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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br> LITERATURA E CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Jogos de sombras, ecos e refra&ccedil;&otilde;es: a vilania em matem&aacute;tica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>J&uacute;lio C&eacute;sar Augusto do Valle</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Licenciado em matem&aacute;tica, mestre e doutor em educa&ccedil;&atilde;o pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Professor do Instituto Superior de Educa&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Paulo e secret&aacute;rio municipal de Educa&ccedil;&atilde;o de Pindamonhangaba, desde janeiro de 2017. Tem desenvolvido pesquisas sobre as rela&ccedil;&otilde;es entre matem&aacute;tica e cultura, al&eacute;m de experi&ecirc;ncias de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas educacionais brasileiras</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Estudantes dizem que matem&aacute;tica foi vil&atilde; na primeira fase da Fuvest" &#91;1&#93; foi a manchete de uma not&iacute;cia recente do portal G1 elaborada a partir de entrevistas com candidatos que classificaram as quest&otilde;es da disciplina na prova como dif&iacute;ceis e confusas. Enquadr&aacute;-la sob a pecha da vilania, contudo, n&atilde;o constitui somente a opini&atilde;o desses candidatos em rela&ccedil;&atilde;o a esse vestibular, em particular. Tornou-se j&aacute; lugar comum destacar a complexidade dos conhecimentos matem&aacute;ticos, como denota manchete do <i>Correio Braziliense</i>: "Medo de matem&aacute;tica tem origem cultural e traz consequ&ecirc;ncias negativas" &#91;2&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mesmo encontrei nos <i>sites </i>Recanto das Letras ("Matem&aacute;tica: a grande vil&atilde; nas s&eacute;ries iniciais" &#91;3&#93;), Brasil Escola ("O que fazer quando a matem&aacute;tica se torna uma vil&atilde;?" &#91;4&#93;) ou ainda <i>Revista Encontro</i> ("Matem&aacute;tica &eacute; a grande vil&atilde; da alfabetiza&ccedil;&atilde;o" &#91;5&#93;). Este &uacute;ltimo se pautava, inclusive, nos dados oficiais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An&iacute;sio Teixeira (Inep), coletados por meio da Avalia&ccedil;&atilde;o Nacional de Alfabetiza&ccedil;&atilde;o (ANA), que revelam que 57% das crian&ccedil;as nos terceiros anos das escolas brasileiras apresentaram desempenho inadequado na disciplina em 2014.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que a matem&aacute;tica seja considerada como a vil&atilde; das disciplinas escolares, ent&atilde;o, se compreende diante das dificuldades apresentadas, por exemplo, por milh&otilde;es de crian&ccedil;as brasileiras que se submeteram &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o mencionada acima. Nesse sentido, o que quero dizer &eacute; que n&atilde;o me surpreende atribuir tra&ccedil;os de vilania &agrave; matem&aacute;tica, cujo aproveitamento escolar tem sido tradicionalmente baixo, provocando ang&uacute;stias, bloqueios e reten&ccedil;&otilde;es. O que me surpreende e instiga, ao inv&eacute;s disso, &eacute; a atribui&ccedil;&atilde;o de caracter&iacute;sticas da matem&aacute;tica - ou dos matem&aacute;ticos - &agrave; vilania, que ocorre na literatura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Vil&atilde;s e vil&otilde;es frios e <b>calculistas</b> pululam a literatura de alguns contextos, lugares e tempos, mas por que teria lhes sido atribu&iacute;da essa compet&ecirc;ncia t&atilde;o c&eacute;lebre do campo dos conhecimentos matem&aacute;ticos? Pressupondo que responder a essa pergunta pode nos ajudar a compreender os motivos que t&ecirc;m afastado milh&otilde;es de pessoas do gosto pela matem&aacute;tica, debru&ccedil;amo-nos sobre o caso de um proeminente vil&atilde;o da literatura, concebido como professor de matem&aacute;tica para satisfazer aos anseios e prop&oacute;sitos de seu criador - o professor Moriarty, principal vil&atilde;o e inimigo de Sherlock Holmes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>"UM G&Ecirc;NIO, PENSADOR ABSTRATO" - MORIARTY</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"Ele &eacute; o Napole&atilde;o do crime, Watson. &Eacute; o respons&aacute;vel por metade das a&ccedil;&otilde;es malignas e quase todos os delitos ocultos nesta grande cidade. &Eacute; um g&ecirc;nio, um fil&oacute;sofo, um pensador abstrato, dotado de um c&eacute;rebro de primeira grandeza" - essas s&atilde;o as palavras do detetive Sherlock Holmes que descrevem o professor James Moriarty para seu companheiro de aventuras, o m&eacute;dico John Watson &#91;6, p. 7&#93;. Chamam a nossa aten&ccedil;&atilde;o sua men&ccedil;&atilde;o a um "c&eacute;rebro de primeira grandeza" e, ainda mais, a um "pensador abstrato", genial.