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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>MUNDO    <br>   ENTREVISTA FABIANO LEMES DE OLIVEIRA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A necess&aacute;ria integra&ccedil;&atilde;o entre a natureza e a cidade em projetos urban&iacute;sticos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cic/v72n2/a05fig01.jpg"><img src="/img/revistas/cic/v72n2/a05fig01t.jpg">    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Onde fica o verde? Ao redor das cidades, em um grande cintur&atilde;o? Do outro lado do pa&iacute;s, numa distante floresta tropical? Ou integrado aos centros urbanos, dividindo igualmente o espa&ccedil;o? Em um mundo cada vez mais urbanizado, a natureza est&aacute; perdendo seu lugar. E as consequ&ecirc;ncias disso j&aacute; podem ser sentidas de diversas formas: aumento da temperatura nos centros urbanos, maior polui&ccedil;&atilde;o nas cidades, chuvas mais intensas. Mas existem solu&ccedil;&otilde;es. Fabiano Lemes de Oliveira, arquiteto e professor associado de urbanismo do Politecnico di Milano, estuda modelos que buscam equilibrar a urbaniza&ccedil;&atilde;o com a presen&ccedil;a de espa&ccedil;os verdes. Autor do livro <i>Green wedge urbanism: history, theory and contemporary practice</i> (Bloomsbury, 2017), ele defende uma maior integra&ccedil;&atilde;o da natureza &agrave; cidade para solucionar problemas ambientais. Em mar&ccedil;o deste ano ele esteve na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para ministrar o workshop "Nature-based solutions and green urbanism", na Faculdade  de Engenharia Civil, Arquitetura  e Urbanismo (FEC), quando concedeu esta entrevista para a <i>Ci&ecirc;ncia  &amp; Cultura</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Os efeitos das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas s&atilde;o apenas alguns dos desafios enfrentados pelas cidades atualmente. Como os n&iacute;veis de urbaniza&ccedil;&atilde;o ao redor do mundo e a falta de planejamento afetam e/ou agravam essa situa&ccedil;&atilde;o?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&oacute;s temos uma previs&atilde;o de crescimento populacional para 2050 de sete bilh&otilde;es para 10 bilh&otilde;es de pessoas no planeta. Acabamos de ultrapassar a barreira de 50% de popula&ccedil;&atilde;o urbana no mundo. No Brasil j&aacute; temos cerca de 85% das pessoas vivendo em cidades. A quest&atilde;o &eacute; que a popula&ccedil;&atilde;o vem crescendo consideravelmente, principalmente nas &aacute;reas urbanas, sem um processo de planejamento estruturado. O que tende a acontecer s&atilde;o espraiamentos urbanos, ou crescimentos desarticulados ou fragmentados, para al&eacute;m da massa consolidada das cidades. Isso a custo da perda da presen&ccedil;a da natureza. Pois quanto mais urbaniza&ccedil;&atilde;o, maior &eacute; o impacto em rela&ccedil;&atilde;o ao meio ambiente. Ou seja, temos mais emiss&atilde;o de di&oacute;xido de carbono, consumimos mais energia etc. De forma geral, tendemos a utilizar cada vez mais os recursos naturais e, hoje, j&aacute; estamos demandando do planeta muito mais do que a capacidade de provis&atilde;o desses recursos e de sua regenera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Como o mundo vem lidando com essas quest&otilde;es de planejamento urbano para conseguir conciliar a popula&ccedil;&atilde;o crescente e a natureza?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das mudan&ccedil;as paradigm&aacute;ticas que vemos atualmente, sobretudo na Europa, &eacute; o abandono de solu&ccedil;&otilde;es pontuais, que tradicionalmente t&ecirc;m fun&ccedil;&atilde;o &uacute;nica: como instalar uma tubula&ccedil;&atilde;o que capta &aacute;gua em um lugar e leva para outro. Hoje, buscam-se solu&ccedil;&otilde;es multifuncionais. Por exemplo, se pensamos em uma solu&ccedil;&atilde;o baseada na natureza, como as cunhas verdes (espa&ccedil;os verdes em forma de cunha que penetram a &aacute;rea urbana), ent&atilde;o conseguimos absorver a &aacute;gua da chuva, temos a possibilidade de filtrar essa &aacute;gua, criar ecossistemas e diminuir a temperatura das cidades. As solu&ccedil;&otilde;es multifuncionais trazem uma s&eacute;rie de benef&iacute;cios diretos e indiretos. Al&eacute;m disso, esse tipo de solu&ccedil;&atilde;o &eacute; flex&iacute;vel, bem mais f&aacute;cil de manejar e transformar do que as estruturas tradicionais. Isso representa uma vantagem importante porque, com as mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, os c&aacute;lculos para implantar as estruturas anteriores, mais r&iacute;gidas, se tornaram em grande medida ultrapassados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>E como &eacute; poss&iacute;vel mudar esse paradigma das solu&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas para o de uma vis&atilde;o mais hol&iacute;stica?