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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A percepção sobre a ciência na vertigem do cinema: considerações acerca de Um corpo que cai]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   ENSAIOS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A percep&ccedil;&atilde;o sobre a ci&ecirc;ncia na vertigem do cinema: considera&ccedil;&otilde;es acerca de <i>Um corpo que cai</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>M&aacute;rcio Barreto</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Docente da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A can&ccedil;&atilde;o "Pecado original" foi composta por Caetano Veloso, em 1978, para a trilha sonora de <i>A dama do lota&ccedil;&atilde;o</i>, filme baseado na obra de Nelson Rodrigues e dirigido por Neville D'Almeida. Abaixo, podemos ler a primeira estrofe:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Todo dia, toda noite    <br>   Toda hora, toda madrugada    <br>   Momento e manh&atilde;    <br>   Todo mundo, todos os segundos do minuto    <br>   Vivem a eternidade da ma&ccedil;&atilde;    <br>   Tempo da serpente nossa irm&atilde;    <br>   Sonho de ter uma vida s&atilde;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa can&ccedil;&atilde;o popular traz em sua poesia a associa&ccedil;&atilde;o cultivada pelo senso comum entre a imagem da ma&ccedil;&atilde; e a queda do para&iacute;so. Embora n&atilde;o haja nas Escrituras qualquer men&ccedil;&atilde;o a esse fruto espec&iacute;fico, a ma&ccedil;&atilde; imp&ocirc;s-se como s&iacute;mbolo do pecado original que condicionou o humano &agrave; temporalidade e ao seu inexor&aacute;vel retorno ao ch&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Jung &#91;1&#93; estabeleceu um car&aacute;ter subdeterminado aos arqu&eacute;tipos que condensam v&aacute;rias situa&ccedil;&otilde;es numa &uacute;nica representa&ccedil;&atilde;o. A ma&ccedil;&atilde; representa tamb&eacute;m outro pilar da cultura ocidental: ainda que n&atilde;o haja na obra de Isaac Newton qualquer refer&ecirc;ncia ao fruto &#91;2&#93;, a queda de uma ma&ccedil;&atilde; teria revelado a Newton o enunciado da gravita&ccedil;&atilde;o universal, lei cuja formula&ccedil;&atilde;o matem&aacute;tica representa o coroamento da ci&ecirc;ncia moderna. Lenda reducionista do ponto vista da hist&oacute;ria da ci&ecirc;ncia que, no entanto, propaga-se no senso comum encarnada na imagem da ma&ccedil;&atilde;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar da trivial associa&ccedil;&atilde;o entre as ma&ccedil;&atilde;s da gravita&ccedil;&atilde;o universal e da queda do para&iacute;so, &eacute; interessante o papel que o h&aacute;bito pode desempenhar na cristaliza&ccedil;&atilde;o de um s&iacute;mbolo p&uacute;blico. Whitehead, ao referir-se &agrave; fun&ccedil;&atilde;o social da linguagem afirmou que "uma palavra &eacute; um s&iacute;mbolo associado &agrave; sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria, aos seus diversos sentidos e ao seu papel gerativo na literatura ordin&aacute;ria" &#91;3&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A queda aparece tamb&eacute;m como um componente importante para a ci&ecirc;ncia em outra lenda: Einstein, ao reformular a teoria gravitacional de Newton atrav&eacute;s da relatividade geral, teria retirado inspira&ccedil;&atilde;o ao observar a queda de um pintor de paredes atrav&eacute;s da sua janela. De concreto nessa hist&oacute;ria, temos a declara&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Einstein: "estava sentado numa cadeira na reparti&ccedil;&atilde;o de patentes em Berna quando de s&uacute;bito me ocorreu um pensamento: se uma pessoa cai livremente, n&atilde;o sente o pr&oacute;prio peso. Fiquei abismado. Este simples pensamento provocou-me uma impress&atilde;o profunda. Impeliu-me para a teoria da gravita&ccedil;&atilde;o" &#91;4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A verticalidade, inerente &agrave;s quedas do para&iacute;so, da ma&ccedil;&atilde; de Newton e da pessoa imaginada por Einstein, ao movimento ascensional ao qual assistimos no interior da obra de Plat&atilde;o e &agrave; concep&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; de c&eacute;u e inferno, &eacute; marcante na cultura ocidental.