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como veremos adiante, tantos e tamanhos elogios n&atilde;o s&atilde;o arbitr&aacute;rios. O g&ecirc;nio do crime, professor Moriarty, teria sido o &uacute;nico rival do detetive a cativar sua admira&ccedil;&atilde;o e o criador de ambos, sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), escritor e m&eacute;dico brit&acirc;nico, teve seus motivos para faz&ecirc;-los assim. De acordo com o pref&aacute;cio de Jos&eacute; Francisco Botelho ao <i>Livro de Moriarty</i>, o autor "irritava-se com a obriga&ccedil;&atilde;o constante de inventar charadas e mais charadas para a lupa infal&iacute;vel de Holmes", especialmente porque isso o afastava de outros trabalhos que, segundo Botelho, considerava mais nobres &#91;6, p. 11&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Evid&ecirc;ncia disso, para seu prefaciador e tradutor, seria uma carta que Doyle escreveu para sua m&atilde;e, em 1891, em que desabafava: "Estou cansado de ouvir o nome de Sherlock Holmes. Ele pertence a um extrato inferior de cria&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria. Como prova de minha resolu&ccedil;&atilde;o, estou decidido a mat&aacute;-lo" &#91;6, p. 11&#93;. Por&eacute;m, n&atilde;o seria uma tarefa simples aniquilar o mais popular detetive da literatura inglesa, representante por excel&ecirc;ncia do racioc&iacute;nio hipot&eacute;tico-dedutivo. No pref&aacute;cio de Botelho, lemos:</font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas como se destr&oacute;i um ser t&atilde;o formid&aacute;vel? Apesar de sua fadiga em rela&ccedil;&atilde;o ao personagem, Doyle n&atilde;o deixava de expressar por ele uma defer&ecirc;ncia cavalheiresca. "Um homem como ele n&atilde;o pode morrer por causa de um arranh&atilde;o ou um resfriado. Seu fim tem de ser violento e intensamente dram&aacute;tico", escreveu. Em agosto de 1893, Doyle viajou &agrave; Su&iacute;&ccedil;a com sua primeira esposa, Louise. Grande adepto de caminhadas ao ar livre, ziguezagueou durante dias pelas trilhas dos Alpes, onde visitou as cachoeiras de Reichenbach.  "Este ser&aacute; um bom sepulcro para o pobre Sherlock, ainda que eu enterre minha conta banc&aacute;ria junto". Todavia, faltava encontrar um personagem capaz de lan&ccedil;ar Holmes no precip&iacute;cio. Foi com o intuito espec&iacute;fico de destruir seu detetive que Doyle criou Moriarty  - concebido, desde o in&iacute;cio, para ser um espelho sombrio de Sherlock. Afinal, <b>era preciso um tit&atilde; para eliminar outro tit&atilde;.</b> (...) O embate entre Holmes e Moriarty termina com a queda de ambos nas profundezas de Reichenbach. Ap&oacute;s redigir o &uacute;ltimo par&aacute;grafo, anotou em seu di&aacute;rio: "Matei Holmes". (grifos nossos) &#91;6, p. 11-12&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o tardou para que o criador de Holmes revelasse que somente um professor de matem&aacute;tica seria capaz n&atilde;o s&oacute; de acompanhar o detetive, mas tamb&eacute;m de super&aacute;-lo, em seu apurado racioc&iacute;nio inferencial, hipot&eacute;tico-dedutivo, marca indel&eacute;vel do personagem. Moriarty se caracterizaria, cada vez mais, como "o maior conspirador de todos os tempos, o arquiteto das mais diab&oacute;licas maquina&ccedil;&otilde;es, o c&eacute;rebro que controla o submundo" &#91;6, p. 15&#93;. Tratava-se de algu&eacute;m com tanto talento para a matem&aacute;tica que, aos vinte e um anos, teria escrito um tratado sobre o bin&ocirc;mio de Newton - o que lhe rendeu uma c&aacute;tedra numa universidade inglesa onde teria lecionado durante mais de vinte anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A escolha, ent&atilde;o, de um professor de matem&aacute;tica como o &uacute;nico capaz de