarefa examinar as leis de conformidade das coisas aos fins, estando a&iacute; a raz&atilde;o pela qual foram chamadas de normativas. Em uma passagem esclarecedora, ele afirmava:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Uma ci&ecirc;ncia normativa &eacute; aquela que estuda o que deve ser. Como, ent&atilde;o, ela pode diferir da engenharia, medicina, ou qualquer outra ci&ecirc;ncia pr&aacute;tica? Se, entretanto, a l&oacute;gica, &eacute;tica e est&eacute;tica, que s&atilde;o as fam&iacute;lias das ci&ecirc;ncias normativas, forem simplesmente as artes do racioc&iacute;nio, da conduta da vida, e das belas artes, ent&atilde;o elas n&atilde;o pertencer&atilde;o ao ramo das ci&ecirc;ncias te&oacute;ricas, que s&atilde;o aquelas que estamos aqui considerando. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que elas est&atilde;o proximamente relacionadas &agrave;s tr&ecirc;s artes correspondentes, ou ci&ecirc;ncias pr&aacute;ticas. Mas aquilo que faz a palavra "normativa" necess&aacute;ria (e n&atilde;o puramente ornamental) &eacute; precisamente o fato bem singular de que, embora essas ci&ecirc;ncias estudem o que deve ser, isto &eacute;, os ideais, elas s&atilde;o, na verdade, as mais puramente te&oacute;ricas entre as ci&ecirc;ncias puramente te&oacute;ricas." &#91;3; CP 1.281&#93;</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As rela&ccedil;&otilde;es indissol&uacute;veis entre as tr&ecirc;s ci&ecirc;ncias normativas ficam expressas nos seguintes termos: a a&ccedil;&atilde;o humana &eacute; a&ccedil;&atilde;o raciocinada, que, por sua vez, &eacute; deliberada e controlada. Mas toda a&ccedil;&atilde;o deliberada e controlada &eacute; guiada por fins, objetivos, os quais, por seu lado, devem ser escolhidos. Essa escolha tamb&eacute;m, se for fruto da raz&atilde;o, deve ser deliberada e controlada, o que, ao fim e ao cabo, requer o reconhecimento de algo que &eacute; admir&aacute;vel em si mesmo para ser almejado. A l&oacute;gica como o estudo do racioc&iacute;nio correto &eacute; a ci&ecirc;ncia dos meios para se agir razoavelmente. A &eacute;tica ajuda e guia a l&oacute;gica atrav&eacute;s da an&aacute;lise dos fins aos quais esses meios devem ser dirigidos. Finalmente, a est&eacute;tica guia a &eacute;tica ao definir qual &eacute; a natureza de um fim em si mesmo que seja admir&aacute;vel e desej&aacute;vel em quaisquer circunst&acirc;ncias independentemente de qualquer outra considera&ccedil;&atilde;o de qualquer esp&eacute;cie que seja. A &eacute;tica e a l&oacute;gica s&atilde;o, assim, especifica&ccedil;&otilde;es da est&eacute;tica. A &eacute;tica prop&otilde;e quais prop&oacute;sitos devemos razoavelmente escolher em v&aacute;rias circunst&acirc;ncias, enquanto a l&oacute;gica prop&otilde;e quais meios est&atilde;o dispon&iacute;veis para perseguir esses fins.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ideal que Peirce tinha em mente &eacute; o fim &uacute;ltimo em dire&ccedil;&atilde;o ao qual o esfor&ccedil;o humano deve se dirigir. Trata-se do ideal mais supremo para o qual o nosso desejo, vontade e sentimento deveriam estar voltados. O ideal dos ideais, o <i>summum bonum</i>, que n&atilde;o precisa de nenhuma justificativa e explica&ccedil;&atilde;o. A quest&atilde;o da est&eacute;tica, portanto, &eacute; determinar o que pode preencher esse requisito de ser admir&aacute;vel, desej&aacute;vel, em e por si mesmo, sem qualquer raz&atilde;o ulterior &#91;3; CP 2.199&#93;. &Eacute; da est&eacute;tica que vem, assim, a determina&ccedil;&atilde;o da dire&ccedil;&atilde;o para onde o empenho &eacute;tico deve se dirigir, daquilo que deve ser buscado como ideal mais elevado. Os meios para atingir esse ideal, contudo, s&atilde;o uma fun&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica, pois dela depende o processo de racioc&iacute;nio autocontrolado atrav&eacute;s do qual o ideal pode ser atingido. Mas que ideal &eacute; esse? Eis a quest&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com o pragmatismo, esse ideal n&atilde;o deveria ser um resultado est&aacute;tico, mas algo que tivesse um car&aacute;ter processual, um fim que pudesse sempre antecipar uma melhoria constante e intermin&aacute;vel nos seus resultados. O pragmatismo j&aacute; lhe ensinara que o ideal deve se constituir num processo de evolu&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s do qual os existentes mais e mais d&atilde;o corpo a uma classe de gerais que, no curso do seu desenvolvimento, mostram-se razo&aacute;veis &#91;3; CP 5.433&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se o ideal est&eacute;tico estivesse ligado a um conjunto particular de circunst&acirc;ncias, ele n&atilde;o seria um ideal &uacute;ltimo que deve se colocar como for&ccedil;a condutora da atividade humana, independentemente do fluxo dos acontecimentos e da evanesc&ecirc;ncia das circunst&acirc;ncias. A sugest&atilde;o peirceana correu ent&atilde;o na seguinte dire&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"A fim de garantir a imutabilidade sob quaisquer circunst&acirc;ncias, sem o que n&atilde;o seria um fim &uacute;ltimo, este deve ter como requisito estar de acordo com o desenvolvimento livre da qualidade est&eacute;tica do pr&oacute;prio agente. Ao mesmo tempo, deve estar tamb&eacute;m de acordo com o requisito de n&atilde;o tender, com o tempo, a ser perturbado pelas rea&ccedil;&otilde;es do mundo l&aacute; fora sobre o agente, mundo esse que est&aacute; pressuposto na pr&oacute;pria ideia de a&ccedil;&atilde;o. Parece claro que essas duas condi&ccedil;&otilde;es s&oacute; podem ser atendidas simultaneamente se a qualidade est&eacute;tica em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; qual o desenvolvimento livre do agente tende e a a&ccedil;&atilde;o &uacute;ltima da experi&ecirc;ncia sobre ele forem partes de uma mesma totalidade est&eacute;tica." &#91;3; CP 5.136&#93;.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ser verdadeiramente final, a meta deve preencher esses requisitos. Qual pode ser essa meta, que, sem ignorar que o mundo l&aacute; fora produz interfer&ecirc;ncias inevit&aacute;veis no agente, incorpora o desenvolvimento livre do agente, ao mesmo tempo que garante que essa liberdade n&atilde;o ser&aacute;, a longo prazo, perturbada pelas imprevis&iacute;veis e inevit&aacute;veis vicissitudes do mundo? Al&eacute;m disso, e mais importante ainda, a qualidade que atrai o desenvolvimento livre do agente &eacute; a contraparte no sujeito de uma qualidade est&eacute;tica total cujo outro lado est&aacute; na a&ccedil;&atilde;o &uacute;ltima que a experi&ecirc;ncia exerce sobre ele. Encontrar aquilo que pode atender a todos esses atributos parece estar perto do imposs&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O reexame cr&iacute;tico do pragmatismo havia levado Peirce a considerar, em primeiro lugar, que o ideal pragm&aacute;tico n&atilde;o deveria satisfazer os desejos de qualquer indiv&iacute;duo particular, mas estar voltado para os prop&oacute;sitos humanos coletivos. Para responder a essa exig&ecirc;ncia, preenchendo o requisito de ser uma meta completamente satisfat&oacute;ria, o ideal deve ser evolutivo, estando seu significado pleno apenas num futuro distante sempre concretamente adiado. Um futuro idealmente pens&aacute;vel, mas materialmente inating&iacute;vel, porque s&oacute; aproxim&aacute;vel assintoticamente. O pragmatismo havia descoberto que, no processo de evolu&ccedil;&atilde;o, aquilo que existe vai, mais e mais, dando corpo a certas classes de ideais que, no curso do desenvolvimento, mostram-se razo&aacute;veis. Esse ideal foi caracterizado como "o crescimento cont&iacute;nuo da corporifica&ccedil;&atilde;o da potencialidade da ideia" (&#91;3; MS 283, p. 103&#93; <i>apud </i>&#91;4, p. 158&#93;).