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a16fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No filme<i> Um corpo que cai</i> (<i>Vertigo</i>), de Alfred Hitchcock, o <i>dolly-zoom</i>, movimento simult&acirc;neo da c&acirc;mera e da lente, criado para o filme pelo diretor de fotografia e pelo pr&oacute;prio operador de c&acirc;mera, d&aacute; ao espectador o efeito de uma vertigem. Numa perspectiva topol&oacute;gica do filme, esse efeito t&eacute;cnico inovador e as tr&ecirc;s quedas de pessoas instauram a verticalidade como uma dimens&atilde;o essencial da trama e com a qual o espectador n&atilde;o pode deixar de lidar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A narrativa flui em S&atilde;o Francisco, nos Estados Unidos, onde o detetive John "Scottie" Ferguson, interpretado por James Stewart, sofre de acrofobia, sequela do trauma da perda de um colega de trabalho que caiu do alto de um edif&iacute;cio ao tentar salvar o protagonista de sua pr&oacute;pria queda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Um corpo que cai </i>coloca fatos sobrenaturais e investiga&ccedil;&atilde;o racional em altern&acirc;ncia na consci&ecirc;ncia do espectador: Scottie encontra um antigo colega de faculdade, Gavin Elster, o qual pede que siga sua esposa, Madeleine, pois acredita que ela est&aacute; possu&iacute;da por uma ancestral, Carlotta Valdez, e ir&aacute; tentar suic&iacute;dio. O detetive hesita diante do argumento inveross&iacute;mil do colega, mas aceita a proposta e passa a segui-la com um misto de cientificidade na an&aacute;lise do encadeamento das rela&ccedil;&otilde;es entre causas e efeitos e perplexidade diante da possibilidade n&atilde;o totalmente descartada da possess&atilde;o que vitima a esposa de Elster.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A paix&atilde;o entre Scottie e a investigada, interpretada por Kim Novak, aflora quando ela se joga na ba&iacute;a de S&atilde;o Francisco e &eacute; salva por ele. Os dois ent&atilde;o se enamoram e passam a se encontrar. Num desses encontros, ela subitamente sobe aflita ao alto da torre da igreja da miss&atilde;o San Juan Batista e o obriga a enfrentar a acrofobia para acompanh&aacute;-la, mas seu esfor&ccedil;o &eacute; v&atilde;o: o corpo dela caindo enquanto ele tentava subir o remeter&aacute; a um novo trauma causado por uma queda, cuja sequela ser&aacute; a de um quadro depressivo. Ele se recupera, mas fica obcecado por reencontrar a falecida Madeleine - luta ingl&oacute;ria at&eacute; que v&ecirc; na rua algu&eacute;m que com ela se parece: Judy (tamb&eacute;m interpretada por Kim Novak).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Judy, de fato, era quem ele buscava, mas ela nega. Ela fingiu ser a verdadeira esposa de Elster, a qual fora lan&ccedil;ada pelo marido do alto da torre, enquanto a impostora desaparecia escada acima da vida de Scottie. O plano foi tra&ccedil;ado por Elster, pois sabia que a acrofobia de Scottie o impediria de chegar ao topo da torre, mas n&atilde;o de testemunhar a queda da verdadeira Madeleine e, assim, mascarar o assassinato. No final, Scottie descobre o truque e volta &agrave; igreja para, sob forte emo&ccedil;&atilde;o, reconstituir a cena do crime com Judy que, acuada entre a paix&atilde;o que constru&iacute;ra por Scottie e sua cumplicidade no crime, cai do alto da torre ao se assustar com a presen&ccedil;a de uma freira.