encerrar o fado do criador de Holmes torna-se, sob a nossa perspectiva, bastante elucidativa dos motivos pelos quais compet&ecirc;ncias matem&aacute;ticas t&ecirc;m sido atribu&iacute;das aos grandes vil&otilde;es da literatura, conforme argumentaremos adiante. Possuidor de tamanha genialidade, capaz de "abrilhantar ou devastar o destino de na&ccedil;&otilde;es inteiras", a figura de Moriarty desvela-se, no decorrer da obra, como respons&aacute;vel por "maquinar crimes variados enquanto fingia ser apenas um pacato professor de prov&iacute;ncia", fazendo do vener&aacute;vel matem&aacute;tico "a insuspeitada cabe&ccedil;a de uma vasta e sinistra organiza&ccedil;&atilde;o, cujos tent&aacute;culos de sombra estendiam-se por toda a Inglaterra e ainda al&eacute;m" &#91;6, p. 17&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Botelho tamb&eacute;m nos conta que "os pr&oacute;prios asseclas de Moriarty - exceto por um seleto c&iacute;rculo de seguidores mais pr&oacute;ximos - ignoravam sua verdadeira identidade", fato coadunado pela percep&ccedil;&atilde;o de que "no jarg&atilde;o dos malfeitores, o grande chefe da guilda era designado por um solit&aacute;rio e terr&iacute;vel pronome: <i>Ele</i>". Nesse mesmo sentido, somam-se &agrave; figura fria e calculista do professor outras compet&ecirc;ncias matem&aacute;ticas que teriam sido fundamentais &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de sua imagem: "a disciplina da organiza&ccedil;&atilde;o", considerada por Botelho como draconiana; mas, mais do que isso, o fato de que <i>"Ele</i> raramente sujava as m&atilde;os: limitava-se a calcular, planejar e organizar" &#91;6, p. 17&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Frio, calculista, planejador inequ&iacute;voco, fatalmente preciso e cruelmente rigoroso, Moriarty encerra em si toda a vilania edificada sobre as bases matem&aacute;ticas de sua personagem, necess&aacute;rias e suficientes para conduzir Holmes a seu beco sem sa&iacute;da, como faz magistralmente o bom enxadrista em um conto denominado - quase que ironicamente considerando a finalidade deste ensaio - "O problema final".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao compar&aacute;-lo com Iago, "outro mestre das artes conspirat&oacute;rias", Botelho afirma que "ambos s&atilde;o maquinadores magistrais (...) mas o personagem shakespeariano &eacute; um vil&atilde;o de ret&oacute;rica exuberante, um exibicionista do Mal, enquanto Moriarty &eacute; uma figura discretamente terr&iacute;vel, que s&oacute; conseguimos enxergar de esguelha" &#91;6, p. 7&#93;. Sua terr&iacute;vel discri&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m pode acompanhar esse rol de caracter&iacute;sticas que, &agrave;s vezes de forma estereotipada, caracterizam os professores de matem&aacute;tica. Al&eacute;m dela, concordamos e sublinhamos a leitura do prefaciador e estudioso da obra quando afirma que "a vilania do tem&iacute;vel professor &eacute; um jogo de sombras, ecos e refra&ccedil;&otilde;es: sua voz se ouve apenas &agrave; dist&acirc;ncia e sempre em segunda m&atilde;o" &#91;6, p. 8&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Afinal, esse trecho - tanto quanto o seguinte - evidencia certa capacidade de Moriarty, muito n&iacute;tida em seu <i>ser</i> matem&aacute;tico, de interpretar a realidade com tamanha precis&atilde;o e facilidade que seria poss&iacute;vel coorden&aacute;-la, control&aacute;-la, prediz&ecirc;-la para atingir suas terr&iacute;veis finalidades. Como a imagem que muitas vezes alunas e alunos guardam da matem&aacute;tica escolar, o pr&oacute;prio Moriarty "aparece e some com m&iacute;nimas explica&ccedil;&otilde;es, deixando atr&aacute;s de si um rastro de retic&ecirc;ncias", tornando-se, nas palavras de Botelho, o "prot&oacute;tipo do vil&atilde;o cerebral e manipulador".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O MEDO DA MATEM&Aacute;TICA E DE SUA VILANIA</b></font></p>     <blockquote>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maior parte das raz&otilde;es que me levaram a escrever este livro podem ser referidas a uma ocorr&ecirc;ncia do s&eacute;culo XVIII, no dia em que o grande matem&aacute;tico alem&atilde;o Leonhard Euler se encontrou com o eminente intelectual franc&ecirc;s Denis Diderot, ateu convicto, a quem apresentou uma prova matem&aacute;tica, esp&uacute;ria da exist&ecirc;ncia de Deus. Segundo parece, Euler aceitara um convite de Diderot, que ao tempo se encontrava na corte do czar russo. No dia de sua chegada, Euler procurou Diderot e proclamou: "Monsieur, (a + b<sup>n</sup>)/n = X, donc Dieu existe; r&eacute;pondez!" &#91;Cavalheiro, (a + b<sup>n</sup>)/n = X, portanto, Deus existe; responda!