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ora, as ideias s&atilde;o transmitidas na mente, de um ponto a outro no tempo, por meio do pensamento, quer dizer, por meio de signos imateriais ou imagin&aacute;rios, conforme Kent prefere cham&aacute;-los. Mas as ideias n&atilde;o s&atilde;o pensamentos materializados; elas s&atilde;o "uma certa potencialidade, uma certa forma que pode ou n&atilde;o ser encarnada num signo externo ou interno". Pois bem, continuou Peirce &#91;3; MS 283, p. 4&#93;, para que a fun&ccedil;&atilde;o do signo seja preenchida, e para haver o crescimento da potencialidade da ideia, sua corporifica&ccedil;&atilde;o deve se dar n&atilde;o apenas atrav&eacute;s de s&iacute;mbolos, mas tamb&eacute;m atrav&eacute;s de a&ccedil;&otilde;es, h&aacute;bitos e mudan&ccedil;as de h&aacute;bitos. Ora, potencialidade, corporifica&ccedil;&atilde;o e ideia, os tr&ecirc;s juntos comp&otilde;em aquilo que Peirce passou a considerar como o <i>summum bonum</i> est&eacute;tico, coincidente com o ideal pragmatista &uacute;ltimo: o crescimento da razoabilidade concreta. Esse ideal tem de levar em conta o autocontrole na aquisi&ccedil;&atilde;o de novos h&aacute;bitos como m&eacute;todo atrav&eacute;s do qual o ideal pragm&aacute;tico pode ser atingido. O modo como esta solu&ccedil;&atilde;o preenche todos os requisitos, que Peirce havia estipulado para a meta est&eacute;tica do admir&aacute;vel, ser&aacute; a seguir examinado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma vez que a raz&atilde;o &eacute; a &uacute;nica qualidade livremente desenvolvida atrav&eacute;s da atividade humana do autocontrole; em outras palavras, estando na autocr&iacute;tica a ess&ecirc;ncia da racionalidade, Peirce identificou o ideal est&eacute;tico, fim &uacute;ltimo do pragmatismo, com <b>o crescimento da razoabilidade concreta</b>, n&atilde;o a razoabilidade abstrata, perdida na neblina do ideal, nem a razoabilidade est&aacute;tica que, como tudo que &eacute; est&aacute;tico, termina em opress&atilde;o, mas a razoabilidade concreta em crescimento, em processo, em devir.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo Bernstein &#91;5, p. 200-203&#93;, "Peirce nunca recuou em sua s&oacute;lida cren&ccedil;a de que h&aacute; uma verdade a ser conhecida e que n&oacute;s mesmos somos participantes do desenvolvimento da raz&atilde;o que est&aacute; sempre em estado de incipi&ecirc;ncia e crescimento. Somos participantes da cria&ccedil;&atilde;o do universo" (...), A &uacute;nica coisa que &eacute; desej&aacute;vel sem raz&atilde;o para o ser, &eacute; apresentar ideias e coisas razo&aacute;veis". Isso quer dizer que somos respons&aacute;veis pelo alargamento e realiza&ccedil;&atilde;o da razoabilidade concreta; &eacute; atrav&eacute;s de nossos atos, feitos e pensamentos encarnados que ela vai se concretizando, rumo a um final em aberto cujo destino n&atilde;o podemos saber de antem&atilde;o. Razoabilidade, para ele, n&atilde;o se confunde, assim, com raz&atilde;o exclusivista, mas com uma racionalidade que incorpora elementos de a&ccedil;&atilde;o, sentimentos, assim como todas as prom&iacute;scuas misturas entre raz&atilde;o, a&ccedil;&atilde;o e sentimento, que aparecem na como&ccedil;&atilde;o, afec&ccedil;&atilde;o, prazer, querer, vontade, desejo, emo&ccedil;&atilde;o...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Peirce estava ciente de que n&atilde;o h&aacute; nenhuma garantia de que o ideal est&eacute;tico-pragm&aacute;tico possa ser atingido. A &uacute;nica regra da &eacute;tica, nessa medida, &eacute; aderir a esse ideal e ter esperan&ccedil;a de que ele poder&aacute; ir sendo aproximado, pouco a pouco e no longo curso do tempo. Uma vez que a conduta deliberada &eacute; conduta guiada pelo ideal est&eacute;tico, os pensamentos e as cria&ccedil;&otilde;es humanas devem ser avaliados em termos de sua contribui&ccedil;&atilde;o para o crescimento da razoabilidade no