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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Poesia com teorema de Pitágoras]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   LITERATURA E CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nta"></a><b>Poesia com teorema de Pit&aacute;goras<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Maria Estela Guedes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Poeta, cr&iacute;tica liter&aacute;ria e dramaturga portuguesa, tem igualmente muito trabalho publicado e dispon&iacute;vel na internet sobre hist&oacute;ria e cr&iacute;tica das ci&ecirc;ncias. Dirige o site Triplov: <a href="http://www.triplov.com" target="_blank">www.triplov.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o precisamos chamar em nossa ajuda a poesia de &aacute;rcades como a marquesa de Alorna, com as suas <i>Recrea&ccedil;&otilde;es bot&acirc;nicas</i>, para assentarmos a ideia de que a literatura, e mais especificamente a poesia, n&atilde;o existe sem ci&ecirc;ncia. Alguns poetas defendem a poesia pura, o que, a ser vi&aacute;vel em absoluto, n&atilde;o s&oacute; implicaria um empobrecimento lexical e sem&acirc;ntico, como iria por certo resultar numa outra forma de <i>Index - </i>que chegou a censurar a pr&oacute;pria B&iacute;blia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em qualquer &eacute;poca, os poetas escreveram com ci&ecirc;ncia, quer a da poesia, quer com a que se exprime por n&uacute;meros. Por&eacute;m, como a ci&ecirc;ncia fundamental &eacute; reservada aos cientistas e a publica&ccedil;&otilde;es especializadas, restritas a bibliotecas de laborat&oacute;rios e outras institui&ccedil;&otilde;es, em geral universit&aacute;rias, aquilo a que os poetas t&ecirc;m maior acesso &eacute; aos produtos da ci&ecirc;ncia, pois s&atilde;o eles que mudam os h&aacute;bitos, os ambientes, e subjazem &agrave; ideia que fazemos de futuro e de progresso. Refiro-me, naturalmente, &agrave; tecnologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar disso, a ci&ecirc;ncia, na sua faceta mais dura, faz parte da poesia  desde remotos tempos. Na mais famosa das suas odes, aquela que espalhou pelo mundo a express&atilde;o <i>carpe diem</i> (frui o dia), de tend&ecirc;ncia epicurista, Hor&aacute;cio menciona os <i>babylonios numeros</i>, para negar que possamos conhecer o futuro. Nem o c&aacute;lculo babil&oacute;nico seria capaz de revelar o que os deuses nos destinam. Eis os dois primeiros versos da Ode I-11, de Hor&aacute;cio &#91;1&#93;.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tu n&atilde;o perguntes (&eacute;-nos proibido pelos deuses saber) que fim, a mim, a ti, os deuses deram, Leuc&oacute;noe, nem ensaies c&aacute;lculos babil&oacute;nicos.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hor&aacute;cio viveu h&aacute; cerca de dois mil anos e a matem&aacute;tica babil&oacute;nica, ent&atilde;o religada &agrave; numerologia, aquela cujo feito mais conhecido &eacute; o teorema de Pit&aacute;goras, floresce h&aacute; cerca de quatro mil. Nada ent&atilde;o de extraordin&aacute;rio no facto de, em todos os tempos, a poesia ter estado em comunica&ccedil;&atilde;o com a ci&ecirc;ncia. Afinal, al&eacute;m de a especializa&ccedil;&atilde;o ser um acidente do nosso tempo, que tende a corrigir-se nas situa&ccedil;&otilde;es que exigem abordagem de v&aacute;rios pontos de vista, a multidisciplinaridade, todos partilhamos as mesmas experi&ecirc;ncias essenciais, pr&oacute;prias da esp&eacute;cie humana, sejam elas est&eacute;ticas, cient&iacute;ficas, pol&iacute;ticas ou religiosas. A maior parte de n&oacute;s, pessoas instru&iacute;das, independentemente do local onde vivemos e da l&iacute;ngua que falamos, aprendeu na escola secund&aacute;ria o teorema de Pit&aacute;goras: "em qualquer tri&acirc;ngulo ret&acirc;ngulo, o quadrado do comprimento da hipotenusa &eacute; igual &agrave; soma dos quadrados dos comprimentos dos catetos".