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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGOS    <br>   BRUMADINHO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Desafios da participa&ccedil;&atilde;o  na repara&ccedil;&atilde;o de desastres - entre modelos, p&uacute;blicos  e comunidades imaginadas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Cristiana Losekann</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professora associada do Departamento de Ci&ecirc;ncias Sociais da Universidade Federal do Esp&iacute;rito Santo (UFES) e professora permanente do Programa de P&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em Ci&ecirc;ncias Sociais da UFES. Coordena o Organon - N&uacute;cleo de Estudo, Pesquisa e Extens&atilde;o em Mobiliza&ccedil;&otilde;es Sociais DCSO/PGCS/UFES e &eacute; bolsista produtividade em pesquisa n&iacute;vel 2 do CNPq</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde o rompimento da barragem de Fund&atilde;o, em Mariana, Minas Gerais, em novembro de 2015, e, posteriormente, do rompimento da barragem de C&oacute;rrego do Feij&atilde;o em Brumadinho, no mesmo estado, as pessoas afetadas pelos efeitos desses desastres passaram a denunciar a inefici&ecirc;ncia das empresas em reparar os danos causados. Os governos e atores estatais diversos v&ecirc;m sendo tamb&eacute;m objeto de cr&iacute;tica pela forma como, por incompet&ecirc;ncia ou m&aacute;-vontade, n&atilde;o conseguiram em anos de desastres responsabilizar as empresas pelos crimes socioambientais causados, tampouco pression&aacute;-las pela justa repara&ccedil;&atilde;o para milhares de fam&iacute;lias de Minas Gerais e do Esp&iacute;rito Santo. Somado a isso, o desastre que ocorreu em Brumadinho evidencia como tamb&eacute;m n&atilde;o foram tomadas medidas de controle sobre a situa&ccedil;&atilde;o das barragens de minera&ccedil;&atilde;o e que, portanto, novos rompimentos podem acontecer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Na avalia&ccedil;&atilde;o das pessoas atingidas, comunidades e movimentos sociais, os acordos realizados entre governos e empresas que definiram formas de repara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o adequados e v&ecirc;m, na verdade, provocando mais danos. As formas de negocia&ccedil;&atilde;o dos instrumentos de repara&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m sendo criticadas pelas decis&otilde;es substantivas produzidas e, nesse contexto, uma compreens&atilde;o geral foi pouco a pouco se consolidando no sentido de que a aus&ecirc;ncia do sujeito interessado nas negocia&ccedil;&otilde;es, aquele que sofreu o dano, estaria produzindo tais medidas equivocadas de repara&ccedil;&atilde;o. Assim, no processo de mobiliza&ccedil;&atilde;o dos atingidos foi sendo produzida uma ideia e discurso de que a participa&ccedil;&atilde;o do sujeito que sofreu os danos seria o requisito fundamental democr&aacute;tico para o processo de constru&ccedil;&atilde;o de respostas aos problemas decorrentes dos rompimentos. Al&eacute;m disso, o enquadramento da "participa&ccedil;&atilde;o" produziu uma ideia de que as decis&otilde;es tomadas num modelo onde h&aacute; ampla participa&ccedil;&atilde;o dos atores seriam tamb&eacute;m garantia de solu&ccedil;&otilde;es mais justas. A consolida&ccedil;&atilde;o do enquadramento da "participa&ccedil;&atilde;o" nos processos de repara&ccedil;&atilde;o do desastre culmina com a ado&ccedil;&atilde;o pelos atores do sistema de justi&ccedil;a (Minist&eacute;rio P&uacute;blico e Defensoria P&uacute;blica) da ideia de participa&ccedil;&atilde;o como um princ&iacute;pio a ser respeitado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sendo assim, em um contexto onde a ideia de participa&ccedil;&atilde;o passa a ser articulada por diversos atores, figurando como elemento central das expectativas de repara&ccedil;&atilde;o, se faz necess&aacute;rio evidenciar como a participa&ccedil;&atilde;o est&aacute; sendo acionada pelos diferentes atores e, sobretudo, as expectativas que os atores t&ecirc;m com a participa&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, &eacute; necess&aacute;rio problematizar tais expectativas com aquilo que conhecemos sobre a realidade de conflitos ambientais que envolvem poderes assim&eacute;tricos de empresas transnacionais e governos, em contraposi&ccedil;&atilde;o a comunidades locais e movimentos sociais enfraquecidos ainda mais nos contextos pol&iacute;ticos recentes.