&#93; Anteriormente, Diderot tinha j&aacute; eloquente e vigorosamente refutado numerosos argumentos filos&oacute;ficos para a exist&ecirc;ncia de Deus, mas neste momento, incapaz de compreender o significado da equa&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica que Euler lhe apresentara, sentiu-se intimidado e n&atilde;o proferiu palavra. &#91;7, p. 9&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para o autor acima, a hist&oacute;ria ilustra bem como se relacionam matem&aacute;ticos e n&atilde;o matem&aacute;ticos em nossa sociedade. Mesmo algu&eacute;m proeminente como Diderot teria silenciado diante do que o matem&aacute;tico estadunidense Michael Guillen caracterizou como "aquele pavor patol&oacute;gico e a humilha&ccedil;&atilde;o confusa que a matem&aacute;tica provoca em centenas de milh&otilde;es de pessoas" &#91;7, p. 10&#93;, o famigerado medo da matem&aacute;tica - uma constante ao longo da hist&oacute;ria em sua opini&atilde;o. Conforme afirma adiante, "o medo da matem&aacute;tica &eacute;, na verdade, n&atilde;o um, mas o conjunto de v&aacute;rios males, cada um dos quais proveniente de determinada ideia errada acerca da matem&aacute;tica". Sob essa perspectiva Guillen elucida que, "em primeir&iacute;ssimo lugar, o medo da matem&aacute;tica deriva do desconhecimento dos limites da mesma matem&aacute;tica".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com essa chave interpretativa, "Diderot ficou muito atrapalhado com a interpela&ccedil;&atilde;o de Euler, porque ignorava que a matem&aacute;tica ainda n&atilde;o se tinha lan&ccedil;ado sequer na abordagem dos problemas do infinito, quanto mais dos de Deus" &#91;7, p. 11&#93;. O desconhecimento dos limites da matem&aacute;tica tem, portanto, assustado, silenciado e afastado de seus dom&iacute;nios numerosos "Diderot" desde o acontecimento narrado e &eacute; justamente sobre esse desconhecimento acerca de seus potenciais - mas, mais ainda, de seus limites - que se edificam tamb&eacute;m numerosos vil&otilde;es criados pela literatura. Tudo funciona como se - assim como na hist&oacute;ria do encontro de Euler e Diderot - conhecer profundamente a matem&aacute;tica proporcionasse ao matem&aacute;tico um dom&iacute;nio t&atilde;o preciso e rigoroso como inexplic&aacute;vel sobre a realidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa chave de interpreta&ccedil;&atilde;o nos permite compreender por que motivos somente um professor de matem&aacute;tica, com uma mente brilhante, seria capaz de p&ocirc;r fim &agrave;s aventuras de Sherlock Holmes. Se o detetive era ex&iacute;mio, &uacute;nico, em seu racioc&iacute;nio hipot&eacute;tico-dedutivo, fazia-se mais e mais necess&aacute;rio conceber como rival algu&eacute;m capaz de ler, interpretar, deduzir e coordenar aspectos bastante complexos da realidade. Ora, pressupor que a matem&aacute;tica &eacute; a ferramenta suficiente para esse tipo de pr&aacute;tica demonstra, tanto quanto a hist&oacute;ria de  Diderot, o desconhecimento de seus limites. Em algumas interpreta&ccedil;&otilde;es e leituras da realidade, pode ser necess&aacute;ria alguma matem&aacute;tica, mas pressup&ocirc;-la como suficiente - em detrimento de recortes das ci&ecirc;ncias humanas e mesmo de saberes de diferentes naturezas, como, por exemplo, os de matriz popular ou ancestral - significa atribuir-lhe uma capacidade que ela n&atilde;o possui. Para elucidarmos nossa afirma&ccedil;&atilde;o, recorremos &agrave; abordagem filos&oacute;fica da matem&aacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A NATUREZA DO CONHECIMENTO MATEM&Aacute;TICO EM OPOSI&Ccedil;&Atilde;O &Agrave; VILANIA</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para nos opormos &agrave;s formas como a matem&aacute;tica tem sido, via de regra, constituidora da vilania, &eacute; preciso, portanto, discutir a pr&oacute;pria natureza do conhecimento matem&aacute;tico - discuss&atilde;o cuja aus&ecirc;ncia faz, n&atilde;o poucas vezes, com que supervalorizemos as possibilidades da matem&aacute;tica (ou do matem&aacute;tico). Afinal, elucidar como se constr&oacute;i matem&aacute;tica contribui em larga medida para que compreendamos seus limites que, de acordo com Guillen, pode ser decisivo para desconstruir o medo que tradicionalmente assola at&eacute; mesmo os indiv&iacute;duos mais brilhantes como Diderot.