mundo &#91;6, p.103-104&#93;. A palavra concreta indica que a razoabilidade pode ir se atualizando atrav&eacute;s do empenho humano resoluto para favorecer seu crescimento. Esse empenho &eacute; &eacute;tico, meio atrav&eacute;s do qual a meta do ideal est&eacute;tico, admir&aacute;vel se materializa, do mesmo modo que a l&oacute;gica &eacute; o meio atrav&eacute;s do qual a meta &eacute;tica se corporifica &#91;2, p. 129&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; neste ponto que inevitavelmente surge a indaga&ccedil;&atilde;o sobre quais seriam os modos mais privilegiados por meio dos quais o crescimento da razoabilidade concreta pode se dar. O argumento a ser desenvolvido a seguir advoga que as artes e a literatura s&atilde;o justamente as formas mais privilegiadas para o crescimento da raz&atilde;o criativa no mundo pelo fato crucial de que provocam mudan&ccedil;as de h&aacute;bitos perceptivos gastos por meio de uma pedagogia regeneradora da sensibilidade humana.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A PROMO&Ccedil;&Atilde;O DO CONHECIMENTO SENS&Iacute;VEL PELA LITERATURA E AS ARTES </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nadando contra a corrente da tradi&ccedil;&atilde;o, Peirce, como vimos, n&atilde;o concebeu a est&eacute;tica como uma ci&ecirc;ncia do belo. Buscou uma qualidade mais elementar e menos dual do que o belo, encontrando-a em algo que pode ser aproximadamente traduzido na palavra "admir&aacute;vel". Buscando incessantemente o atributo do admir&aacute;vel, ele acabou por localiz&aacute;-lo no crescimento da razoabilidade concreta. Esse atributo tem o poder de integrar, de um s&oacute; golpe, a continuidade, expressa no crescimento, a atualiza&ccedil;&atilde;o que se expressa na concre&ccedil;&atilde;o, e a potencialidade expressa na razoabilidade. De fato, para Peirce, n&atilde;o h&aacute; nada mais pl&aacute;stico e pass&iacute;vel de crescimento do que a raz&atilde;o, visto que ela est&aacute; sempre em estado de incipi&ecirc;ncia e incompletude. Razoabilidade &eacute;, assim, sin&ocirc;nimo de potencialidade da ideia, algo din&acirc;mico, sempre em processo de materializa&ccedil;&atilde;o em signos internos ou externos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se o ideal est&eacute;tico se localiza no crescimento da razoabilidade concreta, como se d&aacute; a concretiza&ccedil;&atilde;o da razoabilidade e, mais ainda, como se d&aacute; seu crescimento? Peirce n&atilde;o chegou a responder sistematicamente a essa interroga&ccedil;&atilde;o, deixando apenas sugest&otilde;es e pistas. Seguindo essas pistas, encontrei caminhos de resposta que me parecem instigantes e remarcavelmente f&eacute;rteis para a reflex&atilde;o sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre a est&eacute;tica filos&oacute;fica peirciana e as obras art&iacute;sticas e liter&aacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A pista mais &oacute;bvia est&aacute; na conclus&atilde;o imediata de que, em primeiro lugar, n&atilde;o h&aacute; nenhuma garantia externa para que a razoabilidade se concretize. O estado de coisas admir&aacute;vel n&atilde;o pode ser determinado aprioristicamente, pois, se assim fosse, haveria nele algo de impositivo e opressivo que lhe esvaziaria, imediatamente, o car&aacute;ter de admir&aacute;vel. Nem poderia ser, muito menos, fruto de uma imposi&ccedil;&atilde;o externa, de qualquer tipo que seja, por mais disfar&ccedil;ada que seja. Trata-se, pois, de uma meta ou ideal que descobrimos porque nos sentimos atra&iacute;dos por ele como tal, e nele ficamos imantados. Sendo uma ado&ccedil;&atilde;o deliberada, ela d&aacute; express&atilde;o &agrave; nossa liberdade no seu mais alto grau. Muito pr&oacute;xima dessa ideia est&aacute; a express&atilde;o "for&ccedil;a estranha" que Caetano Veloso utilizou para caracterizar a for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o