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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CULTURA    <br>   RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A hist&oacute;ria e a ci&ecirc;ncia dos sonhos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Ana Carolina Bezerra</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a20fig01.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao longo da hist&oacute;ria, os sonhos serviram de guia para os homens nas mais variadas situa&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o s&atilde;o poucos os relatos de guerras e conflitos cujos rumos foram ditados pelas revela&ccedil;&otilde;es que l&iacute;deres e chefes militares recebiam durante o sono. Assim como os outros mam&iacute;feros, em determinado momento de sua evolu&ccedil;&atilde;o os seres humanos passaram a sonhar, um modo que o c&eacute;rebro utiliza para organizar as mem&oacute;rias, sedimentando as mais importantes, eliminando o desnecess&aacute;rio e, com isso, liberando espa&ccedil;o para o novo. A fun&ccedil;&atilde;o dos sonhos pode extrapolar isso, ganhando outras dimens&otilde;es, como ser um combust&iacute;vel para a criatividade ou apontar caminhos, dire&ccedil;&otilde;es a seguir, como um or&aacute;culo que visitamos todas as noites, ao fechar os olhos e dormir. O sonho permite extrapolar os limites do real, do poss&iacute;vel e da moral vigente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v72n1/a20fig02.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a20fig02tb.jpg">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a20fig03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v72n1/a20fig04.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em <i>O or&aacute;culo da noite - a hist&oacute;ria e a ci&ecirc;ncia do sonho </i>(2019), Sidarta Ribeiro, neurologista do Instituto do C&eacute;rebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), faz uma trajet&oacute;ria anal&iacute;tica do sonho, dissecando sua origem, fun&ccedil;&atilde;o e implica&ccedil;&otilde;es, ao longo da hist&oacute;ria. Para isso, se vale dos registros hist&oacute;ricos mais antigos j&aacute; feitos e das pesquisas mais recentes em &aacute;reas como a neurobiologia, psiquiatria e psicologia. Afinal, conforme escreve o autor, "uma teoria satisfat&oacute;ria do sono e dos sonhos deve primeiro considerar todos os fen&ocirc;menos relevantes, e n&atilde;o apenas parte deles. Em segundo lugar, deve distinguir as v&aacute;rias fun&ccedil;&otilde;es dos diferentes estados de sono e sonho. Em terceiro, deve produzir uma narrativa plaus&iacute;vel de como tais</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse di&aacute;logo entre &aacute;reas aparentemente distintas alguns paradigmas s&atilde;o questionados. Primeiramente, h&aacute; uma recupera&ccedil;&atilde;o das ideias do m&eacute;dico e psicanalista Sigmund Freud cujos conceitos t&ecirc;m sido fortemente questionados nos &uacute;ltimos anos. No livro, os postulados freudianos ganham nova leitura e respaldo ao serem apoiados em novos estudos e evid&ecirc;ncias. Al&eacute;m disso, Sidarta descarta o car&aacute;ter puramente l&oacute;gico no estudo dos sonhos, que ignora qualquer subjetividade do indiv&iacute;duo e da coletividade da qual ele participa. Segundo ele, essa vis&atilde;o criou a ideia que os sonhos, juntamente com o sono, t&ecirc;m a fun&ccedil;&atilde;o apenas de organizar as mem&oacute;rias, sedimentando as mais importantes e eliminando as demais e liberando espa&ccedil;o para a aquisi&ccedil;&atilde;o de novas informa&ccedil;&otilde;es. Uma argumenta&ccedil;&atilde;o simples que Sidarta faz para contrapor essa ideia &eacute;: por que, ent&atilde;o, temos sonhos recorrentes? Em um c&eacute;rebro com um "n&uacute;mero colossal de neur&ocirc;nios e conex&otilde;es sin&aacute;pticas &#91;...&#93; &eacute; imposs&iacute;vel explicar a ocorr&ecirc;ncia &#91;...