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fil&oacute;sofo austr&iacute;aco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) concebeu respostas bastante interessantes &agrave;s perguntas que angustiavam os matem&aacute;ticos e os fil&oacute;sofos da matem&aacute;tica em sua &eacute;poca, tornando-se por isso um dos respons&aacute;veis pela virada lingu&iacute;stica na hist&oacute;ria da filosofia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Agrave; virada lingu&iacute;stica, portanto, associa-se a figura do fil&oacute;sofo justamente porque os trabalhos elaborados pelo "segundo Wittgenstein" - nome dado &agrave; fase de seu pensamento em que h&aacute; um rompimento decisivo com muitos preceitos que o orientavam anteriormente - provocaram a supera&ccedil;&atilde;o da concep&ccedil;&atilde;o estritamente referencial da linguagem que caracteriza predominantemente o modo de entender a linguagem - da&iacute;, a virada lingu&iacute;stica. As <i>Investiga&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas </i>de Wittgenstein tornaram-se, nesse cen&aacute;rio, ilustrativas do sentido e do significado da pr&oacute;pria virada lingu&iacute;stica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Do ponto de vista do Wittgenstein maduro, os significados das palavras e das coisas em geral n&atilde;o s&atilde;o dados <i>a priori</i> como concebiam Plat&atilde;o e Agostinho, por exemplo, mas, ao inv&eacute;s disso, s&atilde;o constru&iacute;dos na pr&aacute;tica, no uso: "Pode-se, para uma grande classe de casos de utiliza&ccedil;&atilde;o da palavra 'significa&ccedil;&atilde;o' - sen&atilde;o para todos os casos de sua utiliza&ccedil;&atilde;o -, explic&aacute;-la assim: a significa&ccedil;&atilde;o de uma palavra &eacute; seu uso na linguagem" &#91;8, &sect;43&#93;. Isso tamb&eacute;m sinaliza o entendimento de que o significado das palavras n&atilde;o se restringe apenas &agrave; simples correspond&ecirc;ncia com objetos e coisas. Em s&iacute;ntese, para Wittgenstein, a fun&ccedil;&atilde;o da linguagem, sobretudo por meio das palavras, n&atilde;o &eacute; a de substituir os objetos, como em certa medida revelava o entendimento de Agostinho. Nomear, <i>etiquetar</i>, objetos e coisas, com efeito, consiste em um n&iacute;vel muito elementar da linguagem.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se os significados das palavras se constituem nos usos que fazemos da linguagem como um sistema articulado de s&iacute;mbolos e sons, ent&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio um conjunto de "regras de uso" que nos permitam empregar esse sistema. Esse conjunto, complexo, de regras de uso determina o que faz sentido dizer - ou o que pode ser dito - num determinado contexto. Tal conjunto, para Wittgenstein, consiste na <i>gram&aacute;tica</i> que, evidentemente, adquire para o fil&oacute;sofo um significado mais amplo do que o usual precisamente porque sinaliza as regras constitutivas de uso das palavras quando condicionadas por determinadas formas de vida, que abrigam/produzem as condi&ccedil;&otilde;es de sentido da pr&oacute;pria linguagem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tais regras orientam os usos poss&iacute;veis da linguagem sem determin&aacute;-los, contudo, aprioristicamente. Conhecer a gram&aacute;tica, nesse sentido, ensina como manejar os c&oacute;digos da linguagem sem, entretanto, determinar univocamente uma maneira &uacute;nica de uso das palavras, por exemplo. Sob essa perspectiva, a met&aacute;fora dos "jogos de linguagem", termos utilizados por Wittgenstein, se torna bastante importante. Assim como, ao jogar um jogo como o xadrez, conhecer as regras n&atilde;o determina um &uacute;nico movimento poss&iacute;vel, possibilitando in&uacute;meros lances, as regras da linguagem indicam tamb&eacute;m um campo do que faz e do que