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A queda &eacute;, portanto, uma esp&eacute;cie de fio condutor no filme de Hitchcock. Como bem formulou Zizek, "a queda &eacute; uma iguaria filos&oacute;fica em <i>Um corpo que cai</i>" &#91;5&#93;. Um desn&iacute;vel implica uma energia potencial em um corpo, um presente vertiginoso pela poss&iacute;vel convers&atilde;o daquela energia em energia cin&eacute;tica. Hitchcock modula essa virtualidade deslocando verticalmente o referencial atrav&eacute;s do movimento do olhar de Scottie, ora para baixo, com o pavor de sucumbir ao chamado do solo, ora para cima, com o desejo de liberta&ccedil;&atilde;o do descontrole de sua mem&oacute;ria de quedas anteriores, pois o passado se atualiza perturbadoramente na mente do protagonista pelo pavor diante da altura.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A iguaria &agrave; qual Zizek se refere pode ser melhor saboreada se considerarmos que a queda, ao ser tomada como central no filme, faz ressoar no espectador a verticalidade que marca os fundamentos da cultura ocidental, de Plat&atilde;o a Einstein, da queda do para&iacute;so &agrave; queda da ma&ccedil;&atilde; de Newton. Outros filmes privilegiam o eixo vertical, como <i>Asas do desejo</i>, de Wim Wenders, ou <i>O anticristo</i>, de Lars von Trier, mas <i>Um corpo que cai </i>&eacute; o que mais assume a queda como uma esp&eacute;cie de personagem, o que faz o filme excepcionalmente forte, a ponto de ele aparecer em quase todas as classifica&ccedil;&otilde;es dos melhores j&aacute; produzidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez &agrave; revelia do diretor, a vertigem parece conter outra vertigem, inata ou germinal em nossa cultura. Essa especula&ccedil;&atilde;o mereceria uma investiga&ccedil;&atilde;o mais profunda, mas vale a pena explorarmos a capacidade de <i>Um corpo que cai </i>de deslocar a percep&ccedil;&atilde;o do espectador para esse aspecto que transcende a narrativa do filme.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tomemos um exemplo de deslocamento da percep&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o vem do cinema: o haikai escrito pelo japon&ecirc;s Yosa Buson no s&eacute;culo XVIII:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a luz do rel&acirc;mpago    <br>   Barulho de pingos &#8209;    <br>   Orvalho no bambu.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Buson descreve sua s&uacute;bita audi&ccedil;&atilde;o do som do orvalho, at&eacute; ent&atilde;o oculto. Provavelmente, n&atilde;o &eacute; a luz do rel&acirc;mpago que o faz ver os pingos e, depois, ouvir o som do gotejamento, mas &eacute; o espanto que o rel&acirc;mpago traz ao riscar o c&eacute;u que d&aacute; ao poeta a audi&ccedil;&atilde;o do gotejamento que se manteria na penumbra de sua consci&ecirc;ncia. O rel&acirc;mpago e o barulho do orvalho no bambu n&atilde;o est&atilde;o interligados, mas a trinca de luz repentina no c&eacute;u revela o barulho dos pingos porque a expectativa do trov&atilde;o despertou a audi&ccedil;&atilde;o do poeta. O encontro dos seus olhos com a luz do rel&acirc;mpago lhe d&aacute; a percep&ccedil;&atilde;o do que pouco ou nada se relacionava com a paisagem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">De acordo com Santos, "a aus&ecirc;ncia do som dilacerante do raio &eacute; a hip&oacute;tese mais do que plaus&iacute;vel &#91;da audi&ccedil;&atilde;o do gotejamento&#93; se considerarmos que a percep&ccedil;&atilde;o auditiva de Buson &eacute; despertada para a queda do raio para imediatamente descobrir a queda do orvalho, isto &eacute;, passar da aus&ecirc;ncia de uma das express&otilde;es mais terr&iacute;veis da natureza &agrave; presen&ccedil;a de sua express&atilde;o mais suave" &#91;6&#93;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O recorte constantemente realizado pela mente na paisagem ao seu redor oculta uma infinidade de percep&ccedil;&otilde;es. Diante da tela de cinema, n&atilde;o &eacute; diferente, mas as m&uacute;ltiplas possibilidades de acesso &agrave; realidade desdobram-se em insuspeit&aacute;veis agenciamentos pela empatia entre a temporalidade do filme e o murm&uacute;rio ininterrupto da vida interior do espectador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Artaud &#91;7&#93; afirmou que o cinema reverbera a realidade &iacute;ntima do c&eacute;rebro, mas trata-se de uma realidade que, ao inv&eacute;s de revelar o todo, apresenta-se na impossibilidade de alcan&ccedil;ar essa totalidade que se insinua no encontro entre o filme e a quem a ele se exp&otilde;e. Trata-se de uma fissura no pensamento que se abre em m&uacute;ltiplas vozes, em arranjos que subvertem h&aacute;bitos cristalizados, associa&ccedil;&otilde;es &oacute;bvias, fetiches baratos e emo&ccedil;&otilde;es vulgares. Mais do que fundir o espectador num universo on&iacute;rico, o cinema tem a capacidade de promover reconfigura&ccedil;&otilde;es que por vezes v&atilde;o al&eacute;m do pr&oacute;prio repert&oacute;rio de experi&ecirc;ncias, de conhecimentos e de pensamentos do espectador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As imagens no cinema s&atilde;o menos eficazes para fazer o espectador pensar do que para colocar o pensamento diante de sua incapacidade de pensar o todo. "A esse respeito, Jean-Louis Shefer &#91;...&#93; diz que a imagem cinematogr&aacute;fica &#91;...&#93; longe de tornar o pensamento vis&iacute;vel, como queria Eiseinstein, se dirige, ao contr&aacute;rio, &agrave;quilo que n&atilde;o se deixa pensar no pensamento" &#91;8&#93;. &Eacute; nesse sentido que o cinema pensa: menos naquilo que o cineasta pretende no argumento cinematogr&aacute;fico e mais naquilo que amplia o campo<i> perce</i>ptivo do espectador. O cinema &eacute; capaz de um deslocamento da percep&ccedil;&atilde;o cujo efeito &eacute; similar ao que experimentou Buson por causa do rel&acirc;mpago. No entanto, se o poeta se d&aacute; conta daquilo que se camuflava em sua consci&ecirc;ncia, a expans&atilde;o da percep&ccedil;&atilde;o pelo cinema n&atilde;o necessariamente incorpora &agrave; consci&ecirc;ncia do espectador tudo o que &eacute; potencialmente percept&iacute;vel, pois a sua pr&oacute;pria percep&ccedil;&atilde;o "&eacute; uma experi&ecirc;ncia incompleta, excede as potencialidades que aparecem num primeiro plano que n&atilde;o esgotam a realidade daquilo que &eacute; percebido" &#91;9&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O <i>dolly-zoom</i> e os m&uacute;ltiplos desn&iacute;veis em <i>Um corpo que cai</i> abrem ao espectador o acesso a um sistema de s&iacute;mbolos, como o da verticalidade ou da ma&ccedil;&atilde;, ainda que os agenciamentos decorrentes da expans&atilde;o do campo n&atilde;o sejam racionalmente elaborados por ele. A hip&oacute;tese carece de verifica&ccedil;&atilde;o emp&iacute;rica, mas n&atilde;o se trata aqui de provar que o filme produz um efeito determinado e sim de perscrutar seu potencial para exceder a percep&ccedil;&atilde;o e o pensamento do espectador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As possibilidades de transcend&ecirc;ncia virtualmente contidas em <i>Um corpo que cai </i>v&atilde;o al&eacute;m da resson&acirc;ncia entre a vertigem dos desn&iacute;veis grav&iacute;ticos e o platonismo ou a religiosidade ocidental. Apesar da tens&atilde;o entre o que est&aacute; acima e o que est&aacute; abaixo, a pel&iacute;cula &eacute; marcada tamb&eacute;m por eventos em que essa tens&atilde;o se resolve em descargas que, como rel&acirc;mpagos, unem c&eacute;u e terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O primeiro e ainda incipiente ind&iacute;cio de descarga ocorre quando Scottie e a impostora Madeleine se beijam no instante em que a onda do mar quebra no rochedo. Mas &eacute; no final do filme, na hipn&oacute;tica luz que banha o interior do quarto do hotel, quando Judy