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Minha preocupa&ccedil;&atilde;o desde o in&iacute;cio desse processo foi alertar que &eacute; preciso ter muita cautela quando se lida com o conceito de participa&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o debatido e tensionado na teoria pol&iacute;tica, justamente por ser controverso. O risco ao mobilizar tal conceito sem cuidados &eacute; que ele vem carregado de valores positivos que ecoam na opini&atilde;o p&uacute;blica como sin&ocirc;nimo de democracia e justeza. Ou seja, quando se diz que um processo de decis&atilde;o foi participativo, as pessoas em geral o associam a um valor positivo e o entendem como justo e inclusivo. Assim, um instrumento que se diz participativo pode legitimar as decis&otilde;es atrav&eacute;s dele produzidas e tamb&eacute;m os atores envolvidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas se no senso comum a participa&ccedil;&atilde;o &eacute; vista como algo bom, isso n&atilde;o significa que se saiba exatamente o seu significado e todas as suas implica&ccedil;&otilde;es. H&aacute; muita controv&eacute;rsia na forma&ccedil;&atilde;o do conceito de participa&ccedil;&atilde;o na ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. O conhecimento dessas controv&eacute;rsias, fruto de d&eacute;cadas de pesquisas cient&iacute;ficas, poderia ajudar a entender o que est&aacute; em jogo quando se pensa em participa&ccedil;&atilde;o como algo que resolver&aacute; os problemas da repara&ccedil;&atilde;o de desastres como os ocorridos com os rompimentos das barragens de Fund&atilde;o e de C&oacute;rrego do Feij&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>O CONCEITO DE PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira coisa que deve ser entendida na busca por uma defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; participa&ccedil;&atilde;o &eacute; que as teorias que o formulam s&atilde;o de natureza normativa. Isso significa que elas possuem um car&aacute;ter prescritivo, ou seja, definem o conceito n&atilde;o apenas buscando as caracter&iacute;sticas elementares, descritivas e emp&iacute;ricas do fen&ocirc;meno da participa&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m buscam estabelecer par&acirc;metros do que seria uma participa&ccedil;&atilde;o ideal que possa gerar democracia e justi&ccedil;a. Ou seja, &eacute; um conceito atrelado a ideais positivos de bem-comum, e a participa&ccedil;&atilde;o seria a forma atrav&eacute;s da qual o conquistar&iacute;amos. Seria ent&atilde;o a participa&ccedil;&atilde;o mais ligada a um meio, m&eacute;todo ou procedimento de alcan&ccedil;ar esses ideais?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A&iacute; come&ccedil;am alguns debates, tendo em vista que h&aacute; duas dimens&otilde;es de an&aacute;lise nessa quest&atilde;o, uma relacionada ao que &eacute; substantivamente esse bem-comum, ou o justo, e outra referente aos caminhos para que essas ideias substantivas se concretizem nas pr&aacute;ticas sociais. Resumindo muito os debates de teoria pol&iacute;tica contempor&acirc;nea, os principais pontos de acordo sugerem que: i) dada a pluralidade de formas de existir, o sentido substantivo de bem-comum s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel se constru&iacute;do e acordado permanentemente pelo p&uacute;blico que o comp&otilde;em; ii) j&aacute; que o sentido &eacute; permanentemente constru&iacute;do pelo p&uacute;blico, as formas de organiza&ccedil;&atilde;o do pensamento produzem consequ&ecirc;ncias sobre os ideais condensados em valores e ideias substantivas de bem-comum perseguidas pelo p&uacute;blico. Assim, chegamos nas duas caracter&iacute;sticas centrais da participa&ccedil;&atilde;o bem desenvolvidas por Carole Pateman no trabalho que &eacute; refer&ecirc;ncia sobre o assunto &#91;1&#93;, qual sejam, a participa&ccedil;&atilde;o tem car&aacute;ter educativo e construcionista (ou seja, ela forma o pr&oacute;prio bem comum), bem como apresenta um car&aacute;ter procedimental, ligado ao processo de tomada de decis&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse &uacute;ltimo aspecto, ligado &agrave; tomada de decis&atilde;o, foi o que se tornou mais difundido no senso comum. Muitas vezes ligado ao termo delibera&ccedil;&atilde;o, esse