&#93; por meio da ativa&ccedil;&atilde;o cortical aleat&oacute;ria".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A despeito do s&oacute;lido embasamento cient&iacute;fico, o autor estabelece um di&aacute;logo constante e flu&iacute;do com seu leitor, o que torna o livro acess&iacute;vel a um p&uacute;blico amplo. Sidarta refor&ccedil;a a import&acirc;ncia dos sonhos para o indiv&iacute;duo e para a sociedade: "Temos enorme capacidade de simular futuros poss&iacute;veis com base nas mem&oacute;rias do passado", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os sonhos s&atilde;o um misto de eventos passados e expectativas futuras onde o sonhador revive, a seu modo, na sua subjetividade, algumas situa&ccedil;&otilde;es ao mesmo tempo em que cria possibilidades de caminhos e resolu&ccedil;&otilde;es. Por isso, ele convida o leitor a prestar aten&ccedil;&atilde;o em seus sonhos, buscando "lembrar e registrar suas viagens ao interior profundo da mente".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>CRIATIVIDADE</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ele, esses "restos diurnos" que "preparam o sonhador para o dia seguinte" tamb&eacute;m cont&ecirc;m a chave da criatividade humana. Nesse sentido o autor traz um alerta, ao afirmar que o sentido de urg&ecirc;ncia e os imediatismos do nosso tempo est&atilde;o cerceando o &acirc;nimo e a capacidade de criar meios para encarar os desafios atuais, tais como mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas e conflitos pessoais e sociais. "Podemos dizer que nos &uacute;ltimos 300 mil anos o hardware biol&oacute;gico da humanidade mudou muito pouco, mas o software cultural evoluiu aceleradamente. &Eacute; como se o ac&uacute;mulo de ideias adaptativas fosse uma catraca, uma engrenagem que s&oacute; gira para um lado", teoriza o neurocientista ao pensar o conceito de catraca cultural do psic&oacute;logo norte- americano, Michael Tomasello. Ou seja, o nosso ac&uacute;mulo cultural nos trouxe a um ponto de inflex&atilde;o que exige de n&oacute;s decis&otilde;es e atitudes para al&eacute;m de saudosismos ou ideias simples. Como um or&aacute;culo probabil&iacute;stico, os sonhos, podem ser aliados para encontrar novos caminhos e solu&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>TERAPIAS DO SONO</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Boa parte das pesquisas sobre o sono e o sonho se baseiam em mapear o c&eacute;rebro em diversos est&aacute;gios do sono e da vig&iacute;lia, analisar as regi&otilde;es ativadas ou desligadas conforme o est&iacute;mulo e identificar os horm&ocirc;nios envolvidos nesses processos. A a&ccedil;&atilde;o de f&aacute;rmacos e de algumas drogas (l&iacute;citas ou n&atilde;o) se baseia exatamente nesse mecanismo de ligar e desligar. Ao discutir o papel do sonho na hist&oacute;ria humana, Sidarta n&atilde;o se furta a discutir temas delicados como as pol&iacute;ticas sobre drogas, a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica e como os m&eacute;dicos receitam esses f&aacute;rmacos. Ele argumenta que diversas culturas usavam - e ainda usam - subst&acirc;ncias psicotr&oacute;picas em rituais para que o usu&aacute;rio durma profunda e tranquilamente, dando fluidez e a possibilidade da lembran&ccedil;a dos sonhos. &Eacute; importante ressaltar que essas pr&aacute;ticas n&atilde;o acontecem de forma rotineira e sem supervis&atilde;o. Celtas, abor&iacute;genes, amer&iacute;ndios, por exemplo, permitiam e estimulavam a conversa, a partilha e a lembran&ccedil;a de sonhos, vis&otilde;es e revela&ccedil;&otilde;es. Para o neurocientista, terapias que incentivam o paciente &agrave; autorreflex&atilde;o podem ser mais eficientes em termos de efeitos colaterais para o tratamento de depress&otilde;es, melancolias e ansiedades.</font></p>      ]]></body>
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