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje como dantes, a ci&ecirc;ncia participa da nossa vida quotidiana e por isso impregna tudo o que dizemos, fazemos e escrevemos. Podem &eacute; os conhecimentos estarem j&aacute; t&atilde;o entranhados em n&oacute;s que nem damos por eles, quando nos referimos &agrave; forma da Terra, ao ciclo do dia e da noite, do tempo, se o &eacute; o seco ou das chuvas, da nomenclatura dos animais, das propriedades medicinais das plantas, de quanto nos deve de troco o lojista se compramos um objeto por 5 euros e ele custa 3,45,  e por a&iacute; adiante. Como descobriu o espantado M. Jourdain, na com&eacute;dia <i>Le bourgeois gentilhomme</i>, de Moli&egrave;re, que fazia literatura sem saber, tamb&eacute;m n&oacute;s vivemos de acordo com a ci&ecirc;ncia, sem nos apercebermos de que entrar num autom&oacute;vel, guardar uma costeleta no frigor&iacute;fico, beber &aacute;gua de um filtro, subir para o nosso apartamento num ascensor ou acender a luz, s&atilde;o j&aacute; quase automatismos, de cuja origem cient&iacute;fica perdemos a consci&ecirc;ncia. S&oacute; nos lembramos dela quando, nos jogos de televis&atilde;o baseados em question&aacute;rios, se pergunta quem &eacute; o inventor da l&acirc;mpada, do tel&eacute;grafo ou da internet.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde o romantismo que o novo &eacute; dos maiores valores da arte. Facilmente admitimos ent&atilde;o que a arte assimila as novidades cient&iacute;ficas e os produtos tecnol&oacute;gicos da&iacute; resultantes. O modernismo, sem a ci&ecirc;ncia e tecnologia do seu tempo, patente na gera&ccedil;&atilde;o de Orfeu na apologia da publicidade, dos autom&oacute;veis, de linhas ferrovi&aacute;rias que agitam a imagina&ccedil;&atilde;o, como a Lusit&acirc;nia e a Sud Expresso em Portugal (a primeira liga Lisboa a Madrid, a segunda a Paris), no louvor do telefone, do tel&eacute;grafo,  do gramofone, da r&aacute;dio, dos grandes jornais, sem isso, modernismo e modernidade perderiam o direito a serem modernos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ces&aacute;rio Verde, antes do rel&oacute;gio modernista, e rejeitando a pr&aacute;tica de quantos poetas anteriores se autocensuravam palavras e situa&ccedil;&otilde;es consideradas pouco po&eacute;ticas, tra&ccedil;a de Lisboa uma imagem de cidade em vias de desenvolvimento: mal cheirosa, devido ao g&aacute;s de ilumina&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e &agrave;s emana&ccedil;&otilde;es qu&iacute;micas das f&aacute;bricas, palpitante de novas t&eacute;cnicas de constru&ccedil;&atilde;o, decorrentes de projetos arrojados de arquitetura (o pr&eacute;dio de andares deixava de assentar em quatro paredes para assentar num pilar central), empolgada pela velocidade do novo meio de transporte, o comboio, que punha em comunica&ccedil;&atilde;o as grandes capitais europeias. Vamos reler Ces&aacute;rio Verde, seja um trecho de <i>O sentimento dum ocidental:</i></font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nas nossas ruas, ao anoitecer,    <br>     H&aacute; tal soturnidade, h&aacute; tal melancolia,    <br>     Que as sombras, o bul&iacute;cio, o Tejo, a maresia    <br>     Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O c&eacute;u parece baixo e de neblina,    <br>     O g&aacute;s extravasado enjoa-me, perturba;    <br>     E os edif&iacute;cios, com as chamin&eacute;s, e a turba    <br>     Toldam-se duma cor mon&oacute;tona e londrina.