sentido da participa&ccedil;&atilde;o seria um processo de tomada de decis&otilde;es horizontal onde os envolvidos tomam parte ativamente do resultado final. Essa ideia simplificada traz muitos problemas quando operacionalizada em modelos pr&aacute;ticos diversos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O pr&oacute;prio termo delibera&ccedil;&atilde;o, que no cotidiano &eacute; usado como sin&ocirc;nimo de decis&atilde;o e at&eacute; mesmo para designar uma suposta dimens&atilde;o efetiva da participa&ccedil;&atilde;o, ganhou um amplo debate e um cap&iacute;tulo pr&oacute;prio dentro das teorias da democracia e da justi&ccedil;a. Iniciada contemporaneamente por Habermas &#91;2&#93;, e vinculada &agrave;s no&ccedil;&otilde;es de opini&atilde;o p&uacute;blica e esfera p&uacute;blica, a ideia de delibera&ccedil;&atilde;o foi progressivamente - muito em fun&ccedil;&atilde;o das cr&iacute;ticas - se afastando do compromisso com uma decis&atilde;o final e colocando sua &ecirc;nfase no processo comunicativo. Assim, seria essa pr&aacute;tica dial&oacute;gica, seja como for, que construiria o pr&oacute;prio p&uacute;blico e formaria suas prefer&ecirc;ncias e valores &#91;3, 4&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Feita essa apresenta&ccedil;&atilde;o inicial acerca do conceito de participa&ccedil;&atilde;o, posso agora lhes apresentar algumas das implica&ccedil;&otilde;es mais fundamentais do uso do conceito de participa&ccedil;&atilde;o no nosso cotidiano de processos pol&iacute;ticos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como explicitado, a participa&ccedil;&atilde;o tem uma liga&ccedil;&atilde;o com a no&ccedil;&atilde;o de p&uacute;blico. Isto porque, quando falamos em participa&ccedil;&atilde;o e bem comum, estamos lidando com sujeitos que compartilham quest&otilde;es, interesses ou que simplesmente est&atilde;o implicados de diversas formas por objetos comuns. Isso &eacute; o que constitui de forma simplificada um p&uacute;blico. &Eacute; "quem participa" da quest&atilde;o. Ou seja, quando buscamos um processo participativo, teremos sempre que definir quem est&aacute; inclu&iacute;do, quem deve participar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">John Dewey, em sua c&eacute;lebre obra <i>O p&uacute;blico e seus problemas</i> &#91;5&#93;, argumentou que uma associa&ccedil;&atilde;o coletiva acontece quando as pessoas identificam problemas comuns e agem para atuar sobre ele. Nesse sentido podemos entender que os p&uacute;blicos s&atilde;o criados em grande parte na problematiza&ccedil;&atilde;o dos assuntos comuns. Assim, uma das formas mais certas de identificar quem deve participar &eacute; observar quais s&atilde;o as pessoas que est&atilde;o empenhadas em construir e discutir um determinado problema.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; aqui, tudo bem: sabemos que, quando um grupo de pessoas denuncia certas quest&otilde;es de interesse comum endere&ccedil;ando o debate ao exterior, isso cria um p&uacute;blico. Contudo, uma quest&atilde;o apontada pelos te&oacute;ricos chamados de deliberacionistas, interessados em debater esse assunto, &eacute; que em sociedades atravessadas por grandes desigualdades estruturais tais como a pobreza, o racismo, o sexismo etc., os grupos que est&atilde;o subalternalizados tendem a ser exclu&iacute;dos da constru&ccedil;&atilde;o dos problemas p&uacute;blicos em geral. Al&eacute;m disso, como v&aacute;rios te&oacute;ricos dos chamados estudos p&oacute;s-coloniais observaram, alguns sujeitos t&ecirc;m mesmo dificuldade de se perceberem como parte de um problema p&uacute;blico, ou parte da sociedade, tendo em vista suas condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias de vida, de sa&uacute;de, de trabalho e de educa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o seria razo&aacute;vel esperar que essas pessoas tivessem uma macro compreens&atilde;o dos problemas sociais a ponto de conseguirem observar sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de precariza&ccedil;&atilde;o - ainda que isso possa ocorrer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir dessas observa&ccedil;&otilde;es cr&iacute;ticas da autoconsci&ecirc;ncia como base de funda&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, podemos compreender que o "quem participa" n&atilde;o &eacute; t&atilde;o simples ou &oacute;bvio, j&aacute; que em fun&ccedil;&atilde;o do racismo, pobreza, machismo, homofobia etc., muitas pessoas podem ser exclu&iacute;das do p&uacute;blico que participa. Uma forma de tentar resolver esse problema seria garantir leis e institui&ccedil;&otilde;es capazes de zelar pelos direitos dessas pessoas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Assim, "quem participa" &eacute; em geral a quest&atilde;o mais importante e desafiadora em um processo participativo e, sem d&uacute;vida, &eacute; o principal problema encontrado na constru&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o dos atingidos pelas barragens de Fund&atilde;o e C&oacute;rrego do Feij&atilde;o em suas a&ccedil;&otilde;es de repara&ccedil;&atilde;o. Acontece que, para definir quem participa, nesse caso &eacute; fundamental a defini&ccedil;&atilde;o de quem foi/&eacute; atingido.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>AS ATINGIDAS E OS ATINGIDOS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Marcar a distin&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nero no subt&iacute;tulo acima anuncia apenas uma das dimens&otilde;es de especificidade que existem na defini&ccedil;&atilde;o de quem &eacute; atingido. Como acontece nos conflitos ambientais, s&atilde;o atingidos todas as comunidades e seres que existem na rota de um empreendimento. No caso de um desastre h&aacute; ainda o fato contingencial, catastr&oacute;fico, e a intensidade do acontecimento, que &eacute; grave. Assim, embora possamos conhecer por observa&ccedil;&atilde;o das territorialidades preexistentes quem &eacute; atingido, apenas o escrut&iacute;nio rigoroso do caso pode identificar quem e o que foram atingidos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, conforme j&aacute; foi apresentado acerca da problematiza&ccedil;&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o na teoria pol&iacute;tica contempor&acirc;nea, h&aacute; quem mesmo sendo atingido n&atilde;o se reconhe&ccedil;a assim, em fun&ccedil;&atilde;o de constrangimentos culturais, sociais e econ&ocirc;micos, bem como pela exist&ecirc;ncia de vari&aacute;veis sobre as quais n&atilde;o temos controle e acesso. Por exemplo, no caso de uma pequena vila de ribeirinhos que usam, sem saber, &aacute;gua contaminada por decorr&ecirc;ncia dos rejeitos de minera&ccedil;&atilde;o. Eles s&atilde;o atingidos pelas consequ&ecirc;ncias do desastre mesmo que n&atilde;o saibam disso. Ou seja, s&atilde;o necess&aacute;rios mecanismos complementares &agrave; autoidentifica&ccedil;&atilde;o para que possamos garantir repara&ccedil;&atilde;o a todos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mesmo entre aqueles que se veem como atingidos pelo desastre, muitos s&atilde;o os obst&aacute;culos para acessar o reconhecimento como partes leg&iacute;timas desse problema. Os obst&aacute;culos decorrem das desigualdades estruturais da sociedade na qual est&atilde;o inseridos (econ&ocirc;micos, culturais, de g&ecirc;nero etc.) e das especificidades de processos participativos em conflitos ambientais. Assim, como argumentou Zhouri, muitas s&atilde;o as "viol&ecirc;ncias das afeta&ccedil;&otilde;es", produzidas por m&uacute;ltiplas cargas colocadas sobre as pessoas atingidas. Uma delas que merece destaque &eacute; a necessidade de entrar em um processo comunicativo em que a linguagem exigida &eacute; t&eacute;cnica ambiental e jur&iacute;dica &#91;6&#93;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em nossos anos de pesquisa de campo sobre o desastre na bacia do rio Doce e na costa do Esp&iacute;rito Santo ouvimos com frequ&ecirc;ncia a reivindica&ccedil;&atilde;o sobre repara&ccedil;&atilde;o de "danos morais" - o que na verdade expressa a forma com que as pessoas adaptam seus males e sofrimentos &agrave; linguagem jur&iacute;dica, que &eacute; muito limitada. Uma gama enorme de queixas que v&atilde;o do lazer no rio interrompido &agrave; perda de referenciais culturais de mem&oacute;ria, como as esp&eacute;cies de peixes conhecidas e que acabaram, s&oacute; encontram forma comunicativa de serem ouvidas quando tratadas como danos morais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa forma, se queremos a constitui&ccedil;&atilde;o de um p&uacute;blico inclusivo para um processo participativo de repara&ccedil;&atilde;o dos desastres &eacute; preciso admitir que as desigualdades e diferen&ccedil;as sociais ir&atilde;o aparecer nesse p&uacute;blico e que, portanto, &eacute; preciso encontrar formas de garantir a express&atilde;o do dissenso e as variadas formas de comunica&ccedil;&atilde;o e linguagem.