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; frequente ter uma vis&atilde;o simplificada e reducionista da natureza. Geralmente as pessoas tendem a ver aquilo que traz um benef&iacute;cio direto para elas, por exemplo, um parque onde jogar futebol ou passear com as crian&ccedil;as. &Eacute; preciso difundir outros valores da natureza, os diferentes benef&iacute;cios que derivam dela. Muito da pesquisa realizada hoje sobre os servi&ccedil;os ecossist&ecirc;micos &eacute; justamente para compreender melhor esses benef&iacute;cios e, assim, conseguir dar valor a eles e ajudar os gestores p&uacute;blicos na tomada de decis&atilde;o. Porque os gestores p&uacute;blicos n&atilde;o s&atilde;o, em grande medida, ambientalistas ou ecologistas urbanos. Ent&atilde;o essa intera&ccedil;&atilde;o entre o poder p&uacute;blico, a academia e os escrit&oacute;rios de planejamento de paisagem precisa acontecer. Por exemplo, existem estudos que apontam que caminhadas di&aacute;rias em meio &agrave; natureza proporcionam uma s&eacute;rie de benef&iacute;cios para a sa&uacute;de f&iacute;sica e mental como menos problemas cardiorrespirat&oacute;rios, menor &iacute;ndice de depress&atilde;o e ansiedade. E isso pode reduzir os gastos na sa&uacute;de p&uacute;blica. E, se a popula&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m tem consci&ecirc;ncia desses benef&iacute;cios e tem um entendimento maior dos servi&ccedil;os ecossist&ecirc;micos, existe a possibilidade de uma maior demanda por esses espa&ccedil;os.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>As cunhas verdes se encaixam nesse aspecto? Quais s&atilde;o seus benef&iacute;cios?</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As cunhas verdes t&ecirc;m a grande vantagem de trazer os servi&ccedil;os ecossist&ecirc;micos pr&oacute;ximos ao lugar onde as pessoas vivem. Se imaginarmos uma cidade consolidada com pouca &aacute;rea verde e planejarmos uma &aacute;rea verde ao redor, como um "cintur&atilde;o", ela tamb&eacute;m tem o seu valor, mas os seus servi&ccedil;os ecossist&ecirc;micos, por exemplo, de diminui&ccedil;&atilde;o da temperatura urbana ou de preven&ccedil;&atilde;o de enchentes, acabam se concentrando nas &aacute;reas mais pr&oacute;ximas de onde essa natureza se encontra. Se, por outro lado, essa &aacute;rea verde for colocada perto de onde as pessoas vivem, dentro das cidades, o impacto positivo ser&aacute; mais facilmente percebido. Al&eacute;m disso, as cunhas verdes t&ecirc;m uma import&acirc;ncia ambiental e ecol&oacute;gica muito grande. O crescimento n&atilde;o planejado - ou n&atilde;o t&atilde;o bem planejado - das cidades tamb&eacute;m leva &agrave; fragmenta&ccedil;&atilde;o das paisagens. E para uma s&eacute;rie de esp&eacute;cies a conex&atilde;o das unidades da paisagem &eacute; fundamental porque isso facilita sua movimenta&ccedil;&atilde;o. Essas esp&eacute;cies, terrestres e aqu&aacute;ticas, precisam de &aacute;reas que favore&ccedil;am o crescimento populacional e o enriquecimento do "<i>genetic pool</i>". A cria&ccedil;&atilde;o de corredores ecol&oacute;gicos facilita a locomo&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies e a sua diversidade gen&eacute;tica local. Por outro lado, quanto menos variedade gen&eacute;tica, menos resili&ecirc;ncia essas esp&eacute;cies ter&atilde;o, tornando mais f&aacute;cil que se percam por conta de mudan&ccedil;as nas condi&ccedil;&otilde;es em que vivem. E uma das quest&otilde;es fundamentais por conta das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas &eacute; essa necessidade de nos tornarmos cada vez mais resilientes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>O tema das cidades resilientes tem bastante destaque no seu livro. Por que temos que nos preocupar com isso?