distraidamente coloca o colar de Carlotta, que Scottie tem o lampejo que resolve para ele o mist&eacute;rio da trama. A cena sutilmente sugere que ambos se arrumam para sair ap&oacute;s seus corpos terem sido percorridos por uma torrente de prazer. Scottie percebe que Madeleine e Judy, uma que foi para cima e outra que ficou embaixo, s&atilde;o definitivamente a mesma pessoa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a16fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O curto-circuito entre o acima e o abaixo cura a acrofobia de Scottie, fazendo passar do estado de fraqueza ao de pot&ecirc;ncia, do bem comportado detetive aposentado ao animal enfurecido, e acrescenta outra dimens&atilde;o ao filme. Como um rel&acirc;mpago que equaliza c&eacute;u e terra, a torrente de el&eacute;trons entre Judy e Madeleine subverte a rigidez do eixo vertical que paralisava Scottie e, de rold&atilde;o, o idealismo plat&ocirc;nico, a cosmologia ptolomaica e a distin&ccedil;&atilde;o judaico-crist&atilde; entre para&iacute;so e inferno. O que nos remete menos &agrave; ma&ccedil;&atilde; enquanto s&iacute;mbolo da teoria newtoniana da gravidade e mais &agrave; s&iacute;ntese que esta teoria opera: a de igualar c&eacute;u e terra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A genialidade de Newton foi vigorosa na ousadia de propor que a queda de um objeto qualquer nas proximidades do solo, como um fruto que cai de uma &aacute;rvore ou um copo de uma mesa, tinha como causa uma for&ccedil;a da mesma natureza das for&ccedil;as que regem os movimentos dos planetas ao redor do Sol e que mant&ecirc;m o cosmo coeso, fazendo indistintos, em &uacute;ltima an&aacute;lise, c&eacute;u e terra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como indicam as pesquisas de Betty Dobbs &#91;10&#93;, Newton tirou inspira&ccedil;&atilde;o para a concep&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a da gravidade universal da m&aacute;xima da <i>T&aacute;bua de Esmeralda</i>, atribu&iacute;da a Hermes Trismegisto: "O que est&aacute; em cima &eacute; como o que est&aacute; embaixo". Perscrutando o discurso de Deus na natureza, Newton atribui &agrave; queda de um fruto as mesmas causas que atribuiu ao movimento dos corpos celestes e desenvolveu matematicamente uma teoria compat&iacute;vel com as leis de Kepler, com a for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o variando na raz&atilde;o inversa do quadrado das dist&acirc;ncias. A par&aacute;bola descrita pelos corpos lan&ccedil;ados obliquamente pr&oacute;ximos &agrave; superf&iacute;cie terrestre, a elipse da trajet&oacute;ria dos planetas ao redor do Sol e a hip&eacute;rbole do movimento de cometas pertencem &agrave; mesma fam&iacute;lia das sec&ccedil;&otilde;es de um cone.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A gravidade seria, segundo Newton, exercida por Deus, que est&aacute; por toda parte, reformando o universo e agindo constantemente sobre ele como agente da for&ccedil;a gravitacional. Ele n&atilde;o formulou hip&oacute;teses sobre as causas da gravidade, mas &eacute; bem conhecida sua afirma&ccedil;&atilde;o no <i>Esc&oacute;lio Geral</i> dos <i>Principia</i>:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"T&atilde;o elegante combina&ccedil;&atilde;o de Sol, planetas e cometas, s&oacute; pode ter origem na intelig&ecirc;ncia e no poder de um ente inteligente e poderoso. &#91;...