e concentra&ccedil;&atilde;o l&uacute;dica, mas, ao mesmo tempo de absor&ccedil;&atilde;o quase insana na sua arte, que caracteriza o artista. Mas qualquer pessoa pode conhecer o poder dessa "for&ccedil;a estranha", quando &eacute; movida pela atra&ccedil;&atilde;o a um ideal admir&aacute;vel, ainda vago e impreciso, que s&oacute; vai se definindo na medida mesma em que houver empenho na sua realiza&ccedil;&atilde;o concreta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o sendo definido <i>a priori</i>, nem sendo buscado sob efeito de qualquer tipo de for&ccedil;a externa, o ideal tem o "perfil indeterminado, necessariamente amb&iacute;guo e potencial, caracter&iacute;stico de tudo aquilo que continuamente recua porque s&oacute; pode ser alcan&ccedil;ado numa aproxima&ccedil;&atilde;o assint&oacute;tica" &#91;2, p. 127-128&#93;. Ora, para Peirce, s&oacute; na razoabilidade, ou raz&atilde;o criativa - aquela que incorpora a complexidade dos elementos da a&ccedil;&atilde;o, surpresa, conflito, d&uacute;vida, <i>insight</i>, emo&ccedil;&atilde;o e, at&eacute; mesmo e principalmente, os sentimentos mais vagos e incertos - pode ser encontrado o atributo pr&oacute;prio desse ideal. Mas como &eacute; que esse ideal pode crescer?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A intera&ccedil;&atilde;o indissol&uacute;vel das tr&ecirc;s ci&ecirc;ncias normativas nos conduz para a resposta. A razoabilidade concretiza-se e cresce na medida mesma em que n&oacute;s adotamos o ideal da razoabilidade, somos guiados por ele, empenhamo-nos eticamente nele, enquanto a l&oacute;gica nos fornece os meios do autocontrole cr&iacute;tico do pensamento para atingi-lo. Esse autocontrole &eacute; poss&iacute;vel pelo cultivo de h&aacute;bitos de pensamento, de a&ccedil;&atilde;o e de sentimento, e pela mudan&ccedil;a desses h&aacute;bitos t&atilde;o logo isso se prove necess&aacute;rio. Esse &eacute; simplificadamente o cerne do pragmatismo peirciano.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Cada ci&ecirc;ncia normativa considera um aspecto particular do ideal geral. Desse modo, cada uma retificar&aacute; e adicionar&aacute; conte&uacute;do &agrave;s outras, aumentando, assim, a compreens&atilde;o desse geral. Mas &agrave; est&eacute;tica cabe um papel muito importante e original na sua rela&ccedil;&atilde;o com o autocontrole, pois vem dela o controle do controle, quer dizer, &eacute; em fun&ccedil;&atilde;o de uma refer&ecirc;ncia ao ideal est&eacute;tico &uacute;ltimo, sempre imediatamente inating&iacute;vel, que qualquer princ&iacute;pio &eacute;tico &eacute; controlado, o que evita, assim, a deteriora&ccedil;&atilde;o da &eacute;tica em moralismos estratificados, ao mesmo tempo que o dinamismo evolutivo do ideal evita que o pensamento fique paralisado no conforto de cren&ccedil;as desvitalizadas. &Eacute; exatamente neste ponto que a indaga&ccedil;&atilde;o sobre a liga&ccedil;&atilde;o da est&eacute;tica com as obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas se torna imprescind&iacute;vel. Para respond&ecirc;-la, Peirce nos fornece algumas pistas que n&atilde;o podem ser perdidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Numa passagem muito clara, Peirce dizia que a est&eacute;tica "lida com o ideal em si mesmo, cuja mera materializa&ccedil;&atilde;o cativa e absorve a aten&ccedil;&atilde;o da pr&aacute;tica &#91;ou &eacute;tica&#93; e da l&oacute;gica" &#91;3; CP 5.551&#93;. N&atilde;o h&aacute; sombra de d&uacute;vida, a partir dessas palavras, que o ideal est&eacute;tico n&atilde;o &eacute; meramente uma proje&ccedil;&atilde;o indefinidamente adiada da imagina&ccedil;&atilde;o, mas deve materializar-se em algo e que esse algo fisga as outras duas ci&ecirc;ncias normativas. Em uma outra passagem, ainda, Peirce diz que a est&eacute;tica "considera aquelas coisas cujos fins s&atilde;o os de encarnar qualidades de sentimento" &#91;3; CP 