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Batem carros de aluguer, ao fundo,    <br>     Levando &agrave; via-f&eacute;rrea os que se v&atilde;o. Felizes!    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     Ocorrem-me em revista, exposi&ccedil;&otilde;es, pa&iacute;ses:    <br>     Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Semelham-se a gaiolas, com viveiros,    <br>     As edifica&ccedil;&otilde;es somente emadeiradas:    <br>     Como morcegos, ao cair das badaladas,    <br>     Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se Ces&aacute;rio Verde integra, na sua massa po&eacute;tica, os produtos da ci&ecirc;ncia, caso do comboio, que era ent&atilde;o movido por m&aacute;quina a vapor, j&aacute; um poeta contempor&acirc;neo como Ant&oacute;nio Gede&atilde;o revela a ci&ecirc;ncia respons&aacute;vel por essa tecnologia. Intitula-se <i>Li&ccedil;&atilde;o sobre a &aacute;gua</i> o poema. Descreve cientificamente o l&iacute;quido essencial da Terra e como permitiu ele o comboio:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Este l&iacute;quido &eacute; &aacute;gua.    <br>     Quando pura    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     &Eacute; inodora, ins&iacute;pida e incolor.    <br>     Reduzida a vapor,    <br>     sob tens&atilde;o e a alta temperatura,    <br>     move os &ecirc;mbolos das m&aacute;quinas que, por isso,    <br>     se denominam m&aacute;quinas de vapor.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; um bom dissolvente.    <br>     Embora com excep&ccedil;&otilde;es e de um modo geral,    <br>     dissolve tudo bem, &aacute;cidos, bases e sais.    <br>     Congela a zero graus centesimais    <br>     e ferve a 100, quando &agrave; press&atilde;o normal.</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">R&oacute;mulo de Carvalho, nome real de Ant&oacute;nio Gede&atilde;o, era professor de f&iacute;sico-qu&iacute;mica do ensino secund&aacute;rio. Os seus poemas est&atilde;o cheios de nota&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, com a devida explica&ccedil;&atilde;o, o que mostra at&eacute; que ponto a poesia e a ci&ecirc;ncia faziam, para ele, parte da mesma liga pedag&oacute;gica. Um dos seus poemas mais conhecidos &eacute; <i>L&aacute;grima de preta</i>, no qual, em manifesto anti-racista, ele decomp&otilde;e em laborat&oacute;rio a l&aacute;grima nos seus elementos qu&iacute;micos, para concluir que &eacute; igual &agrave;s l&aacute;grimas de todos n&oacute;s: "&aacute;gua (quase tudo)/ e cloreto de s&oacute;dio".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Poema t&atilde;o amante da qu&iacute;mica que obedece &agrave;s suas leis &eacute; <i>Lavoisier</i>, de Carlos de Oliveira &#91;2&#93;, poeta das lentes e dos filtros interpostos entre o olhar e o objeto. Tudo nele &eacute; visto por interposta coisa, e essa coisa &eacute; em geral produzida pela ci&ecirc;ncia: o vidro de uma janela, a m&aacute;quina fotogr&aacute;fica, os bin&oacute;culos, o microsc&oacute;pio, enfim. E nesse poema tamb&eacute;m a realidade (a poesia) &eacute; vista atrav&eacute;s de um filtro, a lei de Lavoisier:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na poesia,    <br>     natureza vari&aacute;vel    <br>     das palavras,    <br>     nada se perde    <br>     ou cria,    <br>     tudo se transforma:    <br>     cada poema,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     no seu perfil    <br>     incerto    <br>     e caligr&aacute;fico,    <br>     j&aacute; sonha    <br>     outra forma.