n&atilde;o faz sentido dizer. Em ambos os casos, portanto, a gram&aacute;tica orienta as possibilidades, com determinada <i>vagueza</i> que permite a mobilidade na partida de xadrez e na comunica&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o se deve, entretanto, considerar que a gram&aacute;tica seja um dado, algo <i>a priori</i>, uma entidade metaf&iacute;sica que orienta nossos usos da linguagem, tampouco seria um produto de processos emp&iacute;ricos. Deve-se considerar, ao inv&eacute;s disso, que "a descri&ccedil;&atilde;o gramatical n&atilde;o toca o solo mundano dos jogos de linguagem ainda que o tenha como pressuposto necess&aacute;rio, uma vez que a gram&aacute;tica &eacute; produto de nosso pensamento ao agirmos sobre o mundo: esta n&atilde;o &eacute; um <i>dado</i>, mas uma <i>constru&ccedil;&atilde;o</i>" &#91;9, p. 16&#93;. Logo, como produto de nosso pensamento ao agir sobre o mundo, as proposi&ccedil;&otilde;es da gram&aacute;tica s&atilde;o arbitr&aacute;rias e convencionais: interagem, em certa medida, com o mundo emp&iacute;rico, mas poderiam ser diferentes desde que consider&aacute;ssemos jogos de linguagens diferentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os jogos de linguagem, por sua vez, s&atilde;o "a totalidade formada pela linguagem e pelas atividades com as quais ela vem entrela&ccedil;ada" &#91;8, &sect;7&#93;. Utilizar a express&atilde;o "jogos de linguagem" opera, ademais, no sentido de "salientar que falar uma l&iacute;ngua &eacute; parte de uma atividade ou de uma forma de vida" &#91;8, &sect;23&#93; e, da&iacute;, a import&acirc;ncia de compreender que a gram&aacute;tica &eacute; convencional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em suas <i>Investiga&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas</i>, Wittgenstein se dedica, portanto, a explorar e desfazer as confus&otilde;es epistemol&oacute;gicas e filos&oacute;ficas causadas, sobretudo, pela concep&ccedil;&atilde;o referencial da linguagem, que desconsidera essa multiplicidade dos usos das palavras, valendo-se destes e de outros conceitos relevantes em sua obra. Assim, para esclarecer confus&otilde;es advindas de uma concep&ccedil;&atilde;o referencial da linguagem, o fil&oacute;sofo imagina jogos de linguagem regidos por gram&aacute;ticas e condicionados por formas de vidas distintas para evidenciar tamb&eacute;m o car&aacute;ter convencional das regras de usos que adotamos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Atentar para esse car&aacute;ter convencional tamb&eacute;m das proposi&ccedil;&otilde;es gramaticais &eacute; de suma import&acirc;ncia para compreender, particularmente, a natureza do conhecimento matem&aacute;tico sob uma perspectiva wittgensteiniana. Isto porque parece comum, como destaca Gottschalk, que se procure "uma realidade matem&aacute;tica extralingu&iacute;stica para dar sentido &agrave;s suas proposi&ccedil;&otilde;es" &#91;10, p. 309&#93;. Ao entender as proposi&ccedil;&otilde;es da matem&aacute;tica como proposi&ccedil;&otilde;es gramaticais, somos chamados ao entendimento subjacente de seu car&aacute;ter convencional, que n&atilde;o depende de uma "realidade matem&aacute;tica independente, que seria condi&ccedil;&atilde;o para o 'fazer matem&aacute;tico' e uma posterior reflex&atilde;o sobre a natureza da atividade matem&aacute;tica". Para a educadora, deve-se, ao inv&eacute;s disso, "atentar para os diferentes usos de suas proposi&ccedil;&otilde;es: ora emp&iacute;rico, ora normativo". Em s&iacute;ntese, "uma mesma proposi&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica, como '2 + 2 = 4', pode ser empregada com uma fun&ccedil;&atilde;o descritiva ou normativa, dependendo do contexto em que se aplica".