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; porque existe uma s&eacute;rie de desafios associados &agrave;s mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas que ainda n&atilde;o entendemos direito. N&oacute;s prevemos algumas consequ&ecirc;ncias, mas elas ainda v&atilde;o se manifestar. Portanto, ainda n&atilde;o temos como saber sua intensidade ou seu verdadeiro impacto. Desta forma, &eacute; fundamental pensarmos em cidades resilientes, esp&eacute;cies resilientes etc., para podermos nos adaptar ou resistir a essas mudan&ccedil;as.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Com a penetra&ccedil;&atilde;o do verde nos centros urbanos, como evitar que haja uma "competi&ccedil;&atilde;o pelo espa&ccedil;o" entre a natureza e a cidade?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse &eacute; um ponto muito importante, que &eacute; preciso ressaltar. A quest&atilde;o da penetra&ccedil;&atilde;o da natureza nas cidades n&atilde;o precisa necessariamente vir acompanhada de perda de espa&ccedil;o para as pessoas. Existem processos de adensamento controlado, de m&eacute;dia densidade, que podem ser implementados para que haja ganho de qualidade sem perda da urbanidade. Existem autores que defendem que quanto mais verde melhor. Mas a quest&atilde;o da urbanidade &eacute; importante e deve ser considerada. Eu procuro trabalhar com a ideia de equil&iacute;brio entre a urbanidade e a quest&atilde;o da natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Pode dar exemplos de modelos bem-sucedidos que visam equilibrar a urbaniza&ccedil;&atilde;o com a natureza?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Copenhagen (Dinamarca) talvez seja o modelo mais emblem&aacute;tico, pois foi planejada para crescer envolvendo as cunhas verdes. Estocolmo (Su&eacute;cia) e Helsinque (Finl&acirc;ndia) tamb&eacute;m s&atilde;o bons exemplos. Nessas cidades, existiam movimenta&ccedil;&otilde;es topogr&aacute;ficas que favoreciam ocupa&ccedil;&otilde;es urbanas em determinadas &aacute;reas, mas n&atilde;o em outras. Assim, as cunhas verdes acabaram surgindo "naturalmente". Por&eacute;m, a partir dos anos 1980, essas cidades "abra&ccedil;aram a causa". Hoje, Estocolmo tem 10 cunhas verdes com escala regional. Al&eacute;m disso, existem muitos outros projetos em andamento hoje em dia. Alemanha e China v&ecirc;m trabalhando para a implementa&ccedil;&atilde;o desse modelo. No Brasil, Goi&acirc;nia tem um projeto interessante chamado Macambira Anicuns, um parque linear que ter&aacute; 24 km de extens&atilde;o e ser&aacute; um dos maiores do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>No seu ponto de vista, quais s&atilde;o os maiores desafios da urbaniza&ccedil;&atilde;o brasileira hoje?</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O Brasil tem um potencial de biodiversidade enorme. Se compararmos com outras &aacute;reas do planeta onde a diversidade &eacute; menor, conseguimos compreender que temos muito valor e que precisamos potencializar mais e entender melhor. A quest&atilde;o de descontinuidade de programas ou de vis&otilde;es pol&iacute;ticas acaba sendo um problema, porque essas propostas precisam de continuidade que vai al&eacute;m dos mandatos dos gestores. Uma &aacute;rvore demora para crescer. Pensar mecanismos para que esses processos possam sobreviver aos ciclos pol&iacute;ticos &eacute; importante. Outra quest&atilde;o &eacute; como fazer para que as interlocu&ccedil;&otilde;es entre os diferentes n&iacute;veis e escalas pol&iacute;ticas aconte&ccedil;am. Uma cunha verde n&atilde;o conhece limite de propriedade ou de munic&iacute;pio. Como posso fazer uma cunha verde em uma cidade, mas impedir que ela entre na cidade vizinha? Por isso, &eacute; fundamental ter di&aacute;logos intersetoriais com diferentes atores, em diferentes n&iacute;veis. No caso do Brasil, tamb&eacute;m acredito que considerar o potencial de desservi&ccedil;o &eacute; importante. Precisamos de fato ter estudos para entender exatamente o que est&aacute; sendo feito para que esses desservi&ccedil;os sejam minimizados ou compensados, e para que os servi&ccedil;os sejam maximizados. Outra quest&atilde;o &eacute; a parceria entre o poder p&uacute;blico, a academia e a iniciativa privada. Temos que desenvolver modelos de neg&oacute;cios baseados em evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas, que mostrem que os benef&iacute;cios e valores desses tipos de solu&ccedil;&atilde;o s&atilde;o melhores do que os de estrutura cinza, e que justificam economicamente um investimento.</font></p>      ]]></body>
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