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">M&aacute;rio de S&aacute;-Carneiro, em <i>Manucure</i>, elogia a novidade dos caracteres tipogr&aacute;ficos, os t&iacute;tulos dos grandes jornais europeus, as suas parangonas, os an&uacute;ncios, num acesso de sensibilidade &agrave;s novas t&eacute;cnicas e ferramentas da escrita que resultavam numa arte visual in&eacute;dita, h&iacute;brida de desenho e escrita. Ao transcrever esses elementos em <i>Manucure</i>, veja-se a imagem (<a href="#fig1">figura 1</a>), tamb&eacute;m ele est&aacute; a praticar uma nova arte, que hoje conhecemos como poesia visual.</font></p>     <p><a name="fig1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a09fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A poesia assenta numa tecnologia, ligada &agrave; escrita, que foi evoluindo, desde a pedra de riscar ao c&aacute;lamo, ou pena, em geral de pato, &agrave; impressora de Gutenberg e a tudo o que hoje existe de fabulosamente futurista, como &eacute; a tecnologia subjacente &agrave; nossa contempor&acirc;nea publica&ccedil;&atilde;o virtual. Muitos poemas, em todos os tempos, referem as ferramentas de escrita, pensemos em Cam&otilde;es, com os seus jogos de palavras com a &#171;pena&#187;, e cito de cor: &#171;perdig&atilde;o perdeu a pena, n&atilde;o h&aacute; mal que lhe n&atilde;o venha&#187;.<i> </i>Herberto Helder,<i> </i>pertencente &agrave; gera&ccedil;&atilde;o do maior poluidor dos mares e dos rios sa&iacute;do das m&atilde;os da ci&ecirc;ncia, o pl&aacute;stico, refere que escreve os seus poemas com Bic esfera fina de tinta preta. E mais se poderia acrescentar relativo ao nosso tema, quanto a esse poeta inspirado, sem forma&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, salvo a liceal: ele gostava de escrever em papel milim&eacute;trico. O seu conto <i>Celacanto</i> &eacute; uma joia po&eacute;tico-cient&iacute;fica, refere o tumulto nos jornais, provavelmente nos anos 1960, na sequ&ecirc;ncia da descoberta dessa esp&eacute;cie extraordin&aacute;ria de peixes (apresentam vest&iacute;gios de p&eacute;s e de pulm&otilde;es), no Canal de Mo&ccedil;ambique. Uma vez que do Celacanto s&oacute; se conheciam registos f&oacute;sseis, a comunidade cient&iacute;fica julgava-a extinta h&aacute; milh&otilde;es de anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Porque Herberto Helder traduziu poemas &eacute;tnicos, reunidos em v&aacute;rios livros, entre os quais <i>Ouolof</i> &#91;3&#93;, esta parte da sua obra comporta uma vertente cient&iacute;fica, como tive ocasi&atilde;o de mostrar, no semin&aacute;rio "Antropologia biol&oacute;gica e a intera&ccedil;&atilde;o com outras &aacute;reas da antropologia", organizado pela Faculdade de Ci&ecirc;ncias da Universidade de Lisboa, em 2008. A minha comunica&ccedil;&atilde;o est&aacute; em linha na internet, tem por t&iacute;tulo "Participa&ccedil;&atilde;o da antropologia na obra de Herberto Helder". <i>Ouolof</i> &eacute; o nome de uma etnia da &Aacute;frica ocidental, Senegal e Guin&eacute;, referida como "jalofos" nos livros antigos. Vamos ler um excerto do Cantar 14 do <i>Livro dos cantares de Dbitbalch&eacute; (maias)</i>, no qual cantam diversas aves, algumas das quais n&atilde;o pertencem &agrave; fauna americana. A sua presen&ccedil;a denuncia um problema corrente na tradu&ccedil;&atilde;o: a falta de nomes vulgares para esp&eacute;cies estranhas. Em situa&ccedil;&atilde;o ideal, as esp&eacute;cies da flora e da fauna est&atilde;o circunscritas a determinadas regi&otilde;es; assim, os le&otilde;es existem em &Aacute;frica mas n&atilde;o na Europa, a surucucu &eacute; uma serpente do Brasil e n&atilde;o da &Iacute;ndia, os orangotangos sobrevivem em Born&eacute;u, n&atilde;o vivem na Sib&eacute;ria. Ou seja, a Terra, em termos de diversidade de flora e fauna, est&aacute; dividida em regi&otilde;es biogeogr&aacute;ficas. Quer isto dizer que na vers&atilde;o do cantar maia, Herberto Helder, &agrave; falta de nomes