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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   LITERATURA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A antropofagia nos une?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Mariana Garcia de Castro Alves</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das chaves para pensar as ci&ecirc;ncias humanas produzidas no Brasil est&aacute; na antropofagia. Com origem na literatura - ou, mais precisamente, na "&uacute;nica filosofia original brasileira", como provoca Augusto de Campos (1976), em introdu&ccedil;&atilde;o &agrave; edi&ccedil;&atilde;o fac-similar do <i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>, originalmente publicado em 1928 - a antropofagia, expressa pelas obras de Oswald de Andrade, incluindo seus manifestos dos anos 1920, ainda hoje &eacute; refer&ecirc;ncia na reflex&atilde;o sobre a especificidade da produ&ccedil;&atilde;o brasileira em ci&ecirc;ncias humanas e sociais - ali&aacute;s, cuja relev&acirc;ncia cient&iacute;fica &eacute; "de ponta", segundo levantamento do jornal <i>Folha de S. Paulo</i>, publicado em 15/6/2019, a despeito de sua crescente desvaloriza&ccedil;&atilde;o. "S&oacute; a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente", diz o primeiro aforismo do <i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>. No lugar do ser ou n&atilde;o ser ("to be or not to be?"),  do Hamlet de Shakespeare, referencial do patriarcado ocidental, o "tupi or not tupi" representaria a vingan&ccedil;a tupinamb&aacute; de vi&eacute;s matriarcal, expressando uma pot&ecirc;ncia particular do pensamento para a reflex&atilde;o social, pol&iacute;tica, lingu&iacute;stica e art&iacute;stica do mundo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hoje, perto do centen&aacute;rio da d&eacute;cada em que os manifestos de Oswald de Andrade foram publicados (em 1924, <i>Manifesto da poesia pau-brasil</i>, e, em 1928, <i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>), pesquisadores encontram um denominador comum da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica nativa e, ao mesmo tempo, reveem a ideia mais difundida sobre o tema: a de que deglutimos o que vem do exterior.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v72n1/a17fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a17fig01tb.jpg">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DEVORAR X DIGERIR</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A artista e pesquisadora Beatriz Azevedo, que publicou <i>Antropofagia palimpsesto selvagem</i> (Cosac Naify, 2016) a partir de sua tese de mestrado em teoria liter&aacute;ria na Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), questiona o senso comum que afirma que a postura antropof&aacute;gica poderia ser resumida na ideia de "digerir a contribui&ccedil;&atilde;o estrangeira" misturando-a com a cultura nacional. "A antropofagia &eacute; muito mais rica que este pressuposto, e, portanto, requer que se leve em considera&ccedil;&atilde;o tanto o ritual amer&iacute;ndio que inspirou Oswald de Andrade, como o pr&oacute;prio <i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>. Em ambos os casos, n&atilde;o se trata de 'digerir o estrangeiro', mas de 'devorar o inimigo', atuando de forma cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao processo brutal da coloniza&ccedil;&atilde;o", define.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para a pesquisadora, &eacute; preciso questionar a percep&ccedil;&atilde;o simplista de que o procedimento antrop&oacute;fago trata da absor&ccedil;&atilde;o de conte&uacute;dos estrangeiros e da "degluti&ccedil;&atilde;o" de tais alimentos importados junto aos elementos nacionais. Para ela, a antropofagia, enquanto "revolu&ccedil;&atilde;o cara&iacute;ba", objetiva inverter o vetor colonial. "Acredito que o procedimento antrop&oacute;fago trata da valoriza&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia dos povos origin&aacute;rios, da 'contribui&ccedil;&atilde;o milion&aacute;ria de todos os erros', que deveriam ser 'exportados'", afirma Azevedo. "Afinal, 'sem n&oacute;s a Europa n&atilde;o teria sequer a sua pobre Declara&ccedil;&atilde;o dos Direitos do Homem', e 'antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil havia descoberto a felicidade'" diz ela, referindo-se ao manifesto de 1928. No caso da produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e da literatura, o Brasil estaria se voltando cada vez mais para as cria&ccedil;&otilde;es dos povos amer&iacute;ndios, "com quem todos n&oacute;s temos muito a aprender", acrescenta a pesquisadora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CAMINHO PARA A CI&Ecirc;NCIA</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m para o antrop&oacute;logo e professor do Centro de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade Federal do Acre (UFAC), Marcos de Almeida Matos, a for&ccedil;a da antropofagia vem do olhar amer&iacute;ndio: "Acredito que a potencialidade antrop&oacute;faga da ci&ecirc;ncia brasileira est&aacute; mais em abrir-se ao que sabem os povos tradicionais no Brasil para colocar esse saber em di&aacute;logo com o que se produz em