5.129&#93;. Avan&ccedil;ando nessa mesma ideia, o que ele deixou a&iacute; claro &eacute; que h&aacute; coisas que t&ecirc;m por finalidade corporificar qualidades de sentimento, dar ocasi&atilde;o para que qualidades de sentimento se atualizem no mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ora, muitas coisas podem dar corpo a qualidades de sentimento, mas as coisas que, de modo mais cabal o fazem s&atilde;o, sem d&uacute;vida, as obras art&iacute;sticas e liter&aacute;rias. As fun&ccedil;&otilde;es e concep&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas da literatura e da arte mudam consideravelmente, mas h&aacute; algo que parece permanecer em meio &agrave; mudan&ccedil;a: o fato de que elas sempre encarnam, d&atilde;o corpo f&iacute;sico a qualidades de sentimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; claro, a partir do que foi discutido at&eacute; aqui, que Peirce n&atilde;o via com bons olhos o isolamento e exclusividade da qualidade de sentimento nas obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas. Onde houver exclusivismo, isolamento, atomiza&ccedil;&atilde;o ou exagero de qualquer categoria, como j&aacute; foi mencionado, l&aacute; haver&aacute; uma esp&eacute;cie de sopa bi&oacute;tica prop&iacute;cia ao aparecimento dos fanatismos cegos e das distor&ccedil;&otilde;es da irracionalidade ou da hiper-racionalidade que &eacute; apenas o outro lado do irracionalismo. De um modo geral, o que as obras de arte fazem &eacute; justamente escapar de qualquer um desses exageros, a ponto de podermos lan&ccedil;ar a hip&oacute;tese de que elas s&atilde;o exatamente aqueles tipos de signos que misturam sentimento, acontecimento e valores da maneira mais idealmente harm&ocirc;nica. Que Peirce estava de acordo com essa hip&oacute;tese pode ser entrevisto na passagem em que, mencionando a qualidade est&eacute;tica, ele dizia que se trata a&iacute; "da impress&atilde;o total inanalis&aacute;vel de uma razoabilidade que se expressou numa cria&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um puro sentimento, mas &eacute; um sentimento que &eacute; a impress&atilde;o de uma razoabilidade que cria" &#91;3; MS 310, p. 9&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o fica dif&iacute;cil, em fun&ccedil;&atilde;o das indica&ccedil;&otilde;es acima, postular que as obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas, por serem objetos privilegiados de revela&ccedil;&atilde;o do ideal, devem ser - n&atilde;o obstante sua aparente fragilidade discursiva e ideol&oacute;gica, ou talvez como fruto dessa mesma fragilidade - o modo mais poderoso de crescimento da razoabilidade concreta. A forma como isso se d&aacute; est&aacute; indicada em um outro escrito de Peirce, onde ele afirmou que "se a conduta deve ser cuidadosamente deliberada, o ideal deve ser um h&aacute;bito de sentimento que cresceu sob a influ&ecirc;ncia de um curso de autocr&iacute;tica e heterocr&iacute;tica; a est&eacute;tica sendo a teoria da forma&ccedil;&atilde;o deliberada desses h&aacute;bitos de sentimento" &#91;3; CP 1.573-1.575&#93;. Se assim for, ent&atilde;o a literatura e a arte s&atilde;o os mais privilegiados dentre os objetos de estudo da est&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O ideal est&eacute;tico &eacute; nutrido pelo cultivo de h&aacute;bitos de sentimento. Sendo as obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas aqueles tipos de signos que encarnam qualidades de sentimento, os h&aacute;bitos de sentimento s&oacute; podem ser cultivados atrav&eacute;s da exposi&ccedil;&atilde;o de nossa sensibilidade &agrave;s obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas, pois elas cumprem a imprescind&iacute;vel tarefa de nos levar a imergir em obras que fisgam nossa cogni&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel com vistas &agrave; mudan&ccedil;a de h&aacute;bitos estereotipados e deteriorados de sentir.