portugueses vulgares para a avifauna da Am&eacute;rica, optou por escolher nomes de aves europeias. Ali&aacute;s, Herberto Helder verte do franc&ecirc;s ou do ingl&ecirc;s para portugu&ecirc;s, ent&atilde;o o respons&aacute;vel pela desgra&ccedil;a foi quem traduziu a l&iacute;ngua maia. Ora, para acabar com essas dificuldades &eacute; que Lineu criou o sistema binominal de classifica&ccedil;&atilde;o, com duplo nome em latim para a esp&eacute;cie, interpret&aacute;vel em qualquer pa&iacute;s do mundo. Declare-se entretanto, em defesa dos tradutores, que os maias n&atilde;o conheceram Lineu e ainda menos falavam latim. Por isso, vamos imaginar que os pombos torcazes, o cuco e a pega azul foram de passeio at&eacute; &agrave; Am&eacute;rica, para permitirem esta conclus&atilde;o: n&atilde;o s&oacute; a poesia est&aacute; impregnada de ci&ecirc;ncia, como pode, eventualmente, levantar problemas aos cientistas. Vejamos ent&atilde;o o cantar maia:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Algures cantas pequeno pombo torcaz    <br>     nos ramos da ceiba.    <br>     Algures tamb&eacute;m cantam o cuco,    <br>     o jarreteiro e o    <br>     kukum e o sensontle!    <br>     Jubilosas est&atilde;o todas    <br>     as aves do Senhor Deus.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     Tamb&eacute;m a Senhora    <br>     tem as suas aves: a rola, o cardeal    <br>     e o chinchimbacal    <br>     e o colibri e a pega azul.    <br>     Estas s&atilde;o as aves    <br>     da Bela Dona e Senhora.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E nas cavernas de coral vivente, pulsam    <br>     os animais dos hor&oacute;scopos    <br>     &ndash; andr&oacute;ginos, lun&aacute;ticos &ndash;    <br>     com as cabe&ccedil;as trepanadas por ciclotr&otilde;es de ur&acirc;nio, movendo-se    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     com as lentas sedas dos corpos    <br>     pelos s&oacute;is &agrave; frente e as luas    <br>     deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam    <br>     o brilho dos meus poros, o p&eacute;nis    <br>     entre as centelhas da minha pele de vitelo    <br>     brando.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&ndash; A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nat&aacute;lia Correia, pol&iacute;grafa, grande poeta, contempor&acirc;nea de Herberto Helder, nos anos 1980 desempenhava as fun&ccedil;&otilde;es de deputada na Assembleia da Rep&uacute;blica. Os deputados discutiam ent&atilde;o a despenaliza&ccedil;&atilde;o do aborto. Um deles, Jo&atilde;o Morgado, argumentou que "O acto sexual &eacute; para ter filhos". Nat&aacute;lia Correia respondeu, nesse poema que ficou famoso, datado de 3 de abril de 1982:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; que o coito &ndash; diz Morgado -    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     tem como fim cristalino,    <br>     preciso e imaculado    <br>     fazer menina ou menino;    <br>     e cada vez que o var&atilde;o    <br>     sexual petisco manduca,    <br>     temos na procria&ccedil;&atilde;o    <br>     prova de que houve truca-truca.    <br>     Sendo pai s&oacute; de um rebento,    <br>     l&oacute;gica &eacute; a conclus&atilde;o    <br>     de que o viril instrumento    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     s&oacute; usou &ndash; parca ra&ccedil;&atilde;o! -    <br>     uma vez. E se a fun&ccedil;&atilde;o    <br>     faz o &oacute;rg&atilde;o &ndash; diz o ditado -    <br>     consumada essa excep&ccedil;&atilde;o,    <br>     ficou capado o Morgado.