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo a autora, portanto, Wittgenstein n&atilde;o se refere ao processo de negocia&ccedil;&atilde;o dos significados dos entes matem&aacute;ticos, quando relaciona ensino e significado. O fil&oacute;sofo, ao inv&eacute;s disso, ressalta o car&aacute;ter normativo das proposi&ccedil;&otilde;es gramaticais, dentre as quais destacamos as proposi&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas, que se tornam, por isso, condi&ccedil;&otilde;es de sentido para as demais proposi&ccedil;&otilde;es. Trata-se de uma maneira de organizar a realidade, o emp&iacute;rico, e n&atilde;o um conhecimento que tenha sido extra&iacute;do dessa mesma realidade - como veremos adiante. Considera-se, enfim, bastante relevante a afirma&ccedil;&atilde;o de Gottschalk de que, sob uma perspectiva wittgensteiniana, "as proposi&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas institucionalizadas &eacute; que d&atilde;o sentido &agrave; atividade matem&aacute;tica, e n&atilde;o que sejam geradas por ela, atrav&eacute;s de processos emp&iacute;ricos" &#91;10, p. 313&#93;. Em outros termos, "s&atilde;o certezas convencionais pertencentes a uma determinada comunidade".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>E COMO ENFRENTAR JOGOS DE SOMBRAS, ECOS E REFRA&Ccedil;&Otilde;ES?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O fil&oacute;sofo M&aacute;rio S&eacute;rgio Cortella, em sua tese de doutoramento, tamb&eacute;m se aproximou desse entendimento ao afirmar que: "mesmo os conhecimentos que pareceriam mais est&aacute;veis e exatos precisam de uma relativiza&ccedil;&atilde;o que os remeta &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o da qual se cercaram, ou &agrave; sua configura&ccedil;&atilde;o" &#91;11, p. 92&#93;. "A matem&aacute;tica", afirma, "provoca uma admira&ccedil;&atilde;o imensa, e at&eacute; espanto, naqueles que tem a exatid&atilde;o com validade universal como um crit&eacute;rio para a verdade absoluta" - afirma&ccedil;&atilde;o com a qual concordamos, embora concordemos ainda mais com o acr&eacute;scimo feito em seguida: "n&atilde;o podemos esquecer, entretanto, que essa ci&ecirc;ncia &eacute; a mais <i>humana </i>de todas, pois resulta da pura abstra&ccedil;&atilde;o e da cria&ccedil;&atilde;o livre de nossas mentes".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sob essa perspectiva, Cortella nos recorda de que n&atilde;o existe correspond&ecirc;ncia &uacute;nica e natural entre os objetos matem&aacute;ticos e os objetos da natureza, da "mundidade". Existem, ao inv&eacute;s disso, correspond&ecirc;ncias constru&iacute;das hist&oacute;rica e socialmente: "a correspond&ecirc;ncia entre a materialidade e os objetos matem&aacute;ticos &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o nossa". Assim, evidenciando ainda mais o car&aacute;ter arbitr&aacute;rio e convencional do conhecimento matem&aacute;tico: "o conhecimento &eacute; fruto da conven&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, de acordos circunstanciais que n&atilde;o necessariamente representam a &uacute;nica possibilidade de interpreta&ccedil;&atilde;o da realidade".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Compreender a natureza convencional - e, portanto, cultural - do conhecimento matem&aacute;tico nos permite elucidar o fato de que o bom matem&aacute;tico somente representa bem a realidade matematicamente, porque a matem&aacute;tica foi constru&iacute;da de maneira a corresponder com tais representa&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o porque existam aspectos da realidade que se revelem apenas aos "deuses e g&ecirc;nios" - como se referia Freire &#91;12&#93; &agrave;queles a quem era permitido conhecer o mundo matematicamente. Desconstr&oacute;i-se, assim, qualquer possibilidade desses jogos de ecos, sombras e refra&ccedil;&otilde;es que tanto caracterizam as a&ccedil;&otilde;es de Moriarty.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para evit&aacute;-los, assim como a vilania em matem&aacute;tica, torna-se necess&aacute;rio, enfim, evidenciar seu car&aacute;ter de constructo humano, convencional, hist&oacute;rico, contextualizado socialmente, cuja aus&ecirc;ncia em seu ensino faz com que seus conhecimentos sejam percebidos como jogos de ecos, sombras e refra&ccedil;&otilde;es para aqueles que s&atilde;o vitimados pelo medo. Poderemos, dessa forma, n&atilde;o somente reverter os cen&aacute;rios com que iniciamos este texto, mas tamb&eacute;m &ndash; e principalmente &ndash; bradar, como faz Holmes: "ap&oacute;s mil desvios e artimanhas, cheguei &agrave; figura do ex-professor Moriarty, celebridade matem&aacute;tica" &#91;6, p. 19&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Moriarty e nenhum outro vil&atilde;o frio e calculista pode premeditar aspectos da realidade ou, ainda menos, control&aacute;-la