outros pa&iacute;ses, do que em simplesmente deglutir a produ&ccedil;&atilde;o estrangeira acrescentando-lhe um tempero brasileiro", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O caminho de vanguarda que Oswald de Andrade abre &agrave; ci&ecirc;ncia brasileira &eacute; permanente, na opini&atilde;o de Matos. "Qualquer um que observe com aten&ccedil;&atilde;o o que se produz de mais significativo na ci&ecirc;ncia brasileira (em virtualmente qualquer &aacute;rea do conhecimento) ver&aacute; ali, ao menos em parte dessa produ&ccedil;&atilde;o, a inspira&ccedil;&atilde;o, a ajuda, o di&aacute;logo ou a participa&ccedil;&atilde;o ativa de mestres, xam&atilde;s, mateiros, matutos, pescadores, ca&ccedil;adores, rezadeiras, garrafeiros e de outros sujeitos que atuam como guias, interlocutores, ajudantes, copesquisadores etc., de maneira mais ou menos reconhecida pelos doutores das universidades, mas n&atilde;o obstante incontorn&aacute;vel", observa.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ele, em nossa hist&oacute;ria intelectual, pensar o que poderia distinguir o Brasil do resto do Ocidente era tomar nossa particularidade como "maldi&ccedil;&atilde;o", um limite incontorn&aacute;vel (o patrimonialismo, a cordialidade, o subdesenvolvimento...), ou ent&atilde;o como grande vantagem (o carnaval, a riqueza multicultural, a mistura...). "Nesses dois casos, h&aacute; a proje&ccedil;&atilde;o de um modelo de sociedade - o da metr&oacute;pole - e &eacute; a partir desse modelo que se pensa o que poderia ser feito no Brasil", afirma o pesquisador da UFAC. Segundo ele, Oswald tra&ccedil;a uma linha de fuga dessas abordagens ao dialogar e responder a elas: "Ele inverte a quest&atilde;o: no lugar de perguntar como a jovem na&ccedil;&atilde;o brasileira deveria responder &agrave; injun&ccedil;&atilde;o modernizadora do Ocidente, Oswald afirma que foram os ind&iacute;genas (no sentido de 'nativos') daqui que deram aos europeus o horizonte a partir do qual se tornou poss&iacute;vel elaborar as ideias que foram o motor das utopias modernas".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ou seja, pela antropofagia, o que j&aacute; se produzia no Brasil em ci&ecirc;ncia e em poesia j&aacute; estava &agrave; frente do que a Europa sonhava em produzir: "Para ele o rito antropof&aacute;gico tupinamb&aacute; era a organiza&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel de uma verdadeira <i>weltanschauung </i>(vis&atilde;o de mundo) que antecipava em muito uma descida da raz&atilde;o ao corpo que s&oacute; ocorreria definitivamente na Europa com Marx, Nietzsche ou Freud", aponta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>PERSPECTIVISMO AMER&Iacute;NDIO </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A tipifica&ccedil;&atilde;o e a administra&ccedil;&atilde;o de popula&ccedil;&otilde;es "marginais", paradigma de uma antropologia de "tradi&ccedil;&atilde;o racialista" teria quase se imposto como hegem&ocirc;nica n&atilde;o fosse o contato e o di&aacute;logo com as popula&ccedil;&otilde;es tradicionais. No caso da hist&oacute;ria dessa disciplina, o alem&atilde;o adotado e rebatizado pelos Apapokuva-Guarani como Curt Nimuendaju (1883-1945) teve papel fundamental na produ&ccedil;&atilde;o de uma tradi&ccedil;&atilde;o de pensamento engajada com a luta pela emancipa&ccedil;&atilde;o e autodetermina&ccedil;&atilde;o de coletivos "n&atilde;o modernos" ou "minorit&aacute;rios", tradi&ccedil;&atilde;o que teria impacto no trabalho de autores como Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes, entre outros. "Curt Nimuendaju percorreu o Brasil e registrou de maneira &iacute;mpar a riqueza e a complexidade dos modos de viver e de pensar de diversos coletivos ind&iacute;genas", conta Matos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando, j&aacute; nos anos 1990, T&acirc;nia Stolze Lima e Eduardo Viveiros de Castro elaboram o conceito de <i>perspectivismo amer&iacute;ndio</i>, a antropologia brasileira entra em um debate horizontal com o melhor que havia se produzido na antropologia inglesa ou francesa desde a d&eacute;cada de 1980: "Vemos novamente como o di&aacute;logo cuidadoso com as popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas brasileiras pode lan&ccedil;ar nossa produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica a uma posi&ccedil;&atilde;o de vanguarda na produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica mundial", constata o antrop&oacute;logo. "O que &eacute; interessante observar, nesse caso, &eacute; que o conceito de perspectivismo, assim como o que nos traz a obra de Nimuendaju, diz respeito justamente &agrave;s forma&ccedil;&otilde;es filos&oacute;ficas ind&iacute;genas que Oswald de Andrade tematizou sob a ideia de <i>antropofagia</i>: trata-se de uma abertura &agrave; diferen&ccedil;a, e da consci&ecirc;ncia de que a diferen&ccedil;a (ou a sociobiodiversidade) &eacute; imprescind&iacute;vel para uma vida que valha a pena ser vivida. Da&iacute; o famoso dizer do <i>Manifesto antrop&oacute;fago</i>: 's&oacute; me interessa o que n&atilde;o &eacute; meu'", finaliza Matos.</font></p>      ]]></body>
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