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se bem que quase nada exista de cient&iacute;fico na famosa cantiga de amigo do rei D. Dinis, quando p&otilde;e na boca da donzela a pergunta: "Ay flores, ay flores do verde pi&ntilde;o,/ se sabedes novas do meu amigo,/ ay Deus, e hu &eacute;?", esta composi&ccedil;&atilde;o foi sempre para mim um enigma, pois poucos ser&atilde;o capazes de reconhecer as flores do pinheiro. Falar das flores do pinheiro &eacute; o mesmo que falar das flores da figueira ou da "avelaneira frolida" tamb&eacute;m das cantigas medievais, pois tais flores, n&atilde;o apresentando p&eacute;talas e belas corolas, levam qualquer um, menos industriado, a dizer que essas &aacute;rvores n&atilde;o d&atilde;o flor. Ora, salvo casos que eu desconhe&ccedil;a, as flores, depois de fecundadas, originam os frutos, logo, toda a &aacute;rvore de fruto d&aacute; flor, ainda que o n&atilde;o saibamos ou reconhe&ccedil;amos. Em suma, D. Dinis, embora ocupado nos assuntos do reino e sumido nos confins do s&eacute;culo XIII, sabia de bot&acirc;nica mais do que eu, que s&oacute; aprendi a ver as flores do pinheiro por causa da sua cantiga de amigo. Ali&aacute;s, emendo, D. Dinis recebeu o cognome de O Lavrador, por ter dedicado muita aten&ccedil;&atilde;o &agrave; agricultura e &agrave; floresta&ccedil;&atilde;o. Ele foi o principal respons&aacute;vel pelo plantio do pinhal de Leiria, com &aacute;rvores importadas dos pa&iacute;ses n&oacute;rdicos. O pinhal destinava-se a fixar as areias do litoral, e acabou por fornecer tamb&eacute;m a madeira com que se constru&iacute;ram as caravelas com que os portugueses se aventuraram a dar novos mundos ao mundo. Neste momento est&aacute; em replanta&ccedil;&atilde;o, ap&oacute;s um violento e amplo inc&ecirc;ndio.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Poeta em Portugal como no Brasil, Tom&aacute;s Ant&oacute;nio Gonzaga, em <i>Mar&iacute;lia de Dirceu</i>, alude a algo que ocupava a mente e o tempo dos fil&oacute;sofos naturais, ou naturalistas, nomes que ent&atilde;o se dava aos cientistas: a minera&ccedil;&atilde;o e os seus produtos, a busca dos produtos naturais necess&aacute;rios, a agricultura, a introdu&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies &uacute;teis. Ele vai at&eacute; ao garimpo, observa, n&atilde;o lhe agrada aquela faina, e tamb&eacute;m n&atilde;o lhe agrada trabalhar nas planta&ccedil;&otilde;es de tabaco nem de cana sacarina, por isso promete a Mar&iacute;lia que n&atilde;o ter&aacute; essa vida:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tu n&atilde;o ver&aacute;s, Mar&iacute;lia, cem cativos    <br>     tirarem o cascalho e a rica terra,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     ou dos cercos dos rios caudalosos,    <br>     ou da minada serra.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o ver&aacute;s separar ao h&aacute;bil negro    <br>     do pesado esmeril a grossa areia,    <br>     e j&aacute; brilharem os granetes de oiro    <br>     no fundo da bateia.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o ver&aacute;s derrubar os virgens matos,    <br>     queimar as capoeiras inda novas,    <br>     servir de adubo &agrave; terra a f&eacute;rtil cinza,    <br>     lan&ccedil;ar os gr&atilde;os nas covas.</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Parece um ecologista a defender o ambiente, Tom&aacute;s Ant&oacute;nio Gonzaga, e realmente h&aacute; momentos em que os naturalistas, no s&eacute;culo XVIII, se preocupam com a excessiva ca&ccedil;a e exagerado abate de &aacute;rvores no Brasil, por isso os lemos a reclamarem legisla&ccedil;&atilde;o protecionista sobre essas mat&eacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E j&aacute; que estamos no Brasil, vejamos um poeta bem conhecido como cientista, Gilberto Freyre, a declarar, em <i>Poesia reunida</i> &#91;5&#93;, a sua