de acordo com sua vontade, meramente por conhecer bem matem&aacute;tica. Afinal, essa faculdade contradiria a pr&oacute;pria natureza do conhecimento matem&aacute;tico. A realidade n&atilde;o se revela de maneira diferente, singular, aos matem&aacute;ticos e nem eles t&ecirc;m sobre ela qualquer poder sobrenatural de interpreta&ccedil;&atilde;o, especialmente porque a matem&aacute;tica tem sido, historicamente, a linguagem constru&iacute;da convencionalmente por mulheres e homens que se dedicaram aos seus estudos. Compreender sua natureza nos permite enfrentar tais jogos de ecos, sombras e refra&ccedil;&otilde;es. Os caminhos s&atilde;o muitos e tantos deles podem incluir justamente retirar a matem&aacute;tica da obscuridade e do brilhantismo que parecem qualificar os deuses e g&ecirc;nios que dela pretendem se aproximar. &Eacute; preciso, reiterando palavras ditas anteriormente, devolver a humanidade &agrave; matem&aacute;tica &ndash; "a mais humana das ci&ecirc;ncias".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS, REFER&Ecirc;NCIAS E BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Acesso em: <a href="https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/ estudantes-em-ribeirao-preto-dizem-que-matematica-foi-vila-na-1-fase-da-fuvest-2018.ghtml " target="_blank">https://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/ estudantes-em-ribeirao-preto-dizem-que-matematica-foi-vila-na-1-fase-da-fuvest-2018.ghtml</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Acesso em: <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/05/06/interna_cidadesdf,482072/medo-de-matematicatem- origem-cultural-e-traz-consequencias-negativas.shtml" target="_blank">https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2015/05/06/interna_cidadesdf,482072/medo-de-matematicatem- origem-cultural-e-traz-consequencias-negativas.shtml</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Acesso em: <a href="https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-educacao/2868610" target="_blank">https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-educacao/2868610</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Acesso em: <a href="https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/administracao/quando-matematica-se-torna-uma-vila.htm" target="_blank">https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/administracao/quando-matematica-se-torna-uma-vila.htm</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Acesso em: <a href="https://www.revistaencontro.com.br/canal/atualidades/2015/09/matematica-e-a-grande-vila-da-alfabetizacao.html" target="_blank">https://www.revistaencontro.com.br/canal/atualidades/2015/09/matematica-e-a-grande-vila-da-alfabetizacao.html</a></font><!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Doyle, A . C. <i>O livro de Moriarty</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2017.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Guillen, M. <i>Pontes para o infinito: o lado humano das matem&aacute;ticas</i>. Lisboa: E ditora Gradiva, 2013.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Wittgenstein, L. <i>Investiga&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas</i>. S&atilde;o Paulo: Abril Cultural, 1979.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Moreno, A. R. <i>Wittgenstein: atrav&eacute;s das imagens</i>. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Gottschalk, C. M. C. "A natureza do conhecimento matem&aacute;tico sob a perspectiva de Wittgenstein: algumas implica&ccedil;&otilde;es educacionais". <i>Caderno de Hist&oacute;ria e Filosofia da Ci&ecirc;ncia</i>,</font><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">14 (2), 305-334, 2004.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11. Cortella, M. S. <i>A escola e o conhecimento: fundamentos epistemol&oacute;gicos e pol&iacute;ticos</i>. S&atilde;o Paulo: Cortez Editora, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12. Freire, P. <i>Pedagogia dos sonhos poss&iacute;veis</i>. S&atilde;o Paulo: Paz e Terra, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">13. Russell, B. <i>Misticismo e l&oacute;gica</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957.    </font></p>      ]]></body><back>
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