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os h&aacute;bitos de pensamento s&atilde;o sempre muito arraigados e dif&iacute;ceis de serem modificados, do que decorre que os h&aacute;bitos de a&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m o s&atilde;o, visto que nossos pensamentos e nossas cren&ccedil;as funcionam como guias para a conduta. No entanto, as dificuldades, que se apresentam para a mudan&ccedil;a de h&aacute;bitos de pensamento, s&atilde;o incomparavelmente menores do que aquelas que se apresentam para a mudan&ccedil;a de h&aacute;bitos de sentimento. N&atilde;o h&aacute; nada mais profundamente enraizado no esp&iacute;rito humano do que os h&aacute;bitos de sentir. Enquanto o pensamento e a a&ccedil;&atilde;o podem se modificar atrav&eacute;s de argumentos l&oacute;gicos ou da for&ccedil;a do bom-senso, os h&aacute;bitos de sentimento s&oacute; se modificam atrav&eacute;s do sofrimento ou da exposi&ccedil;&atilde;o constante do sentimento a objetos ou situa&ccedil;&otilde;es capazes de produzir sua regenera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sem que Peirce, ele mesmo, estivesse consciente do fato, sua est&eacute;tica, se levada &agrave;s consequ&ecirc;ncias que ela permite entrever, realizaria quase &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o o sonho de Schiller da educa&ccedil;&atilde;o est&eacute;tica da humanidade, sonho, ali&aacute;s, que, sob uma outra apar&ecirc;ncia, a da educa&ccedil;&atilde;o dos sentidos humanos, foi tamb&eacute;m sonhado por Marx. O mais importante &eacute; que a est&eacute;tica peirceana est&aacute; indissoluvelmente atada &agrave; &eacute;tica e &agrave; l&oacute;gica concebida semioticamente. Os signos est&eacute;ticos, no dizer de Peirce, porque materializam, d&atilde;o corpo ao ideal da raz&atilde;o criativa, atraem e fisgam as outras duas ci&ecirc;ncias normativas, ao mesmo tempo que h&aacute; nesses signos algo da ordem da a&ccedil;&atilde;o e do pensamento. As obras liter&aacute;rias e art&iacute;sticas n&atilde;o s&atilde;o apenas amb&iacute;guas encarna&ccedil;&otilde;es de qualidades de sentimento, mas formas de sabedoria, de um tipo que fala &agrave; sensibilidade, ao mesmo tempo que convida a raz&atilde;o a se integrar ludicamente ao sentir.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.	Santaella, L.; Vieira, J. A.. <i>Metaci&ecirc;ncia.Como guia da pesquisa</i>. S&atilde;o Paulo: M&eacute;rito, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.	Santaella, L. <i>A assinatura das coisas. Peirce e a literatura</i>. Rio de Janeiro: Imago, 1992.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.	Peirce, C. S. <i>Collected Papers</i>. Vols. 1-6, Hartshorne e Weiss (eds.); vols. 7-8, Burks (ed.) Cambridge, Mass.: Harvard University Press. As refer&ecirc;ncias no texto foram feitas sob CP seguido de n&uacute;mero do volume e n&uacute;mero de par&aacute;grafo. 1931-1958. MS refere-se aos manuscritos n&atilde;o publicados, catalogados segundo pagina&ccedil;&atilde;o do Institute for Studies in Pragmaticism. Lubbock: Texas.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.	Kent, B. <i>Charles S. Peirce - Logic and the classification of the sciences</i>. Kingston and Montreal: McGill-Queen's University Press, 1987.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.	Bernstein, R. "A sedu&ccedil;&atilde;o do ideal". <i>Face </i>3, nº 2, Puc-SP, p. 195-206, 1990.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6.	Curley, T. "The relation of the normative sciences to Peirce's theory of inquiry". <i>Transactions of the Charles S. Peirce Society</i>, vol. 5, nº. 2, 91-106, 1969.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7.	Santaella, L. <i>Est&eacute;tica de Plat&atilde;o a Peirce</i>. S&atilde;o Paulo: Experimento, 1994.    </font></p>      ]]></body><back>
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