simpatia po&eacute;tica por uma ferramenta pr&oacute;pria da ci&ecirc;ncia. Em poema de um verso s&oacute;, confessa ele: &#171;Encontro muita poesia nos mapas&#187;. Mais interessante ainda &eacute; Gilberto Freyre, na mesma obra, dedicar um poema &agrave; ts&eacute;-ts&eacute;, uma das respons&aacute;veis pelas mais virulentas doen&ccedil;as tropicais africanas, a par da mal&aacute;ria. As moscas ts&eacute;-ts&eacute;, pertencentes ao g&eacute;nero <i>Glossina</i>, causam a doen&ccedil;a do sono, ao transmitirem tripanossomas quando nos picam. Intitula-se <i>A mosca do sono</i> o poema de Gilberto Freyre:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mosca terr&iacute;vel    <br>     feia, sinistra, com umas asas    <br>     que parecem fazer dela miniatura    <br>     de bruxa ou moura-torta sob a forma de mosca.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mosca terr&iacute;vel da doen&ccedil;a do sono    <br>     &eacute; toda preta como se vivesse    <br>     numa s&aacute;dica antecipa&ccedil;&atilde;o de luto pelas v&iacute;timas.</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas viajemos no tempo, voltando a &eacute;pocas long&iacute;nquas: n'<i>Os lus&iacute;adas</i>, Cam&otilde;es faz v&aacute;rias nota&ccedil;&otilde;es de fen&oacute;menos explicados hoje pela ci&ecirc;ncia, motivadas pelas perip&eacute;cias sofridas pelos mareantes a caminho da &Iacute;ndia, sob a lideran&ccedil;a de Vasco da Gama. &Eacute; o caso da tromba de &aacute;gua e do fogo de santelmo, fen&oacute;menos meteorol&oacute;gicos estranhos e assustadores. O fogo de santelmo, ou fogo-f&aacute;tuo, &eacute; um fen&oacute;meno atmosf&eacute;rico de natureza el&eacute;trica que se manifesta por uma luz azulada, resultado de combust&atilde;o espont&acirc;nea de mat&eacute;ria org&acirc;nica. Surge por vezes nos mastros dos navios. Reza o povo que assombra, &agrave; noite, os cemit&eacute;rios, e talvez por isso, no<i> Fausto</i>, de Go&euml;the (poeta que por sinal era naturalista, bom conhecedor assim dos fen&oacute;menos da natureza), ocorra uma passagem em que Mefist&oacute;feles e Fausto dialogam com terceira personagem, chamada Fogo-F&aacute;tuo. O Fogo-F&aacute;tuo ensina aos outros um caminho pr&oacute;prio da sua "natureza ligeira": em ziguezague. Quanto a Cam&otilde;es, n' <i>Os lus&iacute;adas</i>, as nota&ccedil;&otilde;es surgem no Canto V. &Eacute; famosa a asser&ccedil;&atilde;o "Vi, claramente visto", usada normalmente pelos estudiosos para documentar a faceta naturalista de Cam&otilde;es, ou seja, o cuidado com a descri&ccedil;&atilde;o precisa dos factos da natureza, pr&oacute;pria dos humanistas, que rejeitavam assim as fantasias da supersti&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">17    <br>     Os casos vi, que os rudos marinheiros,    <br>     Que t&ecirc;m por mestra a longa experi&ecirc;ncia,    <br>     Contam por certos sempre e verdadeiros,    <br>     Julgando as cousas s&oacute; pela apar&ecirc;ncia,    <br>     E que os que t&ecirc;m ju&iacute;zos mais inteiros,    <br>     Que s&oacute; por puro engenho e por ci&ecirc;ncia    <br>     V&ecirc;m do mundo os segredos escondidos,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     Julgam por falsos ou mal-entendidos.</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">18    <br>     Vi, claramente visto, o lume vivo    <br>     Que a mar&iacute;tima gente tem por santo,    <br>     Em tempo de tormenta e vento esquivo,    <br>     De tempestade escura e triste pranto.    <br>     N&atilde;o menos foi a todos excessivo    <br>     Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,    <br>     Ver as nuvens, do mar com largo cano,    <br>     Sorver as altas &aacute;guas do Oceano.