&#93; E para que os sistemas das &#91;estrelas&#93; fixas n&atilde;o caiam uns sobre os outros pela gravidade, Ele os colocou a imensas dist&acirc;ncias uns dos outros." &#91;11&#93;</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em <i>Ferreiros e alquimistas, </i>a partir de estudos sobre t&eacute;cnicas primitivas, Mircea Eliade &#91;12&#93; mostra como tecnicidade e sacralidade eram indiscern&iacute;veis nos limites extremos do conhecimento. Newton, cuja obra cient&iacute;fica tira vigor e impulso da metaf&iacute;sica, via na express&atilde;o matem&aacute;tica de uma teoria cient&iacute;fica a tradu&ccedil;&atilde;o do discurso de Deus oculto na natureza. Ao igualar c&eacute;u e terra com a mesma for&ccedil;a de natureza gravitacional e ao atribuir a um agente divino a a&ccedil;&atilde;o dessa for&ccedil;a, Newton atualiza o am&aacute;lgama primitivo entre o t&eacute;cnico e o sagrado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A queda &eacute; uma iguaria filos&oacute;fica no filme de Hitchcock porque nela reverberam o pecado original, a obra de Plat&atilde;o. Mas tamb&eacute;m porque insinua o Axis Mundi, a correspond&ecirc;ncia entre os reinos superiores e inferiores, a subvers&atilde;o do platonismo contida na m&aacute;xima da <i>T&aacute;bua de Esmeralda</i>, t&atilde;o cara a Isaac Newton como inspiradora para a s&iacute;ntese que ele operou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A s&iacute;ntese &eacute; tamb&eacute;m insinuada na terceira estrofe da poesia da can&ccedil;&atilde;o "Pecado original": Todo beijo, todo medo / Todo corpo em movimento / Est&aacute; cheio de inferno e c&eacute;u / Todo santo, todo canto / Todo pranto, todo manto / Est&aacute; cheio de inferno e c&eacute;u / O que fazer com o que Deus nos deu? / O que foi que nos aconteceu?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.	Jung, C. G. <i>O homem e seus s&iacute;mbolos</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2016.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.	H&aacute; apenas um relato no manuscrito da biografia de Newton, publicada em 1752 e da autoria de William Stukeley, sobre uma explica&ccedil;&atilde;o que Newton teria dado sobre a gravidade na qual ele usa a queda de uma ma&ccedil;&atilde; como exemplo.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.	Whitehead, A. N. "Le symbolisme as signification et as port&eacute;e". In: <i>La fonction de la raison et autres essais</i>. Paris: Payot, 1969. p.79. Minha tradu&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.	Einstein, A. In: Pais, A. "Sutil &eacute; o senhor: a ci&ecirc;ncia e a vida de Albert Einstein". Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1993, p.225.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.	Zizek, S. <i>Tout ce que vous avez toujours voulu savoir sur Lacan sans jamais oser le demander a Hitchcock</i>. Paris: Navarian, 1988.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6.	Santos, L. G. <i>Politizar as novas tecnologias</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Editora 34, 2003. p. 202.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7.	Artaud, A. <i>Antonin Artaud, selected writings (Susan Sontag's selection)</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Berkeley: University of California Press, 1988.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8.	Deleuze, G. <i>A imagem-tempo</i>. S&atilde;o Paulo:Brasiliense, 2005. p. 203.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9.	Barbaras, R. <i>Investiga&ccedil;&otilde;es fenomenol&oacute;gicas: em dire&ccedil;&atilde;o a uma fenomenologia da vida</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Curitiba: Editora da UFPR, 2011. p.43.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. 	Dobbs, B J. T. <i>The Foundations of Newton's Alchemy</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Nova Iorque, Cambridge University Press, 1984.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11.	Newtin, I. <i>Principios matem&aacute;ticos de la filosof&iacute;a natural</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Madrid: Alianza Editorial, 1987, p.782.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">12.	Eliade, M. <i>Ferreiros e alquimistas</i>. 1ª Edi&ccedil;&atilde;o. Lisboa: Rel&oacute;gio D'&aacute;gua, 1987.    </font></p>      ]]></body><back>
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