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Indo al&eacute;m, &eacute; necess&aacute;rio compreender que a forma&ccedil;&atilde;o de um p&uacute;blico nesse caso depende da constru&ccedil;&atilde;o de uma no&ccedil;&atilde;o compartilhada do problema, o que n&atilde;o &eacute; &oacute;bvio uma vez que, com diferentes posi&ccedil;&otilde;es sociais, as pessoas s&atilde;o atingidas de formas diferentes e percebem esses efeitos heterogeneamente. A forma&ccedil;&atilde;o de um p&uacute;blico para o desastre ou, como diria Dewey, a forma&ccedil;&atilde;o do desastre como um problema p&uacute;blico &eacute; uma das quest&otilde;es que precisam ser enfrentadas. Isso precisa ser constru&iacute;do.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A CONSTRU&Ccedil;&Atilde;O DE COMUNIDADES IMAGINADAS</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> A no&ccedil;&atilde;o de comunidade como um coletivo que compartilha valores, contextos, hist&oacute;ria etc. &eacute; importante. Como Benedict Anderson &#91;7&#93; argumentou, as sociedades organizadas politicamente s&oacute; fazem sentido enquanto na&ccedil;&otilde;es, ou delimita&ccedil;&otilde;es coerentes e soberanas, porque se constroem enquanto comunidades imaginadas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um p&uacute;blico que imagina &eacute; um coletivo que prop&otilde;e din&acirc;micas para seus problemas, que constr&oacute;i um lugar muito al&eacute;m do f&iacute;sico e poss&iacute;vel. Imaginar uma comunidade &eacute; criar uma territorialidade que envolve espacialidade e temporalidade, mem&oacute;rias e proje&ccedil;&otilde;es de futuro. A reconstru&ccedil;&atilde;o e retomada dos rumos dos lugares afetados pelos desastres de barragens de minera&ccedil;&atilde;o passa pela recupera&ccedil;&atilde;o do poder de condu&ccedil;&atilde;o do processo, do poder de imagina&ccedil;&atilde;o capaz de reagregar comunidades, e mesmo fundar novas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sendo assim, a constru&ccedil;&atilde;o de um processo participativo de repara&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se trata simplesmente da implementa&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos e modelos prontos, muito menos do tratamento personalista e individualista que vem sendo aplicado no modelo de repara&ccedil;&atilde;o atual. &Eacute; a dimens&atilde;o coletiva que precisa ser constru&iacute;da ou n&atilde;o haver&aacute; nada mais do que um simulacro de participa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. Pateman, C. <i>Participation and democratic theory</i>. Cambridge University Press, 1970.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. Habermas, J. <i>Direito e democracia: entre facticidade e validade</i>. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Bohman, J. <i>O que &eacute; a delibera&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica? Uma abordagem dial&oacute;gica. A delibera&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e suas dimens&otilde;es sociais pol&iacute;ticas e comunicativas: textos fundamentais</i>. Belo Horizonte: Aut&ecirc;ntica, p. 31-84, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Dryzek, J. S. <i>Discursive democracy: Politics, policy, and political science</i>. Cambridge University Press, 1994.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Dewey, J.; Rogers, M. L. <i>The public and its problems: An essay in political inquiry</i>. Penn State Press, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Zhouri, A. "Viol&ecirc;ncia, mem&oacute;ria e novas gram&aacute;ticas da resist&ecirc;ncia: o desastre da Samarco no Rio Doce". <i>Revista P&oacute;s-Ci&ecirc;ncias Sociais</i>, v. 16, p. 51-68, 2019.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Anderson, B. <i>Comunidades imaginadas: reflex&otilde;es sobre a origem e a difus&atilde;o do nacionalismo</i>. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, v. 8, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Pesquisa financiada pelo edital 1/2016 Universal, processo 426974/2016-6.    </font></p>      ]]></body><back>
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