</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">19    <br>     Eu o vi certamente (e n&atilde;o presumo    <br>     Que a vista me enganava): levantar-se    <br>     No ar um vaporzinho e sutil fumo    <br>     E, do vento trazido, rodear-se;    <br>     De aqui levado um cano ao P    &oacute;lo sumo    <br>     Se via, t&atilde;o delgado, que enxergar-se    <br>     Dos olhos facilmente n&atilde;o podia;    <br>     Da mat&eacute;ria das nuvens parecia.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Finalmente, n&atilde;o &eacute; s&oacute; a poesia que se deixa impregnar pela ci&ecirc;ncia, a ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m se deixa impregnar pela poesia. A hist&oacute;ria natural &eacute; o reino por excel&ecirc;ncia da mitologia greco-latina, pois na origem do sistema de classifica&ccedil;&atilde;o binominal tivemos Lineu, que foi &agrave; Gr&eacute;cia e a Roma antigas buscar o nome para as novas esp&eacute;cies. A astrof&iacute;sica designa com express&otilde;es po&eacute;ticas os acidentes c&oacute;smicos - an&atilde;s vermelhas, an&atilde;s brancas, buracos negros - e tamb&eacute;m na antiguidade a astronomia, siamesa da astrologia, da numerologia e da alquimia, conhecia os corpos celestes pelo nome dos deuses: Merc&uacute;rio, V&eacute;nus, Gea/Terra, Marte, J&uacute;piter, Saturno e Plut&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Devem ser in&uacute;meras as obras, do romance e teatro &agrave; m&uacute;sica e &agrave; pintura, que se inspiram numa t&eacute;cnica assente em muitas ci&ecirc;ncias, a medicina, cujos praticantes j&aacute; foram conhecidos por &#171;f&iacute;sicos&#187; e que inclu&iacute;ram barbeiros como cirurgi&otilde;es. A interdepend&ecirc;ncia das humanidades e das ci&ecirc;ncias &eacute; t&atilde;o vasta e essencial como a que se verifica entre o ambiente e os seres vivos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Toda a cultura, todas as artes ficam fascinadas pelas viagens nas gal&aacute;xias infinitas e pelo que acontece no universo. No cinema, al&eacute;m da <i>Odisseia no espa&ccedil;o</i>, de Stanley Kubrick, vimos esse belo filme de Lars von Trier, <i>Melancolia </i>(&#171;Melancolia&#187; &eacute; o nome de um planeta em rota de colis&atilde;o com a Terra), para citar ao menos dois. A m&uacute;sica oferece-nos pe&ccedil;as maravilhosas inspiradas pela ci&ecirc;ncia, e, se permitem, agora que terminei este balan&ccedil;o de s&eacute;culos e fiquei muito cansada, vou sentar-me no sof&aacute;, de auscultadores na cabe&ccedil;a, a ouvir Pink Floyd, seja o &aacute;lbum <i>Dark side of the moon</i>, uma viagem ao lado da Lua n&atilde;o iluminado pelo Sol. Talvez a m&uacute;sica me inspire para mais livros de poesia, a acrescentar a <i>SO</i><sub><i>2</i></sub>, <i>Geisers, Arboreto, Risco da Terra, Folhas de flandres, Clit&oacute;ris cl&iacute;toris</i>, t&iacute;tulos que declaram o quanto devo &agrave; ci&ecirc;ncia e quanto para ela tenho contribu&iacute;do.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Hor&aacute;cio. <i>Odes</i>, trad. Pedro Braga Falc&atilde;o, Lisboa, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Oliveira, C. <i>Obras de Carlos de Oliveira</i>, Lisboa, 1992.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Helder, H. <i>Ouolof</i>, Lisboa, 1997.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Helder, H. <i>Cobra</i>, Lisboa, 1977.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Freyre, G. <i>Poesia reunida</i>, Recife, 1980.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt"></a><a href="#nta">*</a> Nota da editora: o texto est&aacute; escrito em portugu&ecirc;s de Portugal.</font></p>      ]]></body><back>
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